{"id":711920,"date":"2021-04-11T16:28:12","date_gmt":"2021-04-11T19:28:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.estrategiaconcursos.com.br\/blog\/?p=711920"},"modified":"2021-05-15T23:07:30","modified_gmt":"2021-05-16T02:07:30","slug":"dos-novos-crimes-em-licitacoes-e-contratos-administrativos-lei-14-133-2021","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.estrategiaconcursos.com.br\/blog\/dos-novos-crimes-em-licitacoes-e-contratos-administrativos-lei-14-133-2021\/","title":{"rendered":"Dos Novos Crimes em Licita\u00e7\u00f5es e Contratos Administrativos \u2013 Lei 14.133\/2021"},"content":{"rendered":"\n<p><a href=\"https:\/\/www.estrategiaconcursos.com.br\/blog\/wp-admin\/revision.php?revision=711928\">Ver o salvamento autom\u00e1tico<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Sauda\u00e7\u00f5es, pessoal.<\/p>\n\n\n\n<p>A Lei 14.133, de 1\u00ba de abril de 2021, a Nova Lei de Licita\u00e7\u00f5es e Contratos Administrativos, inseriu um novo Cap\u00edtulo ao C\u00f3digo Penal. Cuida-se do Cap\u00edtulo II-B, denominado \u201cDos Crimes em Licita\u00e7\u00f5es e Contratos Administrativos\u201d, inserido no T\u00edtulo XI da Parte Especial \u2013 Dos Crimes Contra a Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>Cumpre fazer uma an\u00e1lise inicial sobre essa importante altera\u00e7\u00e3o legislativa.<\/p>\n\n\n\n<p>O artigo 186 da Nova Lei de Licita\u00e7\u00f5es e Contratos Administrativos determina expressamente a aplica\u00e7\u00e3o dos novos tipos penais \u00e0s licita\u00e7\u00f5es e aos contratos regidos pela Lei n\u00ba 13.303, de 30 de junho de 2016. Esta \u00faltima lei disp\u00f5e sobre o estatuto jur\u00eddico da <strong>empresa p\u00fablica, da sociedade de economia mista e de suas subsidi\u00e1rias, no \u00e2mbito da Uni\u00e3o, dos Estados, do Distrito Federal e dos Munic\u00edpios<\/strong>. Assim, os novos crimes ser\u00e3o aplic\u00e1veis, por exemplo, a condutas praticadas na Petrobras ou no Banco do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Com inser\u00e7\u00e3o dos crimes em licita\u00e7\u00f5es e contratos administrativos no C\u00f3digo, encerra-se a controv\u00e9rsia sobre a aplica\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o do artigo 33, \u00a7 4\u00ba, do CP. Com a inser\u00e7\u00e3o dos crimes dentre aqueles praticados contra a Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica (T\u00edtulo XI da Parte Especial do CP) fica n\u00edtido que a <strong>progress\u00e3o de regime do cumprimento da pena ficar\u00e1 condicionada \u00e0 repara\u00e7\u00e3o do dano que causou, ou \u00e0 devolu\u00e7\u00e3o do produto do il\u00edcito praticado, com os acr\u00e9scimos legais<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, <strong>a regra espec\u00edfica sobre a perda do cargo <\/strong>quanto a essa modalidade de crime foi <strong>revogada <\/strong>(art. 83 da Lei 8.666\/93), aplicando-se, a partir de agora, as normas gerais do C\u00f3digo Penal (art. 92, inciso I). Tamb\u00e9m <strong>n\u00e3o h\u00e1 mais procedimento espec\u00edfico <\/strong>(para o julgamento desses delitos (como previam os artigos 100 a 108 da Lei 8.666\/93).<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-contrata-o-direta-ilegal\"><a><strong>Contrata\u00e7\u00e3o direta ilegal<\/strong><\/a><strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O artigo 337-E do CP traz o tipo penal de contrata\u00e7\u00e3o direta ilegal:<\/p>\n\n\n\n<p>Art. 337-E. Admitir, possibilitar ou dar causa \u00e0 contrata\u00e7\u00e3o direta fora das hip\u00f3teses previstas em lei:<\/p>\n\n\n\n<p>Pena &#8211; reclus\u00e3o, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos, e multa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAdmitir\u201d \u00e9 aceitar, consentir, deferir, permitir. \u201cPossibilitar\u201d \u00e9 tornar poss\u00edvel, ensejar, facilitar. \u201cDar causa a\u201d \u00e9 originar, motivar, provocar. A conduta incriminada \u00e9 admitir, possibilitar ou dar causa \u00e0 contrata\u00e7\u00e3o direta fora das hip\u00f3teses previstas em lei, ou seja, <strong>de algum modo concorrer para que haja contrata\u00e7\u00e3o direta pelo ente de forma ilegal<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Cuida-se de <strong>norma penal em branco<\/strong>, cujo complemento consiste em lei diversa (impr\u00f3pria heterovitelina). Aqui h\u00e1 uma peculiaridade: durante dois anos ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o da Lei 14.133\/2021, a Administra\u00e7\u00e3o poder\u00e1 optar por licitar ou contratar diretamente de acordo com esta Lei ou de acordo com a Lei 8.666\/1993 (antiga Lei de Licita\u00e7\u00f5es e Contratos Administrativos), a Lei 10.520\/2002 (preg\u00e3o) e a Lei 12.462\/2011 (o Regime Diferenciado de Contrata\u00e7\u00f5es P\u00fablicas). A op\u00e7\u00e3o escolhida dever\u00e1 ser indicada expressamente no edital ou no aviso ou instrumento de contrata\u00e7\u00e3o direta, sendo vedada a aplica\u00e7\u00e3o combinada desta Lei com as citadas no referido inciso.<\/p>\n\n\n\n<p>Logo, haver\u00e1 <strong>dois complementos poss\u00edveis<\/strong> para o tipo penal do artigo 337-E, j\u00e1 que tanto a Lei 8.666\/93 quanto a Lei 14.133\/2021 tratam do tema de dispensa e inexigibilidade de licita\u00e7\u00e3o. Assim, o melhor entendimento parece ser que a mais favor\u00e1vel dever\u00e1 ser utilizada para verificar se o agente efetuou a contrata\u00e7\u00e3o direta ilegalmente. Entretanto, com rela\u00e7\u00e3o aos crimes cometidos anteriormente, entendo que as normas de dispensa e inexigibilidade eram os da \u00e9poca do crime, dado que a atualiza\u00e7\u00e3o pode demonstrar atualiza\u00e7\u00e3o de valores, com aspecto de temporalidade. Entretanto, h\u00e1 quem defenda que sempre se busque o complemento mais favor\u00e1vel ao acusado, o que pode levar \u00e0 <em>abolitio criminis<\/em><a href=\"#_ftn1\">[1]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>A conduta estava incriminada no artigo 89 da Lei 8.666\/93:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table\"><table><tbody><tr><td><strong>Lei 8.666\/93<\/strong><\/td><td><strong>C\u00f3digo Penal (Lei 14.133\/2021)<\/strong><strong><\/strong><\/td><\/tr><tr><td>Art. 89.&nbsp; Dispensar ou inexigir licita\u00e7\u00e3o fora das hip\u00f3teses previstas em lei, ou deixar de observar as formalidades pertinentes \u00e0 dispensa ou \u00e0 inexigibilidade:&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pena &#8211; deten\u00e7\u00e3o, de 3 (tr\u00eas) a 5 (cinco) anos, e multa.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Par\u00e1grafo \u00fanico.&nbsp; Na mesma pena incorre aquele que, tendo comprovadamente concorrido para a consuma\u00e7\u00e3o da ilegalidade, beneficiou-se da dispensa ou inexigibilidade ilegal, para celebrar contrato com o Poder P\u00fablico<\/td><td>Art. 337-E. Admitir, possibilitar ou dar causa \u00e0 contrata\u00e7\u00e3o direta fora das hip\u00f3teses previstas em lei: Pena &#8211; reclus\u00e3o, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos, e multa.<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<p>O novo tipo penal abrange as mesmas hip\u00f3teses em um tipo penal mais sucinto. Ainda que n\u00e3o tenha havido a reprodu\u00e7\u00e3o do par\u00e1grafo \u00fanico, o artigo 29 do CP leva \u00e0 puni\u00e7\u00e3o de todos os concorrentes para a pr\u00e1tica criminosa.<\/p>\n\n\n\n<p>A pena, que era de deten\u00e7\u00e3o de 3 a 5 anos, al\u00e9m da multa, passou a ser de reclus\u00e3o, de 4 a 8 anos, e multa. Como \u00e9 mais alta a pena da nova lei, s\u00f3 se aplica o preceito secund\u00e1rio aos delitos cometidos ap\u00f3s o in\u00edcio de sua vig\u00eancia. A pena de reclus\u00e3o permite o in\u00edcio de cumprimento em regime fechado e os novos limites, salvo casos espec\u00edficos (como tentativa), impedem a proposta de ANPP.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de o tipo penal anterior n\u00e3o trazer, expressamente, a exig\u00eancia de elemento subjetivo especial do tipo, <strong>o STF e o STJ<\/strong> vinham decidindo ser necess\u00e1rio o \u201c<strong>dolo espec\u00edfico<\/strong>\u201d para a sua caracteriza\u00e7\u00e3o, entendimento que provavelmente ser\u00e1 mantido na vig\u00eancia da nova lei:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Para a responsabiliza\u00e7\u00e3o penal do administrador, com base no art. 89 da Lei de Licita\u00e7\u00f5es e Contratos, cumpre aferir se foram violados os pressupostos de dispensa ou inexigibilidade de licita\u00e7\u00e3o previstos nos arts. 24 e 25 do mesmo diploma, bem como se houve vontade livre e consciente de violar a competi\u00e7\u00e3o e <strong>produzir resultado lesivo ao patrim\u00f4nio p\u00fablico<\/strong>. IV \u2013 No caso concreto, n\u00e3o ficou comprovado o dolo espec\u00edfico da conduta imputada \u00e0 r\u00e9. V \u2013 Embargos infringentes acolhidos para absolver a embargante.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>(STF, AP 946 ED-EI, Relator(a): RICARDO LEWANDOWSKI, Tribunal Pleno, julgado em 30\/08\/2018, AC\u00d3RD\u00c3O ELETR\u00d4NICO DJe-274&nbsp; DIVULG 10-12-2019&nbsp; PUBLIC 11-12-2019)<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O delito do artigo 89 da Lei 8.666\/93 exige, al\u00e9m do dolo gen\u00e9rico \u2013 representado pela vontade consciente de dispensar ou inexigir licita\u00e7\u00e3o fora das hip\u00f3teses legais -, a configura\u00e7\u00e3o do especial fim de agir, consistente no <strong>dolo espec\u00edfico de causar dano ao er\u00e1rio<\/strong>. Desnecess\u00e1rio o efetivo preju\u00edzo patrimonial \u00e0 administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>(STF, AP 580, Relator(a): ROSA WEBER, Primeira Turma, julgado em 13\/12\/2016, AC\u00d3RD\u00c3O ELETR\u00d4NICO DJe-139&nbsp; DIVULG 23-06-2017&nbsp; PUBLIC 26-06-2017)<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAcerca do tema, as Turmas desta Corte Superior especializadas em Direito Penal firmaram a diretriz de que, para a configura\u00e7\u00e3o do crime previsto no art. 89 da Lei 8.666\/1993 [dispensa ou inexigibilidade de licita\u00e7\u00e3o fora das hip\u00f3teses legais] exige-se a presen\u00e7a do <strong>dolo espec\u00edfico de causar dano ao er\u00e1rio<\/strong> e a caracteriza\u00e7\u00e3o do efetivo preju\u00edzo\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>(STJ, AgInt no AREsp 1370933\/MG, Rel. Ministro NAPOLE\u00c3O NUNES MAIA FILHO, PRIMEIRA TURMA, julgado em 11\/11\/2020, DJe 17\/11\/2020)<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda sobre o crime da lei anterior, mas em entendimento aplic\u00e1vel ao novo tipo, o STJ vinha considerando que o fracionamento da licita\u00e7\u00e3o poderia configurar o delito<a href=\"#_ftn2\">[2]<\/a>. O STF e o STJ j\u00e1 entenderam n\u00e3o haver crime se o administrador age com base em parecer da procuradoria jur\u00eddica<a href=\"#_ftn3\">[3]<\/a>. Entretanto, o STF j\u00e1 considerou ser t\u00edpica a conduta se, apesar de se basear em parecer jur\u00eddico, houver ind\u00edcios de desvio de finalidade ou conluio com o parecerista<a href=\"#_ftn4\">[4]<\/a>. Quanto ao parecerista, o STJ j\u00e1 decidiu que o <em>erro jur\u00eddico<\/em> n\u00e3o configura o delito<a href=\"#_ftn5\">[5]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Bitencourt observava, ainda na vig\u00eancia da lei anterior, que o tipo era de m\u00e3o pr\u00f3pria, pois somente o funcion\u00e1rio com atribui\u00e7\u00e3o poderia realizar uma das condutas<a href=\"#_ftn6\">[6]<\/a>. Atualmente, com o n\u00facleo do tipo \u201cpossibilitar\u201d ou \u201cdar causa a\u201d, o melhor entendimento \u00e9 de que o crime passou a ser comum, ainda que o verbo \u201cadmitir\u201d ainda se vincule \u00e0 ideia do funcion\u00e1rio respons\u00e1vel (modalidade de crime pr\u00f3prio).