
“[…] É a constância (ainda que com altos e muitos baixos) e o acúmulo de estudo que te levam à aprovação.”
Leia a entrevista do Estratégia Concursos com NATÁLIA CURSINO FARIAS DE ARRUDA, aprovada em 19º lugar no Concurso MPF para o cargo de Procurador da República:
Estratégia Concursos: Conte-nos um pouco sobre você, para que nossos leitores possam conhecê-la. Há quanto tempo se formou em Direito? Qual sua idade e cidade natal?
Natália Cursino Farias de Arruda: Meu nome é Natália Cursino Farias de Arruda, sou graduada pela Faculdade de Direito do Recife – UFPE em agosto de 2014. Tenho 35 anos e sou natural de Recife.
Estratégia: O que te levou a tomar a decisão de começar a estudar para concursos? Escolheu seu curso superior já pensando em fazer concurso ou chegou a advogar?
Natália: Desde muito nova, eu já sabia que queria cursar Direito. O fato de meus pais serem concursados, ainda que apenas meu pai seja da área jurídica, influenciou bastante nisso, pois ambos sempre me incentivaram a fazer concurso e cresci com vários exemplos próximos de amigos deles que eram membros de carreiras jurídicas. Contribuiu bastante para minha jornada o fato de eu sempre ter gostado de estudar, sempre fui uma aluna muito dedicada em todas as fases da minha vida. Como já tinha certeza que não queria advogar, prezei durante a faculdade obter experiência em estágios de carreiras jurídicas diversas, para conhecer um pouco melhor o trabalho no dia a dia. Estagiei um período menor na PFN e no MP PE, e no TRF-5 fiquei quase 1 ano e meio, onde tive certeza de que queria a magistratura federal.
Estratégia: Sempre fez concursos para carreira jurídica?
Natália: Sim, com foco na magistratura federal, mas sempre privilegiando concursos federais no geral, que era minha área de predileção.
Estratégia: Você trabalhava e estudava? Se sim, como conciliava?
Natália: Fui nomeada para o cargo de Técnica Judiciária do TJ-PE no final do oitavo período, de modo que eu sempre trabalhei e estudei desde então. Trabalhava no turno da tarde e conciliava estudando nos períodos da manhã e da noite, foi assim por muitos anos como regra.
Estratégia: Em quais concursos já foi aprovado? Em qual cargo e em que colocação? Pretende continuar estudando?
Natália: Fui aprovada nos seguintes concursos:
- AJAJ no TJDFT, em que tomei posse final de 2025;
- MPF, para o cargo de Procuradora da República, na 19ª posição.
Estou, ainda, na fase oral do TRF-1, com o qual pretendo fechar esse ciclo de estudos para concurso.
Estratégia: Você estudou por quanto tempo direcionado ao último concurso? O que fez para manter a disciplina?
Natália: Eu comecei focada na magistratura federal, foi, de fato, o meu foco na grande maior parte do tempo. Porém, peguei um período muito complicado para os concursos federais, pois não houve em 2019, só retomando em 2022. Em 2019, eu dei uma pausa nos estudos para concurso, na época não prestava concurso estadual, além de estar muito desgastada dos intensos primeiros anos de concurso. Essa pausa se estendeu pela pandemia, diante da ausência de concurso no geral. Recalculei a rota e voltou meados de 2021, passando a prestar concursos para a magistratura estadual também. Foi uma adaptação difícil, pois comecei meus estudos muito focada na magistratura federal, de forma que eu sentia que precisava de um tempo a mais me dedicando a TJ para ficar competitiva. A questão é que os concursos federais retomaram em 2022 e, mesmo estudando igual ou menos para eles, eu tinha resultados muito melhores pela bagagem já acumulada. Então, nunca consegui me dedicar efetivamente à magistratura estadual, porque sempre que tinha um concurso federal, especialmente TRF, ele era minha prioridade.
Eu considero que só consegui manter a disciplina de forma constante nessa primeira fase de estudo pré-pandemia. Depois disso, cada ano foi de um jeito, eu não conseguia mais me manter estudando sem prova marcada, como antes. Acho que o desgaste do passar dos anos se acumulou, de forma que minha paciência para abnegação já não era mais igual. A maior dificuldade foi lidar comigo mesma, a ponto de não me reconhecer em vários momentos, porque eu sempre fui muito disciplinada. Até que aceitei que aquele era meu novo normal. O fato de estar trabalhando em regime de teletrabalho contribuiu para isso, porque quanto mais tempo e flexibilidade eu tinha, menos organizada era. Diante disso, segui do jeito que dava, às vezes melhor, às vezes pior, mas sempre em frente. Quanto mais concursos eu tinha, mais me mantinha engajada nos estudos, foi o que me ajudou a fazer de 2025 um ano decisivo, pois eu tinha prova todo mês praticamente.
