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Os concursos estão mudando, você percebeu?

Os concursos estão mudando, mas muita gente ainda não se atentou para isso. Desse modo, a percepção de que os concursos públicos vem se tornando progressivamente mais difíceis nos últimos anos não se restringe ao discurso informal entre candidatos.

Uma análise comparativa de editais e estruturas de prova revela transformações que, do ponto de vista pedagógico e cognitivo, ampliam significativamente o grau de exigência imposto aos candidatos.

O caso do concurso para Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil (RFB) é particularmente ilustrativo. A comparação entre diferentes edições do certame permite observar mudanças estruturais que dialogam com fenômenos amplamente discutidos na literatura sobre aprendizagem, avaliação educacional e desenvolvimento cognitivo. Dito isso, siga o fio!

Expansão do conteúdo programático e aumento da carga cognitiva

Um dos aspectos mais evidentes na evolução dos concursos públicos é a ampliação do conteúdo programático. No concurso da Receita Federal realizado em 2014, a prova objetiva contemplava 13 disciplinas. Já no edital de 2022, esse número foi ampliado para 19 disciplinas. Logo isso representa um aumento de aproximadamente 46% no número de áreas cobradas.

Do ponto de vista da teoria da carga cognitiva, proposta por John Sweller (1988), esse tipo de expansão possui implicações diretas na dificuldade do processo de aprendizagem. Segundo a teoria, a memória de trabalho humana possui capacidade limitada para processar novas informações.

Quanto maior o volume de conteúdos distintos a serem assimilados, maior a probabilidade de sobrecarga cognitiva. Logo, isso exige estratégias mais sofisticadas de organização do estudo.

Dessa forma, o aumento do número de disciplinas não apenas amplia o volume de informação. Passa a exigir também maior capacidade de integração conceitual e gestão estratégica do aprendizado por parte do candidato.

Transformações no modelo de avaliação discursiva

Outro elemento relevante que demonstra que os concursos estão mudando diz respeito à estrutura das provas discursivas. Saiba que, no edital de 2014, as duas questões discursivas possuíam temas claramente delimitados: Direito Tributário e Comércio Internacional / Legislação Aduaneira.

Já no concurso de 2022, organizado pela FGV, as questões discursivas passaram a ser cobradas dentro do bloco de conhecimentos específicos de forma mais ampla, sem delimitação prévia de qual disciplina seria abordada.

Por consequência, essa mudança altera profundamente o tipo de habilidade exigida. Em vez de mera memorização ou domínio pontual de conteúdos, o candidato precisa mobilizar competências analíticas, argumentativas e interdisciplinares.

Em suma, ao exigir respostas discursivas com menor previsibilidade temática, os concursos passam a privilegiar níveis cognitivos superiores, o que contribui para elevar sua dificuldade.

As provas estão mais difíceis e a concorrência aumentou

As provas estão ficando mais difíceis e não é por acaso. No concurso mais recente para Auditor-Fiscal da Receita Federal foram registradas 53.517 inscrições para 230 vagas, resultando em uma relação aproximada de 232 candidatos por vaga.

Esse cenário caracteriza o que a literatura em economia da educação denomina processo de seleção altamente competitivo, no qual pequenas diferenças de desempenho podem determinar a aprovação ou reprovação.

De acordo com estudos sobre prática deliberada e expertise (Ericsson, 2006), ambientes altamente competitivos tendem a elevar o nível médio de preparação dos participantes. Isso ocorre porque candidatos passam a investir cada vez mais tempo em treinamento intensivo, resolução de questões e estratégias avançadas de aprendizagem.

Assim, com o passar do tempo esse fenômeno gera um ciclo de elevação do padrão médio de desempenho, tornando os concursos progressivamente mais exigentes.

Tempo de preparação e aprofundamento do estudo

Os concursos estão mudando e até mesmo detalhes como as datas de publicação do edital e das provas diz um pouco sobre isso. Dessa maneira, a comparação entre concursos também revela mudanças no intervalo entre a publicação do edital e a realização das provas.

Enquanto o certame de 2014 da Receita Federal ofereceu aproximadamente 64 dias de preparação, o edital de 2022 proporcionou cerca de 107 dias. Logo, tivemos um aumento de 43 dias de preparação entre a prova e o edital.

Embora prazos maiores possam parecer vantajosos à primeira vista, eles também permitem que candidatos já experientes aprofundem ainda mais sua preparação. Assim, o aumento do tempo disponível pode contribuir para elevar o nível médio da concorrência.

Esse fenômeno está relacionado ao conceito de efeito cumulativo da prática, descrito na literatura sobre expertise, segundo o qual longos períodos de prática estruturada produzem ganhos substanciais de desempenho (Ericsson, 2006).

Conclusão

O nível dos concursos subiu e é natural que isso tenha ocorrido. A análise da evolução dos concursos públicos revela que o aumento da dificuldade não é apenas uma percepção subjetiva dos candidatos, mas um fenômeno associado a transformações estruturais nos processos seletivos.

Entre os fatores que explicam essa tendência destacam-se:

  • expansão do conteúdo programático;
  • mudanças na estrutura das avaliações discursivas;
  • aumento da competitividade entre candidatos;
  • profissionalização da preparação para concursos.

À luz das ciências da aprendizagem, esses elementos indicam que a preparação contemporânea para concursos exige não apenas dedicação, mas também estratégias cognitivas sofisticadas de estudo, organização do conhecimento e prática deliberada.

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Nesse contexto, compreender os princípios científicos da aprendizagem torna-se um diferencial relevante para candidatos que desejam competir em certames cada vez mais exigentes.

Referências

  • Sweller, J. (1988). Cognitive load during problem solving: Effects on learning. Cognitive Science.
  • Ericsson, K. A. (2006). The Cambridge handbook of expertise and expert performance. Cambridge University Press.