{"id":1773503,"date":"2026-07-06T09:11:15","date_gmt":"2026-07-06T12:11:15","guid":{"rendered":"https:\/\/blog-estrategia.mystagingwebsite.com\/blog\/?p=1773503"},"modified":"2026-07-06T09:11:18","modified_gmt":"2026-07-06T12:11:18","slug":"informativo-stj-894-comentado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.estrategiaconcursos.com.br\/blog\/informativo-stj-894-comentado\/","title":{"rendered":"Informativo STJ 894 Comentado"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/dhg1h5j42swfq.cloudfront.net\/2026\/07\/06091054\/stj_info_894.pdf\"><strong>DOWNLOAD do PDF AQUI!<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<div class=\"lyte-wrapper\" style=\"width:853px;max-width:100%;margin:5px;\"><div class=\"lyMe\" id=\"WYL_LMv_6Dw0VL4\"><div id=\"lyte_LMv_6Dw0VL4\" data-src=\"\/\/i.ytimg.com\/vi\/LMv_6Dw0VL4\/hqdefault.jpg\" class=\"pL\"><div class=\"tC\"><div class=\"tT\"><\/div><\/div><div class=\"play\"><\/div><div class=\"ctrl\"><div class=\"Lctrl\"><\/div><div class=\"Rctrl\"><\/div><\/div><\/div><noscript><a href=\"https:\/\/youtu.be\/LMv_6Dw0VL4\" rel=\"nofollow\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i.ytimg.com\/vi\/LMv_6Dw0VL4\/0.jpg\" alt=\"YouTube video thumbnail\" width=\"853\" height=\"460\" \/><br \/>Assista a este v\u00eddeo no YouTube<\/a><\/noscript><\/div><\/div><div class=\"lL\" style=\"max-width:100%;width:853px;margin:5px;\"><\/div>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<h2 id=\"h-1-nbsp-nbsp-remicao-de-pena-por-aprovacao-em-enem-e-encceja\" class=\"wp-block-heading\">1.&nbsp;&nbsp; REMI\u00c7\u00c3O DE PENA POR APROVA\u00c7\u00c3O EM ENEM E ENCCEJA<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 <strong>cab\u00edvel a remi\u00e7\u00e3o da pena pela aprova\u00e7\u00e3o no ENEM, ainda que o ensino m\u00e9dio j\u00e1 tivesse sido conclu\u00eddo antes do in\u00edcio do cumprimento da pen<\/strong>a, e pela aprova\u00e7\u00e3o no ENCCEJA, ainda que o apenado j\u00e1 possu\u00edsse certifica\u00e7\u00e3o do mesmo n\u00edvel ao ingressar no sistema prisional &#8211; por configurarem esfor\u00e7o educacional aut\u00f4nomo; <strong>n\u00e3o \u00e9 cab\u00edvel, por\u00e9m, nova remi\u00e7\u00e3o quando o mesmo fato gerador educacional j\u00e1 tiver sido integralmente utilizado para remi\u00e7\u00e3o anterior na mesma execu\u00e7\u00e3o, sob pena de bis in idem<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 2.037.377-SC e REsp 2.037.447-SC, Rel. Min. Maria Marluce Caldas, Terceira Se\u00e7\u00e3o, por unanimidade, julgado em 18\/6\/2026 (Tema 1354).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Godines, no curso da execu\u00e7\u00e3o da pena, dedicou-se ao estudo por conta pr\u00f3pria e foi aprovado no ENEM e, depois, no ENCCEJA. Ocorre que Godines j\u00e1 havia conclu\u00eddo o ensino m\u00e9dio antes de ser preso &#8211; e, portanto, j\u00e1 detinha a certifica\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de ensino avaliado por ambos os exames. A aprova\u00e7\u00e3o em exame por quem j\u00e1 tem o diploma do mesmo n\u00edvel gera remi\u00e7\u00e3o? E, obtida a remi\u00e7\u00e3o por um exame, poderia Godines pleitear nova remi\u00e7\u00e3o pelo outro, referente ao mesmo n\u00edvel de ensino?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>LEP, art. 126<\/strong><em> (remi\u00e7\u00e3o de parte do tempo de execu\u00e7\u00e3o pela frequ\u00eancia a atividades educacionais).