Estratégia: Quais materiais e ferramentas você usou em sua preparação?
Natália: Comecei a preparação com um cursinho extensivo de aulas das principais matérias. Embora tenha feito uma excelente faculdade, o estudo para concurso é diferente, além de alguns assuntos não serem vistos na faculdade. Então, esse cursinho me ajudou a montar e consolidar uma boa base para partir para os livros com mais segurança e velocidade nos estudos. A vantagem dessa estratégia é a profundidade e solidez do conhecimento adquirido, o que considero que me ajudou demais a passar para minhas primeiras 2ªs fases já competitiva, bem como na retomada dos estudos pós-pandemia, após 2 anos e meio longe dos concursos. A desvantagem é que se trata de um aprendizado mais lento e gradual, então penso que ambos combinados (curso extensivo de aulas e livros) não sejam o ideal para quem começou o estudo depois, já com o tempo de prática jurídica, por exemplo, ou para quem trabalha e quer otimizar o tempo. Utilizei PDFs de forma muito pontual, exceto quanto à jurisprudência, cujo estudo era por meio dos PDFs de informativos comentados.
Estratégia: Como conheceu o Estratégia Concursos?
Natália: Conheci por indicação de colegas e pela internet também. Li alguns posts no blog que sistematizam muito bem a explicação de julgados e já utilizei alguns PDFs de assuntos mais extensos, em que buscava algo mais objetivo e resumido com foco em primeira fase.
Estratégia: Como montou seu plano de estudos?
Natália: Na 1ª fase dos meus estudos, eu fazia cronogramas organizados, com 2 matérias por dia, as mais desafiadoras pela manhã e as que eu tinha mais familiaridade à noite. Os finais de semana eram para jurisprudência majoritariamente, leitura de rodadas de sentenças, bem como complementar conteúdo da semana que houvesse faltado ou extra. Em média, estudei 6 horas líquidas por dia. Teve períodos em que estudei 8 horas. Quanto mais perto da prova, mais intensificava, até porque nessa fase tinha no máximo 2 concursos de TRF por ano. Depois quando passei a fazer mais provas, meu ritmo dependia da importância e proximidade da prova, porque não era sustentável me manter acelerando para toda prova. Passei a estudar 1 matéria por dia, sentia que rendia melhor, porque eu já não focava muito em horas líquidas, pensava mais nas metas e no tempo disponível para cada matéria. Controlar o tempo de forma muito rigorosa me deixava angustiada, dessa forma preferi mudar a estratégia, estudar em ordem de prioridade dos assuntos e das matérias, dividindo o tempo que faltava até a prova pelas matérias. Isso eu sempre fiz para segundas fases, mas virou uma regra geral. Para primeiras fases, o foco era lei seca, jurisprudência e questão, priorizando as matérias mais relevantes numericamente e aquelas em que o rendimento estava pior ou fazia mais tempo que não revisava.
Estratégia: Como fazia suas revisões?
Natália: Nunca fiz revisões de forma muito sistemática, era sob demanda a depender da prova. Tem alguns assuntos que, pela sua alta importância, eram revisados em toda prova, outros dependiam da banca do concurso, no caso de 2ª fase. Para primeira fase, o foco era os assuntos de maior incidência ou os que eu estava com o desempenho pior. Eu sempre analisava o desempenho por matéria em cada prova, para traçar a estratégia para a prova seguinte. Porém, isso não é tão assertivo, porque as bancas variam a dificuldade das matérias, de modo que determinada matéria poderia vir mais difícil em uma prova e mais fácil em outra. Era só um indicador para mim. Revisava mais por grifos de livros e na legislação também. Jurisprudência por materiais resumidos e compilados e depois adotei como regra o estudo da jurisprudência por site com filtros para busca de julgados, mais com foco em 2ª fase. Fiz poucos resumos, apenas de temas muito pontuais, de maior importância ou dificuldade para 2ª fase.
Estratégia: Qual a importância da resolução de exercícios? Lembra quantas questões fez na sua trajetória?
