Aprovado em 2° lugar no concurso SEFAZ-PI para o cargo de Auditor do Tesouro Estadual - Área Conhecimento Tecnologia da Informação
Concursos Públicos“Faça muitas questões. Tenha consistência. Tenha paciência, leva tempo (e ele é nosso aliado). Aprenda a estar só, a solidão é uma constante nesta jornada […]”
Confira a nossa entrevista com Caio Girão Rodrigues, aprovado em 2° lugar no concurso SEFAZ-PI para o cargo de Auditor do Tesouro Estadual – Área Conhecimento Tecnologia da Informação:
Estratégia Concursos: Conte-nos um pouco sobre você, para que nossos leitores possam conhecê-lo. Qual a sua formação, idade e cidade natal?
Caio Girão: Sou Caio Girão, poeta, ator, roteirista, artista. Sou de Fortaleza, Ceará. Tenho formação em Engenharia de materiais e especializações nas áreas de escrita criativa, teatro, Direito Constitucional, Oratória, Tecnologia da Informação, entre outras áreas do conhecimento. Atualmente, eu trabalho como Analista de Pesquisa Energética, na Empresa de Pesquisa Energética. Por quase dez anos, trabalhei majoritariamente com dados, atuando como consultor, especialista e cientista de dados. Também já trabalhei em outras diversas áreas, como professor, monitor, analista de finanças, analista de suporte, atendente de serviço ao cliente, diretor de marketing, assistente, técnico, etc.
Estratégia: O que te levou a tomar a decisão de começar a estudar para concursos?
Caio: A minha vida é arte. Desde a infância, o que mais me encanta é a arte. Depois que li o meu primeiro livro, não consegui parar. A mesma coisa aconteceu com o cinema: depois do primeiro filme a que assisti, não parei de sonhar em fazer um filme. Com o teatro foi diferente: atuei na minha primeira peça antes mesmo de assistir a uma peça. Não sou de família rica e não tive acesso a muitas oportunidades durante a minha infância, então, coisas que hoje tanto amo (como teatro e viagem) eram inimagináveis (e quase inalcançáveis) para mim. Foi justamente por isso, que essa coisa de fazer prova entrou na minha vida. Eu estudei, durante o ensino infantil e o ensino fundamental em uma escola de bairro muito humilde. Há até uma história que o meu pai, que era professor dessa escola, gosta de contar: A bibliotecária lhe disse que tinha um problema: o filho dele havia lido todos os livros da biblioteca, porque a biblioteca era pequena e porque eu gostava muito de ler, mas esse fato ilustrava a preocupação de uma das coordenadoras que sempre me apoiava: eu não tinha muito como crescer ali. Então, o meu pai me incentivou a fazer provas para as escolas renomadas, “de gente rica”, provas que podiam render uma bolsa para mim, já que os meus pais não podiam pagar aquelas mensalidades. E comecei a estudar para essas provas, aos treze anos. Fiz todo o meu ensino médio com bolsa integral numa das melhores escolas do Ceará, o Antares – onde tive apoio de professores e coordenadores. Diferente da escola antiga, aquela escola premiava os melhores alunos. Então, uma coisa esquisita começou a acontecer: eu figurava com a maior média de nota, entre alunos filhos de doutores, engenheiros e empresários. Eu, uma das únicas crianças que ia de ônibus para a escola e que nunca tinha feito uma viagem sequer para fora do estado do Ceará. Filho de um professor e uma costureira (“sem muitas chances”, como um professor de história gostava de expor em suas aulas). Mesmo que eu amasse arte e desde então escrevesse, eu havia percebido que não tinha espaço para mim na arte, que havia uma desigualdade abismal ao comparar as pessoas do meu bairro e as pessoas que conseguiam “viver de arte”. Eu não tinha colher de chá. Já nessa escola, eu soube que tinha algum talento em fazer prova, de maneira a canalizar minha curiosidade e meu interesse para essa atividade tão assustadora. Convenceram-me a fazer provas para escolas militares, em troca me davam um lugar para morar perto da escola (o que evitava as viagens de duas horas de ônibus e integrações) e alimentação (eu almoçava na cantina da escola sem precisar pagar). A minha única “obrigação” era fazer as provas em que eles me inscreviam. E eu fazia. A minha primeira viagem para fora do estado do Ceará, foi para Pernambuco para fazer prova. Eu gostava disso. Naturalmente, percebi que fazer uma faculdade militar em outro estado seria uma excelente desculpa para viajar e conhecer outros lugares (o que era um sonho), já que não seria possível que eu fosse estudar em uma faculdade e ainda ter que dar um jeito de pagar aluguel, comida, roupa etc. Essa foi a minha primeira fase de experiência com concursos, foram dezenas e dezenas. O ápice foi a aprovação no Instituto Militar de Engenharia. Depois de cursar um ano no Instituto, percebi que não era essas coisas todas. O desafio intelectual foi o principal motivador a me levar até o IME, coisa que não é de fato cultivada na faculdade, o que me fez perder o interesse na carreira no Exército. Foi quando conheci a minha esposa. Alugamos um apartamento e fizemos prova de transferência para a UFRJ, onde vim a me formar. Nesse meio tempo, eu precisava ganhar a vida e fazia qualquer coisa que me rendesse algum dinheiro para pagar as inesgotáveis contas que chegavam. Nós nos desdobrávamos em dois, três empregos cada um, para poder fazer as contas fecharem. O tempo que eu tinha para respirar, eu usava para escrever, mas depois da pandemia, eu percebi que a iniciativa privada é extremamente patrimonialista, que talento não é valorizado e que o que vale muito mais são as relações políticas e familiares. Acreditei por um tempo na falácia da meritocracia, trabalhei no centro desses ideais: o mercado financeiro. Cheguei a trabalhar quinze horas por dia, durante dias consecutivos, incluindo finais de semana. Para, no final de um semestre (porque os pagamentos são feitos de forma semestral, disfarçados de “bônus”) receber uma mixaria que em nada refletia o meu esforço e minhas entregas. Existe algo de perverso no mercado que é esse discurso que, se você der seu melhor e se entregar, isso será reconhecido. Mas não é verdade. Pessoas que vêm de onde eu vim, raramente conseguem mais do que um tapinha nas costas e um prêmio de consolação que não é suficiente sequer para pagar o aluguel de forma digna. Se analisarmos bem, no Brasil, quem “chega lá” já estava muito perto de “lá”. Quase que invariavelmente, nas empresas em que eu trabalhei, quando olhava para o lado percebia que tive que fazer dez vezes mais esforço do que meus pares para ocupar uma posição semelhante à que eles ocupavam com bem menos esforço. Isso é revoltante. Além disso, na arte, por mais que tentasse e me entregasse, com sangue e suor, eu percebia que não teria chances se não tivesse dinheiro. Fiz mais de quinze peças, ganhei prêmio com textos teatrais que eu escrevi, publiquei cinco livros, participei de diversas revistas literárias, ganhei alguns prêmios, participei de residências literárias, fiz alguns curta-metragens, escrevi roteiros de cinema. Mas mesmo assim, eu nunca recebi um convite de trabalho na arte e ganhei muito pouco financeiramente. Acho difícil acordar me sentindo artista, porque o dinheiro que ganhei com isso é muito pouco. Sim, o dinheiro meio que deixa tudo sem graça, mas é a “medida do sucesso” em sociedade. Por um lado, a arte me traz inúmeras felicidades, como minhas amizades; mas, por outro, me traz grandes angústias por deixar meu futuro numa corda bamba. Se analisarmos os “grandes” artistas brasileiros, a maioria esmagadora é de família rica ou, pelo menos, tem “condição” e outros tantos são servidores públicos (ou mesmo casados com servidores ou filhos de servidores). Porque pra conseguir algum sucesso na arte no Brasil é preciso se infiltrar na rede de privilégios da elite. E o concurso público é um caminho iluminoso, em que não são necessárias associações obscuras ou mesmo conveniência com coisas inaceitáveis. Some-se isso às minhas decepções e frustrações nas empresas em que trabalhei. Por isso, eu voltei a estudar para concursos, conciliando com trabalho.
Estratégia: Você trabalhava e estudava? Se sim, como conciliava?
