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Ciclo de estudos: regra da alternância

Se tem uma coisa que eu percebo com frequência entre os alunos que acompanho na Platinum é a tentativa de deixar o estudo o mais “organizado” possível.

E, muitas vezes, essa organização significa juntar matérias parecidas no mesmo dia. “Hoje vou estudar só Direito.”

Aí o aluno estuda Constitucional, depois Administrativo, depois Penal e, se sobrar tempo, ainda mete um Processo Civil no ciclo. Parece lógico, certo? Você entra no “modo Direito” e aproveita o embalo.

O problema é que o que parece mais confortável durante o estudo não é o que mais favorece a aprendizagem.

Por isso que eu gosto de trabalhar com a ideia de alternar a natureza dos assuntos estudados ao longo do dia.

Não estou dizendo para você ficar trocando de matéria a cada 20 minutos, muito menos para estudar de forma aleatória.

Estou falando de algo bem mais simples: evitar passar horas seguidas fazendo exatamente o mesmo tipo de esforço mental.

E existe ciência por trás disso.

Saia da zona de conforto

Pense em uma situação muito comum: você estuda Direito Constitucional durante duas horas. Depois de algum tempo, você já está completamente inserido naquele universo. Os conceitos estão frescos na sua cabeça, você reconhece os termos e consegue acompanhar o raciocínio com facilidade.

A sensação é ótima.

Você pensa: “Hoje estou rendendo muito.”

Só que existe uma pergunta mais importante: “Quanto disso eu vou lembrar daqui a duas semanas?”

Essa é a questão.

A ciência da aprendizagem mostra que existe uma diferença importante entre simplesmente reconhecer uma informação enquanto ela está diante de você e conseguir recuperá-la depois, sem nenhuma ajuda.

Algumas situações tornam o estudo um pouco mais difícil no momento, mas podem favorecer a aprendizagem no longo prazo. Trocar de matéria é uma delas.

Quando você sai de Constitucional e vai para Português, por exemplo, precisa mudar seu raciocínio.

Depois, quando voltar para Constitucional, não terá mais aquele conteúdo tão “fresco”. Ou seja, você vai precisar recuperar aquilo que aprendeu. E esse esforço é importante.

Falsa sensação de domínio

Imagine que você resolva fazer 30 questões de um mesmo assunto.

Você acabou de estudar aquele conteúdo e começa a resolver.

Questão 1: acerta. Questão 2: acerta. 3, 4, 5…certas. E assim por diante.

Você termina pensando: “Dominei esse assunto.”

Mas será que dominou mesmo? Talvez.

Mas também pode ser que o próprio contexto esteja ajudando você.

Você acabou de estudar aquele assunto. Está com as informações na cabeça. E, principalmente, você sabe qual é o assunto das questões.

Na prova, ninguém vai fazer isso por você.

A questão não vai dizer: “Agora aplique o conceito que você acabou de estudar.”

Você simplesmente vai receber a pergunta, e precisará identificar sozinho qual conhecimento deve ser utilizado para resolvê-la.

É por isso que a prática intercalada, conhecida na literatura como interleaving, pode ser tão interessante.

Pesquisas mostram que misturar diferentes tipos de problemas ou conteúdos pode favorecer a aprendizagem e, especialmente, a capacidade de reconhecer qual estratégia utilizar em cada situação.

Pense na prova

Esse ponto, para mim, é um dos mais importantes. Imagine uma prova de concurso:

Você responde uma questão de Português. Na sequência, aparece Constitucional. Depois, Raciocínio Lógico, Administrativo, Informática, Processo Civil…

Seu cérebro precisa mudar de contexto o tempo inteiro.

Então, por que preparar seu cérebro durante meses para fazer exatamente o contrário?

Se você passa quatro horas estudando apenas assuntos jurídicos, por exemplo, você fica muito tempo dentro do mesmo padrão de raciocínio.

É claro que isso não significa que estudar matérias semelhantes em sequência seja sempre errado. Em determinados momentos, pode fazer sentido.

Mas não deveria ser a regra do seu planejamento.

Você pode, por exemplo, estudar: Constitucional → Português → Raciocínio Lógico → Administrativo.

Perceba que não estou aumentando necessariamente sua carga horária. Estou apenas mudando a forma como você distribui o esforço.

O espaçamento é um benefício

Agora vem outro conceito importante da ciência da aprendizagem: o efeito de espaçamento.