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Resolu\u00e7\u00e3o CNJ n. 391\/2021<\/strong><em> (remi\u00e7\u00e3o por estudo realizado por conta pr\u00f3pria, com aprova\u00e7\u00e3o em exames nacionais de certifica\u00e7\u00e3o (ENEM\/ENCCEJA)).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda A remi\u00e7\u00e3o pelo estudo n\u00e3o recompensa o ac\u00famulo de t\u00edtulos, mas incentiva o esfor\u00e7o educacional durante a execu\u00e7\u00e3o. A aprova\u00e7\u00e3o no ENEM (180 quest\u00f5es e reda\u00e7\u00e3o, com finalidade de avalia\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica e sele\u00e7\u00e3o ao ensino superior) e no ENCCEJA exige estudo por conta pr\u00f3pria &#8211; fato gerador distinto da mera certifica\u00e7\u00e3o de conclus\u00e3o do ensino m\u00e9dio, ainda que o apenado j\u00e1 a possua.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd O limite \u00e9 a veda\u00e7\u00e3o <em>ao bis in idem<\/em>: o benef\u00edcio se liga ao esfor\u00e7o concretamente demonstrado, n\u00e3o ao t\u00edtulo. Por isso, um mesmo fato gerador educacional &#8211; a aprova\u00e7\u00e3o em um exame ou a conclus\u00e3o de um n\u00edvel &#8211; n\u00e3o pode ser aproveitado duas vezes na mesma execu\u00e7\u00e3o. Utilizado integralmente para uma remi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o enseja nova remi\u00e7\u00e3o; o que se remunera \u00e9 cada esfor\u00e7o aut\u00f4nomo, uma \u00fanica vez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A l\u00f3gica da remi\u00e7\u00e3o pelo estudo \u00e9 de est\u00edmulo, n\u00e3o de premia\u00e7\u00e3o por acervo. <strong>O fundamento n\u00e3o \u00e9 recompensar o ac\u00famulo de t\u00edtulos, mas incentivar o esfor\u00e7o educacional durante o cumprimento da pena<\/strong>; quem estuda por conta pr\u00f3pria e \u00e9 aprovado demonstra empenho verific\u00e1vel na ressocializa\u00e7\u00e3o &#8211; independentemente de j\u00e1 possuir a certifica\u00e7\u00e3o do mesmo n\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A aprova\u00e7\u00e3o no ENEM \u00e9 fato gerador aut\u00f4nomo. <strong>Representa esfor\u00e7o de maior complexidade (180 quest\u00f5es e reda\u00e7\u00e3o, voltadas \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica e ao ingresso no ensino superior), inconfund\u00edvel com a mera certifica\u00e7\u00e3o de conclus\u00e3o do ensino m\u00e9dio<\/strong>; gera remi\u00e7\u00e3o mesmo se o n\u00edvel j\u00e1 foi certificado antes da pena, afastado apenas o acr\u00e9scimo de 1\/3 nessa hip\u00f3tese.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A aprova\u00e7\u00e3o no ENCCEJA segue a mesma diretriz. <strong>Com base na interpreta\u00e7\u00e3o extensiva do art. 126 da LEP e na Resolu\u00e7\u00e3o CNJ n. 391\/2021, a aprova\u00e7\u00e3o nesse exame gera remi\u00e7\u00e3o mesmo quando o apenado j\u00e1 possu\u00eda o grau de ensino antes da execu\u00e7\u00e3o<\/strong>, valorizando o estudo realizado durante o cumprimento da pena &#8211; a norma n\u00e3o condiciona o benef\u00edcio \u00e0 inexist\u00eancia de certifica\u00e7\u00e3o pr\u00e9via.