Caio: Sim. Deixei um pouco de lado a minha carreira artística e passei a usar os intervalos de trabalho para estudar. Nesse sentido, o Estratégia foi quase como uma mágica: transformei o meu celular e meu computador em poderosas ferramentas de estudo, baixava alucinadamente os PDFs do Estratégia e lia sempre que podia, seguindo as trilhas. Se não podia ler, ouvia os áudios do Estratégia Cast ou mesmo as aulas (na plataforma e no Youtube). Assisti a muitas aulas da Nelma Fontana, da Adriana Figueiredo, do Herbert Almeida, do Carlos Henrique, do Da Rocha. Mas as coisas levam muito mais tempo do que desejamos. Um erro que cometi, foi já começar mirando em concursos de alto nível. Erro grave, porque desestimula demais, o resultado é frustração e desespero. Especialmente se acontece algo como “ficar perto das vagas”, não ter o rendimento suficiente. Foram três anos dando com a cara no muro, mesmo com horas e horas acumuladas, milhares de páginas, milhares de questões, centenas de vídeos. Até que comecei a fazer concursos com salários menores e colher resultados. A partir de então, comecei a enxergar a luz nessa jornada de altos e baixos. Não só pensei em desistir várias vezes, como cheguei a desistir. E depois voltei. Desistir não é algo ruim. Desistir é sinal de sabedoria e amadurecimento. Existem alguns discursos muito falaciosos que dominam o imaginário popular. Um desses discursos é essa história de “não desista”. Desista sim, desista com gosto. O que for sua verdade acaba voltando. Poderia falar que não desisti disso ou daquilo, mas o meu pai nunca vai me perdoar por ter “desistido” do IME. E foi uma das melhores decisões que eu tomei. Assim como alguns parentes e amigos falam como eu gostava de teatro e acabei desistindo disso. O que não é verdade, quem faz teatro sabe bem: é impossível desistir do teatro. Mas a vida não é uma linha reta, é sinuosa, por isso bonita. Nada faz muito sentido se olharmos de perto, porque nossa mente analítica não é capaz de analisar todos os sinais do mundo, apenas uma pequena parte, e estamos sempre no vetor das emoções. É comum pessoas contarem as suas histórias e, quando olham para trás, verem sentido em todos os detalhes – “me tornei cozinheiro, porque a minha família sempre se reunia para comer os pratos que minha vó cozinhava”: essa mesma pessoa teve, sei lá, uma mãe engenheira e um pai dentista, mas nunca pensou em seguir nenhuma das profissões e se agarra a uma ideia que dê sentido à dança das escolhas, a avó cozinheira. A nossa mente funciona assim, narrando os fatos, destacando somente as coincidências que nos servem. Mas a vida é um emaranhado constrangedor de coincidências (o acaso tem um peso na nossa vida muito maior do que gostaríamos de admitir). Por isso reconheço que, além de tudo, tive sorte. Muitos acasos positivos me aconteceram pelo caminho (quase tanto quanto acasos negativos, que me derrubaram muito, diversas vezes – algumas a ponto de eu levar muito muito tempo para me levantar). Estudei na infância com alguns amigos que acabaram indo por um caminho bem diferente. E eles eram tão inteligentes quanto eu, afirmo isso sem nenhum tipo de demagogia ou modéstia. Conheci gente brilhante na minha jornada de estudo. Muitos ficaram pelo caminho. Algumas noites, sinto uma culpa absurda por eu ter chegado neste nível e eles não. Olha que tenho uma vida super comum, sem viagens, sem carro, sem ar-condicionado, mas uma vida extremamente confortável, completamente inimaginável para minha versão de dez, quinze anos de idade. Eu respiro, respiro fundo, pelo diafragma e me concentro no agora, no que está bem debaixo do meu nariz, no que tenho controle. Então, eu estudo e vou seguindo, com todo esse peso, com todas essas feridas. Sem deixar ninguém me parar, sem dar ouvidos ao que dizem, porque as pessoas podem ser muito cruéis nas suas sutilezas.
Estratégia: Em quais concursos já foi aprovado? Em qual cargo e em que colocação? Pretende continuar estudando?