<\/p>\n\n\n\n<p>Eventual crime de <em>falsum<\/em> cometido com o fim de praticar o delito do artigo 337-E do CP deve ser considerado por ele absorvido, se sua potencialidade lesiva nele se exaurir, pelas mesmas raz\u00f5es expostas na S\u00famula 17 do STJ.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre a consuma\u00e7\u00e3o do delito, analisando a lei anterior, Bitencourt, citando tamb\u00e9m Paulo Jos\u00e9 da Costa J\u00fanior, exigia a efetiva contrata\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn7\">[7]<\/a>. Analisando o novo tipo penal, entretanto, compreendo que \u201cadmitir\u201d e \u201cpossibilitar\u201d se consumam com a mera autoriza\u00e7\u00e3o de contrata\u00e7\u00e3o direta, enquanto \u201cdar causa a\u201d \u00e9 modalidade que se consuma apenas com a efetiva contrata\u00e7\u00e3o direta. O crime, assim, poderia ser material ou formal a depender da modalidade. Entretanto, considerando que o entendimento jurisprudencial exige o elemento subjetivo especial de causar preju\u00edzo ao er\u00e1rio, o crime pode ser interpretado como <strong>formal<\/strong>, pois n\u00e3o seria necess\u00e1rio o preju\u00edzo (resultado natural\u00edstico), mas sim essa inten\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 necess\u00e1rio aguardar a interpreta\u00e7\u00e3o doutrin\u00e1ria e jurisprudencial.<\/p>\n\n\n\n<p>O crime \u00e9 doloso, sem previs\u00e3o de modalidade culposa. A jurisprud\u00eancia consolidada exige elemento subjetivo especial do tipo, para al\u00e9m do dolo. \u00c9 plurissubsistente, por ser poss\u00edvel fracionar o <em>iter criminis, <\/em>possibilitando a puni\u00e7\u00e3o pela tentativa (<em>conatus<\/em>). \u00c9 unissubjetivo ou de concurso eventual, al\u00e9m de ser instant\u00e2neo, por se consumar em um momento definido. Classifica-se como crime de forma livre, n\u00e3o tendo a lei fixado formas vinculadas para sua pr\u00e1tica. A a\u00e7\u00e3o penal \u00e9 p\u00fablica incondicionada.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-frustra-o-do-car-ter-competitivo-de-licita-o\"><a><strong>Frustra\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter competitivo de licita\u00e7\u00e3o<\/strong><\/a><strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O artigo 337-F do CP traz o tipo penal de frustra\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter competitivo de licita\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p>Art. 337-F. Frustrar ou fraudar, com o intuito de obter para si ou para outrem vantagem decorrente da adjudica\u00e7\u00e3o do objeto da licita\u00e7\u00e3o, o car\u00e1ter competitivo do processo licitat\u00f3rio:<\/p>\n\n\n\n<p>Pena &#8211; reclus\u00e3o, de 4 (quatro) anos a 8 (oito) anos, e multa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cFrustrar\u201d significa impedir, atrapalhar. \u201cFraudar\u201d significar iludir, atrapalhar, burlar. A conduta incriminada no tipo objetivo \u00e9 de frustrar ou fraudar o car\u00e1ter competitivo do processo licitat\u00f3rio, ou seja, <strong>impedir que haja um procedimento licitat\u00f3rio que cumpra a sua finalidade essencial<\/strong>: encontrar a proposta mais vantajosa para a Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica, conforme os crit\u00e9rios fixados no caso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio que haja dolo e, ainda, <strong>elemento subjetivo especial<\/strong> do tipo, a finalidade de obter para si ou para outrem vantagem decorrente da adjudica\u00e7\u00e3o do objeto da licita\u00e7\u00e3o. Com um elemento subjetivo expresso no tipo, deve-se concluir que o crime \u00e9 <strong>formal<\/strong>. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio que o agente obtenha a vantagem para si ou para outra pessoa, bastando que aja com essa finalidade, com esse prop\u00f3sito.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o caso de os licitantes fazerem um conluio entre si nas licita\u00e7\u00f5es de determinado Munic\u00edpio, com conhecimento pr\u00e9vio das respectivas propostas e rod\u00edzio entre eles para obterem contrata\u00e7\u00f5es pelo valor que definem previamente entre si.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 v\u00e1rios n\u00facleos do tipo, tratando-se de <strong>tipo misto alternativo<\/strong> ou de conte\u00fado variado. Ainda que o agente frustre e fraude o mesmo procedimento, haver\u00e1 um \u00fanico crime.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre a vantagem, cab\u00edveis as considera\u00e7\u00f5es de Bitencourt sobre o tipo penal da lei anterior, j\u00e1 que se repetiram os mesmos termos. O autor j\u00e1 defendia que a vantagem poderia ou n\u00e3o ser econ\u00f4mica, mas que o preju\u00edzo alheio, em raz\u00e3o do bem jur\u00eddico violado, deveria ser suscet\u00edvel de aprecia\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica<a href=\"#_ftn8\">[8]<\/a>. Com raz\u00e3o o autor. A vantagem pode n\u00e3o ser economicamente apreci\u00e1vel, j\u00e1 que a lei n\u00e3o restringe. Pode, por exemplo, levar \u00e0 lideran\u00e7a do licitante no mercado na localidade, com maior volume de vendas. Entretanto, a vantagem obtida deve ter o potencial de causar danos ao er\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>A conduta estava incriminada no artigo 90 da Lei 8.666\/93:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table\"><table><tbody><tr><td><strong>Lei 8.666\/93<\/strong><\/td><td><strong>C\u00f3digo Penal (Lei 14.133\/2021)<\/strong><strong><\/strong><\/td><\/tr><tr><td>Art. 90.&nbsp; Frustrar ou fraudar, <strong>mediante ajuste, combina\u00e7\u00e3o ou qualquer outro expediente<\/strong>, o car\u00e1ter competitivo do <strong>procedimento<\/strong> licitat\u00f3rio, com o intuito de obter, para si ou para outrem, vantagem decorrente da adjudica\u00e7\u00e3o do objeto da licita\u00e7\u00e3o:&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pena &#8211; deten\u00e7\u00e3o, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos, e multa<\/td><td>Art. 337-F. Frustrar ou fraudar, com o intuito de obter para si ou para outrem vantagem decorrente da adjudica\u00e7\u00e3o do objeto da licita\u00e7\u00e3o, o car\u00e1ter competitivo do <strong>processo<\/strong> licitat\u00f3rio: Pena &#8211; reclus\u00e3o, de 4 (quatro) anos a 8 (oito) anos, e multa.<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<p>Nesse caso, o preceito prim\u00e1rio passou simplesmente por uma reorganiza\u00e7\u00e3o, sem modifica\u00e7\u00f5es substanciais. Houve, contudo, a supress\u00e3o da express\u00e3o \u201cmediante ajuste, combina\u00e7\u00e3o ou qualquer outro expediente\u201d, o que torna inaplic\u00e1vel o entendimento anterior, de Bitencourt, de que o crime era de concurso necess\u00e1rio se o meio fosse o ajuste ou a combina\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn9\">[9]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>O preceito secund\u00e1rio, por sua vez, se tornou mais gravoso ao r\u00e9u, raz\u00e3o pela qual s\u00f3 vale para as condutas praticadas ap\u00f3s o in\u00edcio de vig\u00eancia da nova lei. A pena era de deten\u00e7\u00e3o, de 2 a 4 anos, e multa. Passou a ser de 4 a 8 anos de reclus\u00e3o e multa, o que representa o <strong>dobro da pena anterior<\/strong>, al\u00e9m da modifica\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie de pena para reclus\u00e3o, com possibilidade de regime inicial fechado.<\/p>\n\n\n\n<p>A consuma\u00e7\u00e3o ocorre com a efetiva frustra\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter competitivo do processo licitat\u00f3rio, raz\u00e3o pela qual Bitencourt considera o crime material<a href=\"#_ftn10\">[10]<\/a>. Entretanto, do ponto de vista da obten\u00e7\u00e3o de vantagem, pode-se defender que \u00e9 formal, de modo que a sua obten\u00e7\u00e3o seria mero exaurimento do crime. Al\u00e9m disso, admite-se a tentativa, caso o agente busque fraudar, mas seu estratagema seja descoberto antes de finalizado o procedimento, por exemplo. No mesmo sentido, quanto ao tipo anterior:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A natureza <strong>formal<\/strong> da conduta descrita no art. 90 da Lei 8.666\/93 dispensa a demonstra\u00e7\u00e3o de preju\u00edzo ou dano aos cofres p\u00fablicos. Basta a comprova\u00e7\u00e3o da fraude para se configurar o crime em quest\u00e3o.&#8221; (STJ, AgRg no AREsp 1003485\/BA, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, QUINTA TURMA, julgado em 16\/03\/2021, DJe 19\/03\/2021)<\/p>\n\n\n\n<p>O crime \u00e9 comum, n\u00e3o exigindo qualidade espec\u00edfica do sujeito ativo. \u00c9 doloso, com exig\u00eancia expressa de elemento subjetivo especial do tipo. N\u00e3o h\u00e1 previs\u00e3o de modalidade culposa. \u00c9 instant\u00e2neo, de forma livre, comissivo, unissubjetivo e plurissubsistente, admitindo a modalidade tentada.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-patroc-nio-de-contrata-o-indevida\"><a><strong>Patroc\u00ednio de contrata\u00e7\u00e3o indevida<\/strong><\/a><strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O artigo 337-G do CP traz o tipo penal de patroc\u00ednio da contrata\u00e7\u00e3o indevida:<\/p>\n\n\n\n<p>Art. 337-G. Patrocinar, direta ou indiretamente, interesse privado perante a Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica, dando causa \u00e0 instaura\u00e7\u00e3o de licita\u00e7\u00e3o ou \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o de contrato cuja invalida\u00e7\u00e3o vier a ser decretada pelo Poder Judici\u00e1rio:<\/p>\n\n\n\n<p>Pena &#8211; reclus\u00e3o, de 6 (seis) meses a 3 (tr\u00eas) anos, e multa.