{"id":1784408,"date":"2026-07-27T08:29:22","date_gmt":"2026-07-27T11:29:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.estrategiaconcursos.com.br\/blog\/?p=1784408"},"modified":"2026-07-27T08:29:25","modified_gmt":"2026-07-27T11:29:25","slug":"informativo-stj-ed-especial-30-parte-1-comentado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.estrategiaconcursos.com.br\/blog\/informativo-stj-ed-especial-30-parte-1-comentado\/","title":{"rendered":"Informativo STJ Ed Especial 30 Parte 1 Comentado"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/dhg1h5j42swfq.cloudfront.net\/2026\/07\/27082839\/stj_especial_30_parte1.pdf\"><strong>DOWNLOAD do PDF AQUI!<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<div class=\"lyte-wrapper\" style=\"width:853px;max-width:100%;margin:5px;\"><div class=\"lyMe\" id=\"WYL_Yq6KBljTR88\"><div id=\"lyte_Yq6KBljTR88\" data-src=\"\/\/i.ytimg.com\/vi\/Yq6KBljTR88\/hqdefault.jpg\" class=\"pL\"><div class=\"tC\"><div class=\"tT\"><\/div><\/div><div class=\"play\"><\/div><div class=\"ctrl\"><div class=\"Lctrl\"><\/div><div class=\"Rctrl\"><\/div><\/div><\/div><noscript><a href=\"https:\/\/youtu.be\/Yq6KBljTR88\" rel=\"nofollow\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i.ytimg.com\/vi\/Yq6KBljTR88\/0.jpg\" alt=\"YouTube video thumbnail\" width=\"853\" height=\"460\" \/><br \/>Assista a este v\u00eddeo no YouTube<\/a><\/noscript><\/div><\/div><div class=\"lL\" style=\"max-width:100%;width:853px;margin:5px;\"><\/div>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<h2 id=\"h-1-nbsp-nbsp-revisao-periodica-da-prisao-preventiva-e-cautelares-alternativas\" class=\"wp-block-heading\">1.&nbsp;&nbsp; REVIS\u00c3O PERI\u00d3DICA DA PRIS\u00c3O PREVENTIVA E CAUTELARES ALTERNATIVAS<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A revis\u00e3o peri\u00f3dica obrigat\u00f3ria da pris\u00e3o preventiva, prevista no art. 316, par\u00e1grafo \u00fanico, do CPP, <strong>N\u00c3O se aplica \u00e0s medidas cautelares alternativas \u00e0 pris\u00e3o<\/strong>; a reavalia\u00e7\u00e3o dessas medidas <strong>depende de pedido da parte interessada<\/strong>, e o transcurso dos 90 dias sem reexame, tal como na pris\u00e3o, n\u00e3o acarreta ilegalidade autom\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AgRg na Pet 16.308-DF, Rel. Min. Og Fernandes, Corte Especial, por unanimidade, julgado em 12\/8\/2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Godines, apontado como pe\u00e7a-chave numa trama de desvios, respondia ao processo sob medidas cautelares diversas da pris\u00e3o: passaporte retido, proibi\u00e7\u00e3o de contato com os demais investigados e comparecimento peri\u00f3dico. Mais de noventa dias se passaram sem que o ju\u00edzo reexaminasse as restri\u00e7\u00f5es, e a defesa foi ao ataque: se a pris\u00e3o preventiva exige revis\u00e3o nonagesimal, as cautelares que a substituem tamb\u00e9m exigiriam \u2014 e, aposentado, Godines j\u00e1 n\u00e3o teria como interferir em nada. As medidas caducam sem a revis\u00e3o peri\u00f3dica?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CPP, art. 316, par\u00e1grafo \u00fanico<\/strong><em> (decretada a pris\u00e3o preventiva, o \u00f3rg\u00e3o emissor deve revisar a necessidade de sua manuten\u00e7\u00e3o a cada 90 dias, mediante decis\u00e3o fundamentada, de of\u00edcio, sob pena de tornar a pris\u00e3o ilegal).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CPP, art. 282<\/strong><em> (as medidas cautelares observam os crit\u00e9rios de necessidade, adequa\u00e7\u00e3o e proporcionalidade).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda A literalidade do dispositivo circunscreve o reexame nonagesimal de of\u00edcio \u00e0 cust\u00f3dia: o texto abre com &#8220;decretada a pris\u00e3o preventiva&#8221; e comina a san\u00e7\u00e3o de ilegalidade apenas para ela. STF e STJ, ademais, leem o prazo como n\u00e3o perempt\u00f3rio: o atraso no reexame, por si, n\u00e3o solta o preso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd Para as cautelares diversas, o caminho \u00e9 a provoca\u00e7\u00e3o: incumbe ao interessado requerer ao ju\u00edzo que reavalie a subsist\u00eancia das restri\u00e7\u00f5es, demonstrando a mudan\u00e7a do quadro que as justificou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd A dura\u00e7\u00e3o prolongada de cautelares alternativas se legitima pela complexidade da causa e pelo risco concreto que remanesce \u2014 no caso, o papel relevante do agente na organiza\u00e7\u00e3o, que a aposentadoria n\u00e3o neutraliza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O argumento decisivo \u00e9 de texto, antes de ser de sistema. <strong>O par\u00e1grafo \u00fanico do art. 316 anuncia seu campo de incid\u00eancia logo na abertura \u2014 &#8220;decretada a pris\u00e3o preventiva&#8221; \u2014 e \u00e9 s\u00f3 para a cust\u00f3dia que prev\u00ea a consequ\u00eancia da ilegalidade<\/strong>; estender o reexame trimestral de of\u00edcio a restri\u00e7\u00f5es menos gravosas seria criar regra que o legislador n\u00e3o escreveu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A diferen\u00e7a de intensidade entre as medidas explica o tratamento desigual. <strong>A pris\u00e3o \u00e9 a interven\u00e7\u00e3o m\u00e1xima e por isso recebe fiscaliza\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica e peri\u00f3dica; as cautelares diversas comprimem menos a liberdade e ficam sob o regime comum da provoca\u00e7\u00e3o<\/strong>: quem se sente onerado al\u00e9m do necess\u00e1rio pede ao ju\u00edzo a reavalia\u00e7\u00e3o, apontando o que mudou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 Nem mesmo para a preventiva o calend\u00e1rio opera sozinho. <strong>O decurso de mais de 90 dias sem reexame n\u00e3o produz, de pleno direito, a soltura<\/strong> \u2014 a orienta\u00e7\u00e3o de ambos os tribunais superiores trata o prazo como impr\u00f3prio, exigindo que se demonstre constrangimento concreto, e o mesmo racioc\u00ednio vale, com maior raz\u00e3o, para as medidas alternativas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f Restava o controle de m\u00e9rito, e ele tamb\u00e9m desfavorecia o agravante. <strong>A manuten\u00e7\u00e3o das restri\u00e7\u00f5es por per\u00edodo alongado encontrava apoio na complexidade do processo e na necessidade de preservar o v\u00ednculo do r\u00e9u com a instru\u00e7\u00e3o<\/strong>; e o argumento da aposentadoria n\u00e3o convence quando o hist\u00f3rico revela posi\u00e7\u00e3o de comando na engrenagem il\u00edcita, com potencial residual de interfer\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quanto \u00e0 revis\u00e3o nonagesimal prevista no art. 316, par\u00e1grafo \u00fanico, do CPP:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) aplica-se tamb\u00e9m \u00e0s medidas cautelares diversas, que restringem a liberdade e reclamam o mesmo controle temporal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) torna ilegal a pris\u00e3o preventiva pelo simples decurso dos 90 dias sem reexame, dispensada a demonstra\u00e7\u00e3o de preju\u00edzo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) restringe-se \u00e0 pris\u00e3o preventiva, cabendo \u00e0 parte interessada provocar a reavalia\u00e7\u00e3o das medidas alternativas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) obriga o ju\u00edzo a rever de of\u00edcio, no mesmo prazo, as cautelares impostas sem termo final definido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) sujeita as medidas alternativas a prazo m\u00e1ximo legal de dura\u00e7\u00e3o, vencido o qual a revoga\u00e7\u00e3o \u00e9 imperativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A restri\u00e7\u00e3o da liberdade em menor grau n\u00e3o atrai o reexame trimestral de of\u00edcio: o art. 316, par\u00e1grafo \u00fanico, do CPP alcan\u00e7a apenas a pris\u00e3o preventiva, e a amplia\u00e7\u00e3o por analogia criaria regra sem previs\u00e3o legal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. O prazo de 90 dias n\u00e3o \u00e9 perempt\u00f3rio: o atraso no reexame n\u00e3o conduz, de pleno direito, \u00e0 ilegalidade da cust\u00f3dia, exigindo-se a demonstra\u00e7\u00e3o de constrangimento concreto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Correta. A revis\u00e3o nonagesimal de of\u00edcio \u00e9 exclusiva da pris\u00e3o preventiva; quanto \u00e0s cautelares diversas, incumbe ao interessado requerer a reavalia\u00e7\u00e3o, demonstrando a altera\u00e7\u00e3o do quadro que as justificou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. N\u00e3o h\u00e1 dever de reexame trimestral de of\u00edcio para as cautelares alternativas, tenham ou n\u00e3o termo final; o regime dessas medidas \u00e9 o da provoca\u00e7\u00e3o pela parte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. As cautelares diversas n\u00e3o se sujeitam a prazo m\u00e1ximo legal: sua dura\u00e7\u00e3o se controla pelos crit\u00e9rios de necessidade, adequa\u00e7\u00e3o e proporcionalidade do art. 282 do CPP, \u00e0 luz do caso concreto.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A quest\u00e3o em discuss\u00e3o consiste em saber se as medidas cautelares alternativas \u00e0 pris\u00e3o devem ser revistas periodicamente, conforme previsto no par\u00e1grafo \u00fanico do art. 316 do C\u00f3digo de Processo Penal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A pr\u00f3pria literalidade do referido dispositivo n\u00e3o deixa margem a d\u00favidas de que a revis\u00e3o peri\u00f3dica tem aplica\u00e7\u00e3o restrita \u00e0s hip\u00f3teses de pris\u00e3o, ao enunciar que: &#8220;Decretada a pris\u00e3o preventiva, dever\u00e1 o \u00f3rg\u00e3o emissor da decis\u00e3o revisar a necessidade de sua manuten\u00e7\u00e3o a cada 90 (noventa) dias, mediante decis\u00e3o fundamentada, de of\u00edcio, sob pena de tornar a pris\u00e3o ilegal&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Al\u00e9m disso, a reavalia\u00e7\u00e3o deve ser objeto de pedido pela parte interessada e, tal como ocorre em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pris\u00e3o, o transcurso de mais de 90 (noventa) dias sem a reavalia\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 causa autom\u00e1tica de ilegalidade, conforme entendimento do Supremo Tribunal Federal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Na mesma toada, decidiu o Superior Tribunal de Justi\u00e7a: &#8220;[&#8230;] 3. Quanto ao cumprimento do art. 316, par\u00e1grafo \u00fanico, do CPP, conforme a jurisprud\u00eancia desta Corte Superior, o prazo de 90 dias para reavalia\u00e7\u00e3o dos fundamentos da pris\u00e3o n\u00e3o \u00e9 perempt\u00f3rio, motivo pelo qual eventual atraso na execu\u00e7\u00e3o deste ato n\u00e3o implica no autom\u00e1tico reconhecimento da ilegalidade da pris\u00e3o, sendo que, no caso, houve a reavalia\u00e7\u00e3o da cust\u00f3dia em 17\/1\/2022 e em 31\/1\/2022, n\u00e3o havendo manifesta ilegalidade. [&#8230;]&#8221; (AgRg no HC n. 730.738\/SP, relator Ministro Olindo Menezes (Desembargador convocado do TRF 1\u00aa Regi\u00e3o), Sexta Turma, julgado em 7\/6\/2022, DJe de 10\/6\/2022).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A imposi\u00e7\u00e3o de medidas cautelares deve observar os crit\u00e9rios de necessidade, adequa\u00e7\u00e3o e proporcionalidade, conforme o art. 282 do C\u00f3digo de Processo Penal. No caso, a manuten\u00e7\u00e3o das medidas cautelares por per\u00edodo alongado \u00e9 justific\u00e1vel pela complexidade do processo e pela necessidade de assegurar o v\u00ednculo do r\u00e9u ao processo. Ademais, a aposentadoria do agravante n\u00e3o elimina o risco de interfer\u00eancia, considerando, no caso concreto, o relevante papel desempenhado na trama criminosa.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-2-nbsp-busca-domiciliar-e-o-marco-temporal-das-5-as-21-horas\" class=\"wp-block-heading\">2.&nbsp; BUSCA DOMICILIAR E O MARCO TEMPORAL DAS 5 \u00c0S 21 HORAS<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Configura <strong>abuso de autoridade<\/strong> o cumprimento de mandado de busca e apreens\u00e3o domiciliar <strong>ap\u00f3s as 21 horas e antes das 5 horas<\/strong>: a Lei n. 13.869\/2019 fixou o marco que delimita o per\u00edodo l\u00edcito da dilig\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">RHC 196.496-RN, Rel. Min. Sebasti\u00e3o Reis J\u00fanior, Terceira Se\u00e7\u00e3o, por maioria, julgado em 10\/12\/2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eram 5h05 quando os policiais bateram \u00e0 porta de Seu Madruga com o mandado em m\u00e3os. L\u00e1 fora, ainda escuro \u2014 e foi nisso que a defesa apostou: sem luz solar n\u00e3o h\u00e1 &#8220;dia&#8221;, de modo que a dilig\u00eancia teria violado a Constitui\u00e7\u00e3o e o art. 245 do CPP; suscitou ainda a suspeita de que a entrada ocorrera antes do hor\u00e1rio anotado no boletim de ocorr\u00eancia, lavrado, como de praxe, depois da busca. O que define o per\u00edodo l\u00edcito da dilig\u00eancia: a luz do sol ou o rel\u00f3gio?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CF, art. 5\u00ba, XI; CPP, art. 245<\/strong><em> (a casa \u00e9 asilo inviol\u00e1vel, admitido o ingresso por ordem judicial apenas durante o dia; as buscas domiciliares ser\u00e3o executadas de dia, salvo consentimento do morador para a realiza\u00e7\u00e3o noturna).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n. 13.869\/2019, art. 22, \u00a7 1\u00ba, III<\/strong><em> (tipifica como abuso de autoridade a execu\u00e7\u00e3o da dilig\u00eancia domiciliar fora do intervalo entre as 5h e as 21h).