Caio: SEFAZ-PI 2025 (Analista de Tecnologia da Informação), 2º AC;
TRT-SP 2025 (Analista de Tecnologia da Informação), 2º AC;
PPSA 2025 (Analista de Gestão Coporativa), 2º AC;
EPE 2024 (Analista de Pesquisa Energética), 4º AC;
TRT-RJ 2025 (Técnico de Tecnologia da Informação), 4º AC;
ANPD 2025 (Atividades Técnicas de Complexidade Gerencial), 9º AC;
TRT-SP 2025 (Técnico de Tecnologia da Informação), 12º AC;
SEFAZ-SE 2025 (Auditor Fiscal Tributário), 32º AC;
BNDES 2024 (Analista – Engenharia), 217º AC;
SEFAZ-RJ 2025 (Auditor Fiscal Tributário), 298º AC;
Polícia Federal 2025 (Agente), 866º AC;
SEFAZ-PR 2025 (Auditor Fiscal), 941º AC;
Além de concursos como IME, AFA, AMAN, EFOMM, EN, CN, EPCAr, EsPCEx.
Estratégia: Como era sua vida social durante a preparação para concursos? Você saía com amigos e família?
Caio: Nunca tive uma vida social exatamente normal. Eu moro longe da família e quase todos os meus grandes amigos também acabam indo morar em outro estado ou outro país, então, eu nunca nutri hábitos semanais regulares de de encontrar as pessoas que eu amo. Talvez, por isso, raramente eu tenha tido esse conflito tão famoso entre as pessoas que estudam para concursos: deixar de sair para estudar. Acredito que esse não é um problema tão grande quanto fazem parecer. Hoje, certamente, o problema maior é o celular, as redes sociais, a dispersão de atenção. O celular e as telas, em geral, consomem muito mais do nosso tempo e da nossa energia do que amigos e família. Como diz o concurseiro pifado: Não tire do cronograma quem te ama.
Estratégia: Sua família e amigos entenderam e apoiaram sua caminhada como concurseiro? De que forma?
Caio: De forma estratégica, não contei para ninguém além da minha esposa. Eu sei como é ruim gerenciar as expectativas dos outros e não ajuda em nada falar para qualquer pessoa que não seja do seu convívio direto. Simplesmente não vale a pena falar que está estudando para concurso. Inclusive, não vejo problema em mentir se isso for o melhor para evitar ansiedade desnecessária, mas a minha família é fundamental. Apliquei muito da teimosia perspicaz de minha mãe, da obstinação resistente de meu pai, da rebeldia questionadora de meu irmão e da persistência irrefreável de minha avó. Também dedico essa conquista à minha madrinha, que sempre me apoiou, mas não pôde testemunhar a concretização desse sonho em vida. Não teria conseguido nenhum dos resultados que obtive sem o apoio incondicional da minha esposa, que se esforçou tanto quanto eu, uma vez que sempre dividimos todas as responsabilidades, mas, para que eu pudesse focar nos estudos, ela precisou assumir muito mais responsabilidades e manter nossa vida equilibrada, desde os mínimos detalhes até as principais decisões. No entanto, acho importante destacar uma observação: não espere que as pessoas entendam. Quando desejamos muito alguma coisa (qualquer coisa) e construímos um projeto, isso se torna algo tão pessoal que é quase impossível que outras pessoas entendam nossas motivações. Digo isso para que você tenha plena consciência de que ninguém vai entener. Bem como muitas vezes não somos capazes de entender motivações de outras pessoas. É um processo e a maioria das pessoas só se importa com o resultado. Mas o resultado é o de menos, é um mero detalhe. Ninguém vai te entender (algumas pessoas vão aceitar, mas não espere que elas entendam). Apaixone-se pelo processo.
Estratégia: Você estudou por quanto tempo direcionado ao último concurso? O que fez para manter a disciplina?