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f O esfor\u00e7o, contudo, se remunera uma s\u00f3 vez. <strong>Quando o mesmo fato gerador educacional &#8211; a aprova\u00e7\u00e3o em determinado exame ou a conclus\u00e3o de dado n\u00edvel &#8211; j\u00e1 tiver sido integralmente utilizado para uma remi\u00e7\u00e3o na mesma execu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o cabe nova remi\u00e7\u00e3o com base nele, sob pena de bis in idem<\/strong>. O que a lei valoriza \u00e9 cada esfor\u00e7o aut\u00f4nomo; reaproveitar o mesmo fato duplicaria indevidamente o benef\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quanto \u00e0 remi\u00e7\u00e3o da pena por aprova\u00e7\u00e3o em ENEM ou ENCCEJA de apenado que j\u00e1 conclu\u00edra o mesmo n\u00edvel de ensino antes da execu\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) mostra-se incab\u00edvel, por j\u00e1 possuir o apenado a certifica\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de ensino avaliado pelo exame.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) admite cumula\u00e7\u00e3o para cada exame, ainda que fundada no mesmo n\u00edvel de ensino j\u00e1 certificado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) cabe pela aprova\u00e7\u00e3o em cada exame, vedada apenas a nova remi\u00e7\u00e3o pelo mesmo exame na mesma execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) pressup\u00f5e esteja o apenado formalmente matriculado em atividade escolar regular no pres\u00eddio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) restringe-se ao ENEM, por sua maior complexidade, exclu\u00eddo o ENCCEJA.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A certifica\u00e7\u00e3o pr\u00e9via n\u00e3o obsta a remi\u00e7\u00e3o: o fato gerador \u00e9 o esfor\u00e7o educacional aut\u00f4nomo (a aprova\u00e7\u00e3o no exame durante a pena), distinto da mera posse do t\u00edtulo (Tema 1354\/STJ).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. A cumula\u00e7\u00e3o com base no mesmo fato gerador educacional j\u00e1 aproveitado configura bis in idem; cada esfor\u00e7o aut\u00f4nomo remunera-se uma \u00fanica vez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) <strong>Correta.<\/strong> A aprova\u00e7\u00e3o no ENEM e no ENCCEJA gera remi\u00e7\u00e3o mesmo com certifica\u00e7\u00e3o pr\u00e9via do mesmo n\u00edvel, por configurar esfor\u00e7o aut\u00f4nomo; mas o mesmo fato gerador j\u00e1 integralmente utilizado para uma remi\u00e7\u00e3o n\u00e3o enseja outra na mesma execu\u00e7\u00e3o &#8211; seria bis in idem (LEP, art. 126; Resolu\u00e7\u00e3o CNJ n. 391\/2021).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. A Resolu\u00e7\u00e3o CNJ n. 391\/2021 admite remi\u00e7\u00e3o pelo estudo por conta pr\u00f3pria, sem exigir matr\u00edcula em atividade escolar regular; a aprova\u00e7\u00e3o no exame basta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. N\u00e3o h\u00e1 distin\u00e7\u00e3o que exclua o ENCCEJA: ambos os exames configuram fato gerador aut\u00f4nomo de remi\u00e7\u00e3o, observada a veda\u00e7\u00e3o ao bis in idem.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A quest\u00e3o submetida ao rito dos recursos repetitivos consiste em definir se \u00e9 poss\u00edvel a concess\u00e3o do benef\u00edcio da remi\u00e7\u00e3o penal, por aprova\u00e7\u00e3o no Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio (ENEM) ou no Exame Nacional para Certifica\u00e7\u00e3o de Compet\u00eancias de Jovens e Adultos (ENCCEJA), quando o sentenciado tiver conclu\u00eddo o ensino m\u00e9dio antes do in\u00edcio do cumprimento da pena.