Natália: Eu nunca fui de fazer muitas questões, fazia um número bem modesto e só próximo da prova objetiva, mas as correções das provas que eu prestava eram caprichadas. Quando passei a prestar mais concursos, isso se tornou praticamente uma forma de estudo para primeira fase, o que sinto que compensava o fato de fazer poucas questões. Quanto à 2ª fase, na volta dos estudos pós-pandemia, passei a contratar cursos de reta final, o que considero que fez total diferença no meu rendimento em 2ª fase. Antes da pandemia, eu havia feito 2 provas de segunda fase de TRF, sem curso de reta final mais intensivo. Embora lesse muitas rodadas de discursiva e sentença, eu fiz efetivamente poucos simulados, às vezes treinava só fazendo rascunho. Foi a mudança dessa estratégia que me levou a outro patamar na 2ª fase.
Estratégia: Como foi sua rotina de estudos na semana que antecedeu a prova e no dia pré-prova?
Natália: Fiz o TRF-5, o TRF-1 e o MPF em uma sequência, tanto as provas objetivas quanto as subjetivas. Acelerei os estudos ao máximo para chegar no TRF-5 no melhor nível possível. Para o TRF-1, ainda mantive o ritmo acelerado, mas já me permitindo um pouco mais de descanso. Para o MPF, foi tudo diferente, já vinha de um ritmo muito alto, quando fiz a primeira fase, já estava estudando para a segunda fase do TRF-5, por exemplo. Para a 2ª fase, eu foquei após passada a 2ª fase do TRF-1, pois havia um tempo razoável para isso, um pouco menos de 2 meses. Porém, o ritmo foi desacelerando, foi a 2ª fase em que menos estudei na semana da prova, priorizei descanso e revisões pontuais, foquei no que considerei essencial e nas coisas mais específicas com que não estava tão habituada, até porque o resto eu já tinha estudado bastante em um passado muito recente.
Estratégia: Concursos para carreira jurídica são compostos por várias fases. Como foi sua preparação para a prova discursiva? E para a prova oral?
Natália: No pós-pandemia, minha preparação para provas discursivas consistia em cursos de simulados de reta final, em que eu executava todos os exercícios, muito estudo de jurisprudência e doutrina de acordo com a banca. Para a prova oral do MPF, foi muito treino com colegas e professores e revisões sistemáticas, de forma mais objetiva em conhecimentos mais basilares.
Estratégia: Quais foram seus principais ERROS e ACERTOS nesta trajetória?
Natália: Acredito que um dos meus maiores pontos positivos foi a capacidade de me autoavaliar, para diagnosticar o que precisava melhorar. Esse feeling é muito importante para corrigir o quanto antes problemas. Procurar sempre entender com alguma profundidade os assuntos e nunca só decorar me ajudou a absorver melhor o conteúdo. Passar a fazer retas finais de simulados para a 2ª fase foi minha virada de chave, me levou a outro patamar de rendimento nas provas, mesmo considerando que já estava competitiva nas primeiras provas de segunda fase que fiz. A diferença foi adquirir mais técnica de prova, capacidade de improvisar, melhor gestão do tempo, ou seja, simular provas discursivas te dá mais jogo de cintura e repertório para a prova. Os principais erros foram não me dedicar tanto à lei seca, teria feito muito mais provas de segunda fase, se esse estudo tivesse sido melhor; não revisar jurisprudência com profundidade desde o início da minha jornada para segunda fase nem fazer simulados de segunda fase em reta final.
Estratégia: Por fim, o que você aconselharia a alguém que está iniciando seus estudos para concurso?
Natália: Acredito que a melhor estratégia, ainda que a pessoa saiba qual carreira quer prioritariamente, é fazer um estudo mais abrangente, que a deixe competitiva em vários concursos, pois terá mais chances de lograr êxito mais rápido, e não ficar dependendo de oportunidades que podem não vir ou demorar a vir. Tentar levar as coisas com menos peso possível, porque já é muita pressão a que se submete quem faz concurso. Não criar expectativas em cima de uma prova específica, porque pode acontecer de quase tudo em um concurso, já vi pessoas que achavam que iam reprovar passando, pessoas que tinham certeza da aprovação reprovando, então não tem como ter certeza de nada, isso só gera uma maior frustração, quando algo diferente do esperado acontece. Ser feliz no caminho e não se privar mais do que o necessário, com o tempo você percebe que não foi um dia sem estudo que mudou o desfecho final de um concurso. É a constância (ainda que com altos e muitos baixos) e o acúmulo de estudo que te levam à aprovação.