Caio: É difícil dizer um número, porque essa não é a mensagem. A verdade é que, independentemente da quantidade de horas que eu diga, o número real é sempre diferente (geralmente maior), porque existe o tempo de digestão do conteúdo. Uma hora de estudo focado, com estratégia, vale muito mais do que um dia inteiro de estudo sem foco. Precisamos perceber o nosso corpo, o nosso condicionamento, o momento que mais conta para nosso aprendizado não é no exato instante em que estamos consumindo conteúdo, mas no instante em que nossa mente descansa (especialmente num sono de qualidade) ou quando colocamos em prática a teoria. Por isso, é tão importante resolver questões e saber descansar. A melhor metáfora que eu consigo pensar é com o esporte. Por isso, eu nem gosto da palavra concurseira/concurseiro, já está “por demais definida, de sintomatologia cerrada”. Vocês sabem do que tô falando. Prefiro pensar no termo “atleta de concursos” para quem se esforça dia a dia para aprimorar sua performance e encarar uma competição ferrenha, uma prova. Os paralelos são muitos e a abordagem, a melhor possível. Observe como os melhores atletas lidam com os fracassos, como eles treinam, como analisam suas próprias performances. Concurso é isso, é você treinar suficientemente bem para se destacar, é você ter uma obsessão incontrolável que te faz querer ir além, buscando aquele ponto que dói. Por quê? Muitas vezes, porque ninguém mais tem disposição para isso, além de você. Dá medo dar 100% de si, por isso, a maioria nunca chega a dar sequer 70%, mas os atletas estão em busca desse 100% de performance, 100% de corpo, 100% de cabeça. (O que acontece quando chegamos nesse ponto? Por que quase ninguém consegue dar 100% de si mesmo para aquilo que ama?) É claro que a decisão para estudar para um concurso público nunca começa pelo desafio intelectual em si (ou talvez comece, mas não é a regra), mas o que faz alguém manter a consistência durante anos a fio numa mesma atividade é sim o desafio, assim como os bons atletas. Mesmo aqueles que chegam ao topo não param. Eles continuam até onde podem, pelo desafio. Nesse sentido, concurso pode até ser visto como um esporte mais grato que os demais, uma vez que o tempo pode ser visto como aliado (quanto mais tempo de estrada, melhores os resultados – regra que não se aplica a quase nenhum outro esporte, em que o tempo rapidamente se torna um inimigo corrosivo). Isso já explica um pouco de como fiz para manter a disciplina. No começo, era muito difícil me concentrar e ver sentido, porque a minha cabeça tentava racionalizar toda a energia que eu estava investindo nesse projeto e me levava à (falaciosa) conclusão: Ora, se eu dedicasse toda essa energia para a arte, colheria frutos e não precisaria ‘perder tempo’ estudando algo que sequer tenho interesse. Fiz acompanhamento psicológico e psiquiátrico e essa era uma das principais questões, mas eu precisava lembrar a mim mesmo que não nasci com privilégios e que preciso de estabilidade se quero ter liberdade para criar arte e fazer meus projetos. Então, eu comecei a encarar a jornada para concursos como um projeto artístico, passei a abordar as questões como abordava um novo projeto literário, cinematográfico ou teatral. Porque eu sabia que o melhor para minha arte não seria um novo projeto artístico (que não renderia frutos financeiros e, portanto, não me ajudaria a sobreviver – ainda que arte seja um dos principais motivos de viver), mas um cargo público com estabilidade. Foi como uma chave virando na minha mente. Parei de escrever, parei de procurar por novas peças e novos roteiros, foquei nas questões (porque já havia lido e relido os materiais em pdf de todas as disciplinas da área fiscal). Foi muito importante encontrar uma comunidade. Por mais que não seja algo físico nem seja propriamente uma rotina, saber que o meu trabalho e a minha dedicação podem inspirar outras pessoas é minha principal motivação para continuar, mesmo nos dias ruins, mesmo nos momentos difíceis. Porque fazer arte, para mim, é essencialmente esse processo de ser inspirado e inspirar. Poucas coisas são tão bonitas quanto a inspiração genuína (para mim, isso é, em essência, o amor). Ter a disposição de um atleta e a inspiração de um artista: assim que eu mantive disciplina e construí minha trajetória.
Estratégia: Quais materiais e ferramentas você usou em sua preparação?