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda O conceito de \u201cdia\u201d para a busca domiciliar dividia a doutrina entre o crit\u00e9rio f\u00edsico (aurora ao crep\u00fasculo), o cronol\u00f3gico (faixa fixa de horas) e f\u00f3rmulas mistas \u2014 e nem a Constitui\u00e7\u00e3o nem o CPP arbitraram a disputa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd A Lei de Abuso de Autoridade resolveu o impasse por via reflexa: ao criminalizar a dilig\u00eancia fora da janela das 5h \u00e0s 21h, definiu hor\u00e1rio certo o per\u00edodo em que o cumprimento do mandado \u00e9 l\u00edcito. A busca iniciada \u00e0s 5h05 respeita o marco legal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A inviolabilidade domiciliar convive com uma zona cinzenta antiga. <strong>Nem o art. 5\u00ba, XI, da CF nem o art. 245 do CPP dizem o que \u00e9 &#8220;dia&#8221;: o crit\u00e9rio f\u00edsico, o cronol\u00f3gico e o misto sempre disputaram a prefer\u00eancia dos int\u00e9rpretes<\/strong>, sem consenso doutrin\u00e1rio ou jurisprudencial que pacificasse a quest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f O legislador de 2019 entrou nessa disputa com um tipo penal. <strong>Ao definir como crime a busca promovida antes das 5 horas ou depois das 21 horas, a Lei n. 13.869\/2019 adotou hor\u00e1rio certo e definido \u2014 e n\u00e3o a f\u00f3rmula \u201cantes de se iniciar o dia\u201d<\/strong>; a escolha por n\u00fameros, e n\u00e3o por fen\u00f4menos naturais, \u00e9 eloquente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O ordenamento se interpreta como um todo, n\u00e3o em tiras. <strong>Se o art. 245 do CPP n\u00e3o esclarece os conceitos e h\u00e1 lei que criminaliza a execu\u00e7\u00e3o do mandado fora de uma janela hor\u00e1ria expressa, os dois dispositivos devem ser lidos em conjunto<\/strong>: a faixa das 5h \u00e0s 21h passa a balizar o que se entende por per\u00edodo l\u00edcito da dilig\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f No caso concreto, os dois ataques da defesa se desfizeram. <strong>Ningu\u00e9m \u2014 nem as testemunhas do auto circunstanciado, nem os dois advogados que acompanharam a dilig\u00eancia \u2014 mencionou aus\u00eancia de luz solar \u00e0s 5h05<\/strong>; e a suposta diverg\u00eancia entre o hor\u00e1rio do boletim e o ingresso real exigiria mergulho f\u00e1tico-probat\u00f3rio invi\u00e1vel na via eleita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre o hor\u00e1rio de cumprimento do mandado de busca e apreens\u00e3o domiciliar:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) depende da presen\u00e7a de luz solar, crit\u00e9rio f\u00edsico que preenche o conceito constitucional de dia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) afere-se caso a caso pelo juiz que expediu a ordem, \u00e0 falta de defini\u00e7\u00e3o legal do que seja dia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) limita-se ao intervalo das 6 \u00e0s 18 horas, segundo o crit\u00e9rio cronol\u00f3gico tradicional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) admite-se em per\u00edodo noturno quando a decis\u00e3o judicial fundamentar a urg\u00eancia da dilig\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) observa a janela das 5 \u00e0s 21 horas, marco fixado pela Lei de Abuso de Autoridade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. O crit\u00e9rio f\u00edsico da luz solar perdeu a primazia: a lei penal escolheu hor\u00e1rio certo e definido, e n\u00e3o um fen\u00f4meno natural, para delimitar o per\u00edodo l\u00edcito da busca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para defini\u00e7\u00e3o casu\u00edstica pelo juiz: existe baliza legal expressa, cuja viola\u00e7\u00e3o constitui crime de abuso de autoridade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. A faixa das 6 \u00e0s 18 horas era proposta do crit\u00e9rio cronol\u00f3gico cl\u00e1ssico, mas o par\u00e2metro positivado \u00e9 mais largo: das 5 \u00e0s 21 horas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. A ordem judicial n\u00e3o legitima a dilig\u00eancia noturna: a Constitui\u00e7\u00e3o s\u00f3 admite o ingresso determinado pelo juiz durante o dia, e a execu\u00e7\u00e3o fora da janela legal tipifica abuso de autoridade; a exce\u00e7\u00e3o noturna \u00e9 o consentimento do morador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Correta. O art. 22, \u00a7 1\u00ba, III, da Lei n. 13.869\/2019, ao criminalizar o cumprimento ap\u00f3s as 21h e antes das 5h, fixou o marco temporal que, lido em conjunto com o art. 245 do CPP, define o per\u00edodo l\u00edcito da busca domiciliar.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-0\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A quest\u00e3o jur\u00eddica diz respeito \u00e0 nulidade no cumprimento do mandado de busca e apreens\u00e3o domiciliar decorrente de: (i) cumprimento \u00e0s 5h05min, em &#8220;hor\u00e1rio ainda noturno&#8221; e &#8220;desprovido de luz solar&#8221; em desconformidade com o disposto no art. 5\u00ba, VI, da Constitui\u00e7\u00e3o Federal, e art. 245 do C\u00f3digo de Processo Penal; e (ii) diverg\u00eancia entre o hor\u00e1rio registrado no boletim de ocorr\u00eancia e o efetivo ingresso na resid\u00eancia, visto que a praxe policial \u00e9 de que a confec\u00e7\u00e3o do termo seja realizada ap\u00f3s a efetiva busca, sugerindo que a ocorr\u00eancia tenha acontecido em momento anterior \u00e0s 5h05, em afronta ao disposto no art. 22, \u00a7 1\u00ba, III, da Lei Federal n. 13.869\/2019 (Lei de Abuso de Autoridade).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O art. 5.\u00ba, XI, da Constitui\u00e7\u00e3o Federal disp\u00f5e que a casa \u00e9 asilo inviol\u00e1vel do indiv\u00edduo, ningu\u00e9m nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determina\u00e7\u00e3o judicial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O art. 245, <em>caput<\/em>, do C\u00f3digo de Processo Penal, em igual dire\u00e7\u00e3o, estipula que as buscas domiciliares ser\u00e3o executadas de dia, salvo se o morador consentir que se realizem \u00e0 noite, e, antes de penetrarem na casa, os executores mostrar\u00e3o e ler\u00e3o o mandado ao morador, ou a quem o represente, intimando-o, em seguida, a abrir a porta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A interpreta\u00e7\u00e3o desses dispositivos, no que pertine \u00e0 defini\u00e7\u00e3o dos conceitos de &#8220;dia&#8221; e de &#8220;noite&#8221; para efeito de cumprimento de mandado de busca e apreens\u00e3o domiciliar, nunca foi objeto de consenso na doutrina, havendo quem trabalhe com o crit\u00e9rio f\u00edsico, outros que prefiram o crit\u00e9rio cronol\u00f3gico, al\u00e9m daqueles que acolhem um crit\u00e9rio misto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com o advento da Lei n. 13.869\/2019, que trata dos chamados crimes de abuso de autoridade, no seu art. 22, \u00a7 1\u00ba, III, estabeleceu um novo marco temporal para o cumprimento do mandado de busca e apreens\u00e3o domiciliar, definindo e delimitando, expressamente, o per\u00edodo legal poss\u00edvel para a realiza\u00e7\u00e3o de tais dilig\u00eancias, qual seja, aquele compreendido entre as 5 horas e as 21 horas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N\u00e3o h\u00e1 como desconsiderar a altera\u00e7\u00e3o legislativa que veio a definir como crime a busca promovida &#8220;antes&#8221; das 5 horas. A norma n\u00e3o fala &#8220;antes de se iniciar o dia&#8221;, fala especificamente em um &#8220;hor\u00e1rio certo e definido&#8221;. A interpreta\u00e7\u00e3o do direito h\u00e1 de levar em conta todo arcabou\u00e7o normativo e n\u00e3o apenas um dispositivo espec\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesse sentido, se h\u00e1 d\u00favidas quanto ao conceito de &#8220;dia&#8221; e &#8220;noite&#8221;, n\u00e3o tendo o art. 245 do CPP indicado com clareza o que \u00e9 dia e o que \u00e9 noite e se h\u00e1 uma lei que criminaliza o descumprimento da execu\u00e7\u00e3o do mandado de busca e apreens\u00e3o fora do &#8220;hor\u00e1rio determinado e certo&#8221;, deve portanto, o primeiro dispositivo ser compreendido em conjunto com o segundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso concreto, nenhuma refer\u00eancia houve, por parte das testemunhas que assinaram o auto circunstanciado e sobretudo pelos &#8220;dois caus\u00eddicos&#8221; que acompanharam o cumprimento do mandado de busca e apreens\u00e3o domiciliar, acerca da &#8220;aus\u00eancia de luz solar&#8221; no hor\u00e1rio em que esta ocorreu (5h05min).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Al\u00e9m disso, quanto \u00e0 alega\u00e7\u00e3o de diverg\u00eancia entre o hor\u00e1rio registrado no boletim de ocorr\u00eancia e o efetivo ingresso na resid\u00eancia, visto que a praxe policial \u00e9 de que a confec\u00e7\u00e3o do termo seja realizada ap\u00f3s a efetiva busca, sugerindo que a ocorr\u00eancia tenha acontecido em momento anterior \u00e0s 5h05min, em afronta ao disposto no art. 22, \u00a7 1\u00ba, III, da Lei Federal n. 13.869\/2019, constata-se que a revis\u00e3o dessa conclus\u00e3o, tal qual consignado no ac\u00f3rd\u00e3o impugnado, implica revis\u00e3o de conte\u00fado f\u00e1tico-probat\u00f3rio dos autos, provid\u00eancia totalmente invi\u00e1vel na via eleita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Portanto, a Lei n. 13.869\/2019 (Abuso de Autoridade) estipula que o per\u00edodo l\u00edcito de cumprimento dos mandados judiciais se d\u00e1 ap\u00f3s \u00e0s 5 da manh\u00e3 e antes das 21 horas.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-3-legitima-defesa-rejeitada-e-quesito-do-excesso-culposo\" class=\"wp-block-heading\">3. LEG\u00cdTIMA DEFESA REJEITADA E QUESITO DO EXCESSO CULPOSO<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A rejei\u00e7\u00e3o da tese de leg\u00edtima defesa <strong>N\u00c3O prejudica a quesita\u00e7\u00e3o da tese subsidi\u00e1ria de excesso culposo<\/strong>, que tem natureza desclassificat\u00f3ria; a omiss\u00e3o do quesito, quando a tese \u00e9 sustentada em plen\u00e1rio, <strong>acarreta nulidade absoluta<\/strong> (S\u00famula n. 156 do STF).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 2.043.554-AL, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, Terceira Se\u00e7\u00e3o, por unanimidade, julgado em 6\/11\/2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No plen\u00e1rio do j\u00fari, a defesa de Tib\u00farcio, pronunciado por homic\u00eddio qualificado, jogou em duas frentes: leg\u00edtima defesa e, para o caso de os jurados a recusarem, excesso culposo \u2014 agiu para se defender, mas passou da conta por imprud\u00eancia. Rejeitado o quesito da absolvi\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica, o juiz presidente deu por prejudicado o quesito do excesso e prosseguiu na vota\u00e7\u00e3o; veio a condena\u00e7\u00e3o por homic\u00eddio doloso. A recusa da justificante dispensava a vota\u00e7\u00e3o da tese subsidi\u00e1ria?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CP, art. 23, par\u00e1grafo \u00fanico<\/strong><em> (o agente responde pelo excesso doloso ou culposo nas causas de exclus\u00e3o da ilicitude).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CPP, art. 483, \u00a7\u00a7 2\u00ba e 4\u00ba, e art. 564, III, k<\/strong><em> (o quesito absolut\u00f3rio gen\u00e9rico e o quesito destacado para a tese de desclassifica\u00e7\u00e3o; \u00e9 nulo o julgamento quando omitido quesito obrigat\u00f3rio).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda Quem se excede culposamente ao repelir agress\u00e3o responde na forma culposa do tipo, se prevista: no homic\u00eddio doloso, o acolhimento do excesso desloca a condena\u00e7\u00e3o para o art. 121, \u00a7 3\u00ba, do CP. Por isso o excesso culposo funciona como desclassifica\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o como absolvi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd Justificante e excesso s\u00e3o teses mutuamente excludentes, votadas em momentos distintos: acolhido o quesito absolut\u00f3rio, o r\u00e9u sai absolvido; recusado, abre-se o quesito aut\u00f4nomo do excesso, cuja resposta positiva desclassifica para a forma culposa e cuja resposta negativa devolve o julgamento aos demais quesitos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd S\u00famula n. 156 do STF: \u00e9 absoluta a nulidade do julgamento pelo j\u00fari por falta de quesito obrigat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A natureza jur\u00eddica do excesso culposo comanda a solu\u00e7\u00e3o do problema. <strong>Quem ultrapassa, por imprud\u00eancia, neglig\u00eancia ou imper\u00edcia, os limites da rea\u00e7\u00e3o autorizada responde a t\u00edtulo de culpa \u2014 no homic\u00eddio, pela figura do art. 121, \u00a7 3\u00ba, do CP<\/strong>; a tese, portanto, n\u00e3o busca absolver, busca desclassificar, e desclassifica\u00e7\u00e3o reclama quesito destacado (art. 483, \u00a7 4\u00ba, do CPP).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f O car\u00e1ter subsidi\u00e1rio da alega\u00e7\u00e3o \u00e9 o que impede o efeito prejudicial. <strong>Fossem teses complementares, a queda da leg\u00edtima defesa arrastaria consigo o excesso; sendo alternativas que se excluem, a recusa de uma apenas abre caminho para a vota\u00e7\u00e3o da outra<\/strong> \u2014 ou o r\u00e9u agiu nos limites e se absolve, ou os transbordou por culpa e se desclassifica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A din\u00e2mica da vota\u00e7\u00e3o torna o v\u00edcio vis\u00edvel. <strong>Recusado o terceiro quesito, cumpria indagar aos jurados se o acusado excedeu culposamente os limites da justificante<\/strong>; ao dar a pergunta por prejudicada, o juiz presidente subtraiu do Conselho de Senten\u00e7a exatamente a decis\u00e3o que a defesa lhe havia pedido em plen\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A san\u00e7\u00e3o para a omiss\u00e3o \u00e9 a mais severa do sistema do j\u00fari. <strong>Falta de quesito obrigat\u00f3rio \u00e9 nulidade absoluta (art. 564, III, k, do CPP e S\u00famula n. 156 do STF)<\/strong>, impondo-se a anula\u00e7\u00e3o do veredito e a submiss\u00e3o do r\u00e9u a novo julgamento, agora com o question\u00e1rio completo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No julgamento pelo j\u00fari em que a defesa sustenta leg\u00edtima defesa e, subsidiariamente, excesso culposo, rejeitado o quesito absolut\u00f3rio gen\u00e9rico:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) imp\u00f5e-se a vota\u00e7\u00e3o de quesito pr\u00f3prio sobre o excesso, tese desclassificat\u00f3ria aut\u00f4noma, sob pena de nulidade insan\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) fica prejudicado o quesito do excesso, pois a rejei\u00e7\u00e3o da justificante alcan\u00e7a as teses que dela derivam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) constitui o excesso culposo causa de diminui\u00e7\u00e3o de pena, a ser sopesada pelo juiz presidente na dosimetria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) configura nulidade relativa \u00e0 omiss\u00e3o do quesito, san\u00e1vel se a defesa n\u00e3o protestar na pr\u00f3pria sess\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) cabe ao juiz presidente aferir o excesso na senten\u00e7a, por se tratar de mat\u00e9ria t\u00e9cnica estranha aos jurados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Correta. O excesso culposo \u00e9 tese desclassificat\u00f3ria (do homic\u00eddio doloso para o culposo) e exige quesito aut\u00f4nomo (art. 483, \u00a7 4\u00ba, do CPP); a omiss\u00e3o, quando a tese foi sustentada em plen\u00e1rio, contamina o julgamento de nulidade insan\u00e1vel (S\u00famula n. 156 do STF).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. Leg\u00edtima defesa e excesso culposo s\u00e3o teses mutuamente excludentes, n\u00e3o complementares: a recusa da justificante n\u00e3o prejudica a subsidi\u00e1ria \u2014 ao contr\u00e1rio, \u00e9 justamente ela que abre a vez do quesito do excesso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. O excesso culposo n\u00e3o \u00e9 minorante: seu acolhimento muda a capitula\u00e7\u00e3o para a forma culposa do crime, decis\u00e3o que pertence aos jurados por meio de quesito pr\u00f3prio, n\u00e3o ao juiz na dosimetria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. A falta de quesito obrigat\u00f3rio \u00e9 nulidade absoluta, insuscet\u00edvel de convalida\u00e7\u00e3o pela aus\u00eancia de protesto imediato.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. A soberania dos vereditos entrega aos jurados a decis\u00e3o sobre a desclassifica\u00e7\u00e3o; o juiz presidente n\u00e3o pode avocar o exame do excesso para a senten\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-1\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O excesso culposo na leg\u00edtima defesa, previsto no par\u00e1grafo \u00fanico do art. 23 do C\u00f3digo Penal, constitui hip\u00f3tese em que o agente, embora inicialmente amparado por uma causa de exclus\u00e3o da ilicitude, ultrapassa, por neglig\u00eancia, imprud\u00eancia ou imper\u00edcia, os limites necess\u00e1rios e proporcionais da conduta justificada. Nessa situa\u00e7\u00e3o, haver\u00e1 a responsabilidade penal a t\u00edtulo de culpa, desde que prevista para o tipo penal praticado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso de imputa\u00e7\u00e3o por homic\u00eddio doloso, o acolhimento da alega\u00e7\u00e3o de que o r\u00e9u se excedeu culposamente ao agir em leg\u00edtima defesa resultaria na condena\u00e7\u00e3o por homic\u00eddio culposo. Conclui-se, ent\u00e3o, que o excesso culposo tem natureza de tese desclassificat\u00f3ria (de homic\u00eddio doloso para culposo) e, como tal, requer quesita\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria e aut\u00f4noma, conforme prev\u00ea o art. 483, \u00a7 4\u00ba, do C\u00f3digo de Processo Penal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, quando a defesa sustenta uma excludente de ilicitude e, de forma subsidi\u00e1ria, a ocorr\u00eancia de excesso culposo, o Conselho de Senten\u00e7a deve decidir entre duas teses: na primeira, os jurados reconhecem a justificante sem excesso e absolvem o r\u00e9u, ao acolherem o terceiro quesito, previsto no art. 483, \u00a7 2\u00ba, do CPP; na segunda, afastada a excludente de ilicitude, cabe-lhes examinar a tese desclassificat\u00f3ria, na qual lhes ser\u00e1 perguntado se o r\u00e9u excedeu, culposamente, os limites da leg\u00edtima defesa. A resposta afirmativa leva \u00e0 condena\u00e7\u00e3o do acusado por homic\u00eddio culposo; a negativa, por sua vez, conduz \u00e0 responsabiliza\u00e7\u00e3o por homic\u00eddio doloso, prosseguindo-se, se for o caso, \u00e0 vota\u00e7\u00e3o dos demais quesitos nos termos do art. 483 do CPP.