Em vez de estudar uma matéria durante cinco horas em um único dia e depois abandoná-la por uma semana, você distribui os contatos com aquele conteúdo.

Por exemplo:

  • Segunda: Constitucional;
  • Quarta: Constitucional;
  • Sexta: questões de Constitucional;
  • Domingo: revisão.

Quando você volta para o assunto depois de algum tempo, ele não está tão fresco, e isso é bom, pois você precisa se esforçar para lembrar.

Uma revisão publicada na Nature Reviews Psychology em 2022 reuniu evidências sobre estratégias de aprendizagem e destacou justamente a importância da prática espaçada e da recuperação ativa para a retenção do conhecimento.

Ou seja: não é necessário manter tudo fresco na cabeça o tempo inteiro.

Na verdade, um pouco de esquecimento pode fazer parte do processo.

Mais eficiência

Esta é uma dúvida que eu ouço bastante: “Professor, toda vez que eu troco de matéria, parece que perco alguns minutos para entrar no assunto novamente.” Sim, isso pode acontecer.

Mas aqui precisamos separar duas coisas: eficiência durante uma sessão de estudo e eficiência da aprendizagem ao longo do tempo.

Se você olhar apenas para o rendimento imediato, estudar a mesma coisa durante horas pode parecer melhor. Você ganha velocidade.

Mas o concurso não vai avaliar sua velocidade enquanto você estudava, mas sim a sua capacidade de lembrar e aplicar aquilo dias ou meses depois.

É por isso que eu não quero que você avalie seu estudo apenas pela sensação de produtividade.

Às vezes, um estudo que parece um pouco mais difícil é justamente aquele que está produzindo uma aprendizagem mais duradoura.

Alternância com limite

Aqui eu quero fazer uma ressalva importante.

Não quero que você interprete isso como:

20 minutos de Constitucional → 20 minutos de Português → 20 minutos de Administrativo → 20 minutos de Informática.

Isso pode virar uma bagunça.

Você precisa de tempo suficiente para entrar no conteúdo, compreender, raciocinar e produzir.

A ideia é trabalhar com blocos de estudo razoáveis e alternar a natureza desses blocos.

Por exemplo:

  • 1º: Direito Constitucional
  • 2º: Língua Portuguesa
  • 3º: questões de Direito Administrativo

Ou:

  • 1º: teoria de Processo Civil
  • 2º: Raciocínio Lógico
  • 3º: questões de Português

O importante não é encontrar uma quantidade mágica de minutos, mas evitar que seu dia inteiro seja composto pelo mesmo tipo de atividade.

Em regra, seções de 60min são extremamente eficazes para cada meta do dia.

Alterne a natureza e a modalidade

Esse é outro ponto que considero muito importante.

Você não precisa alternar somente as disciplinas. Pode alternar a forma como você estuda.

Por exemplo: Teoria → questões → teoria → caderno de erros.

Isso é muito mais interessante do que passar cinco horas apenas assistindo aulas ou lendo PDFs.

Imagine:

  • 08h00: Constitucional — teoria
  • 09h00: Português — teoria
  • 10h00: Administrativo — questões

Você está fazendo três coisas diferentes.

Está aprendendo conteúdo, mudando o tipo de raciocínio e depois tentando recuperar e aplicar conhecimento.

Isso é muito mais próximo daquilo que eu quero que você faça na preparação.

Porque estudar para concurso não é simplesmente acumular informação. É aprender a recuperar e utilizar informação.

E as matérias mais importantes?

“Então devo estudar todas as matérias com a mesma frequência?” Não, de jeito nenhum.

Alternar disciplinas não significa dar o mesmo tempo para todas elas.

Se Português, Constitucional, Administrativo e Processo Civil são matérias importantes para o seu concurso, elas precisam aparecer mais vezes no seu ciclo.

Uma organização poderia ser:

Dia1º bloco2º bloco3º bloco
SegundaConst.PortuguêsInfo.
TerçaAdmin.RLMProc. Civil
QuartaPortuguêsConst.Penal
QuintaProc. CivilAdmin.Info.
SextaConst.PortuguêsProc. Penal

Perceba que existe alternância, mas as matérias mais importantes continuam aparecendo com frequência. O objetivo não é igualar as matérias. É distribuir melhor o seu esforço.

O ciclo ajuda

É exatamente por isso que eu gosto tanto do conceito de ciclo de estudos.

Quando você organiza seu estudo como uma grade fixa de segunda, terça, quarta, quinta e sexta, existe uma tendência de pensar: “Hoje é dia de Constitucional.”