Caio: Construí a base com os PDFs do Estratégia, bem como com videoaulas pontuais. Usei muito os casts de áudio no aplicativo do estratégia (aposto que estou entre os 0,1% usuários dessa ferramenta). Alô, Fernando Maurício, Luana Brandão, Raphael Lacerda, Diego Cerqueira. As suas vozes me acompanharam em diversos momentos. Talvez a ferramenta mais subestimada do Estratégia! Acho incrível ouvir a voz dos professores explicando a matéria de forma tão leve. Dá gosto. Além disso, fiz questões, muitas questões. Refiz questões, muitas questões. Não vejo muitas desvantagens, cada um tem sua forma de aprender e todas funcionam. Cada pessoa sabe o que é melhor, o que mais se encaixa, o que faz com que o conhecimento se fixe.
Estratégia: Como conheceu o Estratégia Concursos?
Caio: Através de pesquisa no Google.
Estratégia: Depois que você se tornou aluno do Estratégia, você sentiu uma diferença relevante na sua preparação? Que diferencial encontrou nos materiais do Estratégia?
Caio: Com certeza, o Estratégia permite que uma pessoa dedicada e curiosa alargue muito a experiência com o repertório das bancas. Tudo é repertório! Quanto mais você estuda, quanto mais você lê, melhor você se torna. Isso faz com que seja possível adquirir conhecimento profundo e ambientação dedicada para a forma como cada banca cobra a matéria. O grande diferencial do Estratégia é o direcionamento para o que é mais importante para a prova.
Estratégia: Como montou seu plano de estudos?
Caio: Tive que conciliar com trabalho e vida pessoal, então, nem sempre estudei a quantidade de horas desejadas, mas sempre busquei manter uma consistência de estudar todos os dias, nem que fosse por 20 minutos, nem que fosse com a resolução de dez questões, porque assim, eu treinava minha consistência e impedia que a inércia diminuísse meu ritmo, de maneira a aproveitar o “momentum”. Houve dias em que cheguei a fazer dez horas líquidas, outros dias, não fiz mais do que duas horas líquidas, mas nos últimos três anos, eu estudei absolutamente todos os dias, sem exceção (embora eu já estude para concurso há mais de quatro anos).
Estratégia: Como fazia suas revisões?
Caio: Revisão por questões. No começo, eu revisava por vídeos e PDFs, mas com o tempo, eu comecei a focar muito em questões e entender que ter questões favoritas era o melhor caminho. Da mesma forma, não tenho resumos estruturados, mas gosto muito de comentar em questões, o que me permite ter resumos diretos, específicos e completos, ainda que fragmentados. Muitas vezes, durante uma prova, eu me lembro de determinada questão, devido a um comentário que fiz. Simulados ajudam muito a treinar a parte física da prova, que pode ser extenuante. Além disso, com os simulados podemos testar estratégias de resolução de prova, como equilibrar questões difíceis, como fazer as discursivas, como chutar de forma inteligente etc.
Estratégia: Qual a importância da resolução de exercícios? Lembra quantas questões fez na sua trajetória?
Caio: Resolver questões é primordial. Ouso a dizer que, atualmente, ninguém passa em concursos de alto nível sem ter resolvido milhares de questões (existe uma métrica boba que pode dar um norte: qual o salário do cargo que você almeja? Bem, para ter chances, você deve ter feito no mínimo o número de questões equivalente ao salário. Se estivermos falando de um cargo cuja remuneração é dez mil reais, é de se esperar que os aprovados tenham feito mais de dez mil questões em sua preparação). Contando apenas de questões contabilizadas em sistemas de questões, eu fiz mais de 40 mil questões, mas se fosse contabilizar também as questões das dezenas de provas que fiz, além das centenas de simulados, certamente esse número seria bem maior.
Estratégia: Quais as disciplinas você tinha mais dificuldade? Como fez para superar?
Caio: Contabilidade, definitivamente. Superei com a melhor estratégia possível: fazendo questões e assistindo a aulas de professores incríveis (um salve para Marcondes Fortaleza).
Estratégia: Como foi sua rotina de estudos na semana que antecedeu a prova e no dia pré-prova?
Caio: Foco total em revisões. Não sou do tipo que gosta de relaxar, então, intensifiquei as horas dedicadas, diminuí os intervalos entre períodos de estudo e revisei por questões. Além disso, acompanhei as aulas de Hora da Verdade e Revisão de Véspera. Sempre gosto de ver professores resolvendo questões tentando me antecipar mentalmente, é um excelente treino mental. Os professores, já calejados, nos mostram onde focar atenção, como evitar cair em pegadinhas, como eliminar itens que claramente estão errados, etc.