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Essas teses s\u00e3o mutuamente excludentes: ou o r\u00e9u atuou dentro dos limites da leg\u00edtima defesa e deve ser absolvido, ou agiu com excesso (por culpa), hip\u00f3tese em que a conduta ser\u00e1 desclassificada para homic\u00eddio culposo. Justamente por se tratar de alega\u00e7\u00e3o feita em car\u00e1ter subsidi\u00e1rio, a rejei\u00e7\u00e3o do quesito absolut\u00f3rio n\u00e3o elimina a necessidade de formula\u00e7\u00e3o de quesito aut\u00f4nomo sobre o excesso culposo. Se fossem teses complementares, o desacolhimento da leg\u00edtima defesa comprometeria a tese de excesso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, o r\u00e9u foi pronunciado pelo crime previsto no art. 121, \u00a7 2\u00ba, II e IV, do C\u00f3digo Penal. Durante o julgamento, a defesa suscitou as teses de leg\u00edtima defesa, excesso culposo na excludente de ilicitude, exclus\u00e3o das qualificadoras e reconhecimento da causa de diminui\u00e7\u00e3o de pena decorrente da pr\u00e1tica do crime por relevante valor moral. Ap\u00f3s os jurados rejeitarem o terceiro quesito (absolvi\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica), o Juiz Presidente considerou prejudicado o quarto quesito, referente ao excesso culposo, e prosseguiu com os demais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesse cen\u00e1rio, \u00e9 obrigat\u00f3ria a formula\u00e7\u00e3o de quesito pr\u00f3prio sobre o excesso culposo, ainda que os jurados tenham rejeitado o quesito absolut\u00f3rio gen\u00e9rico. Uma vez rejeitada a alega\u00e7\u00e3o principal de absolvi\u00e7\u00e3o por excludente de ilicitude, n\u00e3o h\u00e1 como subtrair do Conselho de Senten\u00e7a o dever de examinar tese subsidi\u00e1ria de desclassifica\u00e7\u00e3o sustentada em plen\u00e1rio. A omiss\u00e3o do quesito referente \u00e0 tese subsidi\u00e1ria de excesso culposo, quando sustentada em plen\u00e1rio, acarreta nulidade processual, nos termos do art. 564, III, k, do CPP e da S\u00famula n. 156 do STF (&#8220;\u00c9 absoluta a nulidade do julgamento pelo J\u00fari por falta de quesito obrigat\u00f3rio&#8221;).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Diante do v\u00edcio identificado, imp\u00f5e-se a anula\u00e7\u00e3o do veredito e a realiza\u00e7\u00e3o de novo julgamento pelo Tribunal do J\u00fari, com a correta formula\u00e7\u00e3o dos quesitos, conforme determina o art. 483 do C\u00f3digo de Processo Penal.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-4-trabalho-externo-do-apenado-justica-do-trabalho-vs-execucao-penal\" class=\"wp-block-heading\">4. TRABALHO EXTERNO DO APENADO: JUSTI\u00c7A DO TRABALHO vs. EXECU\u00c7\u00c3O PENAL<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Compete \u00e0 <strong>Justi\u00e7a do Trabalho<\/strong> julgar as demandas decorrentes do trabalho externo do apenado em regime semiaberto ou aberto, <strong>presentes os requisitos do v\u00ednculo empregat\u00edcio e ausente conv\u00eanio<\/strong> entre a administra\u00e7\u00e3o penitenci\u00e1ria e a empresa privada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CC 216.070-PA, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik, Terceira Se\u00e7\u00e3o, por unanimidade, julgado em 6\/11\/2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Do regime semiaberto, Creitinho sa\u00eda diariamente para trabalhar no Frigor\u00edfico Boi Bravo: jornada, subordina\u00e7\u00e3o e sal\u00e1rio, tudo ajustado diretamente com a empresa, sem conv\u00eanio algum com a administra\u00e7\u00e3o penitenci\u00e1ria. Entendendo-se lesado nas verbas trabalhistas, Creitinho &nbsp;ajuizou reclamat\u00f3ria. A Vara do Trabalho declinou para a execu\u00e7\u00e3o penal; o ju\u00edzo da execu\u00e7\u00e3o devolveu, por entender que rela\u00e7\u00e3o de emprego n\u00e3o \u00e9 assunto seu. Instaurado o conflito, a quem cabe julgar a demanda?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CF, art. 114, I<\/strong><em> (compete \u00e0 Justi\u00e7a do Trabalho processar e julgar as a\u00e7\u00f5es oriundas da rela\u00e7\u00e3o de trabalho).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n. 7.210\/1984 (LEP)<\/strong><em> (disciplina o trabalho do preso com finalidade educativa e ressocializadora, em regime jur\u00eddico pr\u00f3prio).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda O regime especial da LEP n\u00e3o elimina a incid\u00eancia da legisla\u00e7\u00e3o trabalhista quando o labor \u00e9 prestado fora do estabelecimento, em regime semiaberto ou aberto, com contrata\u00e7\u00e3o direta entre o apenado e a empresa \u2014 hip\u00f3tese em que os elementos do v\u00ednculo empregat\u00edcio podem se configurar normalmente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd O divisor de \u00e1guas \u00e9 o conv\u00eanio: permanece com o ju\u00edzo da execu\u00e7\u00e3o penal o trabalho em regime fechado e o trabalho externo lastreado em conv\u00eanio entre a administra\u00e7\u00e3o penitenci\u00e1ria e a empresa; sem essa intermedia\u00e7\u00e3o, a rela\u00e7\u00e3o direta atrai a compet\u00eancia trabalhista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O ponto de partida \u00e9 a regra constitucional de compet\u00eancia. <strong>O art. 114, I, da CF entrega \u00e0 Justi\u00e7a do Trabalho as a\u00e7\u00f5es oriundas da rela\u00e7\u00e3o de trabalho, bastando que estejam presentes os elementos caracterizadores do v\u00ednculo<\/strong> \u2014 e a condi\u00e7\u00e3o de apenado, em si, n\u00e3o subtrai ningu\u00e9m desse foro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f O regime da LEP tem seu espa\u00e7o, mas n\u00e3o \u00e9 onipresente. <strong>O car\u00e1ter educativo e ressocializador do trabalho prisional convive com a aplica\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o trabalhista quando o servi\u00e7o \u00e9 prestado externamente, sem intermedia\u00e7\u00e3o estatal<\/strong>, porque a\u00ed o que existe \u00e9 contrata\u00e7\u00e3o direta entre o trabalhador e o empregador privado, como outra qualquer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A fronteira entre os dois mundos foi tra\u00e7ada com nitidez. <strong>Ficam com o ju\u00edzo da execu\u00e7\u00e3o o labor em regime fechado e o servi\u00e7o externo respaldado por conv\u00eanio firmado pelo ente penitenci\u00e1rio com o empregador<\/strong>; nessas hip\u00f3teses, o trabalho \u00e9 proje\u00e7\u00e3o do cumprimento da pena, gerido pelo aparato estatal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f Fora dessas balizas, prevalece a realidade da rela\u00e7\u00e3o. <strong>O apenado do semiaberto ou do aberto que se vincula diretamente \u00e0 empresa privada pode ter reconhecida a rela\u00e7\u00e3o de emprego, sem preju\u00edzo da finalidade reabilitadora da pena<\/strong>. As controv\u00e9rsias da\u00ed nascidas pertencem \u00e0 justi\u00e7a especializada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tratando-se de demanda sobre trabalho externo prestado por apenado do regime semiaberto a empresa privada:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) permanece no ju\u00edzo da execu\u00e7\u00e3o penal, pois o trabalho do apenado integra o cumprimento da pena e conserva natureza administrativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) n\u00e3o comporta reconhecimento de v\u00ednculo, dada a exclus\u00e3o do regime celetista pela Lei de Execu\u00e7\u00e3o Penal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) submete-se \u00e0 Justi\u00e7a do Trabalho mesmo quando o labor \u00e9 intermediado por conv\u00eanio da administra\u00e7\u00e3o penitenci\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) compete \u00e0 Justi\u00e7a do Trabalho, presentes os elementos do v\u00ednculo empregat\u00edcio, se ausente a intermedia\u00e7\u00e3o estatal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) atrai a Justi\u00e7a comum estadual, foro das rela\u00e7\u00f5es civis de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os firmadas por apenados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. O trabalho externo contratado diretamente com empresa privada n\u00e3o \u00e9 proje\u00e7\u00e3o administrativa da pena: a compet\u00eancia da execu\u00e7\u00e3o penal fica reservada ao regime fechado e ao trabalho externo com conv\u00eanio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. O regime pr\u00f3prio da LEP n\u00e3o impede a configura\u00e7\u00e3o do v\u00ednculo quando o servi\u00e7o \u00e9 prestado fora do estabelecimento, com contrata\u00e7\u00e3o direta; a exclus\u00e3o do regime celetista n\u00e3o alcan\u00e7a essa hip\u00f3tese.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. O conv\u00eanio produz o efeito inverso: com a intermedia\u00e7\u00e3o da administra\u00e7\u00e3o penitenci\u00e1ria, o trabalho permanece vinculado ao ju\u00edzo da execu\u00e7\u00e3o penal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Correta. Configurados os pressupostos da rela\u00e7\u00e3o de emprego e inexistente a intermedia\u00e7\u00e3o conveniada do \u00f3rg\u00e3o penitenci\u00e1rio, a demanda \u00e9 oriunda de rela\u00e7\u00e3o de trabalho e compete \u00e0 Justi\u00e7a do Trabalho (CF, art. 114, I).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. N\u00e3o se trata de rela\u00e7\u00e3o civil de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os: havendo os pressupostos do v\u00ednculo empregat\u00edcio, a compet\u00eancia \u00e9 da justi\u00e7a especializada, e n\u00e3o da Justi\u00e7a comum.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-2\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A quest\u00e3o em discuss\u00e3o consiste em saber se a compet\u00eancia para processar e julgar demandas trabalhistas decorrentes de trabalho externo realizado por apenado em regime semiaberto deve ser atribu\u00edda \u00e0 Justi\u00e7a do Trabalho ou ao Ju\u00edzo da Execu\u00e7\u00e3o Penal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A Constitui\u00e7\u00e3o Federal, em seu art. 114, I, atribui \u00e0 Justi\u00e7a do Trabalho compet\u00eancia para julgar a\u00e7\u00f5es oriundas da rela\u00e7\u00e3o de trabalho, desde que presentes os elementos caracterizadores do v\u00ednculo empregat\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A Lei de Execu\u00e7\u00e3o Penal (LEP), por sua vez, estabelece regime jur\u00eddico espec\u00edfico para o trabalho prisional, com car\u00e1ter educativo e ressocializador, mas n\u00e3o exclui a aplica\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o trabalhista quando o trabalho \u00e9 realizado externamente, em regime semiaberto, sem intermedia\u00e7\u00e3o de conv\u00eanio entre a administra\u00e7\u00e3o penitenci\u00e1ria e a empresa privada, configurando v\u00ednculo direto entre o apenado e o empregador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Distingue-se, portanto, o trabalho externo com v\u00ednculo direto entre apenado e empresa privada daquele realizado mediante conv\u00eanio entre a administra\u00e7\u00e3o penitenci\u00e1ria e o empregador, hip\u00f3tese em que permanece a compet\u00eancia do Ju\u00edzo da Execu\u00e7\u00e3o Penal. A compet\u00eancia dos Ju\u00edzos de Execu\u00e7\u00e3o Penal abrange: a) o trabalho realizado em regime fechado; e b) o trabalho em regimes semiaberto ou aberto quando lastrado por conv\u00eanio entre a administra\u00e7\u00e3o penitenci\u00e1ria e a empresa privada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, conclui-se que o trabalho prisional realizado externamente por apenado em regimes semiaberto ou aberto, com v\u00ednculo direto com empresa privada e sem intermedia\u00e7\u00e3o da administra\u00e7\u00e3o penitenci\u00e1ria, pode configurar rela\u00e7\u00e3o de emprego sujeita \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o trabalhista, sem preju\u00edzo da finalidade reabilitadora prevista na Lei de Execu\u00e7\u00e3o Penal.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-5-fazer-funcionar-estabelecimento-poluidor-e-termo-inicial-da-prescricao\" class=\"wp-block-heading\">5. \u201cFAZER FUNCIONAR\u201d ESTABELECIMENTO POLUIDOR E TERMO INICIAL DA PRESCRI\u00c7\u00c3O<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na modalidade \u201cfazer funcionar\u201d, o delito do art. 60 da Lei n. 9.605\/1998 \u00e9 <strong>crime permanente<\/strong>: a prescri\u00e7\u00e3o <strong>conta-se da cessa\u00e7\u00e3o da perman\u00eancia<\/strong> (art. 111, III, do CP) e, sem prova do encerramento da atividade, n\u00e3o se elege data mais favor\u00e1vel com base no <em>in dubio pro reo<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AgRg no REsp 2.200.357-MG, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, por unanimidade, julgado em 21\/10\/2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para abastecer suas atividades, o Posto Combustil perfurou um po\u00e7o tubular e passou a captar \u00e1gua subterr\u00e2nea sem a outorga exigida \u2014 e assim seguiu, ano ap\u00f3s ano. Denunciado com base na lei dos crimes ambientais, contentou-se com o Tribunal local reconhecer a prescri\u00e7\u00e3o contada da data da perfura\u00e7\u00e3o, como se o delito fosse instant\u00e2neo. O MP recorreu: o po\u00e7o continuava bombeando, e n\u00e3o havia not\u00edcia de que a capta\u00e7\u00e3o tivesse parado ou sido regularizada. De quando se conta a prescri\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n. 9.605\/1998, art. 60<\/strong><em> (construir, reformar, ampliar, instalar ou fazer funcionar estabelecimentos, obras ou servi\u00e7os potencialmente poluidores, sem licen\u00e7a ou autoriza\u00e7\u00e3o, ou contrariando as normas legais).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CP, art. 111, I e III<\/strong><em> (a prescri\u00e7\u00e3o, antes de transitar em julgado a senten\u00e7a, come\u00e7a a correr do dia em que o crime se consumou ou, nos crimes permanentes, do dia em que cessou a perman\u00eancia).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda A doutrina classifica o tipo do art. 60 como instant\u00e2neo nas condutas de construir, reformar, ampliar e instalar, mas permanente no verbo \u201cfazer funcionar\u201d: manter em opera\u00e7\u00e3o a atividade potencialmente poluidora sem licen\u00e7a prolonga a consuma\u00e7\u00e3o no tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd A jurisprud\u00eancia que aceita a data mais ben\u00e9fica quando a den\u00fancia indica apenas um lapso temporal vale para delitos instant\u00e2neos de efeitos permanentes, com termo consumativo definido; no crime permanente, faltando prova da cessa\u00e7\u00e3o, simplesmente n\u00e3o existe marco apto a deflagrar o prazo prescricional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O verbo do tipo decide a natureza do crime. <strong>Enquanto construir, instalar ou ampliar se esgotam num momento certo, \u201cfazer funcionar\u201d descreve conduta que se protrai: a cada dia de opera\u00e7\u00e3o irregular, o agente renova a les\u00e3o ao bem jur\u00eddico<\/strong> \u2014 e \u00e9 essa manuten\u00e7\u00e3o da atividade sem licen\u00e7a que sustenta a classifica\u00e7\u00e3o como crime permanente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f Da natureza permanente decorre o regime prescricional pr\u00f3prio. <strong>O art. 111, III, do CP posterga o in\u00edcio do prazo para o dia em que cessa a perman\u00eancia<\/strong>; a premissa do ac\u00f3rd\u00e3o recorrido \u2014 crime instant\u00e2neo de efeitos permanentes, com prescri\u00e7\u00e3o correndo da perfura\u00e7\u00e3o do po\u00e7o \u2014 contrariava a orienta\u00e7\u00e3o consolidada do STJ.