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; O ENEM \u00e9 composto por 180 quest\u00f5es objetivas e uma reda\u00e7\u00e3o, distribu\u00eddas em dois dias de prova, tendo por finalidade prec\u00edpua a avalia\u00e7\u00e3o do desempenho ao final da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica e a sele\u00e7\u00e3o para o ingresso no ensino superior por meio do SISU, ProUni e FIES. A aprova\u00e7\u00e3o no ENEM, portanto, representa fato gerador distinto da mera certifica\u00e7\u00e3o de conclus\u00e3o do ensino m\u00e9dio, demandando esfor\u00e7o educacional de maior complexidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sobre o tema, a Terceira Se\u00e7\u00e3o do Superior Tribunal de Justi\u00e7a consolidou o entendimento no sentido de que a aprova\u00e7\u00e3o no ENEM constitui fato gerador aut\u00f4nomo de remi\u00e7\u00e3o, inconfund\u00edvel com a certifica\u00e7\u00e3o de conclus\u00e3o do ensino m\u00e9dio, seja ela obtida antes do ingresso no sistema prisional, seja durante o cumprimento da pena por meio do ENCCEJA.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, a conclus\u00e3o \u00e9 a de que a aprova\u00e7\u00e3o no ENEM gera direito \u00e0 remi\u00e7\u00e3o independentemente da pr\u00e9via conclus\u00e3o do ensino m\u00e9dio, por se tratar de fato gerador distinto, afastado o acr\u00e9scimo de 1\/3 quando o n\u00edvel de ensino j\u00e1 houver sido certificado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quanto \u00e0 remi\u00e7\u00e3o pela aprova\u00e7\u00e3o no ENCCEJA, a jurisprud\u00eancia consolidada do STJ, com base na interpreta\u00e7\u00e3o extensiva do art. 126 da Lei de Execu\u00e7\u00e3o Penal e da Resolu\u00e7\u00e3o CNJ n. 391\/2021, reconhece que a aprova\u00e7\u00e3o em exames dessa certifica\u00e7\u00e3o \u00e9 apta a gerar remi\u00e7\u00e3o de pena, mesmo quando o apenado j\u00e1 possu\u00eda o grau de ensino antes do in\u00edcio da execu\u00e7\u00e3o penal, valorizando o esfor\u00e7o e estudo realizados durante o cumprimento da pena.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com efeito, o fundamento central da remi\u00e7\u00e3o pelo estudo n\u00e3o \u00e9 simplesmente recompensar o ac\u00famulo de t\u00edtulos, mas incentivar o esfor\u00e7o educacional durante a execu\u00e7\u00e3o da pena. O apenado que, durante o cumprimento da pena, dedica-se ao estudo por conta pr\u00f3pria e logra aprova\u00e7\u00e3o no ENCCEJA demonstra empenho concreto e verific\u00e1vel na sua ressocializa\u00e7\u00e3o, independentemente de j\u00e1 possuir a certifica\u00e7\u00e3o do mesmo n\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A Resolu\u00e7\u00e3o CNJ n. 391\/2021 prev\u00ea que faz jus \u00e0 remi\u00e7\u00e3o o apenado que, embora n\u00e3o esteja vinculado a atividades regulares de ensino, realiza estudos por conta pr\u00f3pria e obt\u00e9m aprova\u00e7\u00e3o nos exames nacionais que certificam a conclus\u00e3o do ensino fundamental\/m\u00e9dio. A norma, em momento algum, condiciona a concess\u00e3o do benef\u00edcio \u00e0 demonstra\u00e7\u00e3o de que o apenado n\u00e3o possu\u00eda previamente a certifica\u00e7\u00e3o. A exig\u00eancia de hist\u00f3rico escolar para vedar a remi\u00e7\u00e3o \u00e9, portanto, incoerente com o pr\u00f3prio sistema normativo, uma vez que o sentenciado realizou os estudos por conta pr\u00f3pria, sem estar matriculado em institui\u00e7\u00e3o de ensino. N\u00e3o se pode ignorar, por fim, que o ENCCEJA, embora concebido para a certifica\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, adquiriu, na pr\u00e1tica, uma fun\u00e7\u00e3o mais ampla. Institui\u00e7\u00f5es privadas de ensino superior, amparadas na autonomia universit\u00e1ria (CF, art. 207) e na liberdade de defini\u00e7\u00e3o do processo seletivo (LDB, art. 44, II), passaram a utiliz\u00e1-lo como instrumento de acesso \u00e0 gradua\u00e7\u00e3o, ao lado do ENEM e dos vestibulares pr\u00f3prios (pareceres do CNE\/CES n 606\/1998 e n 219\/1999).