Estratégia: No seu concurso, além da prova objetiva, teve a discursiva. Como foi sua preparação para esta importante parte do certame? O que você aconselha?
Caio: Como foi uma fase separada, eu consegui me preparar bem. Tive cerca de dois meses entre as provas objetivas e as provas discursivas, nesse tempo eu fiz questões discursivas todos os dias. Tentava fazer pelo menos duas questões por dia. Peguei o máximo de provas antigas da banca. Algumas questões eu separava para revisar, devido ao teor destas. Além disso, busquei questões objetivas da banca que podiam trazer conceitos e definições de assuntos passíveis de serem cobrados pela banca. Muitas vezes, questões objetivas funcionam de forma didática ao indicar o posicionamento e o entendimento da banca relativo a determinados assuntos. O meu principal conselho é: pratique, escreva pelo menos uma discursiva por semana. À MÃO. Não escreva no computador, escreva À MÃO. Se possível, peça para alguém ler. Muitas pessoas, cometem erros bobos no momento de escrever à mão por falta de prática. Além disso, o texto precisa ser claro, coeso e coerente. Então, é necessário ter uma escrita fluente e consciente. Não tem mistério: é muita prática e dedicação. Reserve um horário semanal, selecione uma questão antiga da banca na qual quer focar e resolva a questão, depois procure por modelos de resposta certa, espelho da banca etc. Assim, você vai treinar a prática de responder à mão e revisar a matéria.
Estratégia: Quais foram seus principais ERROS e ACERTOS nesta trajetória?
Caio: Nossa, muitos erros, mas essa pergunta pode ser traiçoeira, por causa do viés de sobrevivência [explico: os principais erros não são aqueles ditos por quem conseguiu aprovação, mas sim por quem não conseguiu; afinal, damos atenção apenas a quem “obteve êxito” e não àqueles que fracassaram, mas a maioria das histórias (e as mais prováveis) terminam em fracasso – sei que não é legal nem é bonito, mas é a verdade e alinhar a nossa expectativa à realidade, é a melhor forma de permanecermos firmes e consistentes]. O maior erro, foi achar que poderia ser uma jornada rápida (de menos de dois anos). A jornada nos concursos é uma jornada longa e, como tudo que vale a pena, leva tempo. Muito tempo. Quando comecei, eu já comecei mirando alto, em cargos de alto nível. O que me fez competir com gente muito mais bem preparada do que eu. Tive muitas derrotas até que a minha esposa me disse: “Você precisa fazer concursos menos concorridos, mesmo que não queira assumir, você precisa de algumas vitórias para manter a sanidade”. Por mais resiliente que alguém seja, existe um limite de derrotas que cada um aguenta. Ouvi o conselho dela e me inscrevi para concursos “mais básicos”. Comecei a colher resultados positivos. Isso me deu ânimo ao me fazer perceber que era possível. Então, eu comecei a encarar como esporte, me inscrevi em diversos concursos. Alguns, eu fui fazer sem saber sequer como estavam divididas as questões. Comecei a ter uma consistência de resultados. Esse também foi um grande acerto: ter abertura para outras opções. Foi essencial para manter a consistência. Além disso, é imprescindível (palavra favorita da banca Cebraspe) que a pessoa candidata saiba que é uma jornada longa, que vão ser necessárias muitas horas, que vão ser necessários anos, para construir uma base sólida e competitiva. Quando temos planos grandiosos, precisamos focar nos pequenos passos, no que está bem diante da gente. Uma maratona é, em essência, um pequeno passo após outro pequeno passo. A maioria das pessoas não consegue focar no que está bem embaixo do nariz. Quem consegue fazer isso já está à frente de mais de 90% das pessoas. Em vez de se assustar com isso, anime-se: são poucos aqueles que conseguem manter o nível de dedicação necessário para obter aprovação. Por isso, diferentemente de algumas competições, os concursos oferecem uma vantagem estatística aos que se empenham: o grupo que acumula milhares de horas de estudo (e, por isso, tem reais chances de aprovação) é muito pequeno. Para fazer parte dele, não tem segredo: é necessário muito estudo, muita disciplina e muita consistência.