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A tentativa de socorro no princ\u00edpio protetivo n\u00e3o encontrou terreno. <strong>A escolha da data mais favor\u00e1vel pressup\u00f5e um termo de consuma\u00e7\u00e3o definido pela tipicidade, o que s\u00f3 ocorre nos delitos instant\u00e2neos<\/strong>; aqui, sem qualquer informa\u00e7\u00e3o sobre o desligamento do po\u00e7o ou a obten\u00e7\u00e3o da outorga, inexiste &#8220;data mais ben\u00e9fica&#8221; a considerar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f O resultado pr\u00e1tico \u00e9 rigoroso, mas coerente com o sistema. <strong>Ausente prova da cessa\u00e7\u00e3o da atividade ou da regulariza\u00e7\u00e3o ambiental, \u00e9 juridicamente invi\u00e1vel fixar o termo inicial da prescri\u00e7\u00e3o na data dos fatos<\/strong> \u2014 o tempo n\u00e3o corre em favor de quem segue delinquindo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quanto ao termo inicial da prescri\u00e7\u00e3o do crime do art. 60 da Lei n. 9.605\/1998, na modalidade \u201cfazer funcionar\u201d estabelecimento potencialmente poluidor sem licen\u00e7a:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) flui do in\u00edcio do funcionamento, por se tratar de crime instant\u00e2neo de efeitos permanentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) conta-se da cessa\u00e7\u00e3o da perman\u00eancia, invi\u00e1vel fix\u00e1-lo sem prova do encerramento da atividade ou da licen\u00e7a superveniente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) resolve-se pelo <em>in dubio pro reo<\/em>: incerta a data, adota-se o marco mais favor\u00e1vel ao acusado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) fixa-se na lavratura do auto de infra\u00e7\u00e3o, quando o poder p\u00fablico toma ci\u00eancia da atividade irregular.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) coincide com a instala\u00e7\u00e3o do estabelecimento, sendo o funcionamento posterior mero exaurimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A classifica\u00e7\u00e3o como instant\u00e2neo de efeitos permanentes vale para outras modalidades do art. 60; no &#8220;fazer funcionar&#8221;, a consuma\u00e7\u00e3o se prolonga enquanto durar a opera\u00e7\u00e3o irregular, e o prazo n\u00e3o flui do seu in\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Correta. O \u201cfazer funcionar\u201d \u00e9 crime permanente: o prazo s\u00f3 corre quando cessa a perman\u00eancia (CP, art. 111, III); faltando demonstra\u00e7\u00e3o de que a opera\u00e7\u00e3o parou ou foi regularizada, n\u00e3o h\u00e1 marco para deflagrar a contagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. A ado\u00e7\u00e3o do marco mais favor\u00e1vel pressup\u00f5e termo consumativo definido pela tipicidade, pr\u00f3prio dos delitos instant\u00e2neos; no crime permanente sem prova de cessa\u00e7\u00e3o, o princ\u00edpio n\u00e3o serve para criar uma data inexistente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. A ci\u00eancia da fiscaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 marco prescricional: o auto de infra\u00e7\u00e3o documenta a irregularidade, mas a perman\u00eancia delitiva continua enquanto a atividade operar sem licen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. A instala\u00e7\u00e3o \u00e9 modalidade t\u00edpica aut\u00f4noma; no &#8220;fazer funcionar&#8221;, a opera\u00e7\u00e3o continuada integra a pr\u00f3pria consuma\u00e7\u00e3o, n\u00e3o configurando exaurimento de crime j\u00e1 consumado.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-3\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A controv\u00e9rsia cinge-se \u00e0 defini\u00e7\u00e3o da natureza jur\u00eddica do delito de construir, reformar, ampliar, instalar ou fazer funcionar, em qualquer parte do territ\u00f3rio nacional, estabelecimentos, obras ou servi\u00e7os potencialmente poluidores, previsto no art. 60 da Lei n. 9.605\/1998, na modalidade &#8220;fazer funcionar&#8221;, e, por conseguinte, \u00e0 fixa\u00e7\u00e3o do termo inicial da prescri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O Tribunal de origem manteve o reconhecimento da prescri\u00e7\u00e3o do delito do art. 60 da Lei n. 9.605\/1998, pela conduta de fazer funcionar obra ou servi\u00e7o potencialmente poluidor mediante perfura\u00e7\u00e3o de po\u00e7o tubular para capta\u00e7\u00e3o de \u00e1guas p\u00fablicas subterr\u00e2neas sem a outorga competente, na forma do art. 111, I, do C\u00f3digo Penal, sob o fundamento de que o referido crime \u00e9 instant\u00e2neo com efeitos permanentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Contudo, a orienta\u00e7\u00e3o consolidada do Superior Tribunal de Justi\u00e7a \u00e9 no sentido de que o delito previsto no art. 60 da Lei n. 9.605\/1998, na modalidade &#8220;fazer funcionar&#8221;, qualifica-se como crime permanente, com in\u00edcio da contagem do prazo prescricional apenas na cessa\u00e7\u00e3o da perman\u00eancia, nos termos do art. 111, III, do C\u00f3digo Penal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com efeito, o crime ambiental previsto no art. 60 da Lei n. 9.605\/1998, na modalidade do &#8220;fazer funcionar&#8221; \u00e9 crime permanente, e n\u00e3o instant\u00e2neo, al\u00e9m de que, n\u00e3o havendo qualquer informa\u00e7\u00e3o a respeito do momento em que o acusado teria cessado o funcionamento do po\u00e7o tubular ou obtido licen\u00e7a ou autoriza\u00e7\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o ambiental competente para o desempenho da atividade, n\u00e3o se pode estabelecer o in\u00edcio da contagem do prazo prescricional, considerando a natureza permanente do delito em quest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sobre o tema, a doutrina confirma a classifica\u00e7\u00e3o do crime em an\u00e1lise como &#8220;instant\u00e2neo (a consuma\u00e7\u00e3o se d\u00e1 em momento determinado) no geral, por\u00e9m permanente (a consuma\u00e7\u00e3o se prolonga no tempo) na modalidade fazer funcionar&#8221;. Assim, o entendimento espec\u00edfico consolidado para o art. 60 na modalidade &#8220;fazer funcionar&#8221;, cuja peculiaridade t\u00edpica \u2014 a manuten\u00e7\u00e3o da atividade potencialmente poluidora sem a licen\u00e7a\/autoriza\u00e7\u00e3o \u2014 sustenta a natureza permanente reconhecida pela jurisprud\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Desse modo, n\u00e3o se acolhe a invoca\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio <em>in dubio pro reo<\/em> para, na falta de data precisa, adotar-se o marco mais favor\u00e1vel ao r\u00e9u. A jurisprud\u00eancia sobre a considera\u00e7\u00e3o da data mais ben\u00e9fica quando a den\u00fancia aponta apenas um lapso temporal refere-se a delitos instant\u00e2neos de efeitos permanentes e a hip\u00f3teses em que j\u00e1 h\u00e1 um termo de consuma\u00e7\u00e3o definido pela tipicidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, contudo, a natureza permanente do tipo do art. 60, na modalidade &#8220;fazer funcionar&#8221;, subordina o termo inicial da prescri\u00e7\u00e3o \u00e0 cessa\u00e7\u00e3o da perman\u00eancia (art. 111, III, do CP), inexistente nos autos, raz\u00e3o pela qual n\u00e3o h\u00e1 &#8220;data mais ben\u00e9fica&#8221; a ser considerada para deflagrar a contagem sem prova do encerramento da atividade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Desse modo, ausente prova da cessa\u00e7\u00e3o da atividade ou da obten\u00e7\u00e3o de licen\u00e7a\/autoriza\u00e7\u00e3o ambiental, \u00e9 juridicamente invi\u00e1vel fixar o termo inicial da prescri\u00e7\u00e3o com base na data dos fatos, n\u00e3o se aplicando, na esp\u00e9cie, o princ\u00edpio <em>in dubio pro reo<\/em> para a escolha de data mais favor\u00e1vel ao r\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-6-colaboracao-premiada-de-advogado-contra-o-proprio-cliente\" class=\"wp-block-heading\">6. COLABORA\u00c7\u00c3O PREMIADA DE ADVOGADO CONTRA O PR\u00d3PRIO CLIENTE<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A veda\u00e7\u00e3o \u00e0 colabora\u00e7\u00e3o premiada celebrada por advogado contra quem seja ou tenha sido seu cliente <strong>aplica-se aos acordos homologados antes da Lei n. 14.365\/2022<\/strong>, pois a norma apenas <strong>consolidou o sigilo profissional de matriz constitucional<\/strong>, inerente \u00e0 rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a que protege o direito de defesa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Processo em segredo de justi\u00e7a, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, por unanimidade, julgado em 7\/10\/2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Geremias, advogado de Seu Barriga, conhecia cada detalhe dos neg\u00f3cios do cliente \u2014 fora contratado justamente para cuidar deles. Rompida a rela\u00e7\u00e3o, celebrou colabora\u00e7\u00e3o premiada e entregou \u00e0s autoridades o que aprendera no patroc\u00ednio. O acordo foi homologado antes da Lei n. 14.365\/2022, que passou a vedar expressamente a dela\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio cliente, e nessa anterioridade a acusa\u00e7\u00e3o apoiou a validade da aven\u00e7a; sustentou ainda que os fatos delatados nada teriam a ver com a advocacia. A veda\u00e7\u00e3o alcan\u00e7a o acordo homologado antes da lei?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n. 8.906\/1994, art. 7\u00ba, \u00a7 6\u00ba-I (inclu\u00eddo pela Lei n. 14.365\/2022)<\/strong><em> (\u00e9 vedado ao advogado efetuar colabora\u00e7\u00e3o premiada contra quem seja ou tenha sido seu cliente).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CP, art. 154; CPP, art. 207<\/strong><em> (criminaliza-se a viola\u00e7\u00e3o do segredo profissional e pro\u00edbe-se o depoimento de quem deva guardar sigilo em raz\u00e3o da profiss\u00e3o).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda Muito antes de 2022 o ordenamento j\u00e1 blindava a confid\u00eancia: o C\u00f3digo de \u00c9tica da OAB de 2015 imp\u00f5e sigilo de ordem p\u00fablica, que independe de pedido do cliente e presume confidenciais as comunica\u00e7\u00f5es entre as partes; e a Lei de Lavagem, ao listar os obrigados a reportar opera\u00e7\u00f5es, silenciou eloquentemente sobre advogados e escrit\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd O sigilo profissional n\u00e3o \u00e9 privil\u00e9gio corporativo: existe em favor do cidad\u00e3o e da pr\u00f3pria democracia, e a dela\u00e7\u00e3o do cliente pelo pr\u00f3prio defensor gera desconfian\u00e7a sist\u00eamica na advocacia, indispens\u00e1vel \u00e0 administra\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a (CF, art. 133).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd A alega\u00e7\u00e3o de que os fatos delatados seriam estranhos ao patroc\u00ednio n\u00e3o se sustentou no caso: as condutas il\u00edcitas tiveram in\u00edcio justamente quando a rela\u00e7\u00e3o advogado-cliente se tornou de maior confian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A controv\u00e9rsia intertemporal escondia uma falsa novidade. <strong>A Lei n. 14.365\/2022 n\u00e3o inaugurou a proibi\u00e7\u00e3o \u2014 explicitou regra que j\u00e1 decorria do sigilo profissional, premissa fundamental do exerc\u00edcio efetivo da defesa e da confian\u00e7a entre defensor e cliente<\/strong>; por isso \u00e9 irrelevante que a homologa\u00e7\u00e3o seja anterior \u00e0 vig\u00eancia do novo dispositivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f O arcabou\u00e7o pr\u00e9-existente confirmava a leitura constitucional. <strong>O art. 154 do CP pune a revela\u00e7\u00e3o de segredo profissional, o art. 207 do CPP pro\u00edbe o depoimento do confidente necess\u00e1rio, e o C\u00f3digo de \u00c9tica da OAB presume confidenciais as comunica\u00e7\u00f5es com o cliente<\/strong> \u2014 normas todas vigentes quando o acordo foi firmado, a demonstrar que a dela\u00e7\u00e3o j\u00e1 nascia viciada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O fundamento \u00faltimo da garantia transcende o interesse do advogado. <strong>As prerrogativas e o dever de sigilo existem para resguardar os direitos dos cidad\u00e3os e o sistema democr\u00e1tico, n\u00e3o para criar privil\u00e9gios pessoais<\/strong>; admitir que o defensor negocie com o Estado as confid\u00eancias recebidas fragilizaria o pr\u00f3prio direito de defesa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A tentativa de descolar os fatos da advocacia tamb\u00e9m falhou. <strong>As condutas investigadas s\u00f3 tiveram in\u00edcio a partir do momento em que a rela\u00e7\u00e3o de patroc\u00ednio se tornou de maior confian\u00e7a<\/strong>, de modo que as informa\u00e7\u00f5es entregues eram exatamente o produto daquela rela\u00e7\u00e3o \u2014 e a impossibilidade de o advogado delatar o cliente deve prevalecer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A respeito da colabora\u00e7\u00e3o premiada celebrada por advogado contra antigo cliente, homologada antes da vig\u00eancia da Lei n. 14.365\/2022:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) permanece v\u00e1lida, pois o ato de homologa\u00e7\u00e3o se rege pela lei vigente ao tempo de sua pr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) produz efeitos quanto aos fatos anteriores, restringindo-se a veda\u00e7\u00e3o legal aos acordos futuros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) estabiliza-se com a homologa\u00e7\u00e3o judicial, desfazendo-se apenas por rescis\u00e3o fundada em descumprimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) convalida-se se o advogado renunciou ao mandato antes de colaborar, cessado o dever de sigilo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) \u00e9 inv\u00e1lida, pois a lei nova apenas consolidou o sigilo profissional, garantia constitucional que j\u00e1 vedava a dela\u00e7\u00e3o do cliente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. O <em>tempus regit actum<\/em> n\u00e3o socorre o acordo: a veda\u00e7\u00e3o n\u00e3o nasceu em 2022 \u2014 decorria do sigilo profissional de matriz constitucional, j\u00e1 protegido pelo art. 154 do CP, pelo art. 207 do CPP e pelo C\u00f3digo de \u00c9tica da OAB.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. N\u00e3o h\u00e1 corte temporal a preservar acordos antigos: tratando-se de consolida\u00e7\u00e3o de princ\u00edpio preexistente, a veda\u00e7\u00e3o de delatar o pr\u00f3prio cliente apanha tamb\u00e9m as aven\u00e7as homologadas antes da lei.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. A homologa\u00e7\u00e3o n\u00e3o imuniza acordo estruturalmente viciado: a colabora\u00e7\u00e3o fundada em confid\u00eancias do patroc\u00ednio viola garantia que precede a pr\u00f3pria aven\u00e7a, e sua invalidade n\u00e3o depende de rescis\u00e3o por descumprimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. O fim do mandato n\u00e3o libera o confidente: a veda\u00e7\u00e3o alcan\u00e7a quem seja ou tenha sido cliente, e o sigilo, de ordem p\u00fablica, persiste ap\u00f3s o encerramento da rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Correta. A Lei n. 14.365\/2022 explicitou veda\u00e7\u00e3o que j\u00e1 resultava do sigilo profissional inerente ao direito de defesa (CF, art. 133); por isso, aplica-se aos acordos homologados antes de sua entrada em vigor.