Fala, pessoal, tudo bem com vocês? Uma coisa que eu percebo bastante é que muita gente já domina a reforma tributária em prestadora de serviços no plano teórico, sabe que o IBS e a CBS vão substituir o ICMS, o ISS, o PIS, a COFINS e o IPI, sabe que o novo sistema é não cumulativo, mas trava justamente na hora de entender “tá, mas isso vai fazer minha empresa pagar mais ou menos imposto?” E é uma questão importante, porque uma coisa é entender o conceito, outra bem diferente é visualizar o que ele significa em reais, saindo do caixa da empresa todo mês.
Então hoje eu quero mostrar, na prática, como funciona a reforma tributária em prestadora de serviços. Vamos pegar uma prestadora de serviços fictícia, mas com números bem realistas, e fazer uma comparação direta de quanto ela paga de tributo hoje, e quanto ela pagaria já no sistema novo, funcionando por completo. Só um adendo importante antes de começar, como a reforma ainda está em transição e algumas definições (principalmente a alíquota final do IVA dual) ainda podem ser ajustadas pelo Senado, vamos trabalhar com estimativas oficiais, o suficiente para dar um panorama bem próximo da realidade, mas sem cravar números definitivos. Vamos lá.
Para não ficar tudo no campo das ideias, vamos criar uma empresa fictícia, a Consultoria Alfa Ltda., que presta serviços de consultoria e desenvolvimento de software, tributada pelo Lucro Presumido, que é o regime mais comum entre prestadoras de serviço de porte médio no Brasil, com os seguintes números mensais.
| Item | Valor mensal |
| Receita bruta de serviços | R$ 300.000,00 |
| Folha de pagamento (salários + encargos) | R$ 120.000,00 |
| Aluguel do escritório (pago a PJ) | R$ 15.000,00 |
| Softwares e licenças (assinaturas de terceiros) | R$ 20.000,00 |
| Serviços terceirizados (infraestrutura/suporte) | R$ 25.000,00 |
| Total de insumos adquiridos de PJ (aluguel + software + terceiros) | R$ 60.000,00 |
Reparem que eu fiz questão de separar dois grupos de custos, que é a folha de pagamento (R$ 120 mil) de um lado, e os insumos comprados de outras empresas (R$ 60 mil) do outro. Essa separação não é só uma questão de organização, ela vai ser a chave para entender tudo que vem a seguir, pois o salário nunca gera crédito tributário, isso porque mão de obra própria não é uma “compra tributada”, é remuneração pelo trabalho de alguém que faz parte da empresa, não uma aquisição de bem ou serviço de terceiro. Já vai dar pra perceber por que isso importa tanto daqui a pouco.
No sistema atual, a Consultoria Alfa recolhe quatro tributos principais sobre essa operação, e vale entender a lógica de cada um antes de ver os números:
| Tributo | Cálculo | Valor |
| ISS (5%) | 5% x 300.000 | R$ 15.000 |
| PIS/COFINS (3,65%) | 3,65% x 300.000 | R$ 10.950 |
| IRPJ (15% + adicional) | 15% x 96.000 + 10% x 76.000 | R$ 22.000 |
| CSLL (9%) | 9% x 96.000 | R$ 8.640 |
| TOTAL DE TRIBUTOS | R$ 56.590 |
Então a carga tributária total da Consultoria Alfa, hoje, é de R$ 56.590 por mês, ou 18,86% da receita bruta, mas para o que a gente quer comparar de verdade, o efeito da reforma, o número que importa é a gente isolar só os tributos que a reforma vai efetivamente substituir (ISS e PIS/COFINS), então chegamos a R$ 25.950, o equivalente a 8,65% da receita bruta.
Agora vem a parte de simular o mesmo mês, a mesma empresa, os mesmos números, mas já rodando sob o sistema pleno de CBS e IBS, ou seja, o retrato mais completo de como a reforma tributária em prestadora de serviços vai funcionar quando a transição estiver totalmente concluída, lá em 2033.
Para isso, vou usar a alíquota de referência que o próprio Ministério da Fazenda estimou, que é 8,8% de CBS mais 17,7% de IBS, somando 26,5%. Só reforçando que essa é uma estimativa oficial, não um número fechado em pedra, ela pode ser recalibrada pelo Senado conforme a transição avança e a arrecadação real vai sendo observada, mas é, hoje, a referência mais confiável que temos para fazer esse tipo de simulação com seriedade.