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Essa realidade demonstra que o esfor\u00e7o despendido pelo apenado na prepara\u00e7\u00e3o e aprova\u00e7\u00e3o no ENCCEJA transcende a mera replica\u00e7\u00e3o de uma certifica\u00e7\u00e3o eventualmente j\u00e1 obtida. Trata-se de atividade intelectual com potencial concreto de abrir caminhos para o ensino superior, o que densifica o fundamento ressocializador da remi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ademais, imp\u00f5e-se delimitar uma baliza essencial: a veda\u00e7\u00e3o de nova remi\u00e7\u00e3o pelo mesmo fato gerador, sob pena de configura\u00e7\u00e3o de indevido bis in idem. Assim, a remi\u00e7\u00e3o j\u00e1 concedida pela aprova\u00e7\u00e3o no ENCCEJA de determinado n\u00edvel (ensino fundamental ou m\u00e9dio) impede nova remi\u00e7\u00e3o pela aprova\u00e7\u00e3o no mesmo exame, para o mesmo n\u00edvel, em edi\u00e7\u00e3o posterior. De igual modo, o apenado que j\u00e1 obteve remi\u00e7\u00e3o pela aprova\u00e7\u00e3o no ENEM em determinada edi\u00e7\u00e3o n\u00e3o faz jus \u00e0 nova remi\u00e7\u00e3o pela aprova\u00e7\u00e3o no mesmo exame em edi\u00e7\u00e3o posterior, porquanto a repeti\u00e7\u00e3o do exame, ainda que com esfor\u00e7o renovado, n\u00e3o configura acr\u00e9scimo pedag\u00f3gico que autorize novo c\u00f4mputo de dias remidos. Trata-se de id\u00eantico n\u00edvel de ensino e mesmas \u00e1reas do conhecimento, o que caracteriza identidade do fato gerador. Importa ressaltar, contudo, que a veda\u00e7\u00e3o do bis in idem n\u00e3o impede acumula\u00e7\u00e3o de remi\u00e7\u00f5es quando fundadas em fatos geradores distintos. Assim, o apenado que obtiver remi\u00e7\u00e3o pelo ENCCEJA relativo ao ensino m\u00e9dio pode, posteriormente, buscar remi\u00e7\u00e3o pela aprova\u00e7\u00e3o no ENEM, pois se trata de exames com prop\u00f3sitos, graus de complexidade e objetos distintos. Da mesma forma, o apenado que obteve remi\u00e7\u00e3o pelo ENCCEJA referente ao ensino fundamental pode buscar remi\u00e7\u00e3o pelo ENCCEJA do ensino m\u00e9dio, porquanto se trata de n\u00edveis de ensino distintos, representando avan\u00e7o educacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ante o exposto, fixam-se as seguintes teses para o tema 1357\/STJ:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; 1. \u00c9 cab\u00edvel a remi\u00e7\u00e3o da pena por aprova\u00e7\u00e3o no Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio (ENEM), ainda que o sentenciado tenha conclu\u00eddo o ensino m\u00e9dio anteriormente ao in\u00edcio do cumprimento da pena, pois a aprova\u00e7\u00e3o no exame demanda estudo por conta pr\u00f3pria e representa fato gerador distinto da mera certifica\u00e7\u00e3o de conclus\u00e3o do ensino m\u00e9dio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; 2. \u00c9 cab\u00edvel a remi\u00e7\u00e3o da pena pela aprova\u00e7\u00e3o no Exame Nacional para Certifica\u00e7\u00e3o de Compet\u00eancias de Jovens e Adultos (ENCCEJA), ainda que o sentenciado j\u00e1 possu\u00edsse, ao ingressar no