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-4\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O Superior Tribunal de Justi\u00e7a j\u00e1 se manifestou no sentido da impossibilidade de o advogado delatar fatos cobertos pelo sigilo profissional, uma vez que o sigilo profissional \u00e9 &#8220;premissa fundamental para o exerc\u00edcio efetivo de defesa e para a rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a entre defensor t\u00e9cnico e cliente&#8221; (STF, Rcl 37.235\/RO, Min. Gilmar Mendes, DJe 27\/5\/2020).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, o Tribunal de origem consignou que a Lei n. 14.365\/2022 &#8220;que alterou o Estatuto da Advocacia e determinou a proibi\u00e7\u00e3o de advogado efetuar colabora\u00e7\u00e3o premiada contra quem seja ou tenha sido seu cliente deve incidir sobre acordos que versem sobre fatos ocorridos ap\u00f3s o in\u00edcio da vig\u00eancia da Lei&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por\u00e9m, \u00e9 irrelevante o fato de a homologa\u00e7\u00e3o da colabora\u00e7\u00e3o ser anterior \u00e0 disciplina legal, uma vez que se trata de mera consolida\u00e7\u00e3o expressa de princ\u00edpio constitucional maior, consistente no sigilo profissional inerente \u00e0 rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a que se desenvolve com o objetivo de prote\u00e7\u00e3o ao direito de defesa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; De fato, &#8220;[o] dever de sigilo profissional imposto ao advogado e as prerrogativas profissionais a ele asseguradas n\u00e3o t\u00eam em vista assegurar privil\u00e9gios pessoais, mas sim os direitos dos cidad\u00e3os e o sistema democr\u00e1tico&#8221; (RHC 164.616\/GO, Ministro Jo\u00e3o Ot\u00e1vio de Noronha, Quinta Turma, DJe de 30\/9\/2022).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ali\u00e1s, a pr\u00f3pria Lei n. 9.613\/1998 n\u00e3o indicou, no par\u00e1grafo \u00fanico de seu art. 9\u00ba, os advogados ou os escrit\u00f3rios de advocacia como pessoas obrigadas. No ponto, a doutrina majorit\u00e1ria indica sil\u00eancio eloquente, reconhecendo a inviolabilidade do sigilo profissional. Logo, a Lei n. 14.365\/2022 consolidou a regra da impossibilidade de o advogado utilizar as informa\u00e7\u00f5es recebidas da rela\u00e7\u00e3o cliente-advogado, antes ou durante o il\u00edcito praticado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ademais, quanto \u00e0 alega\u00e7\u00e3o de que &#8220;[a] condi\u00e7\u00e3o de advogado dos colaboradores \u00e9 absolutamente alheia aos fatos sob investiga\u00e7\u00e3o&#8221;, constata-se que as condutas il\u00edcitas apenas tiveram in\u00edcio a partir do momento em que a rela\u00e7\u00e3o entre advogado e cliente se tornou de maior confian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No ponto, \u00e9 preciso recordar a tipicidade do art. 154 do C\u00f3digo Penal (Revelar algu\u00e9m, sem justa causa, segredo, de que tem ci\u00eancia em raz\u00e3o de fun\u00e7\u00e3o, minist\u00e9rio, of\u00edcio ou profiss\u00e3o, e cuja revela\u00e7\u00e3o possa produzir dano a outrem) e o disposto no art. 207 do C\u00f3digo de Processo Penal (S\u00e3o proibidas de depor as pessoas que, em raz\u00e3o de fun\u00e7\u00e3o, minist\u00e9rio, of\u00edcio ou profiss\u00e3o, devam guardar segredo, salvo se, desobrigadas pela parte interessada, quiserem dar o seu testemunho).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ainda, \u00e9 preciso ressaltar que em 2019 j\u00e1 estavam em vigor as normas do C\u00f3digo de \u00c9tica e Disciplina da OAB de 2015 (Resolu\u00e7\u00e3o n. 02\/2015 do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil), com imposi\u00e7\u00e3o do dever de o advogado guardar sigilo sobre os fatos de que tome conhecimento no exerc\u00edcio profissional (art. 35, <em>caput<\/em>). Sigilo esse de ordem p\u00fablica e que independe de solicita\u00e7\u00e3o do cliente (art. 36, <em>caput<\/em>), presumindo-se confidenciais todas as comunica\u00e7\u00f5es, de qualquer natureza, entre advogado e cliente (art. 36, \u00a7 1\u00ba). Tais regras estendem-se at\u00e9 o exerc\u00edcio de media\u00e7\u00e3o, concilia\u00e7\u00e3o e arbitragem (art. 36, \u00a7 2\u00ba).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; De fato, &#8220;[a] conduta do advogado que, sem justa causa e de m\u00e1-f\u00e9, delata seu cliente, ocasiona a desconfian\u00e7a sist\u00eamica na advocacia, cuja indispensabilidade para a administra\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a \u00e9 reconhecida no art. 133 da Constitui\u00e7\u00e3o Federal&#8221;. (RHC 164.616\/GO, Ministro Jo\u00e3o Ot\u00e1vio de Noronha, Quinta Turma, DJe de 30\/9\/2022).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas, portanto, quanto \u00e0 exist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o de patroc\u00ednio firmada entre o recorrente e os corr\u00e9us colaboradores, de maneira que deve prevalecer o entendimento acerca da impossibilidade de o advogado delatar seu cliente, sob pena de se fragilizar o direito de defesa.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-7-trafico-com-uso-de-veiculo-e-inabilitacao-para-dirigir\" class=\"wp-block-heading\">7. TR\u00c1FICO COM USO DE VE\u00cdCULO E INABILITA\u00c7\u00c3O PARA DIRIGIR<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A utiliza\u00e7\u00e3o de ve\u00edculo para o transporte da droga <strong>justifica a inabilita\u00e7\u00e3o para dirigir<\/strong> prevista no art. 92, III, do CP, <strong>sem que se exija habitualidade<\/strong> no emprego da habilita\u00e7\u00e3o para a atividade criminosa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AgRg no REsp 2.220.076-SP, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, por unanimidade, julgado em 19\/11\/2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Kiko e Chaves cruzaram a fronteira do Paraguai em comboio: um carro de batedor abrindo caminho e outro com 116 kg de maconha escondidos. Condenados, livraram-se no Tribunal local do efeito da inabilita\u00e7\u00e3o para dirigir \u2014 n\u00e3o havia prova, disse a Corte, de que se valessem da habilita\u00e7\u00e3o com habitualidade para o crime. O MP recorreu, sustentando que os ve\u00edculos foram o pr\u00f3prio instrumento do tr\u00e1fico. Cabe o efeito da condena\u00e7\u00e3o do art. 92, III, do CP?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CP, art. 92, III<\/strong><em> (\u00e9 efeito da condena\u00e7\u00e3o a inabilita\u00e7\u00e3o para dirigir ve\u00edculo, quando utilizado como meio para a pr\u00e1tica de crime doloso).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda Os efeitos do art. 92 n\u00e3o s\u00e3o autom\u00e1ticos: exigem declara\u00e7\u00e3o motivada na senten\u00e7a. O inciso III, por\u00e9m, contenta-se com a instrumentaliza\u00e7\u00e3o do ve\u00edculo no crime doloso; o texto legal n\u00e3o cont\u00e9m requisito de reitera\u00e7\u00e3o ou de uso profissional da habilita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd Comprovado que o transporte da droga se fez por ve\u00edculos, inclusive na din\u00e2mica de batedor e carga, t\u00edpica das rotas de fronteira, o autom\u00f3vel serviu de meio para o delito, e a inabilita\u00e7\u00e3o encontra sua hip\u00f3tese legal exata.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A exig\u00eancia criada pela inst\u00e2ncia ordin\u00e1ria n\u00e3o est\u00e1 na lei. <strong>O art. 92, III, do CP condiciona a inabilita\u00e7\u00e3o a um \u00fanico pressuposto: a instrumentaliza\u00e7\u00e3o do ve\u00edculo no delito doloso<\/strong>; a habitualidade no uso da carteira para delinquir \u00e9 acr\u00e9scimo sem base normativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A moldura f\u00e1tica preenchia o pressuposto com sobra. <strong>A importa\u00e7\u00e3o de 116 kg de maconha do Paraguai operou-se por dois autom\u00f3veis em comboio &nbsp;(um batedor e um ve\u00edculo de carga)<\/strong>, din\u00e2mica que fez do transporte rodovi\u00e1rio a pr\u00f3pria espinha dorsal da empreitada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O contexto geogr\u00e1fico refor\u00e7a a instrumentalidade. <strong>Em regi\u00e3o de fronteira, o deslocamento motorizado \u00e9 o que viabiliza a interna\u00e7\u00e3o da droga no territ\u00f3rio nacional<\/strong>. Retirar do condenado a habilita\u00e7\u00e3o atinge diretamente o modo de execu\u00e7\u00e3o escolhido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A jurisprud\u00eancia da Corte j\u00e1 apontava nessa dire\u00e7\u00e3o. <strong>Demonstrado que o crime foi praticado valendo-se de ve\u00edculo automotor, mostra-se condizente a aplica\u00e7\u00e3o da penalidade do art. 92, III, do CP<\/strong>, efeito que, embora dependa de motiva\u00e7\u00e3o, prescinde de qualquer requisito de reitera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre o efeito da condena\u00e7\u00e3o consistente na inabilita\u00e7\u00e3o para dirigir ve\u00edculo (art. 92, III, do CP), no crime de tr\u00e1fico de drogas:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) exige demonstra\u00e7\u00e3o de que o agente se valia da habilita\u00e7\u00e3o com habitualidade para a atividade criminosa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) reserva-se aos delitos de tr\u00e2nsito, sem alcan\u00e7ar crimes dolosos estranhos \u00e0 condu\u00e7\u00e3o de ve\u00edculo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) aplica-se quando o ve\u00edculo \u00e9 utilizado como meio para o crime doloso, como no transporte da droga.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) opera como consequ\u00eancia direta da condena\u00e7\u00e3o, dispensada fundamenta\u00e7\u00e3o espec\u00edfica na senten\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) reveste-se de natureza cautelar, exaurindo-se com o tr\u00e2nsito em julgado da condena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A habitualidade n\u00e3o \u00e9 requisito legal: o art. 92, III, do CP exige apenas que o ve\u00edculo tenha servido de meio para o crime doloso, e a exig\u00eancia de uso reiterado da habilita\u00e7\u00e3o criou condi\u00e7\u00e3o estranha \u00e0 norma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. O efeito do art. 92, III, n\u00e3o se limita aos crimes de tr\u00e2nsito: alcan\u00e7a crimes dolosos de outra natureza, como o tr\u00e1fico, desde que o ve\u00edculo tenha sido instrumento da pr\u00e1tica delitiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Correta. Utilizados os autom\u00f3veis para transportar a droga \u2014 inclusive na din\u00e2mica de batedor e carga -, configura-se a hip\u00f3tese do art. 92, III, do CP, sendo condizente a inabilita\u00e7\u00e3o para dirigir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. Os efeitos do art. 92 do CP n\u00e3o s\u00e3o autom\u00e1ticos: devem ser motivadamente declarados na senten\u00e7a, como exige o par\u00e1grafo \u00fanico do dispositivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. A inabilita\u00e7\u00e3o \u00e9 efeito da condena\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o medida cautelar: em vez de se exaurir no tr\u00e2nsito em julgado, \u00e9 a partir dele que produz seus efeitos.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-5\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A quest\u00e3o em discuss\u00e3o consiste em saber se a utiliza\u00e7\u00e3o de ve\u00edculos automotores para a pr\u00e1tica de crime de tr\u00e1fico de drogas justifica a aplica\u00e7\u00e3o do efeito da condena\u00e7\u00e3o previsto no art. 92, III, do C\u00f3digo Penal, consistente na inabilita\u00e7\u00e3o para condu\u00e7\u00e3o de ve\u00edculo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, o Tribunal de origem afastou o efeito da condena\u00e7\u00e3o de suspens\u00e3o da habilita\u00e7\u00e3o para condu\u00e7\u00e3o de ve\u00edculo, sob o argumento de n\u00e3o haver provas de que os r\u00e9us se valiam da carteira de habilita\u00e7\u00e3o para exercer, com habitualidade, a conduta criminosa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por\u00e9m, de acordo com o constante no ac\u00f3rd\u00e3o, os r\u00e9us importaram 116kg de maconha do Paraguai e a transportavam em dois ve\u00edculos \u2014 um como &#8220;batedor&#8221; e outro com a droga.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Verifica-se, pois, que os ve\u00edculos foram efetivamente utilizados para a pr\u00e1tica da conduta criminosa, especialmente considerando o local, fronteira do Paraguai.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tal entendimento encontra amparo na jurisprud\u00eancia do Superior Tribunal de Justi\u00e7a, no sentido de que, demonstrado que o crime foi praticado valendo-se do ve\u00edculo automotor, mostra-se condizente a aplica\u00e7\u00e3o da penalidade prevista nos termos do art. 92, III, do CP.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-8-arma-com-numeracao-suprimida-e-qualificadora-do-homicidio\" class=\"wp-block-heading\">8. ARMA COM NUMERA\u00c7\u00c3O SUPRIMIDA E QUALIFICADORA DO HOMIC\u00cdDIO<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A qualificadora do art. 121, \u00a7 2\u00ba, VIII, do CP <strong>N\u00c3O abrange a arma de uso permitido com numera\u00e7\u00e3o suprimida<\/strong>: a equipara\u00e7\u00e3o do Estatuto do Desarmamento vale para a posse e o porte e <strong>n\u00e3o se estende ao homic\u00eddio<\/strong>, sob pena de analogia <em>in malam partem<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AgRg no REsp 2.104.061-MG, Rel. Min. Carlos Cini Marchionatti (Desembargador convocado do TJRS), Quinta Turma, por unanimidade, julgado em 19\/8\/2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Crementina tentou matar um desafeto a tiros de rev\u00f3lver de uso permitido, mas com a numera\u00e7\u00e3o raspada. A acusa\u00e7\u00e3o puxou para o crime de sangue a l\u00f3gica do Estatuto: se a lei de armas equipara o rev\u00f3lver raspado ao de uso restrito para punir o porte, o mesmo valeria para qualificar o homic\u00eddio. A defesa op\u00f4s a legalidade estrita e pediu o decote. A equipara\u00e7\u00e3o do Estatuto qualifica o crime contra a vida?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CP, art. 121, \u00a7 2\u00ba, VIII<\/strong><em> (qualifica o homic\u00eddio o emprego de arma de fogo de uso restrito ou proibido).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n. 10.826\/2003, art. 16, \u00a7 1\u00ba, I<\/strong><em> (incorre nas penas do porte de arma de uso restrito quem suprime ou adultera marca, numera\u00e7\u00e3o ou sinal de identifica\u00e7\u00e3o de arma de fogo).