<\/p>\n\n\n\n<p>Cuida-se de <strong>modalidade especial do crime de advocacia administrativa<\/strong>, previsto no artigo 321 do CP. Al\u00e9m da forma especial do artigo 3\u00ba, III, da Lei 8.137\/90, aplic\u00e1vel aos crimes contra a Administra\u00e7\u00e3o Fazend\u00e1ria, h\u00e1 o tipo do artigo 337-G, que, ao substituir o artigo 91 da Lei 8.666\/93, prev\u00ea uma modalidade especial aplic\u00e1vel se o patroc\u00ednio do agente se voltar \u00e0 instaura\u00e7\u00e3o de licita\u00e7\u00e3o ou \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o de contrato cuja invalida\u00e7\u00e3o vier a ser decretada judicialmente. <a>Pode-se apontar, ainda, uma outra norma especial no artigo 8\u00ba, \u00a7 3\u00ba, da Lei 12.529\/2011.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>O sujeito ativo deve ser o <strong>funcion\u00e1rio p\u00fablico<a href=\"#_ftn11\"><strong>[11]<\/strong><\/a><\/strong>, o que \u00e9 da pr\u00f3pria natureza da advocacia administrativa<a href=\"#_ftn12\">[12]<\/a>, crime essencialmente funcional. A conduta incriminada, claramente, n\u00e3o se refere ao advogado, mas \u00e0 atividade de, valendo-se da qualidade de funcion\u00e1rio p\u00fablico, patrocinar interesse privado perante a Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica no \u00e2mbito de licita\u00e7\u00e3o e contratos administrativos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cPatrocinar\u201d<\/strong> significa favorecer, amparar, conceder prote\u00e7\u00e3o a. O que se pune \u00e9 o agente defender interesse privado, mas valendo-se de sua qualidade, ou seja, de suas fun\u00e7\u00f5es, do seu cargo. O patroc\u00ednio pode ser <strong>direto<\/strong>, ou seja, realizado pelo pr\u00f3prio funcion\u00e1rio p\u00fablico, ou <strong>indireto<\/strong>, valendo-se de um intermedi\u00e1rio. O interesse pode ser <strong>leg\u00edtimo ou ileg\u00edtimo<\/strong>, n\u00e3o tendo havido restri\u00e7\u00e3o na lei. No caso da advocacia administrativa do artigo 321 do CP, vale lembrar que a ilegitimidade do interesse qualifica o crime, o que refor\u00e7a que o legislador n\u00e3o restringiu a incrimina\u00e7\u00e3o aos casos de interesse ileg\u00edtimo<a href=\"#_ftn13\">[13]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio, nessa modalidade de advocacia administrativa, que o patroc\u00ednio <strong>d\u00ea causa \u00e0 instaura\u00e7\u00e3o de licita\u00e7\u00e3o ou \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o de contrato<\/strong>. Assim, exigindo-se o resultado natural\u00edstico para sua consuma\u00e7\u00e3o, o crime \u00e9 material<a href=\"#_ftn14\">[14]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Existe, ainda, a necessidade de que a licita\u00e7\u00e3o ou o contrato sejam <strong>invalidados pelo Poder Judici\u00e1rio<\/strong>. Constitui essa exig\u00eancia uma <strong>condi\u00e7\u00e3o objetiva de punibilidade<a href=\"#_ftn15\"><strong>[15]<\/strong><\/a><\/strong>, impossibilitando o nascimento do poder de punir do Estado enquanto n\u00e3o houver a invalida\u00e7\u00e3o judicial. Na vig\u00eancia da lei anterior, o STJ j\u00e1 decidiu n\u00e3o haver justa causa para a a\u00e7\u00e3o penal quando o Judici\u00e1rio suspendeu o ato, que foi invalidado n\u00e3o por ele, mas pela Administra\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn16\">[16]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>A conduta era incriminada anteriormente no artigo 91 da Lei 8.666\/93, tendo havido perfeita continuidade normativo-t\u00edpica:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table\"><table><tbody><tr><td><strong>Lei 8.666\/93<\/strong><\/td><td><strong>C\u00f3digo Penal (Lei 14.133\/2021)<\/strong><strong><\/strong><\/td><\/tr><tr><td>Art. 91.&nbsp; Patrocinar, direta ou indiretamente, interesse privado perante a Administra\u00e7\u00e3o, dando causa \u00e0 instaura\u00e7\u00e3o de licita\u00e7\u00e3o ou \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o de contrato, cuja invalida\u00e7\u00e3o vier a ser decretada pelo Poder Judici\u00e1rio:&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pena &#8211; deten\u00e7\u00e3o, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa.&nbsp;<\/td><td>Art. 337-G. Patrocinar, direta ou indiretamente, interesse privado perante a Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica, dando causa \u00e0 instaura\u00e7\u00e3o de licita\u00e7\u00e3o ou \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o de contrato cuja invalida\u00e7\u00e3o vier a ser decretada pelo Poder Judici\u00e1rio: Pena &#8211; reclus\u00e3o, de 6 (seis) meses a 3 (tr\u00eas) anos, e multa.<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<p>Nesse caso, o preceito prim\u00e1rio \u00e9 id\u00eantico ao da lei revogada, com exatamente os mesmos termos.<\/p>\n\n\n\n<p>O preceito secund\u00e1rio traz uma san\u00e7\u00e3o mais grave, ao aumentar o limite m\u00e1ximo da pena e a sua modalidade. Antes, al\u00e9m da multa, a pena era de deten\u00e7\u00e3o, de 6 meses a 2 anos, passando para a reclus\u00e3o, de 6 meses a 3 anos. A nova san\u00e7\u00e3o penal s\u00f3 se aplica aos casos praticados ap\u00f3s a entrada em vigor da nova lei. Cabe, em regra, tanto o acordo de n\u00e3o persecu\u00e7\u00e3o penal quanto a suspens\u00e3o condicional do processo.<\/p>\n\n\n\n<p>O crime \u00e9 pr\u00f3prio, por exigir a qualidade de funcion\u00e1rio p\u00fablico para a sua pr\u00e1tica. \u00c9 doloso, sem previs\u00e3o de modalidade culposa. \u00c9 material, por exigir que se d\u00ea causa \u00e0 instaura\u00e7\u00e3o da licita\u00e7\u00e3o ou \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o de contrato. \u00c9 de forma livre, plurissubsistente, unissubjetivo e instant\u00e2neo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-modifica-o-ou-pagamento-irregular-em-contrato-administrativo\"><a><strong>Modifica\u00e7\u00e3o ou Pagamento Irregular em Contrato Administrativo<\/strong><\/a><strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O artigo 337-H do CP traz o tipo penal de modifica\u00e7\u00e3o ou pagamento irregular em contrato administrativo:<\/p>\n\n\n\n<p>Art. 337-H. Admitir, possibilitar ou dar causa a qualquer modifica\u00e7\u00e3o ou vantagem, inclusive prorroga\u00e7\u00e3o contratual, em favor do contratado, durante a execu\u00e7\u00e3o dos contratos celebrados com a Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica, sem autoriza\u00e7\u00e3o em lei, no edital da licita\u00e7\u00e3o ou nos respectivos instrumentos contratuais, ou, ainda, pagar fatura com preteri\u00e7\u00e3o da ordem cronol\u00f3gica de sua exigibilidade:<\/p>\n\n\n\n<p>Pena &#8211; reclus\u00e3o, de 4 (quatro) anos a 8 (oito) anos, e multa.<\/p>\n\n\n\n<p>A <strong><u>primeira figura<\/u><\/strong> incriminada \u00e9 a de <strong>modifica\u00e7\u00e3o irregular de contrato administrativo<\/strong>. \u201cAdmitir\u201d \u00e9 aceitar, consentir, deferir, permitir. \u201cPossibilitar\u201d \u00e9 tornar poss\u00edvel, ensejar, facilitar. \u201cDar causa a\u201d \u00e9 originar, motivar, provocar. A conduta incriminada \u00e9 concorrer para qualquer modifica\u00e7\u00e3o ou vantagem, inclusive prorroga\u00e7\u00e3o contratual, em favor do contratado, durante a execu\u00e7\u00e3o dos contratos celebrados com a Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa figura delitiva exige o <strong>elemento normativo do tipo<\/strong>, consistente na seguinte express\u00e3o: \u201csem autoriza\u00e7\u00e3o em lei, no edital da licita\u00e7\u00e3o ou nos respectivos instrumentos contratuais\u201d. Se a conduta for permitida pela lei, pelo edital ou pelo contrato, obviamente ser\u00e1 penalmente at\u00edpica.<\/p>\n\n\n\n<p>O tipo penal se contenta com a modifica\u00e7\u00e3o ou vantagem obtida de forma ilegal, mas Bitencourt j\u00e1 defendia que seria necess\u00e1ria, em qualquer hip\u00f3tese, a vantagem para o contratado, raz\u00e3o pela qual todas as modalidades seriam, para ele, classificadas como casos de crime material<a href=\"#_ftn17\">[17]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>A <strong><u>segunda figura<\/u><\/strong> incriminada \u00e9 a de <strong>pagamento irregular de contrato administrativo<\/strong>. Pagar \u00e9 entregar a quantia devida. A conduta incriminada \u00e9 pagar fatura com preteri\u00e7\u00e3o da ordem cronol\u00f3gica de sua exigibilidade, ou seja, favorecer determinado contratado pela Administra\u00e7\u00e3o, violando a impessoalidade. Ao exigir o efetivo pagamento, deve ser considerado crime material.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa figura, de pagamento irregular, configura uma norma penal em branco, que, durante dois anos a partir da vig\u00eancia da Lei 14.133\/2021, parece ser pass\u00edvel de complementa\u00e7\u00e3o pela Lei 8.666\/93 ou pela Lei 14.133\/2021.&nbsp; Com o fim desse per\u00edodo, ser\u00e1 complementada pelo artigo 141 da Lei 14.133\/2021, que prev\u00ea as regras sobre a ordem cronol\u00f3gica de pagamento pela Administra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Os n\u00facleos da primeira figura (admitir, possibilitar ou dar causa) formam, <strong>apenas entre si<\/strong>, um <strong>tipo misto alternativo<\/strong>, de modo que a pr\u00e1tica de mais de uma conduta enseja a configura\u00e7\u00e3o de crime \u00fanico. Entretanto, a combina\u00e7\u00e3o de uma dessas condutas com a segunda figura, de pagamento irregular, implica <strong>concurso de crimes<\/strong>, dada a diferencia\u00e7\u00e3o dos objetivos a que se referem os respectivos n\u00facleos do tipo.<\/p>\n\n\n\n<p>A conduta era incriminada anteriormente no artigo 92 da Lei 8.666\/93, tendo havido continuidade normativo-t\u00edpica:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table\"><table><tbody><tr><td><strong>Lei 8.666\/93<\/strong><\/td><td><strong>C\u00f3digo Penal (Lei 14.133\/2021)<\/strong><strong><\/strong><\/td><\/tr><tr><td>Art. 92.&nbsp; Admitir, possibilitar ou dar causa a qualquer modifica\u00e7\u00e3o ou vantagem, inclusive prorroga\u00e7\u00e3o contratual, em favor do adjudicat\u00e1rio, durante a execu\u00e7\u00e3o dos contratos celebrados com o Poder P\u00fablico, sem autoriza\u00e7\u00e3o em lei, <strong>no ato convocat\u00f3rio da licita\u00e7\u00e3o<\/strong> ou nos respectivos instrumentos contratuais, ou, ainda, pagar fatura com preteri\u00e7\u00e3o da ordem cronol\u00f3gica de sua exigibilidade, <strong>observado o disposto no art. 121 desta Lei<\/strong>:&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pena &#8211; deten\u00e7\u00e3o, de dois a quatro anos, e multa.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Par\u00e1grafo \u00fanico.