Estratégia: Chegou a pensar, por algum momento, em desistir? Se sim, qual foi sua principal motivação para seguir?
Caio: Sim, pensei em desistir incontáveis vezes. Durante um tempo, inclusive, desisti. Depois voltei. Desisti de novo. E voltei. A vida é assim. Desisti de muitas coisas na minha vida. Existe um discurso muito bobo de que não devemos desistir, mas eu discordo. Inclusive, um dos melhores conselhos que ouvi foi justamente: DESISTA. Desista de tudo que te faz mal. Não importa o que seja. Nós sabemos que existem coisas que parecem nos prender, nos levar pra baixo, deixar nossos dias menos coloridos. Se isso te faz mal: desista. Sei que nem sempre é fácil tomar uma ação nesse sentido, pois às vezes nos encontramos em situação de vulnerabilidade/dependência. Já passei por isso diversas vezes na minha vida. E mesmo quando estava em situações de desvantagem, procurei construir caminhos que me permitissem desistir. Se hoje tenho aprovações que me alegram e me tranquilizam, foi porque eu desisti de muitos outros caminhos que me faziam mal. A minha principal motivação para seguir, talvez tenha sido a vontade de poder me dedicar à minha arte de maneira profunda, mas também existem motivações menos “bonitas”: sempre tive muita raiva da desigualdade neste país, tive pouquíssimos privilégios e convivi com muitas pessoas que tinham uma “situação de vida” muito melhor do que a minha. Estudar era uma forma de “me vingar” de muita coisa ruim, era uma forma de me rebelar contra o status quo que esmagou tantos antepassados meus, tantos amigos meus. Materialmente, praticamente tudo que tenho é fruto de alguma conquista. Sempre soube que não teria quaisquer heranças materiais. Desde muito jovem na minha adolescência, eu sabia que, se quisesse qualquer coisa, teria que trabalhar e suar muito. Sabia também que qualquer pessoa pode perder tudo que tiver, exceto sua mente. Mesmo que eu desaprenda tudo que sei hoje, algo em mim me diz que eu seria capaz de reaprender – independente da minha idade ou do meu lugar. Existe uma beleza insuperável no conhecimento. Eu sou artista brasileiro, sei o que é a rejeição, a reprovação, a insegurança. Estudar para concurso me dá esperança de que posso ocupar lugares que jamais me aceitariam, devido à minha origem, me dá esperança de que podemos diminuir a desigualdade brasileira e construir uma sociedade mais justa. Além disso, tenho uma motivação especial que me salvou nos dias mais difíceis (porque várias vezes estudei com dores físicas e emocionais, com lágrimas nos olhos, com vozes barulhentas na cabeça): poder inspirar outras pessoas, assim como tantas pessoas me inspiraram. Existe algo de muito mágico na inspiração, em saber que, daqui a alguns anos, alguém saberá de mim, lerá minhas palavras, lembrará de mim e se sentirá inspirado para ir além, para viver. A palavra “sonho” também anda surrada. Porque muitos sonhos não resistem ao peso da realidade. O que me fez seguir, com determinação, não foi um “sonho”, foi a obsessão, foram os pequenos passos, questão por questão, item por item. Só consegui construir esse caminho, porque me preocupei com os pequenos tijolos em vez de me preocupar com os falaciosos palácios. Esqueça a “miragem” da aprovação, isso está fora do seu controle. Foque nos pequenos passos, em fazer bem feito o que está diante de si, essa pequena parte. São as pequenas coisas bem feitas que tornam possível tudo que é grandioso. As pequenas coisas.
Estratégia: Por fim, o que você aconselharia a alguém que está iniciando seus estudos para concurso? Deixe sua mensagem para todos aqueles que um dia almejam chegar aonde você chegou!
Caio: Faça muitas questões. Tenha consistência. Tenha paciência, leva tempo (e ele é nosso aliado). Aprenda a estar só, a solidão é uma constante nesta jornada. Não se importe com a opinião daqueles cuja opinião você não pediu. Desista do que te faz mal. Não pare. Seja você. Não se compare. Não cultive expectativas. Esteja presente. Aqui. Agora. Estudar é uma dádiva. Faça muitas questões.