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda A qualificadora tem reda\u00e7\u00e3o taxativa e natureza objetiva: reclama arma ontologicamente classificada como de uso restrito ou proibido. A raspagem da numera\u00e7\u00e3o \u00e9 il\u00edcito aut\u00f4nomo de elevada reprovabilidade, mas n\u00e3o muda a categoria do armamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd A equipara\u00e7\u00e3o do Estatuto \u00e9 fic\u00e7\u00e3o jur\u00eddica com endere\u00e7o certo: o sancionamento do porte e da posse ilegais; transport\u00e1-la para qualificar o homic\u00eddio significaria ampliar norma incriminadora por analogia contra o r\u00e9u, o que a legalidade estrita pro\u00edbe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O primeiro filtro \u00e9 o da t\u00e9cnica de tipifica\u00e7\u00e3o. <strong>Normas incriminadoras interpretam-se restritivamente, e a analogia em preju\u00edzo do acusado \u00e9 vedada<\/strong>: para qualificar o crime, o fato deve caber com exatid\u00e3o na descri\u00e7\u00e3o legal, sem esticar o texto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f O texto da qualificadora n\u00e3o deixa margem. <strong>O inciso VIII exige o emprego de arma &#8220;de uso restrito ou proibido&#8221; \u2014 classifica\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica que a supress\u00e3o da numera\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem o cond\u00e3o de transmutar<\/strong>; o rev\u00f3lver permitido segue permitido, ainda que adulterado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A fic\u00e7\u00e3o do Estatuto tem fun\u00e7\u00e3o e fronteira definidas. <strong>A regra do art. 16, \u00a7 1\u00ba, I, da Lei n. 10.826\/2003 equipara a arma raspada \u00e0 restrita para punir o porte e a posse \u2014 n\u00e3o para alterar a natureza jur\u00eddica do artefato em outros crimes<\/strong>, como o homic\u00eddio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A escolha, se existisse, teria de ser do legislador. <strong>Quisesse o C\u00f3digo Penal qualificar o homic\u00eddio pela numera\u00e7\u00e3o suprimida, a previs\u00e3o teria de constar expressamente do texto<\/strong>; \u00e0 falta dela, imp\u00f5e-se o decote da qualificadora, permanecendo \u00edntegra a persecu\u00e7\u00e3o pelos delitos aut\u00f4nomos do Estatuto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quanto ao homic\u00eddio praticado com arma de uso permitido e numera\u00e7\u00e3o suprimida, no tocante \u00e0 qualificadora do emprego de arma de uso restrito:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) n\u00e3o incide, pois a equipara\u00e7\u00e3o legal vale para o porte e a posse, e estend\u00ea-la ao homic\u00eddio \u00e9 analogia <em>in malam partem<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) incide, porquanto o Estatuto do Desarmamento equipara a arma adulterada \u00e0 de uso restrito para os efeitos legais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) justifica-se sua aplica\u00e7\u00e3o pela maior reprovabilidade da conduta, em interpreta\u00e7\u00e3o teleol\u00f3gica da norma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) supre-se a lacuna pela leitura sistem\u00e1tica do C\u00f3digo Penal com a legisla\u00e7\u00e3o de armas, dada a unidade do ordenamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) torna-se impun\u00edvel a supress\u00e3o da numera\u00e7\u00e3o quando o agente responde pelo crime contra a vida, por consun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Correta. A equipara\u00e7\u00e3o do art. 16, \u00a7 1\u00ba, I, do Estatuto \u00e9 fic\u00e7\u00e3o voltada ao sancionamento do porte e da posse; us\u00e1-la para qualificar o homic\u00eddio ampliaria norma incriminadora por analogia contra o r\u00e9u, vedada pela legalidade estrita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. A express\u00e3o &#8220;para os efeitos legais&#8221; n\u00e3o universaliza a fic\u00e7\u00e3o: a equipara\u00e7\u00e3o opera no \u00e2mbito do pr\u00f3prio Estatuto e n\u00e3o transmuta a classifica\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica da arma para qualificar o crime contra a vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. A reprovabilidade da raspagem n\u00e3o autoriza interpreta\u00e7\u00e3o extensiva de qualificadora taxativa e objetiva; o desvalor da conduta \u00e9 captado pelo delito aut\u00f4nomo do Estatuto, n\u00e3o pela amplia\u00e7\u00e3o do art. 121, \u00a7 2\u00ba, VIII.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. A unidade do ordenamento n\u00e3o permite completar norma penal incriminadora com regra sancionat\u00f3ria de outro diploma; em mat\u00e9ria de qualificadora, sil\u00eancio do C\u00f3digo Penal \u00e9 limite, n\u00e3o lacuna a suprir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. A supress\u00e3o da numera\u00e7\u00e3o permanece pun\u00edvel como crime aut\u00f4nomo (art. 16, \u00a7 1\u00ba, I, da Lei n. 10.826\/2003); o afastamento da qualificadora n\u00e3o gera consun\u00e7\u00e3o do delito do Estatuto pelo homic\u00eddio.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-6\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A controv\u00e9rsia jur\u00eddica consiste em definir se a qualificadora do homic\u00eddio (prevista no art. 121, \u00a7 2\u00ba, VIII, do C\u00f3digo Penal) que menciona o uso de arma de fogo de uso restrito ou proibido pode ser aplicada quando a arma utilizada \u00e9 de uso permitido, mas teve sua numera\u00e7\u00e3o de s\u00e9rie raspada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O princ\u00edpio da legalidade estrita no Direito Penal exige que as normas incriminadoras sejam interpretadas de forma restritiva. N\u00e3o \u00e9 permitida a analogia para prejudicar o r\u00e9u (<em>in malam partem<\/em>). Isso significa que, para que um crime seja qualificado, o fato deve se encaixar exatamente na descri\u00e7\u00e3o da lei, sem interpreta\u00e7\u00f5es que a ampliem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Logo, a reda\u00e7\u00e3o da qualificadora \u00e9 taxativa e de natureza objetiva, exigindo, para sua configura\u00e7\u00e3o, o &#8220;emprego de arma de fogo de uso restrito ou proibido&#8221;, de modo que a supress\u00e3o de sua numera\u00e7\u00e3o de s\u00e9rie, embora constitua il\u00edcito aut\u00f4nomo e de elevada reprovabilidade, n\u00e3o possui o cond\u00e3o de transmutar a classifica\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica da arma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ademais, a equipara\u00e7\u00e3o de uma arma de fogo com numera\u00e7\u00e3o suprimida a uma arma de uso restrito, prevista no Estatuto do Desarmamento (Lei n. 10.826\/2003), aplica-se apenas para fins de puni\u00e7\u00e3o da posse ou porte ilegal. Contudo, tal equipara\u00e7\u00e3o prevista no art. 16, \u00a7 1\u00ba, I, da referida lei \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o jur\u00eddica para fins de sancionamento penal das condutas de porte e posse ilegal de arma de fogo. Essa equipara\u00e7\u00e3o n\u00e3o muda a natureza jur\u00eddica da arma para qualificar outros crimes, como o homic\u00eddio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Portanto, se o legislador quisesse que a numera\u00e7\u00e3o suprimida fosse uma qualificadora do homic\u00eddio, teria de ter inclu\u00eddo essa previs\u00e3o de forma expressa no texto do C\u00f3digo Penal, uma vez que a qualificadora do art. 121, \u00a7 2\u00ba, VIII, do CP \u00e9 taxativa e n\u00e3o permite essa interpreta\u00e7\u00e3o extensiva.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-9-pesca-proibida-e-retroatividade-do-complemento-da-norma-penal-em-branco\" class=\"wp-block-heading\">9. PESCA PROIBIDA E RETROATIVIDADE DO COMPLEMENTO DA NORMA PENAL EM BRANCO<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Portaria SAP\/MAPA n. 452\/2021, ao permitir a pesca de polvo em profundidades antes vedadas, <strong>redefine o conte\u00fado t\u00edpico da infra\u00e7\u00e3o e retroage<\/strong> em benef\u00edcio do r\u00e9u, como <strong><em>novatio legis in mellius<\/em><\/strong>, tornando a conduta at\u00edpica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 2.215.385-RS, Rel. Min. Carlos Cini Marchionatti (Desembargador convocado do TJRS), Quinta Turma, por unanimidade, julgado em 2\/9\/2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Josefina foi condenada por pescar polvo a 50 metros de profundidade quando a regra exigia ao menos 70. Tempos depois, a Portaria SAP\/MAPA n. 452\/2021 liberou a pesca a partir dos 35 metros \u2014 exatamente a faixa em que ela trabalhava. A defesa pleiteou a retroa\u00e7\u00e3o da norma mais ben\u00e9fica; o Tribunal local negou: portaria seria ato administrativo tempor\u00e1rio, sem for\u00e7a para apagar o crime. A mudan\u00e7a do complemento da norma penal em branco retroage?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CP, art. 2\u00ba, par\u00e1grafo \u00fanico<\/strong><em> (a lei posterior que de qualquer modo favorecer o agente aplica-se aos fatos anteriores, ainda que decididos por senten\u00e7a condenat\u00f3ria transitada em julgado).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n. 9.605\/1998, art. 34; Portaria SAP\/MAPA n. 452\/2021<\/strong><em> (o crime de pesca em local interditado tem seu alcance preenchido por atos normativos que fixam \u00e1reas, per\u00edodos e profundidades permitidos).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda No tipo do art. 34, o preceito prim\u00e1rio \u00e9 completado por norma extrapenal de conte\u00fado normativo. Quando o complemento \u00e9 alterado de forma a modificar os crit\u00e9rios de tipicidade da conduta, a jurisprud\u00eancia do STJ manda aplicar retroativamente a disciplina mais favor\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd O divisor est\u00e1 na natureza da altera\u00e7\u00e3o: mudan\u00e7as que redefinem o pr\u00f3prio \u00e2mbito do proibido retroagem; simples ajustes t\u00e9cnico-administrativos de vig\u00eancia epis\u00f3dica, ligados a circunst\u00e2ncias excepcionais, n\u00e3o desconstituem o crime praticado sob a regra anterior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O r\u00f3tulo formal do ato n\u00e3o decide a controv\u00e9rsia. <strong>A portaria que preenche norma penal em branco participa da defini\u00e7\u00e3o do crime: alter\u00e1-la \u00e9 mexer no pr\u00f3prio contorno da conduta proibida<\/strong>, e n\u00e3o em mera rotina administrativa da atividade pesqueira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f Foi exatamente isso que ocorreu com o limite de profundidade. <strong>Ao autorizar a captura do polvo a partir dos 35 metros, o ato normativo redefiniu o conte\u00fado t\u00edpico da infra\u00e7\u00e3o<\/strong> \u2014 o que era pesca em \u00e1rea interditada virou pesca regular, e a premissa da condena\u00e7\u00e3o desapareceu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A regra intertemporal aplic\u00e1vel \u00e9 a mais generosa do direito penal. <strong>A modifica\u00e7\u00e3o superveniente do complemento que favorece o agente alcan\u00e7a os fatos anteriores, nos termos do art. 2\u00ba, par\u00e1grafo \u00fanico, do CP<\/strong>; a f\u00f3rmula &#8220;de qualquer modo favorecer&#8221; n\u00e3o distingue a origem legal ou infralegal da melhoria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f O desfecho era, portanto, impositivo. <strong>A captura a 50 metros de profundidade deixou de ser penalmente relevante, configurando-se hip\u00f3tese t\u00edpica de <em>novatio legis in mellius<\/em> de retroatividade imperativa<\/strong>, a desconstituir a condena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No tocante \u00e0 altera\u00e7\u00e3o, por portaria, do complemento da norma penal em branco que define a pesca em local proibido:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) n\u00e3o retroage, pois complementos administrativos de vig\u00eancia tempor\u00e1ria regem apenas os fatos do seu tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) carece de efeito penal, uma vez que a portaria regulamenta a atividade sem integrar o tipo incriminador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) reserva-se a retroatividade ben\u00e9fica \u00e0 lei em sentido estrito, aprovada pelo parlamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) retroage, pois a modifica\u00e7\u00e3o que redefine os crit\u00e9rios de tipicidade em favor do r\u00e9u configura <em>novatio legis in mellius<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) alcan\u00e7a apenas a esfera administrativa, subsistindo o crime praticado na vig\u00eancia do limite anterior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A ultratividade dos complementos tempor\u00e1rios pressup\u00f5e disciplina excepcional de vig\u00eancia epis\u00f3dica; a nova portaria n\u00e3o foi ajuste passageiro \u2014 redefiniu o \u00e2mbito do proibido, e altera\u00e7\u00f5es dessa natureza retroagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. No crime de pesca em local interditado, o ato administrativo integra o preceito prim\u00e1rio como complemento da norma penal em branco; sua modifica\u00e7\u00e3o repercute diretamente na tipicidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. O art. 2\u00ba, par\u00e1grafo \u00fanico, do CP fala em disciplina que &#8220;de qualquer modo&#8221; favore\u00e7a o agente, sem restringir o benef\u00edcio \u00e0s altera\u00e7\u00f5es veiculadas por lei formal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Correta. Alterado o complemento de modo a modificar os crit\u00e9rios de tipicidade em favor do r\u00e9u, a retroa\u00e7\u00e3o \u00e9 imperativa: a conduta de pescar a 50 metros tornou-se at\u00edpica com a libera\u00e7\u00e3o da faixa a partir dos 35 metros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. A repercuss\u00e3o n\u00e3o fica confinada ao plano administrativo: desaparecido o suporte normativo da proibi\u00e7\u00e3o, desaparece a relev\u00e2ncia penal da conduta, desconstituindo-se a condena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-7\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A quest\u00e3o em discuss\u00e3o consiste em saber se a Portaria SAP\/MAPA n. 452\/2021, que alterou a profundidade m\u00ednima permitida para a pesca de polvo de 70 para 35 metros, deve retroagir por configurar norma penal mais ben\u00e9fica, tornando a conduta do recorrente at\u00edpica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, o Tribunal de origem afastou a aplica\u00e7\u00e3o retroativa da Portaria SAP\/MAPA n. 452\/2021, sob o fundamento de que se trataria de norma meramente administrativa e de vig\u00eancia tempor\u00e1ria, sem impacto sobre a norma penal incriminadora. No entanto, tal entendimento deixa de justificar-se.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Isso porque a Portaria SAP\/MAPA n. 452\/2021 n\u00e3o apenas modificou um regulamento t\u00e9cnico-administrativo, mas redefiniu o pr\u00f3prio conte\u00fado t\u00edpico da infra\u00e7\u00e3o, ao permitir a pesca de polvo em profundidades anteriormente vedadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A jurisprud\u00eancia do Superior Tribunal de Justi\u00e7a \u00e9 firme no sentido de que, tratando-se de norma penal em branco, cujo preceito prim\u00e1rio \u00e9 complementado por norma extrapenal de conte\u00fado normativo, a modifica\u00e7\u00e3o superveniente que altera os crit\u00e9rios de tipicidade da conduta deve ser aplicada retroativamente, quando mais ben\u00e9fica ao r\u00e9u, nos termos do art. 2\u00ba, par\u00e1grafo \u00fanico, do C\u00f3digo Penal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, a conduta de pescar polvo a 50 metros de profundidade, que ensejou a condena\u00e7\u00e3o do recorrente, deixou de ser penalmente relevante. Trata-se, pois, de t\u00edpica hip\u00f3tese de <em>novatio legis in mellius<\/em>, cuja retroatividade \u00e9 imperativa.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-10-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-retratacao-nos-crimes-contra-a-honra-e-palavra-da-vitima\" class=\"wp-block-heading\">10.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; RETRATA\u00c7\u00c3O NOS CRIMES CONTRA A HONRA E PALAVRA DA V\u00cdTIMA<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A retrata\u00e7\u00e3o do art. 143, par\u00e1grafo \u00fanico, do CP \u00e9 <strong>ato unilateral<\/strong>, que dispensa aceita\u00e7\u00e3o do ofendido e <strong>pode ser apresentada por escrito at\u00e9 a senten\u00e7a<\/strong>; nos crimes de inj\u00faria, <strong>a palavra da v\u00edtima corroborada por outros elementos sustenta a condena\u00e7\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AgRg no HC 1.014.496-SP, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, Rel. para ac\u00f3rd\u00e3o Min. Maria Marluce Caldas, Quinta Turma, por empate, julgado em 4\/11\/2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dona Florinda espalhou pela vizinhan\u00e7a que Chiquinha teria desviado dinheiro da associa\u00e7\u00e3o de moradores \u2014 e, nas mensagens, emendou uma cole\u00e7\u00e3o de insultos. Processada por difama\u00e7\u00e3o e inj\u00faria, apresentou retrata\u00e7\u00e3o escrita de pr\u00f3prio punho antes da senten\u00e7a, sem que Chiquinha se manifestasse sobre o meio de divulga\u00e7\u00e3o, mas seguiu negando os xingamentos, que Chiquinha comprovou por testemunha que viu as mensagens no celular. A retrata\u00e7\u00e3o extingue a punibilidade? E a palavra da v\u00edtima basta para a condena\u00e7\u00e3o remanescente?