{"id":1788941,"date":"2026-08-10T09:24:20","date_gmt":"2026-08-10T12:24:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.estrategiaconcursos.com.br\/blog\/?p=1788941"},"modified":"2026-08-10T09:24:23","modified_gmt":"2026-08-10T12:24:23","slug":"informativo-stj-895-comentado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.estrategiaconcursos.com.br\/blog\/informativo-stj-895-comentado\/","title":{"rendered":"Informativo STJ 895 Comentado"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/dhg1h5j42swfq.cloudfront.net\/2026\/08\/10092306\/stj-info-895.pdf\"><strong>DOWNLOAD do PDF AQUI!<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<div class=\"lyte-wrapper\" style=\"width:853px;max-width:100%;margin:5px;\"><div class=\"lyMe\" id=\"WYL_Ibgd2GorO08\"><div id=\"lyte_Ibgd2GorO08\" data-src=\"\/\/i.ytimg.com\/vi\/Ibgd2GorO08\/hqdefault.jpg\" class=\"pL\"><div class=\"tC\"><div class=\"tT\"><\/div><\/div><div class=\"play\"><\/div><div class=\"ctrl\"><div class=\"Lctrl\"><\/div><div class=\"Rctrl\"><\/div><\/div><\/div><noscript><a href=\"https:\/\/youtu.be\/Ibgd2GorO08\" rel=\"nofollow\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i.ytimg.com\/vi\/Ibgd2GorO08\/0.jpg\" alt=\"YouTube video thumbnail\" width=\"853\" height=\"460\" \/><br \/>Assista a este v\u00eddeo no YouTube<\/a><\/noscript><\/div><\/div><div class=\"lL\" style=\"max-width:100%;width:853px;margin:5px;\"><\/div>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<h2 id=\"h-1-nbsp-nbsp-ipca-e-na-execucao-contra-a-fazenda-e-coisa-julgada\" class=\"wp-block-heading\">1.&nbsp;&nbsp; IPCA-E NA EXECU\u00c7\u00c3O CONTRA A FAZENDA E COISA JULGADA<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 luz do Tema 1.361\/STF, <strong>admite-se a adequa\u00e7\u00e3o, na execu\u00e7\u00e3o, dos \u00edndices de corre\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria do t\u00edtulo transitado em julgado<\/strong> aos par\u00e2metros constitucionais e legais supervenientes, observando-se o <strong>IPCA-E nas condena\u00e7\u00f5es da Fazenda P\u00fablica<\/strong> (Tema 810\/STF), sem ofensa \u00e0 coisa julgada (Tema 1.170\/STF).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AgInt no PUIL 2.437-DF, Rel. Min. Regina Helena Costa, Primeira Se\u00e7\u00e3o, por unanimidade, julgado em 14\/4\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O t\u00edtulo judicial que garantiu a Jaiminho diferen\u00e7as remunerat\u00f3rias contra a Fazenda fixou a TR como \u00edndice de corre\u00e7\u00e3o, e o tema chegou a ser debatido na fase de conhecimento. Na execu\u00e7\u00e3o, ele requereu a troca pelo IPCA-E, apoiado nas teses do STF que enterraram a TR nas condena\u00e7\u00f5es do poder p\u00fablico. O ente p\u00fablico resistiu com um argumento cl\u00e1ssico: \u00edndice fixado em t\u00edtulo transitado em julgado n\u00e3o se toca. A jurisprud\u00eancia superveniente autoriza o ajuste na execu\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n. 9.494\/1997, art. 1\u00ba-F (reda\u00e7\u00e3o da Lei n. 11.960\/2009)<\/strong><em> (nas condena\u00e7\u00f5es da Fazenda P\u00fablica incidem, para atualiza\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria e juros, os \u00edndices da caderneta de poupan\u00e7a; o STF declarou a regra inconstitucional quanto \u00e0 corre\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Temas 810, 1.170 e 1.361 do STF<\/strong><em> (aplica-se o IPCA-E \u00e0s condena\u00e7\u00f5es n\u00e3o tribut\u00e1rias da Fazenda; os juros do art. 1\u00ba-F incidem a partir da Lei n. 11.960\/2009 ainda que o t\u00edtulo disponha de modo diverso; o tr\u00e2nsito em julgado n\u00e3o impede a aplica\u00e7\u00e3o de legisla\u00e7\u00e3o ou orienta\u00e7\u00e3o vinculante supervenientes).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda A orienta\u00e7\u00e3o anterior do STJ separava dois cen\u00e1rios: t\u00edtulo formado sem debate sobre a Lei n. 11.960\/2009 comportava ajuste; t\u00edtulo que esgotara a discuss\u00e3o na fase cognitiva ficava blindado, prevalecendo os par\u00e2metros da senten\u00e7a. A repercuss\u00e3o geral superou essa segunda trilha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd Mesmo esgotado o debate na fase de conhecimento, o \u00edndice do t\u00edtulo se ajusta na execu\u00e7\u00e3o: a TR cede ao IPCA-E nas condena\u00e7\u00f5es da Fazenda, e o realinhamento aos precedentes vinculantes n\u00e3o caracteriza ofensa \u00e0 coisa julgada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O regime antigo convivia com uma distin\u00e7\u00e3o de dif\u00edcil manejo. <strong>Aceitava-se o ajuste dos consect\u00e1rios quando o t\u00edtulo silenciara sobre a Lei n. 11.960\/2009, mas n\u00e3o quando a mat\u00e9ria fora esgotada na fase cognitiva<\/strong>, hip\u00f3tese em que o ju\u00edzo da execu\u00e7\u00e3o n\u00e3o poderia redefinir a conta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A repercuss\u00e3o geral desmontou a segunda metade dessa equa\u00e7\u00e3o. <strong>No Tema 1.170, o STF mandou aplicar os juros do art. 1\u00ba-F da Lei n. 9.494\/1997 a partir da vig\u00eancia da lei, ainda que o t\u00edtulo transitado dispusesse diversamente<\/strong>; a estabilidade do julgado deixou de imunizar os consect\u00e1rios legais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O passo seguinte generalizou a diretriz para a corre\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria. <strong>O Tema 1.361 assentou que o tr\u00e2nsito em julgado de decis\u00e3o com \u00edndice espec\u00edfico n\u00e3o impede a incid\u00eancia de legisla\u00e7\u00e3o superveniente nem da orienta\u00e7\u00e3o consolidada do Supremo<\/strong>, fechando o circuito com o Tema 810, que elegeu o IPCA-E por incapacidade da TR de capturar a infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f Para o caso concreto, o desfecho ficou desenhado. <strong>Fixada a TR no t\u00edtulo, com exame da Lei n. 11.960\/2009 na fase cognitiva, imp\u00f5e-se ainda assim a adequa\u00e7\u00e3o ao IPCA-E na execu\u00e7\u00e3o<\/strong>, sem que o realinhamento configure viola\u00e7\u00e3o \u00e0 coisa julgada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quanto ao \u00edndice de corre\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria fixado em t\u00edtulo transitado em julgado contra a Fazenda P\u00fablica, diante dos par\u00e2metros supervenientes do STF:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) permanece intoc\u00e1vel quando o \u00edndice aplic\u00e1vel foi debatido na fase de conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) modifica-se pela via da a\u00e7\u00e3o rescis\u00f3ria, rem\u00e9dio pr\u00f3prio contra o t\u00edtulo que contraria precedente vinculante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) ajusta-se na execu\u00e7\u00e3o aos par\u00e2metros supervenientes, com observ\u00e2ncia do IPCA-E.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) preserva-se nos t\u00edtulos anteriores \u00e0 lei nova, alcan\u00e7ando a altera\u00e7\u00e3o os formados ap\u00f3s sua vig\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) depende de concord\u00e2ncia do ente p\u00fablico, benefici\u00e1rio da estabilidade do t\u00edtulo executivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A blindagem do t\u00edtulo com debate esgotado na fase cognitiva era a orienta\u00e7\u00e3o anterior do STJ, superada pelos Temas 1.170 e 1.361 do STF.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. A adequa\u00e7\u00e3o dispensa a rescis\u00f3ria: opera na pr\u00f3pria execu\u00e7\u00e3o, por for\u00e7a da tese vinculante que afasta a alega\u00e7\u00e3o de ofensa \u00e0 coisa julgada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Correta. A tese vinculante do Tema 1.361 autoriza o ajuste do \u00edndice na pr\u00f3pria execu\u00e7\u00e3o, observando-se o IPCA-E nas condena\u00e7\u00f5es da Fazenda, sem que o realinhamento ofenda a coisa julgada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. A diretriz alcan\u00e7a tamb\u00e9m os t\u00edtulos antigos: a adequa\u00e7\u00e3o incide seja o t\u00edtulo anterior \u00e0 lei, seja posterior, ainda que esgotado o debate na fase de conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. O realinhamento decorre de tese vinculante, e n\u00e3o de disposi\u00e7\u00e3o das partes; a vontade do ente p\u00fablico n\u00e3o \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para o ajuste dos consect\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Controverte-se acerca da possibilidade de adequa\u00e7\u00e3o, na fase de execu\u00e7\u00e3o, dos \u00edndices de juros e de corre\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria previstos em t\u00edtulo judicial transitado em julgado \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o ou ao entendimento jurisprudencial do Supremo Tribunal Federal supervenientes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ao analisar o caso, o Superior Tribunal de Justi\u00e7a adotou o posicionamento segundo o qual a coisa julgada n\u00e3o impede a aplica\u00e7\u00e3o da Lei n. 11.960\/2009 no tocante aos t\u00edtulos formados anteriormente \u00e0 sua vig\u00eancia ou quando o processo de conhecimento, embora transitado em julgado a posteriori, nele n\u00e3o se debateu sobre a incid\u00eancia de tal norma por motivo n\u00e3o imput\u00e1vel \u00e0 parte interessada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por outro lado, solu\u00e7\u00e3o distinta deveria ser adotada quando a quest\u00e3o dos juros morat\u00f3rios e da corre\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria foi esgotada na fase cognitiva, examinando-se a controv\u00e9rsia \u00e0 luz da Lei n. 11.960\/2009, independentemente do acerto da solu\u00e7\u00e3o adotada no caso concreto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s teses definidas no julgamento dos Temas n. 810\/STF e n. 905\/STJ.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nessa hip\u00f3tese, entendia-se que deveriam prevalecer os par\u00e2metros fixados na senten\u00e7a transitada em julgado, sendo incab\u00edvel ao ju\u00edzo da execu\u00e7\u00e3o redefinir o t\u00edtulo executivo nesse aspecto, sob pena de viola\u00e7\u00e3o \u00e0 coisa julgada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No entanto, tal diretriz hermen\u00eautica encontra-se superada, porquanto o Supremo Tribunal Federal, no julgamento do RE n. 1.317.892\/SC, sob a sistem\u00e1tica da repercuss\u00e3o geral, firmou a tese segundo a qual, nas condena\u00e7\u00f5es da Fazenda P\u00fablica envolvendo rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas n\u00e3o tribut\u00e1rias, aplicam-se, a partir da vig\u00eancia da Lei n. 11.960\/2009, os juros morat\u00f3rios previstos no art. 1\u00ba-F da Lei n. 9.494\/1997, ainda que exista t\u00edtulo judicial transitado em julgado com determina\u00e7\u00e3o diversa (Tema n. 1.170\/STF).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Posteriormente, no julgamento do RE n. 1.505.031\/SC, assentou-se que o tr\u00e2nsito em julgado de decis\u00e3o que fixa \u00edndice espec\u00edfico de juros ou corre\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria n\u00e3o impede a aplica\u00e7\u00e3o de legisla\u00e7\u00e3o superveniente ou da orienta\u00e7\u00e3o consolidada pelo Supremo Tribunal Federal, nos termos do Tema n. 1.170\/STF (Tema n. 1.361\/STF).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A partir de tal compreens\u00e3o, conclui-se que, na fase de execu\u00e7\u00e3o, a coisa julgada n\u00e3o impede a aplica\u00e7\u00e3o da Lei n. 11.960\/2009, seja no tocante aos t\u00edtulos formados anteriormente \u00e0 sua vig\u00eancia, seja quando o processo de conhecimento transitou em julgado a posteriori, ainda que esgotado o debate sobre a incid\u00eancia de tal norma na fase cognitiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Acrescente-se, a prop\u00f3sito, a orienta\u00e7\u00e3o firmada no Tema n. 810\/STF (RE n. 870.947), cuja aplica\u00e7\u00e3o aos processos em curso foi reconhecida, no que toca \u00e0 corre\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria, nos seguintes termos: &#8220;[&#8230;] invi\u00e1vel a incid\u00eancia do art. 1\u00ba-F da Lei 9.494\/97, com reda\u00e7\u00e3o dada pela Lei 11.960\/09, uma vez que o \u00edndice ali definido n\u00e3o se qualifica como medida adequada a capturar a varia\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os da economia, devendo ser aplicados os \u00edndices previstos no Manual de C\u00e1lculos da Justi\u00e7a Federal, com destaque para a incid\u00eancia do IPCA-E a partir de janeiro\/2001. Logo, \u00e9 inaplic\u00e1vel, para fins de corre\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria, o art. 1\u00ba-F da Lei 9.494\/97, com a reda\u00e7\u00e3o dada pela Lei 11.960\/09, pois o Supremo Tribunal Federal decidiu que a norma \u00e9, nesse ponto, inconstitucional (RE n. 870.947\/SE), determinando a corre\u00e7\u00e3o de acordo com o IPCA&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, o t\u00edtulo exequendo fixou a TR (Taxa Referencial) como \u00edndice de corre\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria, tendo havido exame da Lei n. 11.960\/2009 na fase cognitiva. Assim, \u00e0 luz da tese vinculante do Tema n. 1.361\/STF, imp\u00f5e-se a adequa\u00e7\u00e3o dos \u00edndices fixados no t\u00edtulo aos par\u00e2metros constitucionais e legais supervenientes, de modo a observar o IPCA-E como \u00edndice de corre\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria nas condena\u00e7\u00f5es impostas \u00e0 Fazenda P\u00fablica, conforme decidido no Tema n. 810\/STF, sem que isso importe viola\u00e7\u00e3o \u00e0 coisa julgada, nos termos do Tema n. 1.170\/STF.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-2-nbsp-momento-consumativo-da-extorsao-e-submissao-da-vitima\" class=\"wp-block-heading\">2.&nbsp; MOMENTO CONSUMATIVO DA EXTORS\u00c3O E SUBMISS\u00c3O DA V\u00cdTIMA<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A extors\u00e3o, embora crime formal, <strong>admite a forma tentada<\/strong> quando, apesar da amea\u00e7a, <strong>a v\u00edtima n\u00e3o pratica nenhuma conduta em decorr\u00eancia do constrangimento<\/strong>, inexistindo in\u00edcio de submiss\u00e3o \u00e0 exig\u00eancia do agente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">EAREsp 2.819.893-SP, Rel. Min. Ribeiro Dantas, Terceira Se\u00e7\u00e3o, por unanimidade, julgado em 10\/6\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Chiquinha recebeu a amea\u00e7a: ou pagava alto valor, ou imagens \u00edntimas suas seriam divulgadas. Em vez de ceder, foi direto \u00e0 pol\u00edcia, que montou a\u00e7\u00e3o controlada e prendeu o extorsion\u00e1rio em flagrante. Nenhum centavo foi pago, nenhum gesto de obedi\u00eancia \u00e0 exig\u00eancia. A acusa\u00e7\u00e3o sustentou crime consumado: extors\u00e3o \u00e9 delito formal, e a amea\u00e7a bastaria. A defesa arguiu a tentativa. Sem resposta da v\u00edtima ao constrangimento, a extors\u00e3o se consuma?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CP, art. 158; S\u00famula 96\/STJ<\/strong><em> (constranger algu\u00e9m, mediante viol\u00eancia ou grave amea\u00e7a, com o intuito de obter indevida vantagem econ\u00f4mica, a fazer, tolerar que se fa\u00e7a ou deixar de fazer alguma coisa; o crime de extors\u00e3o consuma-se independentemente da obten\u00e7\u00e3o da vantagem indevida).