A grande virada de chave do sistema novo é a não cumulatividade plena, dessa forma, na prática, isso significa que a empresa consegue creditar o CBS/IBS que ela pagou nas suas próprias compras, desde que essas compras sejam de fornecedores dentro do regime regular, e abater esse crédito do débito que ela gera nas vendas.
| Item | Cálculo | Valor |
| Débito de CBS+IBS sobre a receita | 26,5% x 300.000 | R$ 79.500 |
| (–) Crédito sobre insumos de PJ | 26,5% x 60.000 | (R$ 15.900) |
| CBS+IBS LÍQUIDO A PAGAR | 79.500 – 15.900 | R$ 63.600 |
| IRPJ (inalterado) | mesma regra de hoje | R$ 22.000 |
| CSLL (inalterado) | mesma regra de hoje | R$ 8.640 |
| TOTAL DE TRIBUTOS | R$ 94.240 |
Vale um parênteses aqui, reparem que o IRPJ e a CSLL aparecem exatamente iguais nas duas simulações, justamente porque a Reforma Tributária de que estamos falando é a reforma do consumo, e ela simplesmente não mexe na tributação do lucro. IRPJ e CSLL continuam sendo regidos pelas mesmas regras de sempre, de forma totalmente independente do que acontece com CBS e IBS.
| Antes (ISS+PIS/COFINS) | Depois (CBS+IBS) | |
| Tributos sobre consumo | R$ 25.950 | R$ 63.600 |
| % da receita bruta | 8,65% | 21,20% |
| Carga tributária TOTAL (com IRPJ/CSLL) | R$ 56.590 (18,86%) | R$ 94.240 (31,41%) |
Olhando assim, lado a lado, dá pra ver que os tributos sobre consumo mais que dobraram em valor absoluto, saíram de R$ 25.950 para R$ 63.600, um aumento de 145%, e o que mais chama atenção é que isso acontece mesmo com a empresa aproveitando 100% do crédito a que ela tem direito sobre os insumos comprados de terceiros. Isso é consequência direta de como o sistema foi desenhado, e é exatamente a preocupação que entidades de classe do setor de serviços (advocacia, consultoria, saúde, TI, entre outras) vêm levantando desde o início das discussões da Reforma Tributária.
Por que isso acontece? Porque a alíquota nominal do sistema novo (26,5%) é muito mais alta do que a soma de ISS e PIS/COFINS cumulativo (8,65% no nosso exemplo), o sistema tenta compensar essa diferença através do crédito amplo, mas esse crédito só existe para o que a empresa compra de terceiros. E numa empresa de serviços como a nossa Consultoria Alfa, boa parte do custo não é compra de terceiro, é folha de pagamento, que, como já vimos, nunca entra na conta do crédito.
Tem uma outra mudança que impacta bastante o dia a dia financeiro da empresa, que é a forma como o recolhimento acontece. Hoje, a Consultoria Alfa recebe o pagamento integral do cliente, e só depois, mês seguinte, calcula e recolhe o ISS e o PIS/COFINS por conta própria, através de guias específicas, ou seja, o dinheiro do imposto passa pelo caixa da empresa antes de ir para o governo.
No sistema novo, com o split payment rodando, essa lógica muda completamente, já que no exato momento em que o cliente paga a fatura, a própria instituição financeira já separa automaticamente a parcela de CBS e IBS devida, e recolhe esse valor direto aos cofres públicos. A empresa nunca chega a “ver” esse dinheiro passando pelo seu caixa, ela recebe só o valor líquido, já descontado.
Isso exige uma mudança de mentalidade, pois como o valor que “sobra” imediatamente na conta vai ser menor (porque o imposto já saiu na hora), o controle de fluxo de caixa da empresa precisa ficar mais complicado.
É isso, pessoal, fechamos por aqui. O exemplo da Consultoria Alfa é fictício, mas os mecanismos sobre a reforma tributária em prestadora de serviços que ele ilustra são reais, as empresas intensivas em mão de obra, típicas do setor de serviços, tendem a sentir um aumento nominal na carga tributária sobre consumo, precisamente porque a alíquota de referência do CBS/IBS é bem mais alta que a soma de ISS e PIS/COFINS cumulativo, e o principal mecanismo de compensação do novo sistema, o crédito amplo, só alcança compras de terceiros, nunca a folha de pagamento.
Isso não significa que a reforma seja ruim para todo mundo, pois setores com muita compra de insumos e pouca mão de obra própria (indústria, comércio, logística) tendem a se beneficiar da não cumulatividade plena. O que fica claro é que o impacto da reforma é muito diferente conforme a estrutura de custos de cada empresa, e por isso simulações como essa, feitas com os números reais de cada negócio, são essenciais para o planejamento tributário nos próximos anos.
Vou ficando por aqui, abraços.
Confira aqui a correção ao vivo das provas e o gabarito extraoficial do Sedes DF…
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