sistema prisional, certifica\u00e7\u00e3o de conclus\u00e3o do mesmo n\u00edvel de ensino avaliado, pois a aprova\u00e7\u00e3o no exame durante o cumprimento da pena configura esfor\u00e7o educacional aut\u00f4nomo apto a justificar a remi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; 3. N\u00e3o \u00e9 cab\u00edvel nova remi\u00e7\u00e3o de pena quando o fato gerador educacional &#8211; aprova\u00e7\u00e3o em exame ou conclus\u00e3o de n\u00edvel de ensino &#8211; j\u00e1 tiver sido integralmente utilizado para remi\u00e7\u00e3o anteriormente concedida na mesma execu\u00e7\u00e3o penal, configurando-se, na hip\u00f3tese, indevido bis in idem.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-2-nbsp-percentuais-de-progressao-na-execucao-unificada\" class=\"wp-block-heading\">2.&nbsp; PERCENTUAIS DE PROGRESS\u00c3O NA EXECU\u00c7\u00c3O UNIFICADA<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>\u00c9 poss\u00edvel, para o c\u00e1lculo da progress\u00e3o de regime, aplicar percentuais distintos a cada condena\u00e7\u00e3o isoladamente, em uma mesma execu\u00e7\u00e3o unificada<\/strong>, reconhecendo-se a retroatividade da Lei n. 13.964\/2019 e a ultratividade da reda\u00e7\u00e3o anterior do art. 112 da LEP, em respeito \u00e0 norma mais favor\u00e1vel ao executado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 2.072.985-DF, REsp 2.082.712-MG, REsp 2.117.779-MG, REsp 2.073.005-MG e REsp 2.082.999-MG, Rel. Min. Carlos Cini Marchionatti (Rel. p\/ ac\u00f3rd\u00e3o Min. Reynaldo Soares da Fonseca), Terceira Se\u00e7\u00e3o, por maioria, julgado em 18\/6\/2026 (Tema 1357).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seu Madruga cumpre pena em execu\u00e7\u00e3o unificada, somando uma condena\u00e7\u00e3o por crime comum (com reincid\u00eancia) anterior \u00e0 Lei n. 13.964\/2019 e outra por crime hediondo. A Lei n. 13.964\/2019 alterou os percentuais de progress\u00e3o do art. 112 da LEP: tornou mais gravosa a fra\u00e7\u00e3o do reincidente em crime comum (de 1\/6 para 20%) e mais ben\u00e9fica a do hediondo sem reincid\u00eancia espec\u00edfica. A discuss\u00e3o \u00e9 se se deveria aplicar a reda\u00e7\u00e3o atual de forma uniforme a toda a execu\u00e7\u00e3o ou calcular cada condena\u00e7\u00e3o com o percentual que lhe \u00e9 mais favor\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>LEP, art. 112 (reda\u00e7\u00e3o da Lei n. 13.964\/2019)<\/strong><em> (percentuais objetivos de progress\u00e3o para crimes comuns e hediondos).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>LEP, art. 111, par\u00e1grafo \u00fanico<\/strong><em> (unifica\u00e7\u00e3o das penas na execu\u00e7\u00e3o).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CF, art. 5\u00ba, XL<\/strong><em> (irretroatividade da lei penal mais gravosa; retroatividade da mais ben\u00e9fica).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CF, art. 5\u00ba, XLVI; STJ, Tema 1084<\/strong><em> (individualiza\u00e7\u00e3o da pena; retroatividade da norma mais ben\u00e9fica na progress\u00e3o).