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda A dispensa do resultado patrimonial diz respeito ao exaurimento: a vantagem econ\u00f4mica \u00e9 resultado ulterior, irrelevante para a consuma\u00e7\u00e3o. O comportamento da v\u00edtima, fazer, tolerar ou omitir, integra o pr\u00f3prio n\u00facleo do verbo constranger e \u00e9 elemento da forma consumada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd A natureza formal n\u00e3o afasta a tentativa nos crimes plurissubsistentes: amea\u00e7a sem qualquer resposta comportamental da v\u00edtima marca o in\u00edcio da execu\u00e7\u00e3o, e o <em>iter criminis<\/em> estaciona na forma tentada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A premissa da acusa\u00e7\u00e3o era correta, mas incompleta. <strong>Ser formal significa que a extors\u00e3o se consuma sem o ingresso da vantagem no patrim\u00f4nio do agente<\/strong>, como cristaliza a S\u00famula 96\/STJ; da\u00ed n\u00e3o se extrai que o tipo se satisfa\u00e7a com a amea\u00e7a isolada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f O verbo nuclear pede mais do que intimida\u00e7\u00e3o. <strong>Constranger \u00e9 impor um comportamento: o tipo exige que a v\u00edtima fa\u00e7a, tolere que se fa\u00e7a ou deixe de fazer alguma coisa<\/strong>, e essa resposta comportamental integra a forma consumada do delito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A distin\u00e7\u00e3o separa situa\u00e7\u00f5es substancialmente diversas. <strong>Quem cede, ainda que parcialmente, submete-se \u00e0 vontade do agente; quem resiste por inteiro e aciona de imediato as autoridades n\u00e3o inicia submiss\u00e3o<\/strong>; tratar os dois quadros como consuma\u00e7\u00e3o id\u00eantica desprezaria a proporcionalidade da resposta penal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f No caso, o percurso criminoso parou no meio do caminho. <strong>A v\u00edtima amea\u00e7ada com a divulga\u00e7\u00e3o de imagens \u00edntimas procuraram a pol\u00edcia, e a a\u00e7\u00e3o controlada culminou na pris\u00e3o em flagrante<\/strong>; sem nenhum ato de obedi\u00eancia \u00e0 exig\u00eancia, prevalece a forma tentada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre o momento consumativo da extors\u00e3o, quando a v\u00edtima amea\u00e7ada n\u00e3o realiza nenhuma conduta em raz\u00e3o do constrangimento:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) configura-se a tentativa, ausente in\u00edcio de submiss\u00e3o \u00e0 exig\u00eancia do agente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) consuma-se o delito com a amea\u00e7a id\u00f4nea, dada a natureza formal do tipo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) exige-se a obten\u00e7\u00e3o da vantagem econ\u00f4mica, verdadeiro resultado consumativo do crime.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) descaracteriza-se a extors\u00e3o, subsistindo o fato como delito aut\u00f4nomo contra a liberdade individual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) pune-se como ato preparat\u00f3rio, pois a execu\u00e7\u00e3o se inicia com a conduta da v\u00edtima.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Correta. O n\u00facleo do tipo reclama a imposi\u00e7\u00e3o de comportamento \u00e0 v\u00edtima; sem fazer, tolerar ou omitir em resposta ao constrangimento, o percurso execut\u00f3rio fica incompleto e a extors\u00e3o permanece tentada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. A natureza formal dispensa a vantagem econ\u00f4mica, n\u00e3o a submiss\u00e3o da v\u00edtima; a amea\u00e7a isolada marca o in\u00edcio da execu\u00e7\u00e3o, sem perfazer o tipo por inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. A vantagem \u00e9 resultado ulterior, de \u00edndole exauriente: sua obten\u00e7\u00e3o \u00e9 juridicamente irrelevante para a consuma\u00e7\u00e3o, como enuncia a S\u00famula 96\/STJ.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. O fato n\u00e3o migra para o constrangimento ilegal ou a amea\u00e7a: a finalidade de vantagem econ\u00f4mica mant\u00e9m a tipicidade da extors\u00e3o, apenas na forma tentada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. A amea\u00e7a dirigida \u00e0 exig\u00eancia patrimonial j\u00e1 \u00e9 ato execut\u00f3rio do crime plurissubsistente; o que falta para consumar \u00e9 a resposta da v\u00edtima, n\u00e3o o in\u00edcio da execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-0\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A quest\u00e3o consiste em saber se, no crime de extors\u00e3o, tipificado no art. 158 do C\u00f3digo Penal, o mero constrangimento psicol\u00f3gico, desacompanhado de qualquer comportamento da v\u00edtima em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 exig\u00eancia do agente, \u00e9 suficiente para a consuma\u00e7\u00e3o do delito, ou se, nessa hip\u00f3tese, configura-se apenas a tentativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A orienta\u00e7\u00e3o firmada no ac\u00f3rd\u00e3o embargado parte da premissa de que, sendo a extors\u00e3o crime formal, sua consuma\u00e7\u00e3o ocorre no momento do constrangimento, independentemente da obten\u00e7\u00e3o da vantagem econ\u00f4mica. Tal premissa, embora correta em abstrato, n\u00e3o resolve integralmente a quest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Isso porque o tipo penal do art. 158 do CP n\u00e3o se esgota na mera amea\u00e7a, exigindo que o constrangimento seja dirigido a fazer, tolerar que se fa\u00e7a ou deixar de fazer alguma coisa. Ou seja, o n\u00facleo da conduta envolve a imposi\u00e7\u00e3o de um comportamento \u00e0 v\u00edtima, ainda que n\u00e3o se exija a efetiva obten\u00e7\u00e3o da vantagem econ\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A dispensa do resultado patrimonial &#8211; consagrada na S\u00famula n. 96\/STJ &#8211; significa apenas que o delito se consuma independentemente do ingresso da vantagem no patrim\u00f4nio do agente, tratando-se de crime formal. N\u00e3o significa, contudo, que se prescinda de qualquer efeito do constrangimento sobre a esfera de autodetermina\u00e7\u00e3o da v\u00edtima.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A vantagem econ\u00f4mica constitui resultado ulterior, de natureza exauriente, cuja efetiva obten\u00e7\u00e3o \u00e9 juridicamente irrelevante para a consuma\u00e7\u00e3o. J\u00e1 o comportamento da v\u00edtima &#8211; fazer, tolerar que se fa\u00e7a ou deixar de fazer algo &#8211; integra o pr\u00f3prio n\u00facleo do tipo, sendo elemento necess\u00e1rio \u00e0 configura\u00e7\u00e3o da forma consumada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A consuma\u00e7\u00e3o independe da obten\u00e7\u00e3o da vantagem, mas n\u00e3o dispensa a submiss\u00e3o da v\u00edtima. Assim, a mera amea\u00e7a desacompanhada de resposta comportamental da v\u00edtima n\u00e3o perfaz integralmente o tipo penal, pois n\u00e3o se verifica a submiss\u00e3o exigida pelo verbo &#8220;constranger&#8221;, mas apenas o in\u00edcio da execu\u00e7\u00e3o, compat\u00edvel com a forma tentada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nessa linha, a natureza formal do delito n\u00e3o afasta, por si s\u00f3, a possibilidade de tentativa, sobretudo em crimes plurissubsistentes. O ponto decisivo, portanto, reside em verificar se houve, no caso concreto, a efetiva submiss\u00e3o da v\u00edtima \u00e0 vontade do agente, ainda que de forma inicial ou incipiente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando a v\u00edtima, embora amea\u00e7ada, n\u00e3o realiza nenhuma conduta em resposta \u00e0 exig\u00eancia &#8211; seja agir, tolerar ou se omitir -, o <em>iter criminis<\/em> n\u00e3o atinge o patamar necess\u00e1rio \u00e0 consuma\u00e7\u00e3o, permanecendo na esfera da tentativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, as v\u00edtimas, embora amea\u00e7adas com a divulga\u00e7\u00e3o de imagens \u00edntimas e constrangidas ao pagamento de elevado valor, n\u00e3o se submeteram \u00e0 exig\u00eancia, tendo procurado imediatamente a pol\u00edcia, o que culminou na realiza\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00e3o controlada e na pris\u00e3o em flagrante do corr\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N\u00e3o se verifica, portanto, qualquer comportamento que possa ser compreendido como in\u00edcio de submiss\u00e3o \u00e0 vontade do agente. Nessas circunst\u00e2ncias, afigura-se mais adequada a orienta\u00e7\u00e3o firmada no ac\u00f3rd\u00e3o paradigma, no sentido de que, embora formal, o crime de extors\u00e3o admite a forma tentada quando inexistente alguma conduta da v\u00edtima em decorr\u00eancia da amea\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Adotar entendimento diverso implicaria equiparar situa\u00e7\u00f5es substancialmente distintas: de um lado, aquelas em que a v\u00edtima, ainda que parcialmente, se submete \u00e0 exig\u00eancia; de outro, aquelas em que resiste integralmente e aciona imediatamente as autoridades, como ocorreu na hip\u00f3tese. A distin\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 meramente te\u00f3rica, mas tem relevo concreto na delimita\u00e7\u00e3o do momento consumativo do delito e na pr\u00f3pria proporcionalidade da resposta penal.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-3-nbsp-peculato-expediente-administrativo-regular-e-pena-base\" class=\"wp-block-heading\">3.&nbsp; PECULATO, EXPEDIENTE ADMINISTRATIVO REGULAR E PENA-BASE<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ausente estrat\u00e9gia concreta adicional voltada a dificultar a persecu\u00e7\u00e3o penal, <strong>o uso do expediente administrativo-burocr\u00e1tico regular do \u00f3rg\u00e3o N\u00c3O fundamenta a exaspera\u00e7\u00e3o da pena-base<\/strong> no peculato: o <strong><em>modus operandi<\/em> \u00e9 inerente ao tipo<\/strong> do art. 312 do CP.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AgRg nos EAREsp 1.478.373-ES, Rel. Min. Messod Azulay Neto, Terceira Se\u00e7\u00e3o, por unanimidade, julgado em 16\/6\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para desviar dinheiro p\u00fablico, o servidor Tib\u00farcio seguiu o protocolo da reparti\u00e7\u00e3o: nota de empenho, ordem de pagamento e cheque nominal, tudo dentro do rito burocr\u00e1tico de sempre. Na dosimetria, o uso da pr\u00f3pria m\u00e1quina administrativa pesou como culpabilidade acentuada e elevou a pena-base. A defesa op\u00f4s embargos de diverg\u00eancia: sem esses atos, o desvio sequer existiria. O manejo do expediente regular do \u00f3rg\u00e3o justifica a exaspera\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CP, arts. 59 e 312<\/strong><em> (a pena-base atende \u00e0 culpabilidade e \u00e0s demais circunst\u00e2ncias judiciais; o peculato consiste em apropriar-se ou desviar valor de que o funcion\u00e1rio tem a posse em raz\u00e3o do cargo).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CPC, art. 926<\/strong><em> (os tribunais devem uniformizar sua jurisprud\u00eancia e mant\u00ea-la est\u00e1vel, \u00edntegra e coerente).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda As Turmas criminais divergiam: para uma, o emprego dos atos administrativos t\u00edpicos era circunst\u00e2ncia inerente ao peculato; para outra, servia de vetor negativo da culpabilidade. A uniformiza\u00e7\u00e3o fez prevalecer a primeira leitura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd A valora\u00e7\u00e3o negativa da culpabilidade exige circunst\u00e2ncia concreta que revele reprovabilidade superior \u00e0 \u00ednsita ao tipo; retirados a nota de empenho, a ordem de pagamento e o cheque nominal, o pr\u00f3prio desvio desapareceria, sinal de que esses atos s\u00e3o o meio necess\u00e1rio do crime, n\u00e3o um plus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O teste decisivo \u00e9 o da subtra\u00e7\u00e3o mental. <strong>Exclu\u00eddos da imputa\u00e7\u00e3o os atos administrativos empregados, o desvio dos valores ao patrim\u00f4nio privado se desfaz por inteiro<\/strong>: o que n\u00e3o pode ser retirado sem apagar o crime integra a estrutura t\u00edpica e j\u00e1 foi sopesado pelo legislador na pena cominada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A primeira fase da dosimetria reclama algo al\u00e9m do tipo. <strong>A censura acentuada da culpabilidade depende de circunst\u00e2ncia concreta adicional que evidencie reprovabilidade acima da prevista no art. 312<\/strong>, como artif\u00edcios voltados a embara\u00e7ar a apura\u00e7\u00e3o, ausentes no caso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O crit\u00e9rio tra\u00e7a a fronteira entre o rotineiro e o excedente. <strong>A simples men\u00e7\u00e3o ao repert\u00f3rio administrativo-burocr\u00e1tico do \u00f3rg\u00e3o, sem indica\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gia destinada a dificultar a persecu\u00e7\u00e3o penal, n\u00e3o demonstra que o agir ultrapassou o modelo t\u00edpico<\/strong>; o funcion\u00e1rio que desvia por dentro do rito usa o \u00fanico caminho pelo qual a verba circula.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A uniformiza\u00e7\u00e3o fecha a diverg\u00eancia com r\u00e9gua clara. <strong>Em aten\u00e7\u00e3o ao dever de coer\u00eancia do art. 926 do CPC, prevalece que o expediente regular do \u00f3rg\u00e3o v\u00edtima n\u00e3o sustenta, sozinho, a exaspera\u00e7\u00e3o da pena-base<\/strong>, reservada a majora\u00e7\u00e3o aos casos com engenho adicional comprovado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No peculato-desvio praticado mediante a emiss\u00e3o regular de empenho, ordem de pagamento e cheque do \u00f3rg\u00e3o, quanto \u00e0 valora\u00e7\u00e3o da culpabilidade:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) justifica-se a exaspera\u00e7\u00e3o, reveladora de maior reprovabilidade o dom\u00ednio da m\u00e1quina administrativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) fundamenta-se o aumento na quebra do dever funcional, nota distintiva do crime praticado por servidor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) desloca-se a censura para a agravante do abuso de poder, pr\u00f3pria da segunda fase da dosimetria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) autoriza-se o incremento quando expressivo o montante desviado, indicador objetivo de gravidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) veda-se a exaspera\u00e7\u00e3o sem estrat\u00e9gia adicional dirigida a dificultar a persecu\u00e7\u00e3o, inerente ao tipo o expediente regular.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. O manejo dos atos administrativos t\u00edpicos \u00e9 o meio necess\u00e1rio do peculato-desvio; trat\u00e1-lo como reprovabilidade acentuada pune duas vezes o mesmo dado estrutural do crime.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. A viola\u00e7\u00e3o do dever funcional \u00e9 elementar do delito de funcion\u00e1rio p\u00fablico contra a administra\u00e7\u00e3o; valor\u00e1-la na primeira fase configuraria dupla considera\u00e7\u00e3o do mesmo elemento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. A agravante do abuso de poder tampouco incide sobre conduta que se confunde com a elementar t\u00edpica; o problema n\u00e3o \u00e9 de fase da dosimetria, mas de iner\u00eancia ao tipo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. O vulto do desvio repercute nas consequ\u00eancias do crime, vetor diverso; a diverg\u00eancia uniformizada tratou da culpabilidade fundada no uso do rito administrativo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Correta. Sem estrat\u00e9gia concreta adicional voltada a embara\u00e7ar a persecu\u00e7\u00e3o penal, o uso do repert\u00f3rio administrativo-burocr\u00e1tico regular n\u00e3o sustenta a exaspera\u00e7\u00e3o da pena-base, por ser inerente ao peculato.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-1\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A quest\u00e3o consiste em saber se o uso do expediente administrativo regular do \u00f3rg\u00e3o p\u00fablico (emiss\u00e3o de ordem de pagamento, nota de empenho e cheque nominal) para viabilizar o desvio de valores, no crime de peculato, configura elemento inerente ao tipo penal do art. 312 do C\u00f3digo Penal, ou se pode fundamentar a valora\u00e7\u00e3o negativa da culpabilidade e a exaspera\u00e7\u00e3o da pena-base.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, configurou-se diverg\u00eancia quanto ao fundamento utilizado para valorar negativamente a culpabilidade, pois a Quinta Turma do Superior Tribunal de Justi\u00e7a compreendeu que o uso do expediente administrativo regular do \u00f3rg\u00e3o v\u00edtima do crime \u00e9 circunst\u00e2ncia inerente ao tipo de peculato, enquanto a Sexta Turma do Tribunal o utilizou para exasperar a pena-base.