&nbsp; Incide na mesma pena o contratado que, tendo comprovadamente concorrido para a consuma\u00e7\u00e3o da ilegalidade, obt\u00e9m vantagem indevida ou se beneficia, injustamente, das modifica\u00e7\u00f5es ou prorroga\u00e7\u00f5es contratuais<\/td><td>Art. 337-H. Admitir, possibilitar ou dar causa a qualquer modifica\u00e7\u00e3o ou vantagem, inclusive prorroga\u00e7\u00e3o contratual, em favor do contratado, durante a execu\u00e7\u00e3o dos contratos celebrados com a Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica, sem autoriza\u00e7\u00e3o em lei, <strong>no edital da licita\u00e7\u00e3o <\/strong>ou nos respectivos instrumentos contratuais, ou, ainda, pagar fatura com preteri\u00e7\u00e3o da ordem cronol\u00f3gica de sua exigibilidade: Pena &#8211; reclus\u00e3o, de 4 (quatro) anos a 8 (oito) anos, e multa.<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<p>O novo tipo penal abrange as mesmas hip\u00f3teses. Foi exclu\u00edda a refer\u00eancia ao artigo 121 da Lei 8.666\/93, que fazia refer\u00eancia \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o daquela lei a licita\u00e7\u00f5es e contratos anteriores \u00e0 sua vig\u00eancia. A express\u00e3o \u201cno ato convocat\u00f3rio da licita\u00e7\u00e3o\u201d foi trocada por \u201cno edital da licita\u00e7\u00e3o\u201d, o que n\u00e3o modifica o seu conte\u00fado. Ademais, ainda que n\u00e3o tenha havido a reprodu\u00e7\u00e3o do par\u00e1grafo \u00fanico, o artigo 29 do CP leva \u00e0 puni\u00e7\u00e3o de todos os concorrentes para a pr\u00e1tica criminosa.<\/p>\n\n\n\n<p>O preceito secund\u00e1rio foi modificado, com a pena de deten\u00e7\u00e3o modificada para reclus\u00e3o, al\u00e9m de a pena passar a ser de 4 a 8 anos, al\u00e9m da multa, o que representa o <strong>dobro<\/strong> da san\u00e7\u00e3o anterior. Em regra, n\u00e3o cabe ANPP.<\/p>\n\n\n\n<p>Bitencourt defendia, na vig\u00eancia da lei anterior, que o tipo era pr\u00f3prio em todas as hip\u00f3teses, s\u00f3 podendo ser praticado pelo funcion\u00e1rio p\u00fablico, enquanto o par\u00e1grafo \u00fanico (extinto na nova lei) se referia \u00e0 participa\u00e7\u00e3o do particular<a href=\"#_ftn18\">[18]<\/a>. Entretanto, em rela\u00e7\u00e3o aos n\u00facleos do tipo \u201cpossibilitar\u201d ou \u201cdar causa a\u201d da figura de <strong>modifica\u00e7\u00e3o irregular<\/strong>, o melhor entendimento parece ser de que o crime \u00e9 comum, ainda que o n\u00facleo \u201cadmitir\u201d se vincule \u00e0 ideia do funcion\u00e1rio p\u00fablico que tem o poder de admitir a modifica\u00e7\u00e3o contratual (modalidade de crime pr\u00f3prio). Quanto \u00e0 figura do <strong>pagamento irregular<\/strong>, o crime \u00e9 pr\u00f3prio.<\/p>\n\n\n\n<p>O crime \u00e9 doloso, sem exig\u00eancia de elemento subjetivo especial do tipo. O crime \u00e9, ainda, unissubjetivo, de forma livre, instant\u00e2neo e plurrissubsitente.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-perturba-o-de-processo-licitat-rio\"><a><strong>Perturba\u00e7\u00e3o de processo licitat\u00f3rio<\/strong><\/a><strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O artigo 337-I do CP traz o tipo penal de perturba\u00e7\u00e3o de processo licitat\u00f3rio:<\/p>\n\n\n\n<p>Art. 337-I. Impedir, perturbar ou fraudar a realiza\u00e7\u00e3o de qualquer ato de processo licitat\u00f3rio:<\/p>\n\n\n\n<p>Pena &#8211; deten\u00e7\u00e3o, de 6 (seis) meses a 3 (tr\u00eas) anos, e multa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cImpedir\u201d \u00e9 impor obst\u00e1culo, obstruir, obstar. \u201cPerturbar\u201d \u00e9 estorvar, embara\u00e7ar. \u201cFraudar\u201d \u00e9 empregar ardil, usar engodo. A conduta incriminada \u00e9 atrapalhar a realiza\u00e7\u00e3o de qualquer ato de processo licitat\u00f3rio. Qualquer pessoa pode praticar o crime, inclusive o funcion\u00e1rio p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>O tipo penal \u00e9 extremamente amplo, de modo que qualquer conduta apta a impedir, perturbar ou fraudar a realiza\u00e7\u00e3o do ato referente \u00e0 licita\u00e7\u00e3o j\u00e1 configurar\u00e1 o crime. Cuida-se de tipo misto alternativo.<\/p>\n\n\n\n<p>Exigindo-se o efetivo impedimento, perturba\u00e7\u00e3o ou fraude, o crime deve ser considerado material, consumando-se quando atingido um desses resultados. Bitencourt, na an\u00e1lise do tipo similar da lei revogada, defendia que o delito seria de mera conduta na modalidade de perturbar, de modo que, quanto a esse n\u00facleo do tipo, a tentativa seria de dif\u00edcil configura\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn19\">[19]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>A conduta era incriminada anteriormente no artigo 93 da Lei 8.666\/93, com mudan\u00e7a, no preceito prim\u00e1rio, apenas do termo <em>procedimento<\/em> para a palavra <em>processo<\/em>:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table\"><table><tbody><tr><td><strong>Lei 8.666\/93<\/strong><\/td><td><strong>C\u00f3digo Penal (Lei 14.133\/2021)<\/strong><strong><\/strong><\/td><\/tr><tr><td>Art. 93.&nbsp; Impedir, perturbar ou fraudar a realiza\u00e7\u00e3o de qualquer ato de <strong>procedimento<\/strong> licitat\u00f3rio:&nbsp;&nbsp; Pena &#8211; deten\u00e7\u00e3o, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa.&nbsp;&nbsp;<\/td><td>Art. 337-I. Impedir, perturbar ou fraudar a realiza\u00e7\u00e3o de qualquer ato de <strong>processo<\/strong> licitat\u00f3rio: Pena &#8211; deten\u00e7\u00e3o, de 6 (seis) meses a 3 (tr\u00eas) anos, e multa.<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<p>O preceito secund\u00e1rio manteve a pena de deten\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 uma das exce\u00e7\u00f5es no caso da Lei 14.133\/2021. Entretanto, o limite m\u00e1ximo passou de 2 anos de deten\u00e7\u00e3o para 3 anos de deten\u00e7\u00e3o, mantido o limite m\u00ednimo de 6 meses e a comina\u00e7\u00e3o cumulativa da pena de multa. Por isso, s\u00f3 se aplica a san\u00e7\u00e3o penal do artigo 337-I \u00e0s condutas praticadas ap\u00f3s o in\u00edcio da vig\u00eancia da Lei que o inseriu ao C\u00f3digo Penal.<\/p>\n\n\n\n<p>O crime \u00e9 comum, por n\u00e3o exigir qualidade espec\u00edfica do sujeito ativo para sua configura\u00e7\u00e3o. \u00c9 doloso, sem previs\u00e3o de modalidade culposa. \u00c9 instant\u00e2neo, comissivo, unissubjetivo e de forma livre.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-viola-o-de-sigilo-em-licita-o\"><a><strong>Viola\u00e7\u00e3o de Sigilo em Licita\u00e7\u00e3o<\/strong><\/a><strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O artigo 337-J do CP prev\u00ea o crime de viola\u00e7\u00e3o de sigilo em licita\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p>Art. 337-J. Devassar o sigilo de proposta apresentada em processo licitat\u00f3rio ou proporcionar a terceiro o ensejo de devass\u00e1-lo:<\/p>\n\n\n\n<p>Pena &#8211; deten\u00e7\u00e3o, de 2 (dois) anos a 3 (tr\u00eas) anos, e multa.<\/p>\n\n\n\n<p>O tipo penal, misto alternativo, prev\u00ea as condutas de \u201cdevassar\u201d (fazer conhecer, perscrutar, corromper) e de \u201cproporcionar\u201d (dar a oportunidade de, propiciar, oferecer). A conduta incriminada \u00e9 de quebrar o sigilo ou propiciar que um terceiro o quebre.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A conduta pode ser praticada por qualquer pessoa, funcion\u00e1rio p\u00fablico ou n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A Lei 14.133\/2021 prev\u00ea, em seu artigo 13, par\u00e1grafo \u00fanico, inciso I, o diferimento da publicidade do conte\u00fado das propostas at\u00e9 a respectiva abertura, o que visa, obviamente, a manter o car\u00e1ter competitivo do processo. Esse sigilo se aplica ao modo de disputa fechado, nos termos do artigo 56, II, da referida lei. Como a antiga lei, a de n. 8.666\/93, ser\u00e1 aplic\u00e1vel, concomitantemente como a nova, por dois anos, vale recordar que, nesta \u00faltima o assunto \u00e9 regulado pelo artigo 3\u00ba, \u00a7 3\u00ba.<\/p>\n\n\n\n<p>A conduta era incriminada anteriormente no artigo 94 da Lei 8.666\/93, com mudan\u00e7a, no preceito prim\u00e1rio, apenas do termo <em>procedimento<\/em> para a palavra <em>processo<\/em>:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table\"><table><tbody><tr><td><strong>Lei 8.666\/93<\/strong><\/td><td><strong>C\u00f3digo Penal (Lei 14.133\/2021)<\/strong><strong><\/strong><\/td><\/tr><tr><td>Art. 94.&nbsp; Devassar o sigilo de proposta apresentada em <strong>procedimento<\/strong> licitat\u00f3rio, ou proporcionar a terceiro o ensejo de devass\u00e1-lo:&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pena &#8211; deten\u00e7\u00e3o, de 2 (dois) a 3 (tr\u00eas) anos, e multa.<\/td><td>Art. 337-J. Devassar o sigilo de proposta apresentada em <strong>processo<\/strong> licitat\u00f3rio ou proporcionar a terceiro o ensejo de devass\u00e1-lo: Pena &#8211; deten\u00e7\u00e3o, de 2 (dois) anos a 3 (tr\u00eas) anos, e multa.<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<p>O preceito secund\u00e1rio manteve a pena de deten\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 uma das exce\u00e7\u00f5es no caso da Lei 14.133\/2021, bem como o mesmo <em>quantum<\/em> de pena privativa de liberdade, que \u00e9 de 2 a 3 anos, al\u00e9m da multa.<\/p>\n\n\n\n<p>Se considerado o resultado como o preju\u00edzo para a Administra\u00e7\u00e3o, o crime \u00e9 sempre formal, por n\u00e3o o exigir. Entretanto, Bitencourt considera o crime material na modalidade de devassar, por exigir a quebra do sigilo, e formal na modalidade de proporcionar a terceiro o ensejo de devass\u00e1-lo, por n\u00e3o exigir, nessa modalidade, o efetivo conhecimento do conte\u00fado sigiloso pelo terceiro<a href=\"#_ftn20\">[20]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>O crime \u00e9 comum, unissubjetivo e plurissubsistente, admitindo a tentativa. \u00c9, ainda, comissivo, instant\u00e2neo e doloso, sem previs\u00e3o de modalidade culposa nem exig\u00eancia de elemento subjetivo especial.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-afastamento-de-licitante\"><a><strong>Afastamento de Licitante<\/strong><\/a><strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O artigo 337-K do CP traz o tipo penal de afastamento de licitante:<\/p>\n\n\n\n<p>Art. 337-K. Afastar ou tentar afastar licitante por meio de viol\u00eancia, grave amea\u00e7a, fraude ou oferecimento de vantagem de qualquer tipo:<\/p>\n\n\n\n<p>Pena &#8211; reclus\u00e3o, de 3 (tr\u00eas) anos a 5 (cinco) anos, e multa, al\u00e9m da pena correspondente \u00e0 viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Par\u00e1grafo \u00fanico. Incorre na mesma pena quem se abst\u00e9m ou desiste de licitar em raz\u00e3o de vantagem oferecida.