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CP, art. 143, <em>caput<\/em> e par\u00e1grafo \u00fanico<\/strong><em> (o querelado que, antes da senten\u00e7a, se retrata cabalmente da cal\u00fania ou da difama\u00e7\u00e3o fica isento de pena; nos crimes cometidos por meios de comunica\u00e7\u00e3o, a retrata\u00e7\u00e3o dar-se-\u00e1, se assim desejar o ofendido, pelos mesmos meios em que se praticou a ofensa).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda A leitura literal do par\u00e1grafo \u00fanico revela que o desdizer pelos mesmos meios da ofensa \u00e9 faculdade do ofendido, n\u00e3o requisito estrutural do ato; silente a v\u00edtima, basta a formaliza\u00e7\u00e3o escrita nos autos. A retrata\u00e7\u00e3o, ademais, alcan\u00e7a cal\u00fania e difama\u00e7\u00e3o, n\u00e3o a inj\u00faria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd O desdizer opera como ato unilateral: independe da anu\u00eancia do querelante e produz a isen\u00e7\u00e3o de pena desde que manifestado antes da senten\u00e7a, em qualquer forma id\u00f4nea documentada no processo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd Nos crimes contra a honra, o relato do ofendido tem relev\u00e2ncia probat\u00f3ria especial e, quando confirmado por outros elementos, como testemunha presencial das mensagens, \u00e9 suficiente para a condena\u00e7\u00e3o por inj\u00faria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A primeira quest\u00e3o se resolvia na estrutura do instituto. <strong>O desdizer do querelado independe de aceita\u00e7\u00e3o: seu efeito extintivo nasce da manifesta\u00e7\u00e3o cabal do pr\u00f3prio ofensor, formalizada antes da senten\u00e7a<\/strong>; a lei n\u00e3o exige forma sacramental, bastando o registro escrito nos autos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A exig\u00eancia dos &#8220;mesmos meios&#8221; tem dono, e n\u00e3o \u00e9 o juiz. <strong>A veicula\u00e7\u00e3o da retrata\u00e7\u00e3o pelos canais em que se praticou a ofensa \u00e9 op\u00e7\u00e3o conferida ao ofendido \u2014 &#8220;se assim desejar&#8221; -, e o sil\u00eancio da v\u00edtima a dispensa<\/strong>; no caso, sem manifesta\u00e7\u00e3o da querelante quanto ao meio, a retrata\u00e7\u00e3o de pr\u00f3prio punho impunha a extin\u00e7\u00e3o da punibilidade da difama\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O alcance do benef\u00edcio, por\u00e9m, tem fronteira t\u00edpica. <strong>A isen\u00e7\u00e3o contempla cal\u00fania e difama\u00e7\u00e3o; a inj\u00faria \u2014 ofensa \u00e0 dignidade, e n\u00e3o imputa\u00e7\u00e3o de fato \u2014 fica de fora do favor legal<\/strong>, de modo que os insultos continuaram a demandar julgamento de m\u00e9rito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f E nesse m\u00e9rito a prova se mostrou \u00edntegra. <strong>O relato da ofendida veio confirmado por testemunha presencial, que leu as mensagens no celular e assistiu \u00e0s agress\u00f5es verbais<\/strong>; nos crimes contra a honra, a palavra da v\u00edtima assim corroborada carrega peso probat\u00f3rio bastante para a condena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acerca da retrata\u00e7\u00e3o nos crimes de difama\u00e7\u00e3o (art. 143 do CP):<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) condiciona-se \u00e0 aceita\u00e7\u00e3o expressa do ofendido, sem a qual n\u00e3o se produz o efeito extintivo da punibilidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) constitui ato unilateral, cab\u00edvel por escrito at\u00e9 a senten\u00e7a; o meio da ofensa s\u00f3 \u00e9 exig\u00edvel se o ofendido o requerer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) exige veicula\u00e7\u00e3o pelos mesmos meios em que praticada a ofensa, independentemente de manifesta\u00e7\u00e3o da v\u00edtima.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) estende-se \u00e0 inj\u00faria, pois os insultos, como as demais ofensas \u00e0 honra, comportariam desdizer eficaz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) admite-se somente at\u00e9 o recebimento da queixa, preclusa a faculdade com a instaura\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o penal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A retrata\u00e7\u00e3o independe de anu\u00eancia do querelante: \u00e9 ato unilateral cujo efeito extintivo decorre da pr\u00f3pria manifesta\u00e7\u00e3o cabal do ofensor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Correta. O desdizer \u00e9 unilateral, pode ser formalizado por escrito e juntado aos autos at\u00e9 a senten\u00e7a; a divulga\u00e7\u00e3o pelo canal em que a ofensa se praticou s\u00f3 se imp\u00f5e a pedido do ofendido, dispensada no seu sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. A veicula\u00e7\u00e3o pelos mesmos meios da ofensa depende de desejo manifestado pelo ofendido (art. 143, par\u00e1grafo \u00fanico, do CP); n\u00e3o \u00e9 requisito imposto em qualquer hip\u00f3tese.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. O favor legal alcan\u00e7a cal\u00fania e difama\u00e7\u00e3o; a inj\u00faria, por atingir a dignidade e n\u00e3o imputar fato determinado, n\u00e3o comporta retrata\u00e7\u00e3o com efeito extintivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. O marco final \u00e9 a senten\u00e7a, n\u00e3o o recebimento da queixa: a retrata\u00e7\u00e3o pode ser apresentada ao longo de toda a instru\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o penal privada.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-8\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A controv\u00e9rsia consiste em: (i) estabelecer se a retrata\u00e7\u00e3o apresentada pelo querelado antes da senten\u00e7a \u00e9 suficiente para extinguir a punibilidade quanto ao crime de difama\u00e7\u00e3o, nos termos do art. 143, par\u00e1grafo \u00fanico, do C\u00f3digo Penal; (ii) definir se a palavra da v\u00edtima \u00e9 suficiente para a condena\u00e7\u00e3o em crimes de inj\u00faria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sobre a primeira quest\u00e3o, o art. 143, par\u00e1grafo \u00fanico, do C\u00f3digo Penal, interpretado literalmente, exige que a retrata\u00e7\u00e3o seja feita nos mesmos meios em que proferida a ofensa apenas se assim desejar o ofendido, n\u00e3o havendo exig\u00eancia de forma espec\u00edfica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ademais, a retrata\u00e7\u00e3o \u00e9 ato unilateral, que independe da anu\u00eancia do querelante e pode ser apresentada a qualquer tempo antes da senten\u00e7a, bastando ser formalizada por escrito e juntada aos autos, caso permane\u00e7a silente a v\u00edtima.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, o agravante apresentou retrata\u00e7\u00e3o escrita de pr\u00f3prio punho antes da senten\u00e7a, sem manifesta\u00e7\u00e3o da v\u00edtima quanto ao meio de divulga\u00e7\u00e3o, raz\u00e3o pela qual \u00e9 devida a extin\u00e7\u00e3o da punibilidade pelo delito de difama\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quanto \u00e0 segunda quest\u00e3o, constatou-se no caso ser segura a prova no sentido de que o agravante injuriou a agravada, ofendendo sua dignidade com insultos e xingamentos, desqualificando-a, tendo os fatos sido por ela narrados e confirmados por testemunha presencial que viu as mensagens no celular da ofendida, bem como presenciou o querelado insultando-a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Al\u00e9m disso, segundo a jurisprud\u00eancia do Superior Tribunal de Justi\u00e7a, a palavra da v\u00edtima, especialmente em crimes contra a honra, tem especial relev\u00e2ncia probat\u00f3ria, desde que corroborada por outros elementos dos autos (AgRg no HC n. 946.218\/RJ, relatora Ministra Daniela Teixeira, Quinta Turma, julgado em 27\/11\/2024, DJEN de 2\/12\/2024).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Logo, nessas circunst\u00e2ncias, a palavra da ofendida \u00e9 suficiente para embasar a condena\u00e7\u00e3o em crime de inj\u00faria.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-11-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-associacao-para-o-trafico-com-arma-e-fracao-da-progressao\" class=\"wp-block-heading\">11.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; ASSOCIA\u00c7\u00c3O PARA O TR\u00c1FICO COM ARMA E FRA\u00c7\u00c3O DA PROGRESS\u00c3O<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A majorante do emprego de arma de fogo (art. 40, IV, da Lei de Drogas) <strong>caracteriza grave amea\u00e7a<\/strong> e atrai a <strong>fra\u00e7\u00e3o de 25% para a progress\u00e3o de regime<\/strong> na associa\u00e7\u00e3o para o tr\u00e1fico (art. 112, III, da LEP), bastando a arma \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do grupo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AgRg no HC 1.032.005-RJ, Rel. Min. Messod Azulay Neto, Quinta Turma, por unanimidade, julgado em 11\/11\/2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">P\u00f3pis cumpria pena por associa\u00e7\u00e3o para o tr\u00e1fico com a majorante do art. 40, IV: o grupo mantinha armas \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para garantir a trafic\u00e2ncia, ainda que ningu\u00e9m tivesse apontado o cano contra v\u00edtima certa. Ao requerer a progress\u00e3o, sustentou a fra\u00e7\u00e3o de 16%, pr\u00f3pria dos crimes sem viol\u00eancia ou grave amea\u00e7a, afinal, o tipo do art. 35 n\u00e3o exige arma. O Minist\u00e9rio P\u00fablico defendeu os 25% do art. 112, III, da LEP. Qual fra\u00e7\u00e3o governa a progress\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n. 11.343\/2006, art. 35 e art. 40, IV<\/strong><em> (associa\u00e7\u00e3o para o tr\u00e1fico; as penas s\u00e3o aumentadas se o crime \u00e9 praticado com emprego de arma de fogo ou qualquer processo de intimida\u00e7\u00e3o difusa ou coletiva).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n. 7.210\/1984 (LEP), art. 112, III<\/strong><em> (fra\u00e7\u00e3o de 25% para o apenado condenado por crime cometido com viol\u00eancia ou grave amea\u00e7a, se prim\u00e1rio).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda A causa de aumento do uso de arma, embora exterior ao tipo do art. 35, interfere no modo de execu\u00e7\u00e3o do delito: intensifica a gravidade da conduta e o potencial lesivo da a\u00e7\u00e3o, distinguindo associa\u00e7\u00f5es armadas das desarmadas \u2014 situa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o podem receber tratamento id\u00eantico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd A intimida\u00e7\u00e3o difusa ou coletiva do art. 40, IV, configura grave amea\u00e7a mesmo sem v\u00edtima determinada ou disparo: basta que o armamento esteja \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos integrantes para garantir a trafic\u00e2ncia ou intimidar, e a fra\u00e7\u00e3o aplic\u00e1vel passa a ser a de 25%.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A obje\u00e7\u00e3o central do apenado partia de uma premissa formalista. <strong>O fato de a majorante n\u00e3o integrar o tipo b\u00e1sico n\u00e3o lhe retira relev\u00e2ncia na fase execut\u00f3ria<\/strong>: o legislador reconheceu que armamento e intimida\u00e7\u00e3o coletiva alteram substancialmente a gravidade do delito, e ignorar isso na progress\u00e3o criaria incoer\u00eancia sist\u00eamica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f Tampouco h\u00e1 analogia proibida na opera\u00e7\u00e3o. <strong>Aplicar a fra\u00e7\u00e3o de 25% \u00e9 interpreta\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica e teleol\u00f3gica dos requisitos objetivos da progress\u00e3o, n\u00e3o cria\u00e7\u00e3o de exig\u00eancia sem lei<\/strong> \u2014 o art. 112, III, da LEP fala em grave amea\u00e7a, e o int\u00e9rprete apenas reconhece essa nota onde ela de fato existe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A aus\u00eancia de v\u00edtima certa n\u00e3o descaracteriza a intimida\u00e7\u00e3o. <strong>O processo intimidat\u00f3rio difuso ou coletivo, por natureza, prescinde de destinat\u00e1rio individualizado: atinge n\u00famero indeterminado de pessoas<\/strong> \u2014 e revela, justamente por isso, potencial lesivo e periculosidade maiores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f Tamb\u00e9m o uso efetivo do armamento \u00e9 dispens\u00e1vel. <strong>Basta a constata\u00e7\u00e3o de que a arma se encontrava \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos integrantes da associa\u00e7\u00e3o, para garantir a trafic\u00e2ncia ou intimidar<\/strong>; equiparar associa\u00e7\u00f5es armadas e desarmadas esvaziaria o conte\u00fado normativo do art. 40, IV, da Lei de Drogas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fra\u00e7\u00e3o de progress\u00e3o de regime do condenado prim\u00e1rio por associa\u00e7\u00e3o para o tr\u00e1fico, majorada pelo emprego de arma:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) aplica-se a fra\u00e7\u00e3o de 16%, pois a majorante n\u00e3o integra o tipo e o delito, em si, n\u00e3o envolve grave amea\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) segue as fra\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias dos crimes hediondos, dada a equipara\u00e7\u00e3o da associa\u00e7\u00e3o para o tr\u00e1fico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) veda-se a fra\u00e7\u00e3o de 25%, cuja ado\u00e7\u00e3o configuraria analogia <em>in malam partem<\/em> contra o apenado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) exige, para a fra\u00e7\u00e3o de 25%, a prova do uso efetivo do armamento na atividade do grupo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) incide a fra\u00e7\u00e3o de 25%, pois a intimida\u00e7\u00e3o difusa caracteriza grave amea\u00e7a, bastando a arma \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da associa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A fra\u00e7\u00e3o de 16% pressup\u00f5e crime sem viol\u00eancia ou grave amea\u00e7a; presente a majorante da arma, o modo de execu\u00e7\u00e3o ganha a nota da intimida\u00e7\u00e3o, deslocando o c\u00e1lculo para o patamar de 25%.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. A associa\u00e7\u00e3o para o tr\u00e1fico n\u00e3o \u00e9 crime hediondo nem equiparado; suas fra\u00e7\u00f5es de progress\u00e3o s\u00e3o as comuns do art. 112 da LEP, definidas conforme a presen\u00e7a de viol\u00eancia ou grave amea\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. N\u00e3o h\u00e1 analogia contra o r\u00e9u: o art. 112, III, da LEP contempla a grave amea\u00e7a, e reconhec\u00ea-la na intimida\u00e7\u00e3o difusa da majorante \u00e9 interpreta\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica e teleol\u00f3gica da pr\u00f3pria regra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. O disparo ou o emprego ostensivo s\u00e3o dispens\u00e1veis: a disponibilidade do armamento para garantir a trafic\u00e2ncia ou intimidar j\u00e1 configura o processo intimidat\u00f3rio que qualifica o modo de execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Correta. O processo intimidat\u00f3rio difuso pr\u00f3prio da majorante traduz grave amea\u00e7a ainda que n\u00e3o exista v\u00edtima certa, bastando o armamento acess\u00edvel ao grupo; incide, portanto, a fra\u00e7\u00e3o de 25% do art. 112, III, da LEP.