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com efeito, o <em>modus operandi<\/em> consistente na simples utiliza\u00e7\u00e3o de atos administrativos t\u00edpicos para efetivar o desvio \u00e9 elemento essencial do tipo penal do art. 312 do C\u00f3digo Penal e, por si s\u00f3, n\u00e3o excede a gravidade t\u00edpica do delito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesse sentido, na situa\u00e7\u00e3o em an\u00e1lise, o <em>modus operandi<\/em> adotado pelo agente constitui elemento essencial do tipo penal, pois, ao se retirar da conduta imputada ao sentenciado a emiss\u00e3o da ordem de pagamento, da nota de empenho e do cheque nominal, o pr\u00f3prio desvio dos valores pertencentes ao er\u00e1rio para o patrim\u00f4nio privado estaria desconstitu\u00eddo, e, portanto, inexistiria o crime imputado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A valora\u00e7\u00e3o negativa da culpabilidade (art. 59 do C\u00f3digo Penal) exige circunst\u00e2ncia concreta adicional que evidencie reprovabilidade superior \u00e0 prevista no tipo, elemento que n\u00e3o est\u00e1 presente no caso vertente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Desse modo, a mera men\u00e7\u00e3o ao uso do repert\u00f3rio administrativo-burocr\u00e1tico regular do \u00f3rg\u00e3o v\u00edtima do crime de peculato-desvio, sem a indica\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gia concreta destinada a tornar mais dificultosa a persecu\u00e7\u00e3o penal, n\u00e3o se revela como argumento suficiente para demonstrar, concretamente, que o <em>modus operandi<\/em> adotado pelo agente ultrapassou o previsto no tipo penal, especialmente porque, no caso em exame, a utiliza\u00e7\u00e3o do expediente administrativo do \u00f3rg\u00e3o ao qual estava vinculado o agente era o meio necess\u00e1rio para a transfer\u00eancia das verbas do er\u00e1rio p\u00fablico para o patrim\u00f4nio privado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, em observ\u00e2ncia ao art. 926 do C\u00f3digo de Processo Civil, a uniformiza\u00e7\u00e3o imp\u00f5e fazer prevalecer a compreens\u00e3o de que, ausente estrat\u00e9gia concreta adicional voltada a dificultar a persecu\u00e7\u00e3o penal, o mero uso do repert\u00f3rio administrativo-burocr\u00e1tico regular n\u00e3o fundamenta a exaspera\u00e7\u00e3o da pena-base no crime de peculato.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-4-furto-de-recursos-do-sistema-s-justica-federal-vs-estadual\" class=\"wp-block-heading\">4. FURTO DE RECURSOS DO SISTEMA S: JUSTI\u00c7A FEDERAL vs. ESTADUAL<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A compet\u00eancia da Justi\u00e7a Federal para crimes envolvendo recursos do Sistema S <strong>define-se caso a caso<\/strong>, considerando a <strong>sujei\u00e7\u00e3o das verbas \u00e0 fiscaliza\u00e7\u00e3o do TCU<\/strong> e o efetivo envolvimento de bens ou interesses da Uni\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AgRg no CC 213.525-PE, Rel. Min. Ribeiro Dantas, Terceira Se\u00e7\u00e3o, por unanimidade, julgado em 7\/5\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Auditorias do TCU e da CGU acenderam o alerta: contratos celebrados por entes federais com entidade do Sistema S escondiam fraudes e desvios, e Creitinho apareceu no centro do esquema. Instaurado o inqu\u00e9rito e ajuizadas as a\u00e7\u00f5es penais, veio a disputa de foro: as entidades do sistema t\u00eam personalidade privada, o que apontaria para a Justi\u00e7a Estadual; as verbas, por\u00e9m, prestavam contas a \u00f3rg\u00e3os federais. Qual Justi\u00e7a processa o furto dessas verbas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>S\u00famula 516\/STF; S\u00famulas 208 e 209\/STJ<\/strong><em> (o SESI est\u00e1 sujeito \u00e0 jurisdi\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a Estadual; compete \u00e0 Justi\u00e7a Federal o crime de desvio de verbas sujeitas a presta\u00e7\u00e3o de contas perante \u00f3rg\u00e3o federal, e \u00e0 Estadual quando as verbas j\u00e1 est\u00e3o incorporadas ao patrim\u00f4nio municipal).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda Na esfera c\u00edvel, a compet\u00eancia se define pelas pessoas que comp\u00f5em a rela\u00e7\u00e3o processual, campo natural da S\u00famula 516\/STF; na esfera penal, o crit\u00e9rio \u00e9 a natureza da verba atingida pelo crime, terreno das S\u00famulas 208 e 209 do STJ.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd Verbas do Sistema S sujeitas ao controle do TCU e vinculadas a contratos de entes federais atraem o interesse da Uni\u00e3o e o foro federal; a incid\u00eancia da s\u00famula do STF em mat\u00e9ria criminal fica reservada aos casos sem recursos repassados pela Uni\u00e3o nem fiscaliza\u00e7\u00e3o da corte de contas federal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 As duas s\u00famulas em jogo habitam mundos processuais distintos. <strong>O enunciado do STF sobre o SESI opera nas causas c\u00edveis, em que a compet\u00eancia acompanha as pessoas jur\u00eddicas da rela\u00e7\u00e3o processual<\/strong>; nos crimes, o que importa \u00e9 a natureza da verba em discuss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f Para a esfera penal, o norte vem de outra dupla de enunciados. <strong>A sujei\u00e7\u00e3o dos recursos a presta\u00e7\u00e3o de contas perante \u00f3rg\u00e3o federal define o foro federal, na l\u00f3gica das S\u00famulas 208 e 209 do STJ<\/strong>, que repartem a compet\u00eancia conforme o destino e o controle do dinheiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O caso concreto reunia os dois sinais de federaliza\u00e7\u00e3o. <strong>As apura\u00e7\u00f5es nasceram de relat\u00f3rios do TCU e da CGU, e os contratos fraudados foram celebrados por entes federais<\/strong>, evidenciando verbas sob fiscaliza\u00e7\u00e3o federal e interesse direto da Uni\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f O m\u00e9todo, mais que o resultado, \u00e9 a tese do julgado. <strong>N\u00e3o h\u00e1 regra fixa para o Sistema S: a defini\u00e7\u00e3o \u00e9 casu\u00edstica, conforme o controle exercido sobre os recursos e o envolvimento de bens federais<\/strong>; presentes esses elementos, mant\u00e9m-se a compet\u00eancia da Justi\u00e7a Federal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 compet\u00eancia para o crime de desvio de recursos do Sistema S:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) firma-se na Justi\u00e7a Estadual, dada a personalidade privada das entidades que comp\u00f5em o sistema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) define-se caso a caso, atra\u00edda a Justi\u00e7a Federal pela fiscaliza\u00e7\u00e3o do TCU sobre as verbas e pelo interesse da Uni\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) segue o crit\u00e9rio das pessoas integrantes do processo, como nas causas c\u00edveis dessas entidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) atrai-se ao foro federal pela origem parafiscal das contribui\u00e7\u00f5es que financiam o sistema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) exclui-se a Justi\u00e7a Federal, sendo o controle do TCU \u00e9 administrativo e sem repercuss\u00e3o processual penal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A natureza privada das entidades comanda a compet\u00eancia c\u00edvel (S\u00famula 516\/STF); no crime, o crit\u00e9rio \u00e9 a verba atingida, e recursos fiscalizados pelo TCU atraem o foro federal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Correta. A defini\u00e7\u00e3o \u00e9 casu\u00edstica: a sujei\u00e7\u00e3o das verbas ao controle do TCU e o envolvimento de contratos de entes federais evidenciam o interesse da Uni\u00e3o e mant\u00eam a compet\u00eancia da Justi\u00e7a Federal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. O crit\u00e9rio das pessoas vale para as causas c\u00edveis; na esfera penal, a compet\u00eancia se fixa pela natureza da verba em discuss\u00e3o, crit\u00e9rio consagrado nos enunciados penais do STJ.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. A origem parafiscal, sozinha, n\u00e3o federaliza o crime: o exame \u00e9 concreto, voltado ao controle efetivamente exercido sobre os recursos e ao interesse federal envolvido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. A fiscaliza\u00e7\u00e3o do TCU \u00e9 justamente um dos vetores que evidenciam o interesse federal e conduzem \u00e0 Justi\u00e7a da Uni\u00e3o, longe de ser dado processualmente neutro.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-2\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A quest\u00e3o consiste em saber se a compet\u00eancia para processar e julgar a a\u00e7\u00e3o penal relativa ao furto qualificado envolvendo recursos p\u00fablicos do Sistema S deve ser atribu\u00edda \u00e0 Justi\u00e7a Federal ou \u00e0 Justi\u00e7a Estadual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, as a\u00e7\u00f5es penais foram originadas de Inqu\u00e9rito Policial instaurado em aten\u00e7\u00e3o a relat\u00f3rios de auditoria elaborados pelo Tribunal de Contas da Uni\u00e3o &#8211; TCU e pela Controladoria Geral da Uni\u00e3o &#8211; CGU, cujos conte\u00fados revelaram supostas fraudes e desvios de recursos p\u00fablicos nos referidos contratos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sobre o tema, a jurisprud\u00eancia do Superior Tribunal de Justi\u00e7a e do Supremo Tribunal Federal admite que a compet\u00eancia da Justi\u00e7a Federal deve ser analisada caso a caso, especialmente quando h\u00e1 envolvimento de recursos p\u00fablicos sujeitos \u00e0 presta\u00e7\u00e3o de contas perante autoridades federais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nessa linha, conforme reconhecido em diversos julgados do STJ, a sujei\u00e7\u00e3o das supostas verbas desviadas ao controle e fiscaliza\u00e7\u00e3o do TCU atrairia o interesse da Uni\u00e3o no feito e a compet\u00eancia da Justi\u00e7a Federal. Por sua vez, a aplica\u00e7\u00e3o da S\u00famula 516 do STF (O Servi\u00e7o Social da Ind\u00fastria &#8211; SESI &#8211; est\u00e1 sujeito \u00e0 jurisdi\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a Estadual) tem incid\u00eancia em causas c\u00edveis e, apenas excepcionalmente, em casos criminais, desde que n\u00e3o envolvam recursos p\u00fablicos repassados pela Uni\u00e3o e nem estejam sujeitos ao controle do Tribunal de Contas da Uni\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quanto ao ponto, saliente-se que, na seara c\u00edvel, diversamente do que ocorre na criminal, a compet\u00eancia \u00e9 definida em raz\u00e3o das pessoas jur\u00eddicas que comp\u00f5em a rela\u00e7\u00e3o processual e n\u00e3o em raz\u00e3o da natureza da verba em discuss\u00e3o, incidindo, portanto, a S\u00famula 516 do STF e afastando-se a incid\u00eancia das S\u00famulas 208 e 209 do STJ, que versam sobre fixa\u00e7\u00e3o de compet\u00eancia em mat\u00e9ria penal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Dessa forma, considerando que os recursos desviados estavam sujeitos \u00e0 fiscaliza\u00e7\u00e3o do TCU e envolviam contratos celebrados por entes federais, deve ser mantida a compet\u00eancia da Justi\u00e7a Federal.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-5-nbsp-sobrepartilha-sonegacao-de-bens-e-esforco-comum-presumido\" class=\"wp-block-heading\">5.&nbsp; SOBREPARTILHA, SONEGA\u00c7\u00c3O DE BENS E ESFOR\u00c7O COMUM PRESUMIDO<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A sobrepartilha destina-se a <strong>bens sonegados ou desconhecidos \u00e0 \u00e9poca da partilha<\/strong>, sem servir a arrependimentos; na comunh\u00e3o parcial, <strong>comunicam-se os frutos e a evolu\u00e7\u00e3o patrimonial da const\u00e2ncia da uni\u00e3o<\/strong>, presumido o esfor\u00e7o comum, que abrange a dedica\u00e7\u00e3o ao lar e \u00e0 fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 1.959.926-PR, Rel. Min. Humberto Martins, Terceira Turma, por unanimidade, julgado em 8\/6\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No div\u00f3rcio consensual, Seu Barriga apresentou a lista de bens do casal, mas deixou de fora um detalhe de porte: 2.331 cabe\u00e7as de gado, dezenas de outros animais e as benfeitorias erguidas em duas fazendas durante o casamento. A Sra. Barriga, que dedicara os anos da uni\u00e3o ao lar e ao cuidado do beb\u00ea Nhonho, descobriu o acervo oculto e ajuizou sobrepartilha. O Seu Barriga resistiu em duas frentes: ela conhecia os bens, e, sem renda pr\u00f3pria, n\u00e3o teria contribu\u00eddo para o acr\u00e9scimo. A mea\u00e7\u00e3o alcan\u00e7a o rebanho escondido?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CC\/1916, art. 271, V; CC\/2002, arts. 1.660, V, 2.022 e 2.039<\/strong><em> (entram na comunh\u00e3o os frutos dos bens comuns ou particulares percebidos na const\u00e2ncia do casamento; ficam sujeitos \u00e0 sobrepartilha os bens sonegados e os descobertos ap\u00f3s a partilha).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda A sobrepartilha corrige falhas negociais nascidas da oculta\u00e7\u00e3o ou do efetivo desconhecimento de parcela do acervo; a constata\u00e7\u00e3o de bens n\u00e3o arrolados exige a prova do desconhecimento pelo consorte para que se presuma a sonega\u00e7\u00e3o, e o ac\u00f3rd\u00e3o local assentou que a Sra. Barriga (ex-esposa) ignorava as benfeitorias e a expressiva <em>evolu\u00e7\u00e3o<\/em> do rebanho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd O esfor\u00e7o comum, fundamento do regime, materializa-se tamb\u00e9m de forma indireta e imaterial: suporte afetivo, dedica\u00e7\u00e3o ao ambiente dom\u00e9stico e \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da prole. Exigir da consorte prova de contribui\u00e7\u00e3o financeira direta, por cotejo objetivo da atividade dom\u00e9stica, desvirtuaria o preceito protetivo da fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O primeiro filtro separa arrependimento de v\u00edcio genu\u00edno. <strong>A via da sobrepartilha n\u00e3o abriga a revis\u00e3o de transa\u00e7\u00e3o que se revelou desvantajosa: seu campo \u00e9 a oculta\u00e7\u00e3o ou o desconhecimento de parte do patrim\u00f4nio<\/strong> ao tempo do acordo, exatamente o quadro que a inst\u00e2ncia ordin\u00e1ria reconheceu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A prova do encobrimento veio da pr\u00f3pria documenta\u00e7\u00e3o. <strong>O ac\u00f3rd\u00e3o local registrou que a ex-esposa ignorava as benfeitorias e o crescimento excedente do rebanho, revelando a omiss\u00e3o do r\u00e9u<\/strong>, o que legitima a inclus\u00e3o desses bens na divis\u00e3o complementar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A segunda defesa esbarrava na arquitetura do regime de bens. <strong>Na comunh\u00e3o parcial, os frutos percebidos na const\u00e2ncia da uni\u00e3o e a evolu\u00e7\u00e3o patrimonial do per\u00edodo entram na comunh\u00e3o<\/strong>, ainda quando ligados a bens recebidos por heran\u00e7a, pois o acr\u00e9scimo \u00e9 obra da vida em comum.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f E o conceito de contribui\u00e7\u00e3o h\u00e1 muito deixou de ser cont\u00e1bil. <strong>O esfor\u00e7o comum se presume e se realiza tamb\u00e9m pelo suporte afetivo e pela dedica\u00e7\u00e3o ao lar e \u00e0 prole<\/strong>; condicionar a mea\u00e7\u00e3o \u00e0 renda externa da consorte desvirtuaria a prote\u00e7\u00e3o da entidade familiar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acerca da sobrepartilha de bens ap\u00f3s div\u00f3rcio consensual sob o regime da comunh\u00e3o parcial:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) presta-se a rever a divis\u00e3o consensual que, com o tempo, se revelou desvantajosa para um dos ex-c\u00f4njuges.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) exclui os frutos e as benfeitorias vinculados a bens herdados, incomunic\u00e1veis como os bens de origem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) reclama a prova de contribui\u00e7\u00e3o financeira do consorte para a mea\u00e7\u00e3o do acr\u00e9scimo patrimonial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) cabe quanto aos bens sonegados ou desconhecidos na partilha, comunic\u00e1veis os frutos e a evolu\u00e7\u00e3o patrimonial do per\u00edodo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) pressup\u00f5e a pr\u00e9via desconstitui\u00e7\u00e3o judicial do acordo de div\u00f3rcio homologado, com retorno ao estado anterior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. O arrependimento unilateral quanto a transa\u00e7\u00e3o desvantajosa n\u00e3o abre a via da sobrepartilha, reservada \u00e0s falhas decorrentes de oculta\u00e7\u00e3o ou desconhecimento do acervo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. A incomunicabilidade dos bens de origem sucess\u00f3ria n\u00e3o contamina seus frutos nem as benfeitorias da const\u00e2ncia da uni\u00e3o, abrangidos pela comunh\u00e3o (CC\/1916, art. 271, V; CC\/2002, art. 1.660, V).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. O esfor\u00e7o comum se presume e se concretiza tamb\u00e9m de modo indireto, pela dedica\u00e7\u00e3o ao lar e \u00e0 fam\u00edlia; o cotejo objetivo da atividade dom\u00e9stica foi expressamente rejeitado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Correta. A sobrepartilha alcan\u00e7a os bens sonegados ou desconhecidos \u00e0 \u00e9poca da divis\u00e3o; no regime parcial, frutos e acr\u00e9scimos havidos durante a vida em comum entram na comunh\u00e3o, presumido o esfor\u00e7o comum.