<\/p>\n\n\n\n<p>O tipo penal possui dois n\u00facleos, que equiparam a forma tentada e a consumada, o que leva \u00e0 classifica\u00e7\u00e3o do delito como de atentado ou de mero empreendimento. O n\u00facleo do tipo \u00e9 \u201cafastar\u201d, o que significa remover, impedir a participa\u00e7\u00e3o. A conduta incriminada \u00e9 afastar ou tentar afastar o licitante, o que pode ocorrer por qualquer um dos seguintes meios:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li><strong>Viol\u00eancia<\/strong>: cuida-se da for\u00e7a f\u00edsica, a <em>vis absoluta<\/em>;<\/li><li><strong>Grave amea\u00e7a<\/strong>: \u00e9 a promessa de um mal grave, a <em>vis relativa<\/em>;<\/li><li><strong>Fraude<\/strong>: \u00e9 o engodo, o artif\u00edcio apto a afastar o licitante, por induzi-lo a erro;<\/li><li><strong>Oferecimento de vantagem de qualquer tipo<\/strong>: \u00e9 o suborno ou a corrup\u00e7\u00e3o do particular, com qualquer vantagem (econ\u00f4mica, sexual, etc.) para que n\u00e3o participe da licita\u00e7\u00e3o.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>O par\u00e1grafo \u00fanico traz uma <strong>modalidade equiparada<\/strong>, ao determinar a puni\u00e7\u00e3o de quem se abst\u00e9m ou desiste de licitar, em raz\u00e3o da <strong>vantagem oferecida<\/strong>. Assim, se o particular se corromper, aceitando a vantagem para se afastar da licita\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 punido com as mesmas penas de quem lhe ofereceu essa vantagem, que pode ser de qualquer natureza. Por outro lado, caso o particular sofra viol\u00eancia ou grave amea\u00e7a ou, ainda, seja induzido a erro pela fraude do agente, ele ser\u00e1 v\u00edtima do delito, n\u00e3o podendo ser punido por isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Anteriormente, a conduta possu\u00eda previs\u00e3o no artigo 95 da Lei 8.666\/93, tendo havido a troca, no preceito prim\u00e1rio, da express\u00e3o <strong>procurar afastar<\/strong> por <strong>tentar afastar<\/strong>, mais apropriada tecnicamente:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table\"><table><tbody><tr><td><strong>Lei 8.666\/93<\/strong><\/td><td><strong>C\u00f3digo Penal (Lei 14.133\/2021)<\/strong><strong><\/strong><\/td><\/tr><tr><td>Art. 95.&nbsp; Afastar ou <strong>procurar<\/strong> afastar licitante, por meio de viol\u00eancia, grave amea\u00e7a, fraude ou oferecimento de vantagem de qualquer tipo:&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pena &#8211; deten\u00e7\u00e3o, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos, e multa, al\u00e9m da pena correspondente \u00e0 viol\u00eancia. Par\u00e1grafo \u00fanico.&nbsp; Incorre na mesma pena quem se abst\u00e9m ou desiste de licitar, em raz\u00e3o da vantagem oferecida.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/td><td>Art. 337-K. Afastar ou <strong>tentar<\/strong> afastar licitante por meio de viol\u00eancia, grave amea\u00e7a, fraude ou oferecimento de vantagem de qualquer tipo: Pena &#8211; reclus\u00e3o, de 3 (tr\u00eas) anos a 5 (cinco) anos, e multa, al\u00e9m da pena correspondente \u00e0 viol\u00eancia. Par\u00e1grafo \u00fanico. Incorre na mesma pena quem se abst\u00e9m ou desiste de licitar em raz\u00e3o de vantagem oferecida.<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<p>O preceito secund\u00e1rio sofreu altera\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que a pena passou de deten\u00e7\u00e3o para reclus\u00e3o. Al\u00e9m disso, os seus limites passaram de 2 a 4 anos para 3 a 5 anos, impossibilitando, em regra, o oferecimento de ANPP. Comina-se, cumulativamente, pena de multa. No caso de viol\u00eancia, a pena correspondente tamb\u00e9m deve ser aplicada, o que deve ser interpretado como determina\u00e7\u00e3o de c\u00famulo material (o concurso pode ser material ou formal impr\u00f3prio). As vias de fato devem ser absorvidas, havendo o c\u00famulo de penas no caso de les\u00e3o corporal.<\/p>\n\n\n\n<p>Classifica-se o crime como comum, por n\u00e3o exigir nenhuma qualidade espec\u00edfica do sujeito ativo. Al\u00e9m disso, \u00e9 formal, instant\u00e2neo, comissivo e unissubjetivo. A conduta \u00e9 fracion\u00e1vel, sendo considerado, por Bitencourt, plurissubsistente<a href=\"#_ftn21\">[21]<\/a>. Entretanto, vale recordar que a tentativa foi equiparada \u00e0 forma consumada, de modo que n\u00e3o h\u00e1 como se falar em <em>conatus<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-fraude-em-licita-o-ou-contrato-administrativo\"><a><strong>Fraude em Licita\u00e7\u00e3o ou Contrato Administrativo<\/strong><\/a><strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O artigo 337-L do CP tipifica a fraude em licita\u00e7\u00e3o ou contrato administrativo:<\/p>\n\n\n\n<p>Art. 337-L. Fraudar, em preju\u00edzo da Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica, licita\u00e7\u00e3o ou contrato dela decorrente, mediante:<\/p>\n\n\n\n<p>I &#8211; entrega de mercadoria ou presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os com qualidade ou em quantidade diversas das previstas no edital ou nos instrumentos contratuais;<\/p>\n\n\n\n<p>II &#8211; fornecimento, como verdadeira ou perfeita, de mercadoria falsificada, deteriorada, inserv\u00edvel para consumo ou com prazo de validade vencido;<\/p>\n\n\n\n<p>III &#8211; entrega de uma mercadoria por outra;<\/p>\n\n\n\n<p>IV &#8211; altera\u00e7\u00e3o da subst\u00e2ncia, qualidade ou quantidade da mercadoria ou do servi\u00e7o fornecido;<\/p>\n\n\n\n<p>V &#8211; qualquer meio fraudulento que torne injustamente mais onerosa para a Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica a proposta ou a execu\u00e7\u00e3o do contrato:<\/p>\n\n\n\n<p>Pena &#8211; reclus\u00e3o, de 4 (quatro) anos a 8 (oito) anos, e multa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<strong>Fraudar<\/strong>\u201d significar iludir, atrapalhar, burlar. A fraude deve ocorrer <strong>em preju\u00edzo da Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica, licita\u00e7\u00e3o ou contrato dela decorrente<\/strong>. Al\u00e9m disso, o tipo penal \u00e9 de <strong>forma vinculada<\/strong>, de modo que haver\u00e1 crime se a fraude ocorrer mediante uma das seguintes condutas:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li><strong>entrega de mercadoria ou presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os com qualidade ou em quantidade diversas das previstas no edital ou nos instrumentos contratuais<\/strong>;<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Essa modalidade de pr\u00e1tica do delito substituiu uma previs\u00e3o bem diferente da Lei 8.666\/93: \u201celevando arbitrariamente os pre\u00e7os\u201d. Configura-se se o contratante modificar a qualidade ou quantidade da mercadoria ou servi\u00e7o, de modo a fraudar a licita\u00e7\u00e3o ou contrata\u00e7\u00e3o. Pode-se antever alguma dificuldade para se considerar a qualidade diferenciada, o que pode determinar a realiza\u00e7\u00e3o de per\u00edcia<a href=\"#_ftn22\">[22]<\/a>. Caso n\u00e3o tenha havido eleva\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria de pre\u00e7os, \u00e9 poss\u00edvel cogitar de <em>abolitio criminis<\/em>, desde que o caso n\u00e3o se enquadre em alguma outra hip\u00f3tese.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li><strong>fornecimento, como verdadeira ou perfeita, de mercadoria falsificada, deteriorada, inserv\u00edvel para consumo ou com prazo de validade vencido<\/strong>;<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>O fornecimento de mercadoria falsificada ou deteriorada, como se fosse verdadeira ou perfeita, j\u00e1 estava previsto na lei anterior. Entretanto, \u00e9 <em>novatio legis<\/em> incriminadora quanto ao fornecimento de mercadoria inserv\u00edvel para o consumo ou com prazo de validade vencido, salvo se a conduta se inserisse em outro incido da lei antiga.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li><strong>entrega de uma mercadoria por outra<\/strong>;<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>A entrega de uma mercadoria (divis\u00f3rias de compensado, p. ex.) por outra (muretas de divis\u00e3o de atendimento) j\u00e1 estava prevista na lei anterior, tendo havido continuidade normativo-t\u00edpica.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li><strong>altera\u00e7\u00e3o da subst\u00e2ncia, qualidade ou quantidade da mercadoria ou do servi\u00e7o fornecido<\/strong>;<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>A altera\u00e7\u00e3o de subst\u00e2ncia, qualidade ou quantidade j\u00e1 era prevista na lei. A novidade, que s\u00f3 vale para condutas praticadas ap\u00f3s o in\u00edcio de vig\u00eancia da nova lei, \u00e9 a inclus\u00e3o do objeto \u201cservi\u00e7os\u201d, j\u00e1 que antes essas altera\u00e7\u00f5es s\u00f3 poderiam se referir a \u201cmercadorias\u201d.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li><strong>qualquer meio fraudulento que torne injustamente mais onerosa para a Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica a proposta ou a execu\u00e7\u00e3o do contrato:<\/strong><\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Essa modalidade, residual, prev\u00ea que a fraude pode ser cometida, ainda, por qualquer meio fraudulento (um pleonasmo, j\u00e1 que o agente deve fraudar) que torna injustamente (elemento normativo) a proposta ou execu\u00e7\u00e3o do contrato mais onerosa para a Administra\u00e7\u00e3o. A conduta era prevista na lei antiga, com termos bem similares.<\/p>\n\n\n\n<p>Anteriormente, a conduta possu\u00eda previs\u00e3o no artigo 96 da Lei 8.666\/93, com tipo penal alterado, como analisado acima:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table\"><table><tbody><tr><td><strong>Lei 8.666\/93<\/strong><\/td><td><strong>C\u00f3digo Penal (Lei 14.133\/2021)<\/strong><strong><\/strong><\/td><\/tr><tr><td>Art. 96.&nbsp; Fraudar, em preju\u00edzo da Fazenda P\u00fablica, licita\u00e7\u00e3o instaurada <strong>para aquisi\u00e7\u00e3o ou venda de bens ou mercadorias<\/strong>, ou contrato dela decorrente:&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; I &#8211; <strong>elevando arbitrariamente os pre\u00e7os<\/strong>;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; II &#8211; vendendo, como verdadeira ou perfeita, mercadoria falsificada ou deteriorada; III &#8211; entregando uma mercadoria por outra;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; IV &#8211; alterando subst\u00e2ncia, qualidade ou quantidade da mercadoria fornecida;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; V &#8211; tornando, por qualquer modo, injustamente, mais onerosa a proposta ou a execu\u00e7\u00e3o do contrato:&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp; Pena &#8211; deten\u00e7\u00e3o, de 3 (tr\u00eas) a 6 (seis) anos, e multa.