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-9\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A controv\u00e9rsia cinge-se \u00e0 defini\u00e7\u00e3o do percentual de cumprimento de pena aplic\u00e1vel ao crime de associa\u00e7\u00e3o para o tr\u00e1fico de drogas (art. 35 da Lei n. 11.343\/2006) quando incidente \u00e0 majorante prevista no art. 40, inciso IV, do mesmo diploma legal (emprego de arma de fogo ou qualquer processo de intimida\u00e7\u00e3o difusa ou coletiva).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A jurisprud\u00eancia do Superior Tribunal de Justi\u00e7a \u00e9 firme no sentido de que a causa de aumento de pena relacionada ao uso de arma de fogo, ainda que n\u00e3o constitua elemento essencial do tipo penal do art. 35 da Lei de Drogas, representa circunst\u00e2ncia que influencia diretamente o modo de execu\u00e7\u00e3o do delito, intensificando sobremaneira a gravidade da conduta e o potencial lesivo da a\u00e7\u00e3o criminosa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A aplica\u00e7\u00e3o da fra\u00e7\u00e3o de 25% para progress\u00e3o de regime, prevista no art. 112, inciso III, da Lei de Execu\u00e7\u00e3o Penal, n\u00e3o configura interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00f3gica <em>in malam partem<\/em>, mas sim uma interpreta\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica e teleol\u00f3gica que considera a gravidade concreta da conduta e a maior reprovabilidade das a\u00e7\u00f5es praticadas com emprego de arma de fogo ou intimida\u00e7\u00e3o coletiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A intimida\u00e7\u00e3o difusa ou coletiva mencionada no art. 40, inciso IV, da Lei n. 11.343\/2006 caracteriza, inequivocamente, grave amea\u00e7a, porquanto o emprego de arma de fogo ou a utiliza\u00e7\u00e3o de processos intimidat\u00f3rios coletivos potencializam a danosidade social do delito e revelam maior censurabilidade da conduta, ainda que n\u00e3o haja v\u00edtima determinada ou uso efetivo do armamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Como j\u00e1 decidido pela Quinta Turma do STJ, n\u00e3o se exige o uso efetivo da arma, sendo suficiente a constata\u00e7\u00e3o de que ela se encontrava \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de integrantes da associa\u00e7\u00e3o criminosa para garantir a trafic\u00e2ncia ou para fins de intimida\u00e7\u00e3o, circunst\u00e2ncia que, por si s\u00f3, configura a grave amea\u00e7a prevista no art. 112, inciso III, da Lei de Execu\u00e7\u00e3o Penal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A interpreta\u00e7\u00e3o de que a majorante do art. 40, IV, da Lei de Drogas n\u00e3o integra o tipo penal do art. 35 da mesma lei implicaria desconsiderar a efetiva gravidade da conduta praticada, tratando de forma id\u00eantica situa\u00e7\u00f5es manifestamente distintas: associa\u00e7\u00f5es criminosas desarmadas e associa\u00e7\u00f5es que se valem de armamento para intimida\u00e7\u00e3o e garantia da atividade delitiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tal entendimento esvaziaria o pr\u00f3prio conte\u00fado normativo do art. 40, inciso IV, da Lei de Drogas, que reconhece a maior reprovabilidade das condutas praticadas mediante emprego de arma de fogo ou processo de intimida\u00e7\u00e3o coletiva, justificando, por conseguinte, o aumento da pena-base e, em sede execut\u00f3ria, a imposi\u00e7\u00e3o de requisitos mais rigorosos para a progress\u00e3o de regime.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A circunst\u00e2ncia de a majorante n\u00e3o integrar o tipo penal b\u00e1sico n\u00e3o afasta sua relev\u00e2ncia para fins de defini\u00e7\u00e3o do percentual de cumprimento de pena. O legislador, ao estabelecer a causa de aumento, reconheceu que a presen\u00e7a de armamento ou intimida\u00e7\u00e3o coletiva altera substancialmente a gravidade do delito, o que deve ser considerado tamb\u00e9m na fase execut\u00f3ria, sob pena de se criar verdadeira incoer\u00eancia sist\u00eamica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por fim, a aus\u00eancia de v\u00edtima determinada no delito do art. 35 da Lei de Drogas n\u00e3o afasta a configura\u00e7\u00e3o de grave amea\u00e7a quando presente a majorante do art. 40, inciso IV. A intimida\u00e7\u00e3o difusa ou coletiva, por sua pr\u00f3pria natureza, prescinde de v\u00edtima individualizada, atingindo n\u00famero indeterminado de pessoas e revelando, justamente por isso, maior potencial lesivo e periculosidade da conduta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Desse modo, a aplica\u00e7\u00e3o da fra\u00e7\u00e3o de 25% prevista no art. 112, inciso III, da Lei de Execu\u00e7\u00e3o Penal mostra-se adequada e em conformidade com a jurisprud\u00eancia pac\u00edfica desta Corte Superior.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-12-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-multa-ao-defensor-publico-e-legitimidade-da-defensoria\" class=\"wp-block-heading\">12.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; MULTA AO DEFENSOR P\u00daBLICO E LEGITIMIDADE DA DEFENSORIA<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Defensoria P\u00fablica <strong>tem legitimidade para ajuizar a\u00e7\u00e3o em defesa de prerrogativas institucionais<\/strong> ainda que a san\u00e7\u00e3o pecuni\u00e1ria recaia sobre a pessoa f\u00edsica do defensor, se o ato \u00e9 funcional; e a extin\u00e7\u00e3o de mandado de seguran\u00e7a por decad\u00eancia <strong>N\u00c3O impede a a\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria sobre os efeitos patrimoniais<\/strong> do ato (art. 19 da Lei n. 12.016\/2009).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AgRg no AREsp 1.984.328-SP, Rel. Min. Maria Marluce Caldas, Quinta Turma, por unanimidade, julgado em 11\/11\/2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dra. Crementina, defensora p\u00fablica, levou uma multa processual imposta a ela, pessoa f\u00edsica, por suposta aus\u00eancia em audi\u00eancia criminal na qual atuava oficialmente. O mandado de seguran\u00e7a contra o ato morreu por decad\u00eancia. A Defensoria P\u00fablica ajuizou ent\u00e3o a\u00e7\u00e3o declarat\u00f3ria de inexigibilidade do d\u00e9bito, e o Tribunal local barrou a iniciativa em dupla frente: a institui\u00e7\u00e3o n\u00e3o teria legitimidade para defender interesse pessoal da defensora, e a via do <em>writ<\/em> estaria esgotada. A a\u00e7\u00e3o da Defensoria pode prosseguir?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>LC n. 80\/1994, art. 4\u00ba, IX<\/strong><em> (\u00e9 fun\u00e7\u00e3o institucional da Defensoria P\u00fablica propor qualquer a\u00e7\u00e3o em defesa das fun\u00e7\u00f5es institucionais e prerrogativas de seus \u00f3rg\u00e3os de execu\u00e7\u00e3o).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n. 12.016\/2009, art. 19<\/strong><em> (a senten\u00e7a que denegar o mandado de seguran\u00e7a n\u00e3o obsta o uso de a\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda O STJ reconhece a legitimidade institucional sobretudo quando a medida judicial impugna san\u00e7\u00e3o aplicada a defensor no exerc\u00edcio da fun\u00e7\u00e3o (RMS 48.824-SP e RMS 54.183-SP); exigir que a penalidade recaia formalmente sobre a pessoa jur\u00eddica esvazia a efic\u00e1cia protetiva da norma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd O nexo funcional \u00e9 a chave da legitimidade: multa motivada por ato praticado no of\u00edcio, como a aus\u00eancia em audi\u00eancia em que a defensora atuava oficialmente, autoriza a institui\u00e7\u00e3o a defender sua integrante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd A decad\u00eancia do <em>writ<\/em> fulmina apenas aquela via mandamental; a discuss\u00e3o dos efeitos patrimoniais do ato, como a inexigibilidade do d\u00e9bito antes da inscri\u00e7\u00e3o em d\u00edvida ativa, permanece aberta na via ordin\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A leitura restritiva da inst\u00e2ncia ordin\u00e1ria invertia o sentido da norma. <strong>Condicionar a atua\u00e7\u00e3o institucional a que a penalidade atinja formalmente a pessoa jur\u00eddica esvazia a efic\u00e1cia protetiva do art. 4\u00ba, IX, da LC n. 80\/1994<\/strong> \u2014 as prerrogativas se exercem por meio de pessoas f\u00edsicas, e \u00e9 sobre elas que as san\u00e7\u00f5es costumam recair.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f O que legitima a institui\u00e7\u00e3o \u00e9 a origem funcional do ato sancionado. <strong>A multa nasceu de suposta aus\u00eancia em audi\u00eancia criminal na qual a defensora atuava oficialmente \u2014 circunst\u00e2ncia que evidencia o nexo entre o ato do of\u00edcio e a puni\u00e7\u00e3o<\/strong>, trazendo a controv\u00e9rsia para o terreno das prerrogativas institucionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O segundo obst\u00e1culo tinha resposta expressa na lei do mandado de seguran\u00e7a. <strong>A denega\u00e7\u00e3o do <em>writ<\/em> n\u00e3o obsta o uso de a\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria (art. 19 da Lei n. 12.016\/2009)<\/strong>, e a decad\u00eancia atinge somente o direito \u00e0 via mandamental, n\u00e3o o direito material subjacente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A pretens\u00e3o deduzida, ademais, tinha objeto distinto do m\u00e9rito sancionador. <strong>A a\u00e7\u00e3o declarat\u00f3ria buscava discutir os efeitos patrimoniais da san\u00e7\u00e3o \u2014 a legalidade da cobran\u00e7a e da inscri\u00e7\u00e3o em d\u00edvida ativa<\/strong>; para esse fim, a via ordin\u00e1ria permanecia franqueada, sem qualquer veda\u00e7\u00e3o legal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tratando-se de multa processual imposta \u00e0 pessoa f\u00edsica de defensora p\u00fablica por ato praticado no exerc\u00edcio da fun\u00e7\u00e3o, ap\u00f3s a extin\u00e7\u00e3o de anterior mandado de seguran\u00e7a por decad\u00eancia:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) admite-se a\u00e7\u00e3o da Defensoria em defesa de prerrogativas, e a decad\u00eancia do <em>writ<\/em> n\u00e3o impede a\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria sobre os efeitos patrimoniais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) cabe apenas \u00e0 pr\u00f3pria defensora demandar, pois a san\u00e7\u00e3o pecuni\u00e1ria atinge seu patrim\u00f4nio pessoal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) opera-se a estabiliza\u00e7\u00e3o do ato com a decad\u00eancia, vedada sua rediscuss\u00e3o pela via ordin\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) reserva-se a discuss\u00e3o aos embargos, depois de inscrita a d\u00edvida e ajuizada a execu\u00e7\u00e3o fiscal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) exige-se, para a atua\u00e7\u00e3o institucional, que a penalidade tenha sido imposta formalmente \u00e0 pessoa jur\u00eddica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Correta. Presente o nexo funcional entre o ato e a san\u00e7\u00e3o, a Defensoria tem legitimidade fundada no art. 4\u00ba, IX, da LC n. 80\/1994; e o art. 19 da Lei n. 12.016\/2009 assegura a a\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria para discutir os efeitos patrimoniais, apesar da decad\u00eancia do <em>writ<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. A imposi\u00e7\u00e3o da multa \u00e0 pessoa f\u00edsica n\u00e3o exclui a institui\u00e7\u00e3o: a motiva\u00e7\u00e3o ligada ao exerc\u00edcio funcional legitima a Defensoria a defender a integrante, em tutela de prerrogativas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. A decad\u00eancia fulmina a via mandamental, n\u00e3o o direito material: a rediscuss\u00e3o dos efeitos patrimoniais do ato em a\u00e7\u00e3o ordin\u00e1ria \u00e9 expressamente ressalvada pela lei do mandado de seguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. N\u00e3o h\u00e1 necessidade de aguardar a execu\u00e7\u00e3o fiscal: a a\u00e7\u00e3o declarat\u00f3ria de inexigibilidade pode ser ajuizada desde logo, inclusive para controlar a legalidade da inscri\u00e7\u00e3o em d\u00edvida ativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. A exig\u00eancia de que a san\u00e7\u00e3o recaia formalmente sobre a pessoa jur\u00eddica \u00e9 exegese restritiva que anula a for\u00e7a protetiva da norma institucional e contraria a orienta\u00e7\u00e3o do STJ.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-10\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cinge-se a controv\u00e9rsia a (i) saber se a Defensoria P\u00fablica possui legitimidade ativa para ajuizar a\u00e7\u00e3o em defesa de prerrogativas institucionais, quando a san\u00e7\u00e3o pecuni\u00e1ria \u00e9 imposta diretamente \u00e0 pessoa f\u00edsica do defensor p\u00fablico; e (ii) verificar a adequa\u00e7\u00e3o da via processual eleita, considerando a extin\u00e7\u00e3o de mandado de seguran\u00e7a anterior por decad\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No tocante \u00e0 alegada ilegitimidade ativa da Defensoria P\u00fablica, disp\u00f5e o art. 4\u00ba, IX, da Lei Complementar n. 80\/1994, que constitui fun\u00e7\u00e3o institucional da Defensoria P\u00fablica a propositura de &#8220;qualquer outra a\u00e7\u00e3o em defesa das fun\u00e7\u00f5es institucionais e prerrogativas de seus \u00f3rg\u00e3os de execu\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com efeito, a jurisprud\u00eancia do Superior Tribunal de Justi\u00e7a \u00e9 firme no sentido de reconhecer tal legitimidade, especialmente quando a medida judicial visa impugnar san\u00e7\u00e3o imposta a defensor p\u00fablico no exerc\u00edcio de suas fun\u00e7\u00f5es, como j\u00e1 decidido, por exemplo, no RMS 48.824\/SP (Rel. Ministra Maria Thereza de Assis Moura, DJe 14\/9\/2015) e RMS 54.183\/SP (Rel. para ac\u00f3rd\u00e3o Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, DJe 2\/9\/2019), ambos em casos an\u00e1logos<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, a multa imposta \u00e0 defensora p\u00fablica decorreu de suposta aus\u00eancia em audi\u00eancia criminal em que atuava oficialmente, circunst\u00e2ncia que, por si, evidencia o nexo entre o ato funcional e a san\u00e7\u00e3o aplicada. Ainda que a penalidade tenha sido dirigida \u00e0 pessoa f\u00edsica da defensora, sua motiva\u00e7\u00e3o est\u00e1 diretamente relacionada ao exerc\u00edcio das fun\u00e7\u00f5es institucionais, o que legitima a atua\u00e7\u00e3o da Defensoria em defesa da integrante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A exegese conferida pelo Tribunal de origem ao art. 4\u00ba, IX, da LC n. 80\/1994, ao exigir que a penalidade recaia formalmente sobre a pessoa jur\u00eddica para legitimar a atua\u00e7\u00e3o da Institui\u00e7\u00e3o, revela-se restritiva, esvazia a efic\u00e1cia protetiva da norma e contraria a orienta\u00e7\u00e3o pacificada no STJ.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No que tange \u00e0 adequa\u00e7\u00e3o da via processual, o art. 19 da Lei n. 12.016\/2009 expressamente prev\u00ea que &#8220;a senten\u00e7a que denegar o mandado de seguran\u00e7a n\u00e3o obsta o uso de a\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesse sentido, a tentativa de rediscutir, na via ordin\u00e1ria, os efeitos patrimoniais da san\u00e7\u00e3o imposta, e n\u00e3o seu m\u00e9rito penal, justifica o prosseguimento do feito para exame da legalidade da inscri\u00e7\u00e3o em d\u00edvida ativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Dessa forma, o ajuizamento da a\u00e7\u00e3o declarat\u00f3ria de inexigibilidade de d\u00e9bito, ap\u00f3s a extin\u00e7\u00e3o do mandado de seguran\u00e7a por decad\u00eancia, n\u00e3o encontra veda\u00e7\u00e3o legal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">***<\/p>\n\n\n\n<div data-wp-interactive=\"core\/file\" class=\"wp-block-file\"><object aria-label=\"Incorporar PDF\" data-wp-bind--hidden=\"!state.hasPdfPreview\" hidden><\/object><a id=\"wp-block-file--media-47db855a-de30-4b65-94b3-098099c51bc4\" 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