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. A pretens\u00e3o dispensa a desconstitui\u00e7\u00e3o do acordo: a sobrepartilha complementa a divis\u00e3o anterior quanto ao que ficou de fora, sem atacar a validade do que foi partilhado.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-3\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A controv\u00e9rsia cinge-se a decidir: (i) se a sobrepartilha pressup\u00f5e o desconhecimento ou a oculta\u00e7\u00e3o do bem por uma das partes ao tempo da partilha e se houve sonega\u00e7\u00e3o diante do alegado pr\u00e9vio conhecimento dos bens pela recorrida; e (ii) se no regime de comunh\u00e3o parcial (regra de transi\u00e7\u00e3o do art. 2.039 do CC\/2002), comunicam-se os frutos e as benfeitorias realizadas durante a const\u00e2ncia da sociedade conjugal, inclusive quando o esfor\u00e7o comum se d\u00e1 de forma indireta pela dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 economia do lar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Na origem, trata-se de a\u00e7\u00e3o de sobrepartilha ajuizada pela ex-c\u00f4njuge em desfavor do ora recorrente (ex-c\u00f4njuge), visando \u00e0 partilha de bens patrimoniais que supostamente teriam sido sonegados por este \u00faltimo na ocasi\u00e3o do acordo de div\u00f3rcio consensual das partes. A Corte local concluiu pela comunicabilidade e pela sonega\u00e7\u00e3o de 2.331 bovinos e bufalinos, al\u00e9m de 53 animais das esp\u00e9cies asinina, equina e muar, assim como das benfeitorias levadas a efeito em duas propriedades rurais durante a const\u00e2ncia do casamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No tocante ao primeiro eixo da controv\u00e9rsia, cumpre observar que a sobrepartilha, \u00e0 luz dos arts. 1.040 do CPC\/1973 (vigente \u00e0 \u00e9poca do ajuizamento da a\u00e7\u00e3o) e 2.022 do CC\/2002, n\u00e3o serve para chancelar o arrependimento unilateral decorrente de transa\u00e7\u00e3o posteriormente considerada desvantajosa, mas para sanar falhas negociais decorrentes da oculta\u00e7\u00e3o ou do efetivo desconhecimento acerca de parcela do acervo patrimonial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Segundo a orienta\u00e7\u00e3o jurisprudencial do Superior Tribunal de Justi\u00e7a, a constata\u00e7\u00e3o de bens n\u00e3o arrolados no div\u00f3rcio exige a comprova\u00e7\u00e3o do desconhecimento de sua exist\u00eancia por um dos consortes para que se presuma a sonega\u00e7\u00e3o (REsp 1.204.253\/RS, rel. Ministro Luis Felipe Salom\u00e3o, Quarta Turma, julgado em 27\/5\/2014, DJe de 15\/8\/2014).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Transpondo essa baliza para o caso concreto, o Tribunal de Justi\u00e7a recorrido assentou, de maneira incontroversa, que a recorrida desconhecia as benfeitorias efetuadas e a expressiva evolu\u00e7\u00e3o excedente do rebanho. Consta expressamente do ac\u00f3rd\u00e3o que os documentos revelam a sonega\u00e7\u00e3o por omiss\u00e3o do r\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 comunicabilidade dos bens, o recorrente invoca o art. 271, I, IV e V, do C\u00f3digo Civil de 1916. Aduz que os frutos pendentes e as benfeitorias vinculadas aos bens de raiz adquiridos por sucess\u00e3o estariam salvaguardados da mea\u00e7\u00e3o, pois a ex-esposa confessou n\u00e3o exercer atividade externa e remunerada, infirmando o esfor\u00e7o comum.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sob a \u00e9gide do regime da comunh\u00e3o parcial de bens, aplic\u00e1vel ao caso por for\u00e7a da regra de transi\u00e7\u00e3o do art. 2.039 do CC\/2002, a evolu\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e a percep\u00e7\u00e3o de frutos ocorridas na const\u00e2ncia da sociedade conjugal est\u00e3o abrangidas pela comunicabilidade, nos termos do art. 271, V, do CC\/1916.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com efeito, a jurisprud\u00eancia pac\u00edfica do STJ recha\u00e7a a premissa de que apenas a &#8220;contribui\u00e7\u00e3o financeira direta&#8221; induz partilha. O esfor\u00e7o comum, fundamento teleol\u00f3gico do regime, materializa-se n\u00e3o apenas mediante aporte financeiro voltado \u00e0 aquisi\u00e7\u00e3o patrimonial, mas tamb\u00e9m de forma indireta e imaterial, mediante o suporte psicol\u00f3gico, afetivo e a dedica\u00e7\u00e3o ao ambiente dom\u00e9stico e \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da prole (REsp n. 1.295.991\/MG, relator Ministro Paulo de Tarso Sanseverino, Terceira Turma, julgado em 11\/4\/2013, DJe de 17\/4\/2013).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Logo, o fato de a recorrida ter se dedicado exclusivamente aos trabalhos dom\u00e9sticos e aos cuidados da fam\u00edlia n\u00e3o subtrai seu direito \u00e0 mea\u00e7\u00e3o do incremento patrimonial verificado na const\u00e2ncia da uni\u00e3o. Exigir a comprova\u00e7\u00e3o do esfor\u00e7o comum mediante o cotejo objetivo da atividade dom\u00e9stica desempenhada pela c\u00f4njuge virago representaria desvirtuar o preceito normativo protetivo da institui\u00e7\u00e3o familiar.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-6-bem-de-familia-de-alto-valor-e-impenhorabilidade\" class=\"wp-block-heading\">6. BEM DE FAM\u00cdLIA DE ALTO VALOR E IMPENHORABILIDADE<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A impenhorabilidade do bem de fam\u00edlia <strong>N\u00c3O pode ser relativizada com base no alto valor de mercado do im\u00f3vel<\/strong>: as exce\u00e7\u00f5es do art. 3\u00ba da Lei n. 8.009\/1990 s\u00e3o <strong>taxativas e de interpreta\u00e7\u00e3o restritiva<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AREsp 2.791.033-PR, Rel. Min. Moura Ribeiro, Terceira Turma, por unanimidade, julgado em 22\/6\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A casa em que Seu Barriga mora com a fam\u00edlia \u00e9 o \u00fanico im\u00f3vel residencial da entidade familiar, mas est\u00e1 longe de ser modesta: vale alguns milh\u00f5es. Executado por d\u00edvida civil, viu o Tribunal local engendrar uma sa\u00edda salom\u00f4nica: vender o im\u00f3vel e reservar um percentual para a compra de outra moradia digna. O luxo da resid\u00eancia abre brecha na prote\u00e7\u00e3o do bem de fam\u00edlia?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n. 8.009\/1990, arts. 1\u00ba e 3\u00ba; CF, art. 6\u00ba<\/strong><em> (o im\u00f3vel residencial pr\u00f3prio do casal ou da entidade familiar \u00e9 impenhor\u00e1vel e n\u00e3o responde por d\u00edvida civil, comercial, fiscal, previdenci\u00e1ria ou de outra natureza, ressalvadas as hip\u00f3teses legais; a moradia \u00e9 direito social).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda A lei protege o patrim\u00f4nio m\u00ednimo indispens\u00e1vel \u00e0 subsist\u00eancia da entidade familiar, e as exce\u00e7\u00f5es do art. 3\u00ba, taxativas, interpretam-se restritivamente; a cria\u00e7\u00e3o judicial de novas hip\u00f3teses de constri\u00e7\u00e3o usurparia a fun\u00e7\u00e3o do legislador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd O texto legal n\u00e3o traz crit\u00e9rio de valor, localiza\u00e7\u00e3o ou suntuosidade para modular a garantia; onde a lei n\u00e3o distingue, o int\u00e9rprete n\u00e3o distingue, e a penhora calibrada pelo pre\u00e7o do im\u00f3vel introduziria r\u00e9gua subjetiva de grande inseguran\u00e7a jur\u00eddica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O desenho legal da prote\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixou espa\u00e7os em branco. <strong>O art. 1\u00ba da Lei n. 8.009\/1990 declara o im\u00f3vel residencial impenhor\u00e1vel perante d\u00edvidas de todas as naturezas ali listadas, e o art. 3\u00ba enumera as exce\u00e7\u00f5es<\/strong>, em rol que a jurisprud\u00eancia do STJ trata como taxativo e de leitura restritiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A solu\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria criada na origem n\u00e3o tem assento legal. <strong>Alienar o bem com reserva de percentual para nova moradia \u00e9 exce\u00e7\u00e3o inventada, alheia ao cat\u00e1logo do legislador<\/strong>; sob o r\u00f3tulo de pondera\u00e7\u00e3o, o Judici\u00e1rio passaria a legislar sobre constri\u00e7\u00e3o patrimonial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A tese do im\u00f3vel de luxo desprotegido repete um velho equ\u00edvoco. <strong>Quisesse modular a garantia por valor, localiza\u00e7\u00e3o ou suntuosidade, o legislador teria fixado esses crit\u00e9rios<\/strong>, e n\u00e3o o fez; a distin\u00e7\u00e3o criada pelo int\u00e9rprete n\u00e3o encontra amparo no texto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f Por tr\u00e1s da regra est\u00e1 uma escolha de pol\u00edtica legislativa. <strong>A penhora aferida pelo pre\u00e7o de mercado introduziria crit\u00e9rio subjetivo e inst\u00e1vel, contr\u00e1rio ao esp\u00edrito protetivo da lei<\/strong>, que assegura a moradia da entidade familiar sem tabelar o teto da dignidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre a impenhorabilidade do bem de fam\u00edlia de elevado valor de mercado:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) mant\u00e9m-se, taxativas as exce\u00e7\u00f5es legais, entre as quais n\u00e3o figura o valor do im\u00f3vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) relativiza-se, alienando-se o bem com reserva de quantia destinada a moradia digna.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) cede diante do princ\u00edpio da efetividade da execu\u00e7\u00e3o, mediante pondera\u00e7\u00e3o no caso concreto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) limita-se ao valor m\u00e9dio regional de moradia, penhor\u00e1vel o excedente sobre esse patamar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) condiciona-se \u00e0 demonstra\u00e7\u00e3o de compatibilidade entre o im\u00f3vel e a renda do devedor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Correta. O rol de exce\u00e7\u00f5es da lei do bem de fam\u00edlia \u00e9 fechado e se l\u00ea restritivamente; sem previs\u00e3o ligada ao valor do im\u00f3vel, a prote\u00e7\u00e3o subsiste ainda que a resid\u00eancia seja de alto padr\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. A aliena\u00e7\u00e3o com reserva de percentual \u00e9 solu\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria sem base legal: criar exce\u00e7\u00e3o nova \u00e0 impenhorabilidade usurpa fun\u00e7\u00e3o do Poder Legislativo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. A pondera\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios n\u00e3o autoriza o afastamento de regra legal expressa; a efetividade da execu\u00e7\u00e3o n\u00e3o figura entre as hip\u00f3teses excepcionais do art. 3\u00ba.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. A lei n\u00e3o fixa teto de valor nem penhora do excedente; a modula\u00e7\u00e3o por patamar econ\u00f4mico introduziria crit\u00e9rio estranho ao texto e fonte de inseguran\u00e7a jur\u00eddica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. A prote\u00e7\u00e3o n\u00e3o depende de ju\u00edzo de compatibilidade entre o padr\u00e3o do im\u00f3vel e a renda do devedor: basta a condi\u00e7\u00e3o de im\u00f3vel residencial da entidade familiar, fora das exce\u00e7\u00f5es legais.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-4\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A controv\u00e9rsia consiste em saber se a prote\u00e7\u00e3o conferida pela Lei n. 8.009\/1990 ao bem de fam\u00edlia pode ser relativizada quando o im\u00f3vel possui alto valor de mercado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A Lei n. 8.009\/1990 foi editada com o claro prop\u00f3sito de assegurar o direito fundamental \u00e0 moradia (art. 6\u00ba da CF) e de proteger a dignidade da pessoa humana, garantindo um patrim\u00f4nio m\u00ednimo indispens\u00e1vel \u00e0 subsist\u00eancia da entidade familiar. O art. 1\u00ba da referida Lei \u00e9 categ\u00f3rico ao estabelecer que o im\u00f3vel residencial pr\u00f3prio do casal, ou da entidade familiar, \u00e9 impenhor\u00e1vel e n\u00e3o responder\u00e1 por nenhum tipo de d\u00edvida civil, comercial, fiscal, previdenci\u00e1ria ou de outra natureza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; As exce\u00e7\u00f5es a essa regra de impenhorabilidade foram expressamente e taxativamente elencadas pelo legislador no art. 3\u00ba da mesma Lei. A interpreta\u00e7\u00e3o de tal rol, conforme entendimento consolidado no Superior Tribunal de Justi\u00e7a, deve ser sempre restritiva. N\u00e3o cabe ao Poder Judici\u00e1rio, sob o pretexto de realizar justi\u00e7a no caso concreto ou de ponderar princ\u00edpios, criar novas exce\u00e7\u00f5es n\u00e3o previstas em lei, usurpando a fun\u00e7\u00e3o do Poder Legislativo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, o Tribunal de origem criou uma solu\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria n\u00e3o prevista em lei, qual seja, a aliena\u00e7\u00e3o do bem com reserva de percentual para aquisi\u00e7\u00e3o de outro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A tese de que im\u00f3veis de alto padr\u00e3o ou de luxo estariam exclu\u00eddos da prote\u00e7\u00e3o legal n\u00e3o encontra nenhum amparo no texto da lei. O legislador, se assim o quisesse, teria estabelecido crit\u00e9rios de valor, localiza\u00e7\u00e3o ou suntuosidade para modular a garantia, o que n\u00e3o o fez. A lei n\u00e3o faz distin\u00e7\u00e3o, logo, n\u00e3o cabe ao int\u00e9rprete distinguir. Permitir a penhora do bem de fam\u00edlia com base em seu valor econ\u00f4mico seria introduzir um crit\u00e9rio subjetivo e de grande inseguran\u00e7a jur\u00eddica, contr\u00e1rio ao esp\u00edrito da lei.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-7-seguro-habitacional-sem-apolice-publica-e-recurso-da-seguradora\" class=\"wp-block-heading\">7. SEGURO HABITACIONAL SEM AP\u00d3LICE P\u00daBLICA E RECURSO DA SEGURADORA<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o identificado o v\u00ednculo com a ap\u00f3lice p\u00fablica no seguro habitacional do SFH, e sem insurg\u00eancia da CEF contra a declina\u00e7\u00e3o de compet\u00eancia \u00e0 Justi\u00e7a Estadual, <strong>a seguradora privada N\u00c3O tem legitimidade nem interesse para recorrer<\/strong> da decis\u00e3o: a manifesta\u00e7\u00e3o sobre o interesse federal \u00e9 <strong>prerrogativa da entidade p\u00fablica<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 2.264.236-PE, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por unanimidade, julgado em 2\/6\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Kiko ajuizou contra a BemProtege Seguros para a cobran\u00e7a do seguro habitacional do financiamento da casa pr\u00f3pria. O ju\u00edzo federal examinou o contrato, n\u00e3o encontrou v\u00ednculo com a ap\u00f3lice p\u00fablica do Ramo 66 e, diante do sil\u00eancio da Caixa Econ\u00f4mica Federal, remeteu os autos \u00e0 Justi\u00e7a Estadual. Quem recorreu foi a seguradora, empenhada em manter a CEF no processo e o feito no foro federal. A seguradora pode defender, em nome pr\u00f3prio, o interesse do ente p\u00fablico?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>S\u00famula 150\/STJ; Tema 1011\/STF<\/strong><em> (compete \u00e0 Justi\u00e7a Federal decidir sobre o interesse jur\u00eddico da Uni\u00e3o e de suas entidades no processo; nas a\u00e7\u00f5es do seguro habitacional com ap\u00f3lice p\u00fablica, admite-se a interven\u00e7\u00e3o da CEF em defesa do FCVS, com deslocamento do feito).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda Na ap\u00f3lice p\u00fablica (Ramo 66), a condena\u00e7\u00e3o da seguradora pode atingir o Fundo de Compensa\u00e7\u00e3o de Varia\u00e7\u00f5es Salariais administrado pela CEF, o que explica o <em>potencial<\/em> interesse do ente e da Uni\u00e3o no desfecho da causa; sem essa cobertura, o fundo fica alheio ao lit\u00edgio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd O deslocamento para o foro federal depende de manifesta\u00e7\u00e3o expressa da CEF ou da Uni\u00e3o, espont\u00e2nea ou provocada; a seguradora n\u00e3o pode suprir essa declara\u00e7\u00e3o nem atuar em nome pr\u00f3prio para defender interesse alheio e reter o processo na Justi\u00e7a Federal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A chave do interesse federal est\u00e1 no tipo de ap\u00f3lice. <strong>Na cobertura p\u00fablica do Ramo 66, a senten\u00e7a contr\u00e1ria \u00e0 seguradora pode repercutir no FCVS, fundo administrado pela CEF<\/strong>, abrindo espa\u00e7o para a interven\u00e7\u00e3o da entidade e o deslocamento do feito (Tema 1011\/STF).