<\/td><td>Art. 337-L. Fraudar, em preju\u00edzo da Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica, licita\u00e7\u00e3o ou contrato dela decorrente, mediante: I &#8211; <strong>entrega de mercadoria ou presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os com qualidade ou em quantidade diversas das previstas no edital ou nos instrumentos contratuais<\/strong>; II &#8211; fornecimento, como verdadeira ou perfeita, de mercadoria falsificada, deteriorada, <strong>inserv\u00edvel para consumo ou com prazo de validade vencido<\/strong>; III &#8211; entrega de uma mercadoria por outra; IV &#8211; altera\u00e7\u00e3o da subst\u00e2ncia, qualidade ou quantidade da mercadoria ou <strong>do servi\u00e7o fornecido<\/strong>; V &#8211; qualquer meio fraudulento que torne injustamente mais onerosa para a Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica a proposta ou a execu\u00e7\u00e3o do contrato: Pena &#8211; reclus\u00e3o, de 4 (quatro) anos a 8 (oito) anos, e multa.<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<p>O preceito secund\u00e1rio sofreu altera\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que a pena passou de deten\u00e7\u00e3o para reclus\u00e3o. Al\u00e9m disso, a pena passou de 3 a 6 anos para 4 a 8 anos, vendando, em regra, o ANPP, que pode ser cab\u00edvel, por exemplo, no caso de tentativa. Foi mantida a comina\u00e7\u00e3o cumulativa da pena de multa.<\/p>\n\n\n\n<p>Analisando a lei revogada, o STF e o STJ firmaram o entendimento de que o tipo penal n\u00e3o se aplica a licita\u00e7\u00f5es e contratos relativos a obras e servi\u00e7os, mas apenas a bens e mercadorias<a href=\"#_ftn23\">[23]<\/a>. Entretanto, o novo tipo penal eliminou do <em>caput <\/em>a express\u00e3o \u201cpara aquisi\u00e7\u00e3o ou venda de bens ou mercadorias\u201d. Al\u00e9m disso, o inciso IV se refere expressamente a servi\u00e7o, de modo que a <strong>jurisprud\u00eancia deve ser superada<\/strong> quanto a condutas praticadas ap\u00f3s o in\u00edcio de vig\u00eancia da Lei 14.133\/2021.<\/p>\n\n\n\n<p>O crime \u00e9 comum, podendo ser praticado por qualquer pessoa. \u00c9 doloso, sem necessidade de elemento subjetivo especial para sua configura\u00e7\u00e3o e sem previs\u00e3o de modalidade culposa. Por exigir a fraude, em preju\u00edzo da Administra\u00e7\u00e3o, por uma das condutas mencionados, \u00e9 classificado como material, admitindo a forma tentada, o <em>conatus<\/em>. \u00c9 instant\u00e2neo, unissubjetivo e plurissubsistente.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-contrata-o-inid-nea\"><a><strong>Contrata\u00e7\u00e3o Inid\u00f4nea<\/strong><\/a><strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O artigo 337-M do CP incrimina a contrata\u00e7\u00e3o inid\u00f4nea:<\/p>\n\n\n\n<p>Art. 337-M. Admitir \u00e0 licita\u00e7\u00e3o empresa ou profissional declarado inid\u00f4neo:<\/p>\n\n\n\n<p>Pena &#8211; reclus\u00e3o, de 1 (um) ano a 3 (tr\u00eas) anos, e multa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a7 1\u00ba Celebrar contrato com empresa ou profissional declarado inid\u00f4neo:<\/p>\n\n\n\n<p>Pena &#8211; reclus\u00e3o, de 3 (tr\u00eas) anos a 6 (seis) anos, e multa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a7 2\u00ba Incide na mesma pena do caput deste artigo aquele que, declarado inid\u00f4neo, venha a participar de licita\u00e7\u00e3o e, na mesma pena do \u00a7 1\u00ba deste artigo, aquele que, declarado inid\u00f4neo, venha a contratar com a Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>O <em>caput<\/em> incrimina a conduta de <strong>admitir \u00e0 licita\u00e7\u00e3o<\/strong> empresa ou profissional declarado inid\u00f4neo. \u201cAdmitir\u201d significa admitir, consentir na participa\u00e7\u00e3o. O mero fato de uma pessoa, seja f\u00edsica ou jur\u00eddica, ter sido admitida no processo licitat\u00f3rio j\u00e1 coloca em xeque a probidade e a confiabilidade do processo licitat\u00f3ria, raz\u00e3o pela qual se incrimina essa conduta. A admiss\u00e3o \u00e0 licita\u00e7\u00e3o \u00e9 realizada por quem tem a compet\u00eancia de decidir quem pode participar da licita\u00e7\u00e3o, ou seja, \u00e9 modalidade caracterizadora de crime pr\u00f3prio, que s\u00f3 pode ser praticada por funcion\u00e1rio p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>O par\u00e1grafo terceiro equipara \u00e0 figura do <em>caput<\/em> a conduta do particular que, mesmo declarado inid\u00f4neo, <strong>venha a participar da licita\u00e7\u00e3o<\/strong>. Essa figura, portanto, \u00e9 de crime comum.<\/p>\n\n\n\n<p>O par\u00e1grafo primeiro, por sua vez, prev\u00ea <strong>forma qualificada do delito<\/strong>, com a previs\u00e3o da conduta de <strong>celebrar contrato<\/strong> com empresa ou profissional declarado inid\u00f4neo. \u201cCelebrar contrato\u201d significa contratar, entabular neg\u00f3cio jur\u00eddico. A conduta incriminada \u00e9 considerada mais grave do que admitir \u00e0 licita\u00e7\u00e3o a empresa (pessoa jur\u00eddica) ou o profissional declarado inid\u00f4neo, pois aqui se tipifica a celebra\u00e7\u00e3o do contrato, ou seja, um passo a mais na viola\u00e7\u00e3o do bem jur\u00eddico, consistente na regularidade e na probidade nos procedimentos de contrata\u00e7\u00e3o com a Administra\u00e7\u00e3o. No caso de ter havido a anterior admiss\u00e3o \u00e0 licita\u00e7\u00e3o, a contrata\u00e7\u00e3o deve absorver aquela conduta. Essa modalidade s\u00f3 pode ser praticada por funcion\u00e1rio p\u00fablico, que celebra o contrato em nome da Administra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O par\u00e1grafo terceiro, por sua vez, equipara ao crime qualificado a conduta do particular que, mesmo declarado inid\u00f4neo, <strong>venha a contratar<\/strong> com a Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica. \u00c9 modalidade, portanto, classificada como crime comum.<\/p>\n\n\n\n<p>Tanto a <strong>forma simples quanto a qualificada<\/strong> consistem em <strong>normas penais em branco<\/strong>, j\u00e1 que dependem da defini\u00e7\u00e3o da declara\u00e7\u00e3o de inidoneidade. Nos dois anos posteriores \u00e0 vig\u00eancia da Lei 14.133\/2021 (art. 156, inciso IV e \u00a7 5\u00ba e 6\u00ba), poder\u00e3o ser usadas como complemento tanto os seus pr\u00f3prios dispositivos quanto os da Lei 8.666\/1993 (arts. 97, par\u00e1grafo \u00fanico, e 87, inciso IV), j\u00e1 que a Administra\u00e7\u00e3o poder\u00e1 optar por qualquer um dos dois regimes.<\/p>\n\n\n\n<p>As condutas descritas eram incriminadas pelo artigo 97 da Lei 8.666\/93, de modo que houve continuidade normativo-t\u00edpica:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table\"><table><tbody><tr><td><strong>Lei 8.666\/93<\/strong><\/td><td><strong>C\u00f3digo Penal (Lei 14.133\/2021)<\/strong><strong><\/strong><\/td><\/tr><tr><td>Art. 97.&nbsp; Admitir \u00e0 licita\u00e7\u00e3o ou celebrar contrato com empresa ou profissional declarado inid\u00f4neo:&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pena &#8211; deten\u00e7\u00e3o, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Par\u00e1grafo \u00fanico.&nbsp; Incide na mesma pena aquele que, declarado inid\u00f4neo, venha a licitar ou a contratar com a Administra\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/td><td>Art. 337-M. Admitir \u00e0 licita\u00e7\u00e3o empresa ou profissional declarado inid\u00f4neo: Pena &#8211; reclus\u00e3o, de 1 (um) ano a 3 (tr\u00eas) anos, e multa. \u00a7 1\u00ba Celebrar contrato com empresa ou profissional declarado inid\u00f4neo: Pena &#8211; reclus\u00e3o, de 3 (tr\u00eas) anos a 6 (seis) anos, e multa. \u00a7 2\u00ba Incide na mesma pena do caput deste artigo aquele que, declarado inid\u00f4neo, venha a participar de licita\u00e7\u00e3o e, na mesma pena do \u00a7 1\u00ba deste artigo, aquele que, declarado inid\u00f4neo, venha a contratar com a Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica.<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<p>O tipo penal foi transcrito, mas com separa\u00e7\u00e3o das figuras e especifica\u00e7\u00e3o das san\u00e7\u00f5es. A pena era de deten\u00e7\u00e3o, de 6 meses a 2 anos, e multa para todos os casos. Atualmente, foi mantida a pena de multa e a deten\u00e7\u00e3o foi modificada para reclus\u00e3o. O <em>quantum<\/em> de pena foi modificado a depender do caso: em se tratando de admitir ou participar da licita\u00e7\u00e3o, a pena passa a ser de 1 a 3 anos; caso a conduta seja de celebrar o contrato ou contratar, a pena passa a ser de 3 a 6 anos.  <\/p>\n\n\n\n<p>Como as penas s\u00e3o mais gravosas, s\u00f3 se aplicam aos crimes praticados ap\u00f3s o in\u00edcio de vig\u00eancia da Lei 14.133\/2021, em raz\u00e3o do princ\u00edpio da irretroatividade.<\/p>\n\n\n\n<p>Como visto acima, o crime \u00e9 pr\u00f3prio nas previs\u00f5es do <em>caput <\/em>e do par\u00e1grafo primeiro, enquanto o par\u00e1grafo segundo traz modalidade em que se classifica o crime como comum. \u00c9 doloso, sem exig\u00eancia de elemento subjetivo do tipo, al\u00e9m de n\u00e3o ter sido prevista a forma culposa. \u00c9 formal, instant\u00e2neo, comissivo, de forma livre, unissubjetivo e plurissubsistente, admitindo, portanto, a modalidade tentada.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-impedimento-indevido\"><a><strong>Impedimento Indevido<\/strong><\/a><strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O artigo 337-N do CP traz o tipo penal de impedimento indevido:<\/p>\n\n\n\n<p>Art. 337-N. Obstar, impedir ou dificultar injustamente a inscri\u00e7\u00e3o de qualquer interessado nos registros cadastrais ou promover indevidamente a altera\u00e7\u00e3o, a suspens\u00e3o ou o cancelamento de registro do inscrito:<\/p>\n\n\n\n<p>Pena &#8211; reclus\u00e3o, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cObstar\u201d \u00e9 opor-se, servir de obst\u00e1culo. \u201cImpedir\u201d \u00e9 impor obst\u00e1culo, obstruir. \u201cDificultar\u201d \u00e9 tornar trabalhoso, estorvar. A conduta incriminada, <strong>na primeira figura<\/strong>, \u00e9 obstar, impedir ou dificultar injustamente a inscri\u00e7\u00e3o de qualquer interessado nos registros cadastrais. Exige-se, para a tipifica\u00e7\u00e3o da conduta, o elemento normativo \u201cinjustamente\u201d, de modo que se o obst\u00e1culo imposto, por exemplo, possuir fundamento legal, a conduta nem sequer ser\u00e1 t\u00edpica.<\/p>\n\n\n\n<p>A <strong>segunda figura<\/strong> tem como n\u00facleo do tipo a conduta de \u201cpromover\u201d (por em execu\u00e7\u00e3o, gerar, provocar). A conduta incriminada \u00e9 promover indevidamente a altera\u00e7\u00e3o, suspens\u00e3o ou o cancelamento de registro de pessoa j\u00e1 inscrita. H\u00e1 o elemento normativo do tipo \u201cindevidamente\u201d, de forma que se o cancelamento, por exemplo, for devido, conforme as regras aplic\u00e1veis, a conduta ser\u00e1 at\u00edpica.