No ciclo, o pensamento é diferente.

Você pensa: “Minha próxima sessão é Constitucional. Depois, Português. Depois, Administrativo.”

Se alguma coisa acontecer e você perder uma sessão, você não precisa jogar todo o planejamento fora.

Você simplesmente continua de onde parou.

E, principalmente, consegue controlar melhor a frequência com que cada disciplina aparece.

Você precisa saber como organizar o ciclo

Um bom planejamento faz diferença. Ter uma lista de matérias e simplesmente distribuí-las ao longo da semana não é, necessariamente, ter um bom ciclo de estudos.

Você precisa considerar a importância de cada disciplina, seu nível de conhecimento, seu desempenho nas questões e a frequência com que precisa voltar a cada conteúdo.

É esse tipo de organização que faz parte de uma preparação de alto nível.

Na Platinum do Estratégia Concursos, por exemplo, o aluno conta com uma estrutura pensada para transformar o estudo em um processo mais organizado e estratégico, com orientação para definir prioridades, acompanhar a execução e fazer os ajustes necessários ao longo da preparação.

Porque, no fim, não se trata apenas de estudar mais. Mas de saber onde colocar cada hora de estudo.

Esquecer faz parte

Essa talvez seja uma das coisas mais difíceis para o concurseiro aceitar.

Você estudou uma matéria na segunda. Na quinta, voltou para ela e percebeu: “Caramba, eu não lembro disso.” Calma.

Isso não significa necessariamente que você estudou errado. Pode significar que você está diante de uma oportunidade de recuperação.

Tente lembrar antes de olhar novamente. Faça uma questão, explique o conceito para você mesmo, tente reconstruir o raciocínio e só depois consulte o material.

Essa tentativa de recuperar a informação é muito diferente de simplesmente reler.

E a recuperação ativa é uma das estratégias de aprendizagem que apresentam forte respaldo na literatura científica.

Pense na prova

É isso que eu quero que você tenha em mente. A preparação não pode ser confortável. Aliás, um pouco de desconforto é muito bem-vindo.

Quando você alterna disciplinas diferentes, volta para um conteúdo depois de alguns dias ou tenta responder uma questão sem consultar o material, você está criando situações em que seu cérebro precisa trabalhar de verdade.

E é isso que interessa.

Não quero que você saia de uma sessão de estudos pensando apenas que “foi fácil”. Quero que você consiga olhar para sua preparação e pensar que está ficando cada vez melhor em recuperar aquilo que estudou.

Essa é uma diferença enorme.

O que fazer?

Vamos lá, de maneira bem prática:

1. Evite concentrar matérias excessivamente semelhantes no mesmo dia.

Se possível, alterne Direito, Português, Exatas, Informática e outras áreas.

2. Não fique horas seguidas fazendo a mesma atividade.

Misture teoria, questões e revisão.

3. Distribua os contatos com cada matéria ao longo da semana.

Não tente “matar” uma disciplina em um único dia.

4. Dê mais frequência às matérias mais importantes para o seu concurso.

Alternância não significa igualdade.

5. Use questões como ferramenta de recuperação.

Não espere terminar todo o conteúdo para começar a resolver questões.

6. Não tenha medo de esquecer.

Quando você precisa se esforçar para lembrar, está treinando uma habilidade fundamental para a prova.

Estude para a prova

Essa é a principal mensagem que eu quero deixar. É muito fácil confundir uma sessão confortável com uma sessão produtiva.

Você passa quatro horas estudando Direito, entende tudo, faz várias questões e termina o dia satisfeito. Mas o verdadeiro teste virá depois, quando:

  1. Aquele conteúdo não estiver mais fresco;
  2. Você estiver diante de uma questão que não diz qual assunto está sendo cobrado;
  3. Houver pressão, tempo correndo e dezenas de outras disciplinas disputando espaço na sua memória.

É para esse momento que você está estudando. Por isso, ao montar seu ciclo, não pense apenas quais matérias você precisa estudar. Pense também como você pode organizar essas matérias para obrigar seu cérebro a recuperar, diferenciar e aplicar o conhecimento.

Assim, alternar a natureza dos assuntos é uma das ferramentas que podem ajudar nisso.

Você não precisa transformar seu estudo em uma bagunça.

Precisa apenas entender que, muitas vezes, um pouco menos de conforto durante o estudo pode significar muito mais retenção na hora da prova.