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f Mesmo nesse cen\u00e1rio, a porta federal n\u00e3o se abre sozinha. <strong>A fixa\u00e7\u00e3o da compet\u00eancia da Justi\u00e7a Federal depende de manifesta\u00e7\u00e3o expressa de interesse da CEF ou da Uni\u00e3o<\/strong>, a quem cabe avaliar a conveni\u00eancia de intervir; a declara\u00e7\u00e3o da autoridade federal \u00e9 indispens\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 No caso, faltavam as duas pontes para o foro federal. <strong>O im\u00f3vel foi adquirido sem a cobertura p\u00fablica do FCVS, e a CEF n\u00e3o se insurgiu contra a remessa dos autos<\/strong>; o exame do interesse federal, feito por quem det\u00e9m a palavra sobre ele (S\u00famula 150\/STJ), encerrou a quest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f Sobrou \u00e0 seguradora uma pretens\u00e3o sem titular. <strong>Recorrer para manter o ente p\u00fablico no processo \u00e9 atuar em nome pr\u00f3prio na defesa de interesse de outrem<\/strong>, o que o sistema processual n\u00e3o admite; correta a decis\u00e3o que negou legitimidade e interesse recursal \u00e0 empresa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No seguro habitacional do SFH sem v\u00ednculo com a ap\u00f3lice p\u00fablica, exclu\u00edda a CEF pelo ju\u00edzo federal sem insurg\u00eancia dela:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) pode a seguradora recorrer para preservar a presen\u00e7a do ente p\u00fablico e o foro federal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) imp\u00f5e-se o retorno dos autos \u00e0 Justi\u00e7a Federal, dada a repercuss\u00e3o potencial sobre o Fundo de Compensa\u00e7\u00e3o de Varia\u00e7\u00f5es Salariais administrado pela CEF.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) falta \u00e0 seguradora privada legitimidade e interesse para recorrer da declina\u00e7\u00e3o de compet\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) cabe ao ju\u00edzo estadual reexaminar o interesse da CEF antes de dar seguimento ao feito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) transfere-se \u00e0 Uni\u00e3o a defesa do fundo, com intima\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria para se manifestar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A defesa do interesse federal pertence ao pr\u00f3prio ente: a seguradora n\u00e3o pode atuar em nome pr\u00f3prio na tutela de interesse alheio para reter o processo no foro federal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. Sem ap\u00f3lice p\u00fablica, a condena\u00e7\u00e3o n\u00e3o alcan\u00e7a o FCVS; a repercuss\u00e3o sobre o fundo pressup\u00f5e a cobertura do Ramo 66, inexistente no caso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Correta. Ausente o v\u00ednculo com a ap\u00f3lice p\u00fablica e sem insurg\u00eancia da CEF, a seguradora carece de legitimidade e de interesse recursal contra a remessa dos autos \u00e0 Justi\u00e7a Estadual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. A palavra sobre o interesse do ente federal \u00e9 da Justi\u00e7a Federal (S\u00famula 150\/STJ); ao ju\u00edzo estadual n\u00e3o cabe reabrir esse exame.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. N\u00e3o h\u00e1 intima\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria da Uni\u00e3o: a manifesta\u00e7\u00e3o de interesse \u00e9 prerrogativa da entidade p\u00fablica, exercida de forma espont\u00e2nea ou provocada, conforme sua avalia\u00e7\u00e3o de conveni\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-5\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cinge-se a controv\u00e9rsia a definir se a seguradora privada tem legitimidade e interesse para recorrer quando a Justi\u00e7a Federal reconhece a inexist\u00eancia de interesse da Caixa Econ\u00f4mica Federal (CEF) nos processos envolvendo cobertura de seguro habitacional no \u00e2mbito do Sistema Financeiro de Habita\u00e7\u00e3o (SFH).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tratando-se de seguro habitacional obrigat\u00f3rio de im\u00f3vel adquirido pelo Sistema Financeiro de Habita\u00e7\u00e3o, com ap\u00f3lice p\u00fablica (Ramo 66), eventual senten\u00e7a proferida em a\u00e7\u00e3o de indeniza\u00e7\u00e3o securit\u00e1ria ajuizada pelo mutu\u00e1rio contra a seguradora tem a possibilidade de atingir o Fundo de Compensa\u00e7\u00e3o de Valores Salariais (FCVS) &#8211; administrado pela Caixa Econ\u00f4mica Federal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesta hip\u00f3tese, em raz\u00e3o da exist\u00eancia de ap\u00f3lice p\u00fablica, a CEF poder\u00e1 ser instada, pela seguradora, a arcar com os custos decorrentes de eventual condena\u00e7\u00e3o. Por esse motivo, \u00e9 poss\u00edvel reconhecer o interesse da CEF e da Uni\u00e3o no desfecho favor\u00e1vel \u00e0 seguradora, admitindo-se sua interven\u00e7\u00e3o em defesa do FCVS, com o consequente deslocamento da compet\u00eancia para a Justi\u00e7a Federal (Tema 1011\/STF).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Todavia, a fixa\u00e7\u00e3o da compet\u00eancia da Justi\u00e7a Federal depende de manifesta\u00e7\u00e3o expressa de interesse por parte da CEF ou da Uni\u00e3o, a quem cabe avaliar a conveni\u00eancia de intervir na demanda. Isto \u00e9, a indica\u00e7\u00e3o do interesse de intervir no processo pode ocorrer de forma espont\u00e2nea ou provocada, mas \u00e9 prerrogativa da autoridade federal, cuja declara\u00e7\u00e3o \u00e9 indispens\u00e1vel para o deslocamento da compet\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com efeito, compete \u00e0s pr\u00f3prias entidades federais e \u00e0 Justi\u00e7a Federal (S\u00famula 150\/STJ) aferir a exist\u00eancia de interesse jur\u00eddico, inclusive quanto a eventual vincula\u00e7\u00e3o ao FCVS. Lado contr\u00e1rio, ausente ap\u00f3lice p\u00fablica, n\u00e3o h\u00e1 interesse da CEF em integrar a lide.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Desse modo, uma vez n\u00e3o identificado v\u00ednculo com ap\u00f3lice p\u00fablica (Ramo 66), e n\u00e3o existindo insurg\u00eancia da CEF, n\u00e3o cabe \u00e0 seguradora privada suprir essa manifesta\u00e7\u00e3o ou atuar &#8211; em seu nome e no interesse de outrem &#8211; para a manter no processo e tampouco para deslocar a compet\u00eancia de modo indevido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Do exposto, correto o entendimento que reconheceu a aus\u00eancia de interesse da seguradora para recorrer da decis\u00e3o do Ju\u00edzo Federal que remeteu os autos \u00e0 Justi\u00e7a Estadual ap\u00f3s a identifica\u00e7\u00e3o de que o im\u00f3vel foi adquirido pelo mutu\u00e1rio origin\u00e1rio sem a cobertura p\u00fablica do FCVS.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-8-critica-jornalistica-a-empresario-publico-e-dano-moral\" class=\"wp-block-heading\">8. CR\u00cdTICA JORNAL\u00cdSTICA A EMPRES\u00c1RIO P\u00daBLICO E DANO MORAL<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A condi\u00e7\u00e3o de empres\u00e1rio conhecido, envolvido em disputas judiciais de relevante interesse p\u00fablico, <strong>reduz a esfera de prote\u00e7\u00e3o da privacidade<\/strong> e refor\u00e7a a <strong>supremacia da liberdade de informa\u00e7\u00e3o e de cr\u00edtica<\/strong>, ainda que a publica\u00e7\u00e3o contenha opini\u00f5es severas, ir\u00f4nicas ou impiedosas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AgInt no REsp 1.814.115-RJ, Rel. Min. Raul Ara\u00fajo, Quarta Turma, por unanimidade, julgado em 16\/6\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O jornal comparou Geremias, empres\u00e1rio famoso do ramo imobili\u00e1rio, ao personagem central de &#8220;O Poderoso Chef\u00e3o&#8221;, em reportagem \u00e1cida sobre as disputas judiciais que ele travava por im\u00f3veis em \u00e1rea nobre do Rio de Janeiro, apuradas por autoridades p\u00fablicas. Ferido pela ironia, o empres\u00e1rio ajuizou a\u00e7\u00e3o indenizat\u00f3ria por abuso do direito de informar. Os fatos, por\u00e9m, eram ver\u00eddicos, colhidos de fontes oficiais e at\u00e9 do pr\u00f3prio retratado. O tom impiedoso da mat\u00e9ria gera dever de indenizar?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CF, arts. 5\u00ba, IV, IX e X, e 220<\/strong><em> (s\u00e3o inviol\u00e1veis a intimidade, a honra e a imagem; \u00e9 livre a manifesta\u00e7\u00e3o do pensamento e a atividade de comunica\u00e7\u00e3o, vedada a censura).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda Nos conflitos entre imprensa e personalidade, ponderam-se o compromisso \u00e9tico com a informa\u00e7\u00e3o veross\u00edmil, a preserva\u00e7\u00e3o da honra, imagem, privacidade e intimidade, e a veda\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica movida pelo <em>animus injuriandi vel diffamandi<\/em> (REsp 801.109-DF).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd A proje\u00e7\u00e3o p\u00fablica do retratado, somada ao interesse social dos fatos noticiados, reduz a esfera de prote\u00e7\u00e3o da privacidade; narrativa ver\u00eddica ou veross\u00edmil, apoiada em fontes id\u00f4neas e sem intuito difamat\u00f3rio, n\u00e3o gera dever de indenizar, mesmo com ironia e acidez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A r\u00e9gua da pondera\u00e7\u00e3o est\u00e1 assentada h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada. <strong>Informa\u00e7\u00e3o veross\u00edmil, respeito aos direitos da personalidade e aus\u00eancia de intuito de difamar, injuriar ou caluniar formam o trip\u00e9 de aferi\u00e7\u00e3o do abuso<\/strong> na atividade de imprensa, e a reportagem foi medida por ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f O perfil do retratado pesa na calibragem dos pratos. <strong>Empres\u00e1rio de notoriedade, protagonista de pol\u00eamicas disputas de relevante interesse p\u00fablico, tem esfera de privacidade reduzida<\/strong>, suportando o escrut\u00ednio e a cr\u00edtica inerentes \u00e0 vida p\u00fablica que ele pr\u00f3prio ocupa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A apura\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria seguiu o roteiro da dilig\u00eancia. <strong>Os fatos noticiados eram objeto de apura\u00e7\u00e3o por autoridades e vieram de fontes oficiais e id\u00f4neas, incluindo o pr\u00f3prio autor e seus auxiliares<\/strong>, em texto de cunho informativo sobre lit\u00edgios imobili\u00e1rios em \u00e1rea nobre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f Resta o tom, e tom n\u00e3o \u00e9 il\u00edcito. <strong>A acidez, a ironia e a compara\u00e7\u00e3o com o personagem cinematogr\u00e1fico ilustraram a influ\u00eancia e o poder do retratado, sem intuito de injuriar, difamar ou caluniar<\/strong>; sem esse elemento, a publica\u00e7\u00e3o n\u00e3o viola a imagem nem a vida privada do empres\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quanto \u00e0 responsabilidade civil por reportagem cr\u00edtica, ir\u00f4nica e \u00e1cida sobre empres\u00e1rio envolvido em disputas judiciais de interesse p\u00fablico:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) configura-se o dano moral pela associa\u00e7\u00e3o da imagem do retratado a personagem criminoso da fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) exige-se autoriza\u00e7\u00e3o do retratado para a cr\u00edtica que ultrapasse o relato neutro dos fatos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) responde o ve\u00edculo pelo tom empregado, ainda que ver\u00eddicos os fatos noticiados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) afasta-se a indeniza\u00e7\u00e3o se comprovada a verdade integral das afirma\u00e7\u00f5es da mat\u00e9ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) descabe a indeniza\u00e7\u00e3o, reduzida a esfera de prote\u00e7\u00e3o do retratado de proje\u00e7\u00e3o p\u00fablica, se ausente o direto intuito difamat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A compara\u00e7\u00e3o ir\u00f4nica ilustrou a influ\u00eancia do empres\u00e1rio sem prop\u00f3sito de injuriar; a figura de linguagem, no contexto de mat\u00e9ria informativa ver\u00eddica, n\u00e3o configura viola\u00e7\u00e3o \u00e0 imagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. A cr\u00edtica jornal\u00edstica independe de consentimento do criticado; condicion\u00e1-la a autoriza\u00e7\u00e3o instalaria censura pr\u00e9via incompat\u00edvel com a liberdade de imprensa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. O tom severo, ir\u00f4nico ou impiedoso n\u00e3o gera responsabilidade quando a narrativa \u00e9 ver\u00eddica, de interesse p\u00fablico e desacompanhada do intuito difamat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. A pondera\u00e7\u00e3o n\u00e3o exige prova da verdade integral de cada afirma\u00e7\u00e3o: basta o compromisso \u00e9tico com a informa\u00e7\u00e3o veross\u00edmil, apurada com as cautelas devidas em fontes id\u00f4neas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Correta. A proje\u00e7\u00e3o p\u00fablica do retratado e o interesse social dos fatos reduzem a esfera de prote\u00e7\u00e3o da privacidade; sem <em>animus injuriandi vel diffamandi<\/em>, a cr\u00edtica \u00e1cida permanece no exerc\u00edcio regular da liberdade de informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-6\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cinge-se a controv\u00e9rsia a determinar se \u00e9 cab\u00edvel condena\u00e7\u00e3o ao pagamento de indeniza\u00e7\u00e3o por danos morais em raz\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o de reportagem em jornal de grande circula\u00e7\u00e3o, com suposto abuso de direito de informa\u00e7\u00e3o, por associar a imagem de empres\u00e1rio, ora recorrente, \u00e0 de personagem do filme &#8220;O Poderoso Chef\u00e3o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ao tratar sobre a liberdade de imprensa e de informa\u00e7\u00e3o, o Superior Tribunal de Justi\u00e7a estabeleceu, para situa\u00e7\u00f5es de conflito entre a liberdade de express\u00e3o e os direitos da personalidade, entre outros, os seguintes elementos de pondera\u00e7\u00e3o: &#8220;(I) o compromisso \u00e9tico com a informa\u00e7\u00e3o veross\u00edmil; (II) a preserva\u00e7\u00e3o dos chamados direitos da personalidade, entre os quais incluem-se os direitos \u00e0 honra, \u00e0 imagem, \u00e0 privacidade e \u00e0 intimidade; e (III) a veda\u00e7\u00e3o de veicula\u00e7\u00e3o de cr\u00edtica jornal\u00edstica com intuito de difamar, injuriar ou caluniar a pessoa (<em>animus injuriandi vel diffamandi<\/em>)&#8221; (REsp 801.109\/DF, Rel. Ministro Raul Ara\u00fajo, Quarta Turma, julgado em 12\/6\/2012, DJe de 12\/3\/2013).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, os r\u00e9us n\u00e3o excederam seu direito de informar, noticiando fatos de interesse da sociedade &#8211; disputas judiciais de im\u00f3veis em \u00e1rea nobre do Rio de Janeiro, apurados por autoridades p\u00fablicas &#8211; com as devidas cautelas a partir de informa\u00e7\u00f5es colhidas de fontes oficiais e id\u00f4neas, inclusive do pr\u00f3prio autor e pessoas que o auxiliam na condu\u00e7\u00e3o de seus neg\u00f3cios, tratando-se de mat\u00e9ria jornal\u00edstica de cunho meramente informativo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com efeito, apesar do tom cr\u00edtico e da ineg\u00e1vel acidez, n\u00e3o houve a inten\u00e7\u00e3o de injuriar, difamar ou caluniar o recorrente, tratando-se apenas de uma forma de ilustrar sua influ\u00eancia e poder nos mais diversos meios da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nessa perspectiva, apesar da utiliza\u00e7\u00e3o de opini\u00f5es severas e ir\u00f4nicas, a publica\u00e7\u00e3o narrou fato ocorrido, que estava sendo apurado por autoridades p\u00fablicas, de modo que sua divulga\u00e7\u00e3o, ainda que somente sob o ponto de vista de uma das partes, n\u00e3o demonstra, inequivocamente, o intuito de difamar, injuriar ou caluniar a pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Portanto, a publica\u00e7\u00e3o n\u00e3o constituiu, <em>per se<\/em>, viola\u00e7\u00e3o ao direito de preserva\u00e7\u00e3o da imagem do recorrente ou de sua vida \u00edntima e privada, n\u00e3o havendo que se falar em causa para indeniza\u00e7\u00e3o por danos patrimoniais ou morais \u00e0 imagem.