<\/p>\n\n\n\n<p>O tipo penal estava previsto no artigo 98 da Lei 8.666\/93, com o mesmo preceito prim\u00e1rio, de modo que houve continuidade normativo-t\u00edpica:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table\"><table><tbody><tr><td><strong>Lei 8.666\/93<\/strong><\/td><td><strong>C\u00f3digo Penal (Lei 14.133\/2021)<\/strong><strong><\/strong><\/td><\/tr><tr><td>Art. 98.&nbsp; Obstar, impedir ou dificultar, injustamente, a inscri\u00e7\u00e3o de qualquer interessado nos registros cadastrais ou promover indevidamente a altera\u00e7\u00e3o, suspens\u00e3o ou cancelamento de registro do inscrito:&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pena &#8211; deten\u00e7\u00e3o, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa.&nbsp;<\/td><td>Art. 337-N. Obstar, impedir ou dificultar injustamente a inscri\u00e7\u00e3o de qualquer interessado nos registros cadastrais ou promover indevidamente a altera\u00e7\u00e3o, a suspens\u00e3o ou o cancelamento de registro do inscrito: Pena &#8211; reclus\u00e3o, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa.<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<p>O preceito secund\u00e1rio possui os mesmos limites m\u00ednimo e m\u00e1ximo: de 6 meses a 2 anos. Entretanto, a modalidade de pena privativa de liberdade foi alterada de deten\u00e7\u00e3o para reclus\u00e3o, com manuten\u00e7\u00e3o da comina\u00e7\u00e3o cumulativa da pena de multa.<\/p>\n\n\n\n<p>A melhor interpreta\u00e7\u00e3o parece ser a de que o crime \u00e9 pr\u00f3prio, exigindo a qualidade de funcion\u00e1rio p\u00fablico<a href=\"#_ftn24\">[24]<\/a>. Caso o particular tente praticar alguma das condutas descritas, ser\u00e1 poss\u00edvel a responsabiliza\u00e7\u00e3o pelo crime de afastamento de licitante, caso sua conduta se amolde ao que prev\u00ea o artigo 337-K do CP.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas modalidades de \u201cobstar\u201d e \u201cimpedir\u201d, \u00e9 necess\u00e1rio que a inscri\u00e7\u00e3o n\u00e3o ocorra para a consuma\u00e7\u00e3o do delito, raz\u00e3o pela qual o crime \u00e9 material. Na modalidade de \u201cdificultar\u201d, n\u00e3o \u00e9 imprescind\u00edvel tal resultado, de modo que o crime \u00e9 de mera conduta. Na figura de promover, o crime tamb\u00e9m \u00e9 material, consumando-se com a efetiva altera\u00e7\u00e3o, suspens\u00e3o ou cancelamento do registro. Em todas as modalidades, \u00e9 cab\u00edvel a tentativa<a href=\"#_ftn25\">[25]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>O crime \u00e9 unissubjetivo, instant\u00e2neo (dificultar ou promover) ou permanente (obstar ou impedir), a depender do caso, e de forma livre.&nbsp; \u00c9 doloso, sem previs\u00e3o de modalidade culposa.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-omiss-o-grave-de-dado-ou-de-informa-o-por-projetista\"><a><strong>Omiss\u00e3o Grave de Dado ou de Informa\u00e7\u00e3o por Projetista<\/strong><\/a><strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O artigo 337-O do CP incrimina a omiss\u00e3o grave de dado ou de informa\u00e7\u00e3o por projetista:<\/p>\n\n\n\n<p>Art. 337-O. Omitir, modificar ou entregar \u00e0 Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica levantamento cadastral ou condi\u00e7\u00e3o de contorno em relevante disson\u00e2ncia com a realidade, em frustra\u00e7\u00e3o ao car\u00e1ter competitivo da licita\u00e7\u00e3o ou em detrimento da sele\u00e7\u00e3o da proposta mais vantajosa para a Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica, em contrata\u00e7\u00e3o para a elabora\u00e7\u00e3o de projeto b\u00e1sico, projeto executivo ou anteprojeto, em di\u00e1logo competitivo ou em procedimento de manifesta\u00e7\u00e3o de interesse:<\/p>\n\n\n\n<p>Pena &#8211; reclus\u00e3o, de 6 (seis) meses a 3 (tr\u00eas) anos, e multa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a7 1\u00ba Consideram-se condi\u00e7\u00e3o de contorno as informa\u00e7\u00f5es e os levantamentos suficientes e necess\u00e1rios para a defini\u00e7\u00e3o da solu\u00e7\u00e3o de projeto e dos respectivos pre\u00e7os pelo licitante, inclu\u00eddos sondagens, topografia, estudos de demanda, condi\u00e7\u00f5es ambientais e demais elementos ambientais impactantes, considerados requisitos m\u00ednimos ou obrigat\u00f3rios em normas t\u00e9cnicas que orientam a elabora\u00e7\u00e3o de projetos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a7 2\u00ba Se o crime \u00e9 praticado com o fim de obter benef\u00edcio, direto ou indireto, pr\u00f3prio ou de outrem, aplica-se em dobro a pena prevista no caput deste artigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse tipo penal n\u00e3o encontra correspond\u00eancia na antiga Lei de Licita\u00e7\u00f5es e Contratos Administrativos, de modo que constitui uma <em>novatio legis incriminadora.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o n\u00facleos do tipo: \u201comitir\u201d (deixar de fazer, ocultar); \u201cmodificar\u201d (alterar, adulterar) e \u201centregar\u201d (passar \u00e0s m\u00e3os de, dar). Apesar da nomenclatura legal (omiss\u00e3o grave), apenas um dos n\u00facleos do tipo misto alternativo \u00e9 efetivamente caracterizador de crime omissivo puro (omitir).<\/p>\n\n\n\n<p>A conduta incriminada \u00e9 omitir, modificar ou entregar \u00e0 Administra\u00e7\u00e3o <strong>levantamento cadastral ou condi\u00e7\u00e3o de entorno<\/strong> nas seguintes condi\u00e7\u00f5es:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li><strong>em relevante disson\u00e2ncia com a realidade <\/strong>(projeto que n\u00e3o se ad\u00e9qua \u00e0 real necessidade);<\/li><li><strong>em frustra\u00e7\u00e3o ao car\u00e1ter competitivo da licita\u00e7\u00e3o <\/strong>(projeto, por exemplo, feito sob medida para determinado contratante);<\/li><li><strong>ou em detrimento da sele\u00e7\u00e3o da proposta mais vantajosa para a Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica<\/strong> (projeto que busque evitar a sele\u00e7\u00e3o da proposta mais vantajosa, frustrando a finalidade da licita\u00e7\u00e3o).<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Essas condutas, para a configura\u00e7\u00e3o do delito, devem ocorrer em:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>contrata\u00e7\u00e3o para a elabora\u00e7\u00e3o de projeto b\u00e1sico, projeto executivo ou anteprojeto;<\/li><li>di\u00e1logo competitivo ou<\/li><li>procedimento de manifesta\u00e7\u00e3o de interesse.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>A contrata\u00e7\u00e3o para a elabora\u00e7\u00e3o de projeto b\u00e1sico, projeto executivo ou anteprojeto; o di\u00e1logo competitivo e o procedimento de manifesta\u00e7\u00e3o de interesse s\u00e3o todos previstos na Lei 14.133\/2021 (artigo 6\u00ba, incisos XXIV, XXV e XXVI; artigo 6\u00ba, inciso XLII e artigo 81, respectivamente). Por isso, cuida-se de <strong>norma penal em branco<\/strong>. Durante o per\u00edodo de 2 anos ap\u00f3s o in\u00edcio de vig\u00eancia da Lei 14.133\/2021, dada a possibilidade de utiliza\u00e7\u00e3o dos dois regimes, \u00e9 poss\u00edvel usar o complemento da Lei 8.666\/93, que s\u00f3 prev\u00ea, entretanto, os seguintes institutos: projeto b\u00e1sico (art. 6\u00ba, IX) e projeto executivo (art. 6\u00ba, inciso X).<\/p>\n\n\n\n<p>O <strong>levantamento cadastral<\/strong> \u00e9 a pesquisa ou investiga\u00e7\u00e3o, culminando na coleta de dados, envolvendo informa\u00e7\u00f5es cadastrais.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 a condi\u00e7\u00e3o de entorno \u00e9 definida pelo par\u00e1grafo primeiro, que consiste em aut\u00eantica norma interpretativa contextual. Segundo o dispositivo, consideram-se <strong>condi\u00e7\u00e3o de contorno<\/strong> as informa\u00e7\u00f5es e os levantamentos suficientes e necess\u00e1rios para a defini\u00e7\u00e3o da solu\u00e7\u00e3o de projeto e dos respectivos pre\u00e7os pelo licitante, inclu\u00eddos sondagens, topografia, estudos de demanda, condi\u00e7\u00f5es ambientais e demais elementos ambientais impactantes, considerados requisitos m\u00ednimos ou obrigat\u00f3rios em normas t\u00e9cnicas que orientam a elabora\u00e7\u00e3o de projetos.<\/p>\n\n\n\n<p>A Administra\u00e7\u00e3o, antes de proceder \u00e0 licita\u00e7\u00e3o de obras, por exemplo, pode contratar a elabora\u00e7\u00e3o de um projeto b\u00e1sico, que ser\u00e1 utilizado para sele\u00e7\u00e3o das melhores propostas para constru\u00e7\u00e3o de edif\u00edcios. Por exemplo, o INSS contrata uma empresa para elabora\u00e7\u00e3o de um projeto b\u00e1sico e, posteriormente, realiza licita\u00e7\u00e3o para cada pr\u00e9dio que quer construir, de modo que ser\u00e1 contratada uma pessoa jur\u00eddica diversa para a execu\u00e7\u00e3o da obra. Se o projeto b\u00e1sico for inexato, cada procedimento licitat\u00f3rio ensejar\u00e1 problemas na sua execu\u00e7\u00e3o, como no caso de n\u00e3o se ter previsto a constru\u00e7\u00e3o de rampas de acesso em pr\u00e9dios em desn\u00edvel com a cal\u00e7ada.<\/p>\n\n\n\n<p>O par\u00e1grafo segundo prev\u00ea modalidade do crime que pode ser interpretada como majorada ou qualificada. A melhor posi\u00e7\u00e3o parece ser a de considerar que se trata de causa de aumento de pena. Incide no caso de o crime ser praticado <strong>com o fim de obter benef\u00edcio, direto ou indireto, pr\u00f3prio ou de outrem<\/strong>, aplicando-se em dobro a pena prevista no caput deste artigo. Dada a n\u00e3o restri\u00e7\u00e3o pela lei, deve-se interpreta\u00e7\u00e3o o benef\u00edcio como qualquer um, inclusive favorecer que a empresa de um familiar ven\u00e7a a licita\u00e7\u00e3o da execu\u00e7\u00e3o da obra sobre a qual o agente elabora o projeto b\u00e1sico.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de o <em>nomen iuris<\/em> se referir ao projetista, \u00e9 poss\u00edvel interpretar que o verbo \u201centregar\u201d expressa conduta que pode ser praticada por qualquer pessoa<a href=\"#_ftn26\">[26]<\/a>, desde que, obviamente, acompanhada do dolo, com conhecimento da irregularidade. Realmente, a interpreta\u00e7\u00e3o deve ser de que o crime \u00e9 comum, podendo ser praticado pelo projetista ou pelo pr\u00f3prio licitante ou contratado.<\/p>\n\n\n\n<p>Por n\u00e3o se exigir dano ao er\u00e1rio, pode-se classificar o delito como formal. O crime admite tentativa, exceto na modalidade de \u201comitir\u201d, por ser omissivo pr\u00f3prio ou puro. \u00c9 instant\u00e2neo, unissubjetivo e de forma livre.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-regras-sobre-as-penas-de-multa\"><a><strong>Regras sobre as Penas de Multa<\/strong><\/a><strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O artigo 337-P do CP traz <strong>regra espec\u00edfica<\/strong> sobre a aplica\u00e7\u00e3o da pena de multa em todos os delitos previstos no Cap\u00edtulo II-B, ou seja, aos crimes em licita\u00e7\u00f5es e contratos administrativos:<\/p>\n\n\n\n<p>Art. 337-P. A pena de multa cominada aos crimes previstos neste Cap\u00edtulo seguir\u00e1 a metodologia de c\u00e1lculo prevista neste C\u00f3digo e n\u00e3o poder\u00e1 ser inferior a 2% (dois por cento) do valor do contrato licitado ou celebrado com contrata\u00e7\u00e3o direta.