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-9-quebra-da-incomunicabilidade-dos-jurados-e-o-art-565-do-cpp\" class=\"wp-block-heading\">9. QUEBRA DA INCOMUNICABILIDADE DOS JURADOS E O ART. 565 DO CPP<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os efeitos da nulidade por quebra da incomunicabilidade dos jurados <strong>podem ser restringidos ao julgamento da corr\u00e9 absolvida<\/strong>, afastando-se a extens\u00e3o ao condenado <strong>que tamb\u00e9m deu causa ao v\u00edcio<\/strong> (CPP, arts. 565 e 566).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AgRg no AREsp 3.164.756-GO, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, por unanimidade, julgado em 9\/6\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No j\u00fari que condenou Godines e absolveu P\u00f3pis, as defesas de ambos os r\u00e9us mantiveram contatos indevidos com um jurado do Conselho de Senten\u00e7a. Em apela\u00e7\u00e3o, O MP arguiu a nulidade pela quebra da incomunicabilidade, mas mirou o resultado que lhe desagradava: a absolvi\u00e7\u00e3o da corr\u00e9. O Tribunal local foi al\u00e9m e anulou tudo, mandando os dois a novo j\u00fari, com alvar\u00e1 de soltura para o condenado. A nulidade provocada pela pr\u00f3pria defesa aproveita ao r\u00e9u condenado?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CPP, arts. 565 e 566<\/strong><em> (nenhuma das partes poder\u00e1 arguir nulidade a que haja dado causa ou para a qual tenha concorrido; n\u00e3o ser\u00e1 declarada a nulidade de ato processual que n\u00e3o houver influ\u00eddo na apura\u00e7\u00e3o da verdade ou na decis\u00e3o da causa).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda A veda\u00e7\u00e3o do proveito da pr\u00f3pria torpeza n\u00e3o se limita \u00e0 argui\u00e7\u00e3o pela parte causadora: orienta tamb\u00e9m o julgador, impedido de reconhecer a nulidade em favor de quem concorreu para o v\u00edcio, inclusive nos julgamentos do Tribunal do J\u00fari.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd O apelo acusat\u00f3rio postulou os efeitos da anula\u00e7\u00e3o para a pronunciada absolvida, delimitando de modo v\u00e1lido o efeito devolutivo; satisfeita a acusa\u00e7\u00e3o com a condena\u00e7\u00e3o tal como proferida, o v\u00edcio n\u00e3o influiu na decis\u00e3o quanto ao condenado (art. 566), descabendo novo j\u00fari para ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A premissa do ac\u00f3rd\u00e3o local invertia o sentido da garantia. <strong>O art. 565 do CPP veda o reconhecimento da nulidade em favor de quem lhe deu causa, e a defesa do condenado participou dos contatos indevidos com o jurado<\/strong>; anular o veredito em seu benef\u00edcio premiaria a pr\u00f3pria torpeza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f O r\u00f3tulo de nulidade absoluta n\u00e3o desativa essa trava. <strong>A leitura do dispositivo n\u00e3o se restringe aos casos em que a parte argui o v\u00edcio que provocou: alcan\u00e7a o julgador, impedido de declar\u00e1-lo em favor do causador<\/strong>, mesmo no rito do j\u00fari.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O recorte do recurso acusat\u00f3rio completava o quadro. <strong>A apela\u00e7\u00e3o limitou o pedido de anula\u00e7\u00e3o ao julgamento da corr\u00e9 absolvida, delimita\u00e7\u00e3o v\u00e1lida do efeito devolutivo<\/strong>; quanto ao condenado, a acusa\u00e7\u00e3o se deu por satisfeita, sem impugnar o afastamento da qualificadora pelos jurados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f Fecha a moldura o filtro da influ\u00eancia sobre o resultado. <strong>Em rela\u00e7\u00e3o ao r\u00e9u condenado, o v\u00edcio n\u00e3o influiu na decis\u00e3o da causa, na forma do art. 566 do CPP<\/strong>, n\u00e3o havendo raz\u00e3o para submet\u00ea-lo a novo julgamento popular.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre a nulidade por quebra da incomunicabilidade dos jurados provocada pelas defesas, arguida em apela\u00e7\u00e3o exclusiva da acusa\u00e7\u00e3o quanto \u00e0 corr\u00e9 absolvida:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) estende-se ao r\u00e9u condenado, contaminado o julgamento inteiro pela nulidade de natureza absoluta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) restringe-se \u00e0 corr\u00e9 absolvida, delimitado o efeito devolutivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) imp\u00f5e novo j\u00fari para ambos os acusados quando a pena aplicada poderia ter sido maior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) depende de argui\u00e7\u00e3o da defesa do condenado para alcan\u00e7\u00e1-lo, tratando-se de v\u00edcio de \u00edndole relativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) convalida-se pela soberania dos vereditos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. Nem a qualifica\u00e7\u00e3o de nulidade absoluta autoriza estend\u00ea-la a quem concorreu para o v\u00edcio: o art. 565 do CPP orienta o pr\u00f3prio julgador, que n\u00e3o pode declar\u00e1-la em favor do causador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Correta. Os efeitos da anula\u00e7\u00e3o ficam confinados ao julgamento da corr\u00e9 absolvida: a defesa do condenado deu causa ao v\u00edcio, a apela\u00e7\u00e3o acusat\u00f3ria delimitou o pedido e a irregularidade n\u00e3o influiu na decis\u00e3o quanto a ele (arts. 565 e 566 do CPP).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. A perspectiva de pena maior n\u00e3o fundamenta a renova\u00e7\u00e3o: a acusa\u00e7\u00e3o deixou de impugnar o afastamento da qualificadora, e a devolu\u00e7\u00e3o recursal n\u00e3o abrangeu a condena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. A restri\u00e7\u00e3o dos efeitos n\u00e3o decorre da natureza relativa do v\u00edcio, e sim da veda\u00e7\u00e3o do proveito da pr\u00f3pria torpeza somada aos limites do recurso e \u00e0 aus\u00eancia de influ\u00eancia na decis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. A soberania dos vereditos n\u00e3o impede a anula\u00e7\u00e3o do julgamento viciado; o que se discutiu foi o alcance subjetivo dos efeitos da nulidade, n\u00e3o a possibilidade de reconhec\u00ea-la.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-7\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A controv\u00e9rsia consiste em saber se os efeitos da nulidade por quebra da incomunicabilidade dos jurados, reconhecida em apela\u00e7\u00e3o da acusa\u00e7\u00e3o, podem ser restringidos \u00e0 corr\u00e9 absolvida, afastando-se sua extens\u00e3o ao condenado que tamb\u00e9m deu causa ao v\u00edcio, \u00e0 luz dos artigos 565 e 566 do C\u00f3digo de Processo Penal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, o Tribunal estadual reconheceu a nulidade absoluta por quebra da incomunicabilidade dos jurados, em raz\u00e3o de contatos indevidos da defesa da pronunciada absolvida e do r\u00e9u condenado com jurado que integrou o Conselho de Senten\u00e7a, e determinou novo j\u00fari para ambos os pronunciados, com expedi\u00e7\u00e3o de alvar\u00e1 de soltura. Ressaltou que a pena do pronunciado condenado poderia ter sido maior e que a nulidade \u00e9 absoluta, raz\u00e3o pela qual n\u00e3o se aplica a regra do art. 565 do CPP.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Contudo, o art. 565 do CPP veda o reconhecimento de nulidade em favor de quem lhe deu causa, aplicando-se, inclusive, em julgamentos do Tribunal do J\u00fari quando a defesa \u00e9 respons\u00e1vel pelo v\u00edcio, n\u00e3o se admitindo benef\u00edcio pela pr\u00f3pria torpeza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A interpreta\u00e7\u00e3o do referido dispositivo n\u00e3o deve ser feita de forma restritiva apenas para casos em que a parte argui nulidade a que haja dado causa, devendo ser tamb\u00e9m observada pelo julgador para que este n\u00e3o reconhe\u00e7a nulidade em favor da parte que lhe deu causa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ademais, cumpre acrescentar que a pena do r\u00e9u condenado, realmente, poderia ter sido maior, porquanto os jurados negaram a incid\u00eancia da qualificadora do art. 121, \u00a7 2\u00ba, I, do C\u00f3digo Penal. Entretanto, contra o resultado do correspondente quesito, a acusa\u00e7\u00e3o n\u00e3o pretendeu a nulidade do julgamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O apelo da acusa\u00e7\u00e3o limitou-se a pleitear os efeitos da nulidade para a pronunciada absolvida, o que delimita de forma v\u00e1lida o efeito devolutivo da apela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Enfim, estando a acusa\u00e7\u00e3o satisfeita com a condena\u00e7\u00e3o do r\u00e9u condenado nos termos decididos pelos jurados, n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para novo julgamento do pronunciado que deu causa \u00e0 nulidade, pois a nulidade, em rela\u00e7\u00e3o a ele, n\u00e3o influiu na decis\u00e3o da causa, na forma do art. 566 do C\u00f3digo de Processo Penal.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-10-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-gravacoes-sob-custodia-estatal-e-acesso-tempestivo-da-defesa\" class=\"wp-block-heading\">10.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; GRAVA\u00c7\u00d5ES SOB CUST\u00d3DIA ESTATAL E ACESSO TEMPESTIVO DA DEFESA<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A defesa tem direito de acesso <strong>integral e tempestivo ao material probat\u00f3rio sob cust\u00f3dia estatal<\/strong>, e n\u00e3o somente \u00e0 prova selecionada pela acusa\u00e7\u00e3o; a juntada de grava\u00e7\u00f5es ambientais ap\u00f3s as alega\u00e7\u00f5es finais, ainda que reaberto prazo para complementa\u00e7\u00e3o, <strong>contamina o processo desde a resposta \u00e0 acusa\u00e7\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AREsp 3.028.845-PR, Rel. Min. Ribeiro Dantas, Quinta Turma, por unanimidade, julgado em 16\/6\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A integralidade das grava\u00e7\u00f5es ambientais que envolviam Chaves dormiram no banco de dados do Gaeco durante toda a instru\u00e7\u00e3o: a den\u00fancia foi constru\u00edda apenas com a parte selecionada pela acusa\u00e7\u00e3o. S\u00f3 depois das alega\u00e7\u00f5es finais o Minist\u00e9rio P\u00fablico juntou os arquivos na \u00edntegra, e o ju\u00edzo reabriu prazo para a defesa complementar a manifesta\u00e7\u00e3o. O Tribunal local n\u00e3o viu preju\u00edzo. A complementa\u00e7\u00e3o tardia repara a falta de acesso ao acervo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CF, art. 5\u00ba, LV; CPP, arts. 396-A e 563<\/strong><em> (asseguram-se o contradit\u00f3rio e a ampla defesa; a resposta \u00e0 acusa\u00e7\u00e3o \u00e9 o momento de arguir preliminares, oferecer documentos e justifica\u00e7\u00f5es e especificar provas).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda A cadeia de cust\u00f3dia da prova digital n\u00e3o se esgota na aus\u00eancia de adultera\u00e7\u00e3o: envolve a integralidade do acervo, preservado de modo completo, contextualizado e control\u00e1vel pelas partes. Fragmento cuja correspond\u00eancia com o conjunto origin\u00e1rio s\u00f3 o \u00f3rg\u00e3o selecionador conhece \u00e9 prova processualmente problem\u00e1tica, ainda que \u00edntegra no conte\u00fado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd O interesse defensivo alcan\u00e7a o material n\u00e3o selecionado pela acusa\u00e7\u00e3o, onde podem morar elementos de contextualiza\u00e7\u00e3o, contradi\u00e7\u00e3o ou enfraquecimento da tese acusat\u00f3ria; a declara\u00e7\u00e3o de que as grava\u00e7\u00f5es n\u00e3o fundamentaram a senten\u00e7a n\u00e3o apaga o direito de verificar se a narrativa nasceu de leitura parcial da fonte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd A reabertura de prazo permite manifesta\u00e7\u00e3o formal posterior, mas n\u00e3o devolve a oportunidade de usar a prova na defini\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia, na formula\u00e7\u00e3o de requerimentos e na inquiri\u00e7\u00e3o das testemunhas; o v\u00edcio remonta \u00e0 resposta \u00e0 acusa\u00e7\u00e3o e dali contamina os atos seguintes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O ponto cego do ac\u00f3rd\u00e3o local estava no objeto do direito de acesso. <strong>A defesa n\u00e3o tem interesse restrito \u00e0 prova escolhida pela acusa\u00e7\u00e3o: pode ter interesse igual ou maior no material preterido<\/strong>, justamente porque nele podem estar o contexto, a contradi\u00e7\u00e3o ou o enfraquecimento da hip\u00f3tese acusat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A confiabilidade da prova gravada \u00e9 quest\u00e3o de conjunto, n\u00e3o de arquivo isolado. <strong>Cabe \u00e0 defesa poder verificar a continuidade das conversas, o contexto das falas e o crit\u00e9rio de sele\u00e7\u00e3o do que entrou e do que ficou de fora<\/strong>; a integridade sem integralidade deixa o processo ref\u00e9m de um recorte cuja completude ningu\u00e9m controlou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O rem\u00e9dio aplicado chegou tarde demais para curar o mal. <strong>A complementa\u00e7\u00e3o das alega\u00e7\u00f5es finais \u00e9 rea\u00e7\u00e3o a uma prova que deveria ter orientado toda a marcha defensiva<\/strong>, da escolha das teses \u00e0 inquiri\u00e7\u00e3o das testemunhas; manifesta\u00e7\u00e3o reativa ao fim do rito n\u00e3o restaura a paridade de armas rompida no in\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f Nem a boa-f\u00e9 ministerial nem o n\u00e3o uso na senten\u00e7a resolvem o problema. <strong>A relev\u00e2ncia da prova n\u00e3o se mede pelo emprego direto na condena\u00e7\u00e3o, e a aus\u00eancia de dolo n\u00e3o garante a completude do acervo<\/strong>; privada do exame em momento \u00fatil, a defesa nasceu condicionada, e a nulidade retroage \u00e0 resposta \u00e0 acusa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No processo penal, quanto \u00e0s grava\u00e7\u00f5es ambientais sob cust\u00f3dia estatal juntadas ap\u00f3s as alega\u00e7\u00f5es finais, com reabertura de prazo para complementa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) preserva-se o contradit\u00f3rio, manifestada a defesa antes da prola\u00e7\u00e3o da senten\u00e7a condenat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) afasta-se o v\u00edcio quando as grava\u00e7\u00f5es n\u00e3o foram usadas na senten\u00e7a condenat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) limita-se o interesse defensivo \u00e0 prova selecionada pela acusa\u00e7\u00e3o para lastrear a den\u00fancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) macula-se o processo desde a resposta \u00e0 acusa\u00e7\u00e3o, elaborada a estrat\u00e9gia defensiva sem o acervo integral.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) sana-se a falha pela boa-f\u00e9 do \u00f3rg\u00e3o acusador na sele\u00e7\u00e3o do material incorporado aos autos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A manifesta\u00e7\u00e3o anterior \u00e0 senten\u00e7a \u00e9 oportunidade formal que n\u00e3o devolve o acesso em momento processualmente \u00fatil; o contradit\u00f3rio substancial exige conhecer a prova a tempo de orientar a atua\u00e7\u00e3o defensiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. O n\u00e3o uso na senten\u00e7a n\u00e3o torna o material indiferente: a prova preterida pode alterar o contexto das demais e revelar a incompletude da narrativa acusat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. O direito de acesso abrange o acervo mantido sob cust\u00f3dia estatal, inclusive o que a acusa\u00e7\u00e3o deixou de selecionar; o interesse defensivo n\u00e3o se mede pela escolha do advers\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Correta. A resposta \u00e0 acusa\u00e7\u00e3o \u00e9 o primeiro momento de estrutura\u00e7\u00e3o da defesa; sem a integralidade das grava\u00e7\u00f5es desde ent\u00e3o, a atua\u00e7\u00e3o nasce sob assimetria informacional, e a nulidade alcan\u00e7a os atos a partir daquela fase.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. A cadeia de cust\u00f3dia protege tamb\u00e9m contra perdas, lacunas e sele\u00e7\u00f5es incontrol\u00e1veis; a aus\u00eancia de m\u00e1-f\u00e9 n\u00e3o demonstra a completude do acervo nem supre o controle defensivo.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-8\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A controv\u00e9rsia consiste em definir: (i) se a juntada de grava\u00e7\u00f5es ambientais apenas ap\u00f3s a instru\u00e7\u00e3o e as alega\u00e7\u00f5es finais, embora antes da senten\u00e7a e com reabertura de prazo para manifesta\u00e7\u00e3o defensiva, assegura contradit\u00f3rio efetivo e acesso integral \u00e0 prova mantida sob cust\u00f3dia estatal; e (ii) se a aus\u00eancia de acesso integral e tempestivo \u00e0s grava\u00e7\u00f5es ambientais compromete a cadeia de cust\u00f3dia, a confiabilidade do acervo probat\u00f3rio e imp\u00f5e a nulidade dos atos processuais a partir da resposta \u00e0 acusa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, o Tribunal de origem entendeu que n\u00e3o houve nulidade por omiss\u00e3o ou manipula\u00e7\u00e3o da prova, nem quebra da cadeia de cust\u00f3dia, porque as grava\u00e7\u00f5es foram juntadas antes da senten\u00e7a condenat\u00f3ria, houve abertura de prazo para complementa\u00e7\u00e3o das alega\u00e7\u00f5es finais, o conte\u00fado essencial j\u00e1 era conhecido pela defesa e n\u00e3o se demonstrou preju\u00edzo concreto aos acusados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Contudo, se o material existia, estava armazenado em banco de dados de \u00f3rg\u00e3o de investiga\u00e7\u00e3o e foi depois localizado pelo pr\u00f3prio Minist\u00e9rio P\u00fablico, a circunst\u00e2ncia de n\u00e3o ter sido empregado na forma\u00e7\u00e3o da den\u00fancia n\u00e3o elimina o interesse defensivo em examin\u00e1-lo. A defesa n\u00e3o tem interesse apenas na prova escolhida pela acusa\u00e7\u00e3o para sustentar a imputa\u00e7\u00e3o. Pode ter, com igual ou maior raz\u00e3o, interesse no material n\u00e3o selecionado, justamente porque nele poderiam estar elementos de contextualiza\u00e7\u00e3o, de contradi\u00e7\u00e3o ou de enfraquecimento da hip\u00f3tese acusat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A discuss\u00e3o, assim, n\u00e3o se resolve pela declara\u00e7\u00e3o de que as grava\u00e7\u00f5es anteriores n\u00e3o integraram a <em>opinio delicti<\/em>. Em prova gravada, sobretudo quando conservada em estrutura estatal de investiga\u00e7\u00e3o, a confiabilidade do material n\u00e3o depende apenas de saber se determinado arquivo foi ou n\u00e3o mencionado na den\u00fancia. Depende tamb\u00e9m de a defesa poder verificar a continuidade da conversa, o contexto em que as falas foram produzidas, a exist\u00eancia de outros trechos e o crit\u00e9rio pelo qual parte do material foi incorporada aos autos e parte n\u00e3o foi.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ora, a cadeia de cust\u00f3dia da prova digital n\u00e3o se esgota na preserva\u00e7\u00e3o da integridade, tomada como aus\u00eancia de adultera\u00e7\u00e3o do conte\u00fado. Ela tamb\u00e9m envolve a integralidade do corpo de delito, isto \u00e9, a preserva\u00e7\u00e3o do conjunto probat\u00f3rio de modo completo, contextualizado e submetido a controle pelas partes. Uma prova pode n\u00e3o apresentar sinal de adultera\u00e7\u00e3o e, ainda assim, ser processualmente problem\u00e1tica se chegar ao contradit\u00f3rio como fragmento de um acervo mais amplo, cuja completude n\u00e3o foi demonstrada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Conv\u00e9m lembrar que a corre\u00e7\u00e3o f\u00e1tica da decis\u00e3o judicial depende, em larga medida, da quantidade, da completude e da qualidade das provas submetidas \u00e0 valora\u00e7\u00e3o do julgador. Quando o acervo probat\u00f3rio \u00e9 fragmentado ou incompleto, diminui-se a possibilidade de reconstru\u00e7\u00e3o confi\u00e1vel dos fatos e, por consequ\u00eancia, aumenta-se o risco de erro judicial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c9 por isso que a exig\u00eancia de integralidade da prova digital n\u00e3o se confunde com formalismo. Ao contr\u00e1rio, ela constitui condi\u00e7\u00e3o para que a defesa possa controlar a origem, o conte\u00fado e a confiabilidade do material utilizado contra o acusado. Nesse ponto, o voto vencedor proferido no RHC 184.003\/SP reafirma que a legitimidade do processo penal n\u00e3o depende apenas da exist\u00eancia de prova, mas da qualidade do acervo probat\u00f3rio que sustenta a pretens\u00e3o punitiva estatal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tamb\u00e9m merece aten\u00e7\u00e3o o fato de que o Tribunal de origem asseverou que as grava\u00e7\u00f5es foram juntadas aos autos antes da senten\u00e7a condenat\u00f3ria, embora depois da apresenta\u00e7\u00e3o das alega\u00e7\u00f5es finais, e que se reabriu prazo para a complementa\u00e7\u00e3o da manifesta\u00e7\u00e3o defensiva. A partir dessas circunst\u00e2ncias, entendeu preservados o contradit\u00f3rio e a ampla defesa. O problema est\u00e1 em saber se a possibilidade de manifesta\u00e7\u00e3o posterior, considerada isoladamente, \u00e9 suficiente para demonstrar que a defesa teve acesso \u00fatil ao material probat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em princ\u00edpio, a reabertura do prazo permite que a defesa se pronuncie sobre os arquivos juntados. Contudo, quando isso ocorreu, sua manifesta\u00e7\u00e3o final j\u00e1 havia sido elaborada sem o conhecimento das grava\u00e7\u00f5es. H\u00e1 uma diferen\u00e7a entre permitir uma complementa\u00e7\u00e3o e assegurar que a prova esteja dispon\u00edvel no momento em que se define a estrat\u00e9gia defensiva. A provid\u00eancia posterior pode atenuar os efeitos da juntada tardia, mas n\u00e3o restitui necessariamente todas as possibilidades que decorreriam do exame pr\u00e9vio do conjunto das conversas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Essa diferen\u00e7a se torna mais clara quando se consideram as caracter\u00edsticas da prova. A an\u00e1lise de grava\u00e7\u00f5es ambientais pode exigir a escuta integral dos arquivos, a compara\u00e7\u00e3o entre diferentes passagens, a verifica\u00e7\u00e3o da continuidade das conversas, o cotejo com depoimentos e a reconstru\u00e7\u00e3o do contexto em que determinadas falas foram produzidas. N\u00e3o se cuida, portanto, de material cujo conte\u00fado possa ser adequadamente compreendido a partir de trechos isolados ou mediante simples leitura complementar das alega\u00e7\u00f5es finais. O exerc\u00edcio do contradit\u00f3rio, nesse caso, depende tamb\u00e9m das condi\u00e7\u00f5es em que a defesa p\u00f4de examinar a fonte probat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A aus\u00eancia de dolo ou de prop\u00f3sito deliberado do Minist\u00e9rio P\u00fablico, por si s\u00f3, n\u00e3o resolve a controv\u00e9rsia. A cadeia de cust\u00f3dia n\u00e3o se destina apenas a impedir adultera\u00e7\u00f5es intencionais, mas tamb\u00e9m a assegurar a rastreabilidade, a integridade e a completude do material probat\u00f3rio, de modo que eventuais perdas, lacunas, falhas de documenta\u00e7\u00e3o ou sele\u00e7\u00f5es n\u00e3o pass\u00edveis de controle n\u00e3o comprometam sua confiabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O que importa \u00e9 verificar se o Estado, depois de captar ou manter as grava\u00e7\u00f5es sob sua disponibilidade, conservou o acervo e o apresentou de forma que a defesa pudesse conferir sua integralidade. Mesmo a atua\u00e7\u00e3o de boa-f\u00e9 n\u00e3o afasta a possibilidade de que parte do material tenha sido perdida, descartada, separada ou simplesmente n\u00e3o submetida ao controle defensivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tamb\u00e9m a afirma\u00e7\u00e3o de que as grava\u00e7\u00f5es n\u00e3o foram empregadas na senten\u00e7a deixa de alcan\u00e7ar o ponto central da controv\u00e9rsia. A relev\u00e2ncia de uma prova n\u00e3o se limita ao seu uso direto como fundamento da condena\u00e7\u00e3o. Determinado material pode servir para modificar o contexto de compreens\u00e3o das demais provas, revelar a incompletude de uma narrativa ou permitir que a defesa questione a sele\u00e7\u00e3o realizada pela acusa\u00e7\u00e3o. Por essa raz\u00e3o, a declara\u00e7\u00e3o de que os arquivos n\u00e3o influ\u00edram na convic\u00e7\u00e3o judicial n\u00e3o torna indiferente a forma como foram preservados e disponibilizados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A conclus\u00e3o quanto \u00e0 aus\u00eancia de preju\u00edzo dependia, ent\u00e3o, de um exame que n\u00e3o aparece no ac\u00f3rd\u00e3o recorrido. Seria preciso esclarecer se a defesa recebeu todas as grava\u00e7\u00f5es existentes, se disp\u00f4s de condi\u00e7\u00f5es para examin\u00e1-las integralmente e se o prazo concedido permitiu confront\u00e1-las com a prova j\u00e1 produzida. Sem essas informa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o se pode determinar a correspond\u00eancia entre o material armazenado no banco de dados do Gaeco, aquele selecionado pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico, o que foi juntado aos autos e o que efetivamente se submeteu ao contradit\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A sele\u00e7\u00e3o realizada pela acusa\u00e7\u00e3o, ainda que n\u00e3o acompanhada de m\u00e1-f\u00e9, n\u00e3o substitui o exame da fonte probat\u00f3ria pela defesa. Se as grava\u00e7\u00f5es estavam sob cust\u00f3dia ou disponibilidade estatal, cabia assegurar condi\u00e7\u00f5es para que sua integridade e completude pudessem ser verificadas. Do contr\u00e1rio, o processo passa a trabalhar com um recorte cuja correspond\u00eancia com o acervo origin\u00e1rio \u00e9 conhecida apenas pelo \u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel por sua sele\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N\u00e3o se afirma, com isso, que o conte\u00fado n\u00e3o juntado ou apresentado tardiamente favoreceria necessariamente o acusado. A dificuldade \u00e9 anterior: sem acesso completo e oportuno, a defesa ficou impedida de verificar essa possibilidade. A incerteza resultante da forma como a prova foi arrecadada, conservada e selecionada n\u00e3o pode ser resolvida em desfavor de quem n\u00e3o tinha qualquer dom\u00ednio sobre essas atividades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Reconhecida a aus\u00eancia de acesso integral e tempestivo \u00e0s grava\u00e7\u00f5es ambientais mantidas sob cust\u00f3dia estatal, a consequ\u00eancia processual n\u00e3o pode ficar limitada \u00e0 reabertura de prazo para simples complementa\u00e7\u00e3o das alega\u00e7\u00f5es finais. A irregularidade n\u00e3o se restringe ao momento em que o material foi finalmente juntado aos autos. O v\u00edcio \u00e9 anterior, pois a defesa atravessou a fase postulat\u00f3ria inicial e toda a instru\u00e7\u00e3o sem dispor da integralidade do acervo probat\u00f3rio necess\u00e1rio \u00e0 defini\u00e7\u00e3o de sua estrat\u00e9gia, \u00e0 formula\u00e7\u00e3o de requerimentos, \u00e0 confronta\u00e7\u00e3o das testemunhas e ao eventual controle t\u00e9cnico da prova gravada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O Tribunal a quo, ao afirmar que as grava\u00e7\u00f5es foram juntadas antes da senten\u00e7a e que se abriu prazo para complementa\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a defensiva, tratou o contradit\u00f3rio como oportunidade formal de manifesta\u00e7\u00e3o posterior. Essa compreens\u00e3o, contudo, n\u00e3o recomp\u00f5e o preju\u00edzo causado pela priva\u00e7\u00e3o de acesso em momento processualmente \u00fatil. A defesa n\u00e3o tem direito apenas a comentar a prova depois de encerrada a instru\u00e7\u00e3o. Tem direito a conhec\u00ea-la em tempo adequado para orientar sua atua\u00e7\u00e3o processual, escolher suas teses, requerer dilig\u00eancias, formular perguntas, produzir contraprova e avaliar a necessidade de per\u00edcia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A resposta \u00e0 acusa\u00e7\u00e3o \u00e9 o primeiro momento de estrutura\u00e7\u00e3o da defesa t\u00e9cnica no procedimento penal. \u00c9 nela que a parte acusada pode arguir preliminares, indicar provas, formular requerimentos e estabelecer a linha defensiva que orientar\u00e1 a instru\u00e7\u00e3o. Se, nesse momento, a defesa desconhece a integralidade das grava\u00e7\u00f5es ambientais que estavam sob dom\u00ednio estatal, sua atua\u00e7\u00e3o j\u00e1 nasce condicionada por assimetria informacional incompat\u00edvel com o contradit\u00f3rio substancial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por isso, a posterior abertura de prazo para complementa\u00e7\u00e3o das alega\u00e7\u00f5es finais n\u00e3o desfaz o preju\u00edzo. Tal provid\u00eancia permite apenas uma rea\u00e7\u00e3o tardia a uma prova que deveria ter orientado toda a marcha defensiva. A complementa\u00e7\u00e3o final n\u00e3o substitui a resposta \u00e0 acusa\u00e7\u00e3o elaborada com pr\u00e9vio conhecimento do acervo, nem reproduz as oportunidades instrut\u00f3rias j\u00e1 consumadas. O contradit\u00f3rio exercido apenas ao fim do procedimento \u00e9 reduzido a manifesta\u00e7\u00e3o reativa, incapaz de restaurar a paridade de armas afetada desde o in\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-11-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-injuria-racial-na-lei-do-racismo-e-continuidade-normativo-tipica\" class=\"wp-block-heading\">11.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; INJ\u00daRIA RACIAL NA LEI DO RACISMO E CONTINUIDADE NORMATIVO-T\u00cdPICA<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O deslocamento da inj\u00faria racial do art. 140, \u00a7 3\u00ba, do CP para o art. 2\u00ba-A da Lei n. 7.716\/1989 configura <strong>continuidade normativo-t\u00edpica<\/strong>, sem <em>abolitio criminis<\/em>: aplica-se integralmente <strong>a lei da \u00e9poca dos fatos, quando mais ben\u00e9fica<\/strong>, vedada a combina\u00e7\u00e3o de leis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 2.135.321-SP, Rel. Min. Carlos Pires Brand\u00e3o, Sexta Turma, por unanimidade, julgado em 22\/4\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Creosvaldo foi condenado por injuriar Crementina com ofensas ligadas \u00e0 ra\u00e7a e \u00e0 proced\u00eancia nacional, publicadas em redes sociais. Creosvaldo ent\u00e3o apostou suas fichas na reforma legislativa: a Lei n. 14.532\/2023 alterou o \u00a7 3\u00ba do art. 140 do CP, que fundamentara a condena\u00e7\u00e3o, e a defesa sustentou o desaparecimento do crime. O dispositivo antigo, por\u00e9m, n\u00e3o sumiu no ar: a mesma conduta reapareceu no art. 2\u00ba-A da Lei do Racismo, agora com pena mais pesada. A mudan\u00e7a de endere\u00e7o legislativo apaga o delito?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CP, art. 140, \u00a7 3\u00ba (reda\u00e7\u00e3o anterior); Lei n. 7.716\/1989, art. 2\u00ba-A<\/strong><em> (a inj\u00faria consistente na utiliza\u00e7\u00e3o de elementos referentes a ra\u00e7a, cor, etnia ou proced\u00eancia nacional migrou, com a Lei n. 14.532\/2023, para a lei dos crimes de preconceito, com pena agravada).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda Ocorre <em>abolitio criminis<\/em> quando a conduta deixa de ser crime; h\u00e1 continuidade normativo-t\u00edpica quando a incrimina\u00e7\u00e3o persiste em outro dispositivo. A migra\u00e7\u00e3o com agravamento de pena preserva a relev\u00e2ncia penal do fato e afasta a descriminaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd Sendo mais gravosa a lei nova, prevalecem a irretroatividade e a ultratividade da norma anterior mais ben\u00e9fica, aplicada por inteiro; mesclar o tipo atual com a pena antiga criaria <em>lex tertia<\/em>, combina\u00e7\u00e3o de leis que a jurisprud\u00eancia rejeita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O destino da conduta na lei nova decide entre aboli\u00e7\u00e3o e continuidade. <strong>A Lei n. 14.532\/2023 n\u00e3o deixou de considerar crime a inj\u00faria fundada em ra\u00e7a, cor, etnia ou proced\u00eancia nacional: deslocou o tipo para a legisla\u00e7\u00e3o especial, com pena agravada<\/strong>, o que caracteriza a continuidade normativo-t\u00edpica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f O agravamento fecha a porta da retroa\u00e7\u00e3o. <strong>Mais severo o regime novo, incide a irretroatividade da lei penal gravosa, e o fato anterior permanece regido pela norma da \u00e9poca<\/strong>, dotada de ultratividade por ser mais favor\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A aplica\u00e7\u00e3o da lei antiga \u00e9 integral, sem colagens. <strong>N\u00e3o se admite combinar o tipo atual com a pena anterior, nem o inverso: cada regime se aplica por inteiro<\/strong>, sob pena de o julgador criar uma terceira lei sem respaldo parlamentar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f O desfecho preserva a condena\u00e7\u00e3o e a coer\u00eancia do sistema. <strong>Mant\u00e9m-se a incrimina\u00e7\u00e3o na forma do art. 140, \u00a7 3\u00ba, do CP em sua reda\u00e7\u00e3o anterior, afastadas a retroatividade da lei nova e a mescla de regimes<\/strong>, na linha da jurisprud\u00eancia consolidada sobre o deslocamento de tipos penais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a migra\u00e7\u00e3o da inj\u00faria racial do C\u00f3digo Penal para a Lei do Racismo (Lei n. 14.532\/2023), quanto aos fatos anteriores \u00e0 mudan\u00e7a:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) subsiste a condena\u00e7\u00e3o pelo tipo da \u00e9poca, mais ben\u00e9fico, configurada a continuidade normativo-t\u00edpica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) opera-se <em>abolitio criminis<\/em>, revogado o dispositivo que fundamentava a imputa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) aplica-se retroativamente o novo tipo da lei do racismo, norma especial posterior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) combina-se o tipo novo com a pena antiga, prevalecendo os aspectos favor\u00e1veis de cada regime.