<\/p>\n\n\n\n<p>Vale recordar, de in\u00edcio, que a anterior Lei de Licita\u00e7\u00f5es e Contratos Administrativos, a revogada Lei n. 8.666\/93, j\u00e1 <strong>representava uma exce\u00e7\u00e3o<\/strong> ao sistema de multas previsto no C\u00f3digo Penal:<\/p>\n\n\n\n<p>Art. 99.&nbsp; A pena de multa cominada nos arts. 89 a 98 desta Lei consiste no pagamento de quantia fixada na senten\u00e7a e calculada em \u00edndices percentuais, cuja base corresponder\u00e1 ao valor da vantagem efetivamente obtida ou potencialmente aufer\u00edvel pelo agente.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a7 1o&nbsp; Os \u00edndices a que se refere este artigo n\u00e3o poder\u00e3o ser inferiores a 2% (dois por cento), nem superiores a 5% (cinco por cento) do valor do contrato licitado ou celebrado com dispensa ou inexigibilidade de licita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a7 2o&nbsp; O produto da arrecada\u00e7\u00e3o da multa reverter\u00e1, conforme o caso, \u00e0 Fazenda Federal, Distrital, Estadual ou Municipal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, a multa penal j\u00e1 era calculada de forma espec\u00edfica para os crimes licitat\u00f3rios. Atualmente, haver\u00e1 uma nova forma de se estipular essa pena, que parte da metodologia de c\u00e1lculo prevista como regra geral no C\u00f3digo, mas possui um piso m\u00ednimo, fixado em 2% (dois por cento) do valor do contrato licitado ou celebrado com contrata\u00e7\u00e3o direta. <a>O m\u00e9todo pode ser resumido no seguinte esquema:<\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"414\" src=\"https:\/\/dhg1h5j42swfq.cloudfront.net\/2021\/04\/11162645\/multa-1024x414.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-711923\" srcset=\"https:\/\/dhg1h5j42swfq.cloudfront.net\/2021\/04\/11162645\/multa-1024x414.png 1024w, https:\/\/dhg1h5j42swfq.cloudfront.net\/2021\/04\/11162645\/multa-300x121.png 300w, https:\/\/dhg1h5j42swfq.cloudfront.net\/2021\/04\/11162645\/multa-768x311.png 768w, https:\/\/dhg1h5j42swfq.cloudfront.net\/2021\/04\/11162645\/multa-610x247.png 610w, https:\/\/dhg1h5j42swfq.cloudfront.net\/2021\/04\/11162645\/multa.png 1184w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>O m\u00e9todo n\u00e3o parece ser o melhor. O juiz vai calcular o n\u00famero de dias-multa de acordo com o crit\u00e9rio trif\u00e1sico, entre 10 e 360, conforme o artigo 49, <em>caput<\/em>, do CP. Vai analisar, ent\u00e3o, o valor de cada-dia multa, cujo valor vai de um trig\u00e9simo (1\/30) do sal\u00e1rio m\u00ednimo (menor valor de dia de sal\u00e1rio do trabalhador) at\u00e9 5 vezes o sal\u00e1rio m\u00ednimo. A ideia \u00e9 que cada dia-multa equivalha a um dia de trabalho do agente, raz\u00e3o pela qual deve ser considerada a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do r\u00e9u (art. 60, <em>caput<\/em>, do CP). Se for ineficaz, apesar de aplicada ao m\u00e1ximo, pode ser aumentada at\u00e9 o triplo (art. 60, \u00a7 1\u00ba, do CP).<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s todo esse c\u00e1lculo, o juiz ter\u00e1 o n\u00famero de dias multa (crit\u00e9rio trif\u00e1sico de dosimetria) e o valor de cada dia-multa (pela situa\u00e7\u00e3o financeira do acusado), de modo que bastar\u00e1 multiplicar o n\u00famero de dias-multa pelo valor para ter o valor total da pena de multa. Entretanto, no caso dos crimes em licita\u00e7\u00f5es e contratos administrativos, <strong>dever\u00e1 verificar se o valor total vai atingir o m\u00ednimo de 2% do valor do contrato<\/strong> licitado ou celebrado com contrata\u00e7\u00e3o direta.&nbsp; Caso o valor seja inferior, a pena de multa ser\u00e1 de 2% do valor do contrato, que \u00e9 o piso m\u00ednimo estabelecido pelo legislador.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, neste caso a multa deve ser destinada ao Fundo Penitenci\u00e1rio, como determina o artigo 49 do C\u00f3digo Penal, considerando a revoga\u00e7\u00e3o da Lei 8.666\/93, que determinava que o seu valor reverteria \u00e0 Fazenda P\u00fablica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Chegamos ao fim da nossa an\u00e1lise.<\/p>\n\n\n\n<p>Por se tratar de altera\u00e7\u00e3o legislativa recent\u00edssima, cuidam-se de impress\u00f5es iniciais, ainda sem coment\u00e1rios dispon\u00edveis na doutrina e sem forma\u00e7\u00e3o de jurisprud\u00eancia sobre esses dispositivos comentados acima.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, cr\u00edticas e coment\u00e1rios s\u00e3o bem-vindos, seja aqui, seja pelo Instagram <strong>@professor.procopio<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Bons estudos,<\/p>\n\n\n\n<p>Michael Procopio<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> LAGO, Natasha do; <em>et al<\/em>: https:\/\/www.conjur.com.br\/2021-abr-05\/opiniao-mudancas-penais-lei-licitacoes?utm_source=dlvr.it&amp;utm_medium=facebook<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> STJ, AgRg no HC 574.578\/SP, Rel. Ministro JORGE MUSSI, QUINTA TURMA, julgado em 23\/06\/2020, DJe 03\/08\/2020.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a> STF, Inq 2482, Rel. AYRES BRITTO, Relator(a) p\/ Ac\u00f3rd\u00e3o: LUIZ FUX, Tribunal Pleno, julgado em 15\/09\/2011. PUBLIC 17-02-2012. STJ, HC 329.227\/SP, Rel. Ministro JORGE MUSSI, QUINTA TURMA, julgado em 04\/10\/2016, DJe 13\/10\/2016.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a> STF, Inq 3621, Rel. ROSA WEBER, Relator(a) p\/ Ac\u00f3rd\u00e3o: ALEXANDRE DE MORAES, Primeira Turma, julgado em 28\/03\/2017, DIVULG 22-06-2017, PUBLIC 23-06-2017.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\">[5]<\/a> STJ, AgRg no HC 529.211\/RJ, Rel. Ministro SEBASTI\u00c3O REIS J\u00daNIOR, SEXTA TURMA, julgado em 02\/06\/2020, DJe 10\/06\/2020<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\">[6]<\/a> BITENCOURT, Cezar Roberto. Direito penal das licita\u00e7\u00f5es. S\u00e3o Paulo: Saraiva, 2012.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\">[7]<\/a> BITENCOURT, Cezar Roberto. Direito penal das licita\u00e7\u00f5es. S\u00e3o Paulo: Saraiva, 2012.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\">[8]<\/a> BITENCOURT, Cezar Roberto. Direito penal das licita\u00e7\u00f5es. S\u00e3o Paulo: Saraiva, 2012.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref9\">[9]<\/a> BITENCOURT, Cezar Roberto. Direito penal das licita\u00e7\u00f5es. S\u00e3o Paulo: Saraiva, 2012.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref10\">[10]<\/a> BITENCOURT, Cezar Roberto. Direito penal das licita\u00e7\u00f5es. S\u00e3o Paulo: Saraiva, 2012.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref11\">[11]<\/a> BITENCOURT, Cezar Roberto. Direito penal das licita\u00e7\u00f5es. S\u00e3o Paulo: Saraiva, 2012.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref12\">[12]<\/a> Tratando do crime de advocacia administrativa e reconhecendo ser pr\u00f3prio: BITENCOURT, Cezar Roberto. Ob. Cit., 2020, p. 158. CUNHA, Rog\u00e9rio Sanches. Ob. Cit., 2020, p. 321. MASSON, Cleber. Ob. Cit., 2019, p. 650.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref13\">[13]<\/a> No mesmo sentido: BITENCOURT, Cezar Roberto. Direito penal das licita\u00e7\u00f5es. S\u00e3o Paulo: Saraiva, 2012. Em sentido contr\u00e1rio, com rela\u00e7\u00e3o ao tipo revogado, o autor cita as posi\u00e7\u00f5es de Paulo Jos\u00e9 da Costa Jr. e Greco Filho.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref14\">[14]<\/a> BITENCOURT, Cezar Roberto. Direito penal das licita\u00e7\u00f5es. S\u00e3o Paulo: Saraiva, 2012.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref15\">[15]<\/a> No mesmo sentido: Guilherme de Souza Nucci, Leis penais e processuais penais comentadas, 3. ed., S\u00e3o Paulo: Revista dos Tribunais, 2008, p. 819. Em sentido contr\u00e1rio, defendendo ser elementar normativa: BITENCOURT, Cezar Roberto. Direito penal das licita\u00e7\u00f5es. S\u00e3o Paulo: Saraiva, 2012.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref16\">[16]<\/a> STJ, HC 114.717\/MG, Rel. Ministro NILSON NAVES, Rel. p\/ Ac\u00f3rd\u00e3o Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, SEXTA TURMA, julgado em 17\/12\/2009, DJe 14\/06\/2010.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref17\">[17]<\/a> BITENCOURT, Cezar Roberto. Direito penal das licita\u00e7\u00f5es. S\u00e3o Paulo: Saraiva, 2012.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref18\">[18]<\/a> BITENCOURT, Cezar Roberto. Direito penal das licita\u00e7\u00f5es. S\u00e3o Paulo: Saraiva, 2012.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref19\">[19]<\/a> BITENCOURT, Cezar Roberto. Direito penal das licita\u00e7\u00f5es. S\u00e3o Paulo: Saraiva, 2012.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref20\">[20]<\/a> BITENCOURT, Cezar Roberto. Direito penal das licita\u00e7\u00f5es. S\u00e3o Paulo: Saraiva, 2012.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref21\">[21]<\/a> BITENCOURT, Cezar Roberto. Direito penal das licita\u00e7\u00f5es. S\u00e3o Paulo: Saraiva, 2012.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref22\">[22]<\/a> LAGO, Natasha do; <em>et al<\/em>: https:\/\/www.conjur.com.br\/2021-abr-05\/opiniao-mudancas-penais-lei-licitacoes?utm_source=dlvr.it&amp;utm_medium=facebook<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref23\">[23]<\/a> STF, AP 991 QO, Relator(a): EDSON FACHIN, Segunda Turma, julgado em 28\/11\/2017, AC\u00d3RD\u00c3O ELETR\u00d4NICO DJe-289&nbsp; DIVULG 14-12-2017&nbsp; PUBLIC 15-12-2017; STJ, HC 485.791\/SP, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em 07\/05\/2019, DJe 20\/05\/2019.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref24\">[24]<\/a> No mesmo sentido: BITENCOURT, Cezar Roberto. Direito penal das licita\u00e7\u00f5es. S\u00e3o Paulo: Saraiva, 2012.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref25\">[25]<\/a> Em sentido contr\u00e1rio, n\u00e3o admitindo a tentativa na modalidade \u201cdificultar\u201d: BITENCOURT, Cezar Roberto. Direito penal das licita\u00e7\u00f5es. S\u00e3o Paulo: Saraiva, 2012.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref26\">[26]<\/a> LAGO, Natasha do; <em>et al<\/em>: https:\/\/www.conjur.com.br\/2021-abr-05\/opiniao-mudancas-penais-lei-licitacoes?utm_source=dlvr.it&amp;utm_medium=facebook<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ver o salvamento autom\u00e1tico Sauda\u00e7\u00f5es, pessoal. A Lei 14.133, de 1\u00ba de abril de 2021, a Nova Lei de Licita\u00e7\u00f5es e Contratos Administrativos, inseriu um novo Cap\u00edtulo ao C\u00f3digo Penal. 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