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) converte-se a imputa\u00e7\u00e3o em inj\u00faria simples, remanescente no art. 140, <em>caput<\/em>, do CP.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Correta. A conduta permaneceu criminosa em novo endere\u00e7o legislativo, com pena agravada; configura-se a continuidade normativo-t\u00edpica, aplicando-se por inteiro a lei da \u00e9poca dos fatos, mais ben\u00e9fica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. A <em>abolitio criminis<\/em> pressup\u00f5e a supress\u00e3o da relev\u00e2ncia penal da conduta; a migra\u00e7\u00e3o do tipo para a lei especial, com agravamento, preserva a incrimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. A retroatividade \u00e9 reservada \u00e0 lei mais benigna; o novo regime, mais severo, n\u00e3o alcan\u00e7a os fatos anteriores \u00e0 sua vig\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. A mescla de regimes criaria <em>lex tertia<\/em>: veda-se a combina\u00e7\u00e3o de leis, aplicando-se integralmente o diploma mais favor\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. N\u00e3o h\u00e1 desclassifica\u00e7\u00e3o para a figura simples: o elemento racial da conduta segue tipificado, apenas em dispositivo diverso, e a adequa\u00e7\u00e3o t\u00edpica da \u00e9poca permanece \u00edntegra.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-9\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A quest\u00e3o em discuss\u00e3o consiste em saber se a Lei n. 14.532\/2023, ao deslocar a inj\u00faria racial do art. 140, \u00a7 3\u00ba, do C\u00f3digo Penal para o art. 2\u00ba-A da Lei n. 7.716\/1989 e alterar o conte\u00fado do \u00a7 3\u00ba do art. 140 do C\u00f3digo Penal, configurou continuidade normativo-t\u00edpica ou <em>abolitio criminis<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Na hip\u00f3tese, restou incontroversa a pr\u00e1tica de inj\u00faria com elementos referentes \u00e0 ra\u00e7a e origem\/proced\u00eancia nacional mediante postagens em redes sociais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O ac\u00f3rd\u00e3o recorrido concluiu que a Lei n. 14.532\/2023 deslocou a inj\u00faria racial para a Lei n. 7.716\/1989 (art. 2\u00ba-A), com pena mais grave, mantendo a criminaliza\u00e7\u00e3o da conduta, o que caracteriza continuidade normativo-t\u00edpica. Por isso, aplicou integralmente o tipo vigente \u00e0 \u00e9poca dos fatos (art. 140, \u00a7 3\u00ba, do C\u00f3digo Penal, reda\u00e7\u00e3o anterior), por ser mais ben\u00e9fico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A lei nova n\u00e3o deixou de considerar crime a conduta de injuriar algu\u00e9m com elementos atinentes \u00e0 ra\u00e7a, cor, etnia ou origem\/proced\u00eancia nacional; houve apenas deslocamento t\u00edpico com agravamento de pena na legisla\u00e7\u00e3o especial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesse cen\u00e1rio, n\u00e3o se trata de <em>abolitio criminis<\/em>, mas de continuidade normativo-t\u00edpica. Prevalecem, pois, a irretroatividade da lei penal mais gravosa e a aplica\u00e7\u00e3o integral da lei vigente \u00e0 \u00e9poca dos fatos quando mais favor\u00e1vel, vedada a indevida combina\u00e7\u00e3o de leis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A interpreta\u00e7\u00e3o adotada pelo Tribunal de origem alinha-se \u00e0 jurisprud\u00eancia do Superior Tribunal de Justi\u00e7a quanto: (a) ao reconhecimento da continuidade normativo-t\u00edpica quando a nova lei mant\u00e9m a criminaliza\u00e7\u00e3o em outro dispositivo; (b) \u00e0 veda\u00e7\u00e3o \u00e0 combina\u00e7\u00e3o de leis penais; e (c) \u00e0 ultratividade da norma anterior mais ben\u00e9fica quando o novo regime legal \u00e9 mais gravoso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A prop\u00f3sito do tema, o STJ j\u00e1 decidiu em sentido convergente, assentando que o deslocamento t\u00edpico n\u00e3o implica descriminaliza\u00e7\u00e3o, que a adequa\u00e7\u00e3o deve ser integral \u00e0 lei vigente \u00e0 \u00e9poca dos fatos quando a posterior \u00e9 mais severa, e que n\u00e3o se admite mesclar o tipo atual com a pena antiga.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Portanto, a solu\u00e7\u00e3o do Tribunal de origem \u00e9 juridicamente adequada: preserva a incrimina\u00e7\u00e3o na forma do art. 140, \u00a7 3\u00ba, do C\u00f3digo Penal (reda\u00e7\u00e3o anterior), afasta a aplica\u00e7\u00e3o retroativa da Lei n. 14.532\/2023 por ser mais gravosa e recha\u00e7a a combina\u00e7\u00e3o de regimes legais.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-12-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-recusa-do-anpp-por-criterios-subjetivos-e-remessa-ao-orgao-superior\" class=\"wp-block-heading\">12.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; RECUSA DO ANPP POR CRIT\u00c9RIOS SUBJETIVOS E REMESSA AO \u00d3RG\u00c3O SUPERIOR<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Recusado o ANPP com base em crit\u00e9rios subjetivos, <strong>imp\u00f5e-se o encaminhamento dos autos \u00e0 inst\u00e2ncia revisora do Minist\u00e9rio P\u00fablico<\/strong> (CPP, art. 28-A, \u00a7 14), reservada a dispensa \u00e0 manifesta inadmissibilidade; o <strong>controle judicial limita-se aos requisitos objetivos<\/strong>, vedado o exame do m\u00e9rito da recusa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AgRg no REsp 2.088.701-PR, Rel. Min. Carlos Pires Brand\u00e3o, Sexta Turma, por unanimidade, julgado em 22\/4\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acusada de descaminho, Dona Clotilde preenchia a ficha objetiva do acordo de n\u00e3o persecu\u00e7\u00e3o penal: prim\u00e1ria, sem condena\u00e7\u00e3o definitiva, pena m\u00ednima abaixo de quatro anos, crime sem viol\u00eancia. O promotor, ainda assim, recusou a proposta, apontando indicativos de habitualidade delitiva. A defesa postulou o reenvio do caso \u00e0 inst\u00e2ncia revisora do Parquet, e o ju\u00edzo indeferiu, chancelando a recusa. A avalia\u00e7\u00e3o subjetiva do promotor dispensa esse reexame?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CPP, art. 28-A, <em>caput<\/em> e \u00a7 14<\/strong><em> (o acordo pressup\u00f5e confiss\u00e3o, pena m\u00ednima inferior a 4 anos e crime sem viol\u00eancia ou grave amea\u00e7a; recusada a proposta, o investigado poder\u00e1 requerer a remessa dos autos ao \u00f3rg\u00e3o superior do Minist\u00e9rio P\u00fablico).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda Os requisitos objetivos abrangem a primariedade, a pena m\u00ednima abstrata, a aus\u00eancia de viol\u00eancia ou grave amea\u00e7a, o n\u00e3o cabimento de transa\u00e7\u00e3o penal e a inexist\u00eancia de benef\u00edcio an\u00e1logo nos cinco anos anteriores; refer\u00eancias a habitualidade sem condena\u00e7\u00e3o definitiva traduzem avalia\u00e7\u00e3o subjetiva do \u00f3rg\u00e3o acusador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd A dispensa da remessa fica confinada \u00e0 manifesta inadmissibilidade, isto \u00e9, ao n\u00e3o preenchimento dos requisitos objetivos; fora da\u00ed, o reexame pelo \u00f3rg\u00e3o superior \u00e9 obrigat\u00f3rio, e o Judici\u00e1rio n\u00e3o examina o m\u00e9rito da recusa ministerial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O \u00a7 14 do art. 28-A desenha um recurso interno, n\u00e3o uma cortesia. <strong>Diante da recusa do acordo, o investigado tem direito ao reexame da negativa pelo \u00f3rg\u00e3o superior do Minist\u00e9rio P\u00fablico<\/strong>, mecanismo de controle interno da atua\u00e7\u00e3o do promotor natural.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A v\u00e1lvula de escape da remessa \u00e9 estreita por defini\u00e7\u00e3o. <strong>A manifesta inadmissibilidade que dispensa o reenvio corresponde ao descumprimento dos requisitos objetivos do benef\u00edcio<\/strong>: pena m\u00ednima, primariedade, aus\u00eancia de viol\u00eancia e de benef\u00edcios anteriores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O caso concreto n\u00e3o passava perto dessa hip\u00f3tese. <strong>A acusada de descaminho n\u00e3o tinha condena\u00e7\u00e3o definitiva, e os indicativos de habitualidade traduziam avalia\u00e7\u00e3o subjetiva do \u00f3rg\u00e3o acusador<\/strong>; ju\u00edzo dessa natureza reclama exatamente o crivo da inst\u00e2ncia revisora do pr\u00f3prio MP.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f Ao Judici\u00e1rio, o sistema reservou papel de guarda de fronteira. <strong>O controle judicial se limita \u00e0 verifica\u00e7\u00e3o dos requisitos objetivos, sendo ileg\u00edtimo o exame do m\u00e9rito da recusa ministerial<\/strong>; indeferir a remessa fora da manifesta inadmissibilidade subtrai da defesa o reexame que a lei garante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante da recusa do Minist\u00e9rio P\u00fablico em propor o ANPP fundada em avalia\u00e7\u00e3o subjetiva, como indicativos de habitualidade sem condena\u00e7\u00e3o definitiva:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) cabe ao juiz examinar o m\u00e9rito da recusa e, se desarrazoada, formular ele pr\u00f3prio a proposta de acordo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) mostra-se leg\u00edtimo o indeferimento da remessa, inserida a proposta na discricionariedade plena do \u00f3rg\u00e3o acusador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) configura-se manifesta inadmissibilidade, funcionando a habitualidade delitiva como veda\u00e7\u00e3o objetiva do art. 28-A.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) suspende-se o processo at\u00e9 que o acusado comprove o preenchimento dos requisitos subjetivos do benef\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) imp\u00f5e-se o reenvio ao \u00f3rg\u00e3o revisor do Minist\u00e9rio P\u00fablico, restrito o controle judicial aos requisitos objetivos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. O Judici\u00e1rio n\u00e3o formula a proposta nem examina o m\u00e9rito da recusa: o reexame da negativa pertence ao \u00f3rg\u00e3o superior do pr\u00f3prio Minist\u00e9rio P\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. A discricionariedade ministerial convive com o controle interno do \u00a7 14 do art. 28-A: recusada a proposta fora da manifesta inadmissibilidade, o reenvio \u00e9 obrigat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. Sem condena\u00e7\u00e3o definitiva, a habitualidade \u00e9 impress\u00e3o subjetiva, n\u00e3o veda\u00e7\u00e3o objetiva; a manifesta inadmissibilidade fica reservada ao descumprimento dos requisitos do <em>caput<\/em> e do \u00a7 2\u00ba.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. N\u00e3o h\u00e1 suspens\u00e3o condicionada a prova do acusado: preenchidos os requisitos objetivos, o caminho legal \u00e9 a remessa ao \u00f3rg\u00e3o revisor, sem \u00f4nus probat\u00f3rio adicional da defesa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Correta. A recusa fundada em crit\u00e9rios subjetivos n\u00e3o configura manifesta inadmissibilidade: a remessa ao \u00f3rg\u00e3o superior do MP \u00e9 obrigat\u00f3ria, e o controle do Judici\u00e1rio se restringe aos requisitos objetivos do acordo.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-10\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cinge-se a controv\u00e9rsia a saber se, diante da recusa do Minist\u00e9rio P\u00fablico em propor o acordo de n\u00e3o persecu\u00e7\u00e3o penal, o magistrado deve remeter os autos ao \u00f3rg\u00e3o superior do Minist\u00e9rio P\u00fablico, conforme o \u00a7 14 do art. 28-A do C\u00f3digo de Processo Penal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, o ent\u00e3o ministro relator, considerando que o Supremo Tribunal Federal entendeu pela possibilidade de aplica\u00e7\u00e3o do acordo de n\u00e3o persecu\u00e7\u00e3o penal a processos iniciados antes de sua cria\u00e7\u00e3o pela Lei n. 13.964\/2019, remeteu os autos \u00e0 primeira inst\u00e2ncia a fim de que o Minist\u00e9rio P\u00fablico oficiante se manifestasse quanto \u00e0 possibilidade de acordo. O Parquet, diante de indicativos de conduta criminal habitual, n\u00e3o ofereceu acordo. A defesa pediu a remessa dos autos para o \u00f3rg\u00e3o superior do Minist\u00e9rio P\u00fablico, na forma do art. 28-A, \u00a7 14, do CPP, mas tal pleito foi indeferido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os requisitos objetivos para o acordo de n\u00e3o persecu\u00e7\u00e3o penal s\u00e3o a primariedade, a pena m\u00ednima abstrata inferior a 4 (quatro) anos, o crime n\u00e3o ter sido cometido com viol\u00eancia ou grave amea\u00e7a \u00e0 pessoa, o n\u00e3o cabimento da transa\u00e7\u00e3o penal e n\u00e3o ter sido o agente beneficiado nos 5 (cinco) anos anteriores ao cometimento da infra\u00e7\u00e3o, em acordo de n\u00e3o persecu\u00e7\u00e3o penal, transa\u00e7\u00e3o penal ou suspens\u00e3o condicional do processo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, o acusado responde pelo crime de descaminho e, apesar da refer\u00eancia a habitualidade delitiva, n\u00e3o possui condena\u00e7\u00e3o definitiva, de modo que o n\u00e3o preenchimento dos requisitos para negocia\u00e7\u00e3o e celebra\u00e7\u00e3o do acordo decorreu de avalia\u00e7\u00e3o subjetiva do Minist\u00e9rio P\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em tais casos, como n\u00e3o h\u00e1 manifesta inadmissibilidade, a jurisprud\u00eancia do Superior Tribunal de Justi\u00e7a entende que \u00e9 obrigat\u00f3ria a remessa dos autos ao \u00f3rg\u00e3o superior ministerial, para reavaliar se o acordo de n\u00e3o persecu\u00e7\u00e3o penal \u00e9 necess\u00e1rio e suficiente para reprova\u00e7\u00e3o e preven\u00e7\u00e3o do crime.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, a defesa tem direito ao reexame da negativa apresentada pelo representante do Minist\u00e9rio P\u00fablico em primeiro grau, nos termos do art. 28-A, \u00a7 14, CPP, sendo ileg\u00edtima a recusa do julgador salvo nos casos de evidente aus\u00eancia de preenchimento dos requisitos h\u00e1beis \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o do acordo de n\u00e3o persecu\u00e7\u00e3o penal previsto no art. 28-A do CPP.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">***<\/p>\n\n\n\n<div data-wp-interactive=\"core\/file\" class=\"wp-block-file\"><object aria-label=\"Incorporar PDF\" data-wp-bind--hidden=\"!state.hasPdfPreview\" hidden><\/object><a id=\"wp-block-file--media-f0f72756-5e01-4298-a3dd-2f8fd760c93c\" href=\"https:\/\/dhg1h5j42swfq.cloudfront.net\/2026\/08\/10092306\/stj-info-895.pdf\">STJ &#8211; Info 895<\/a><a href=\"https:\/\/dhg1h5j42swfq.cloudfront.net\/2026\/08\/10092306\/stj-info-895.pdf\" class=\"wp-block-file__button wp-element-button\" download aria-describedby=\"wp-block-file--media-f0f72756-5e01-4298-a3dd-2f8fd760c93c\">Baixar<\/a><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DOWNLOAD do PDF AQUI! 1.&nbsp;&nbsp; IPCA-E NA EXECU\u00c7\u00c3O CONTRA A FAZENDA E COISA JULGADA Destaque \u00c0 luz do Tema 1.361\/STF, admite-se a adequa\u00e7\u00e3o, na 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