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda A individualiza\u00e7\u00e3o da pena e a retroatividade da lei penal ben\u00e9fica incidem na execu\u00e7\u00e3o. Cada condena\u00e7\u00e3o conserva autonomia quanto aos requisitos objetivos dos benef\u00edcios, mesmo na execu\u00e7\u00e3o unificada: aplicar a cada uma o percentual que lhe \u00e9 mais favor\u00e1vel n\u00e3o configura lex tertia, pois se observa integralmente o regime jur\u00eddico de cada fato criminoso, sem recortar e combinar dispositivos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd Aplicar a reda\u00e7\u00e3o atual do art. 112 de forma uniforme a toda a execu\u00e7\u00e3o, alcan\u00e7ando crimes comuns pret\u00e9ritos, imporia a fra\u00e7\u00e3o de 20% em lugar de 1\/6 vigente ao tempo do fato &#8211; violando a irretroatividade da lei penal mais gravosa (CF, art. 5\u00ba, XL). A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 dupla: retroatividade dos percentuais mais ben\u00e9ficos aos crimes hediondos e ultratividade da reda\u00e7\u00e3o anterior, mais ben\u00e9fica, aos crimes comuns pret\u00e9ritos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 Individualiza\u00e7\u00e3o da pena e retroatividade ben\u00e9fica n\u00e3o param na senten\u00e7a &#8211; operam na execu\u00e7\u00e3o. <strong>Cada condena\u00e7\u00e3o conserva autonomia quanto aos benef\u00edcios e requisitos objetivos, ainda que reunida em execu\u00e7\u00e3o unificada<\/strong>; a unifica\u00e7\u00e3o (LEP, art. 111, par\u00e1grafo \u00fanico) organiza o cumprimento, mas n\u00e3o apaga as peculiaridades de cada fato criminoso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f Calcular cada condena\u00e7\u00e3o pelo percentual que lhe \u00e9 pr\u00f3prio n\u00e3o \u00e9 combinar leis. <strong>N\u00e3o h\u00e1 lex tertia, porque se aplica a cada delito a integralidade do regime jur\u00eddico que lhe corresponde &#8211; e n\u00e3o um recorte que mescle o mais favor\u00e1vel de normas diversas sobre o mesmo fato<\/strong>. Preserva-se a natureza de cada crime dentro do processo \u00fanico de execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A aplica\u00e7\u00e3o uniforme da reda\u00e7\u00e3o atual trope\u00e7aria na irretroatividade. <strong>Impor a fra\u00e7\u00e3o de 20% da Lei n. 13.964\/2019 ao crime comum praticado quando vigia a fra\u00e7\u00e3o de 1\/6 agravaria retroativamente a situa\u00e7\u00e3o do apenado, em afronta ao art. 5\u00ba, XL, da CF<\/strong>; a lei penal mais gravosa n\u00e3o retroage, nem mesmo sob o argumento de racionalizar a execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f Da\u00ed a dupla incid\u00eancia temporal que a tese assegura. <strong>Retroagem os percentuais mais ben\u00e9ficos aos crimes hediondos (Tema 1084\/STJ) e subsiste (ultratividade) a reda\u00e7\u00e3o anterior, mais favor\u00e1vel, para os crimes comuns pret\u00e9ritos<\/strong> &#8211; cada condena\u00e7\u00e3o regida pela norma que lhe \u00e9 mais ben\u00e9fica, com proporcionalidade e sem tratamento anti-ison\u00f4mico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quanto ao c\u00e1lculo da progress\u00e3o de regime, na execu\u00e7\u00e3o que unifica condena\u00e7\u00e3o por crime comum anterior \u00e0 Lei n. 13.964\/2019 e condena\u00e7\u00e3o por crime hediondo:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) aplicam-se a cada condena\u00e7\u00e3o, isoladamente, os percentuais que lhe forem mais favor\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) aplica-se a reda\u00e7\u00e3o atual do art. 112 da LEP, de forma uniforme, a toda a execu\u00e7\u00e3o unificada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) aplica-se a reda\u00e7\u00e3o anterior do art. 112 da LEP a ambas as condena\u00e7\u00f5es, por ser a regra do in\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) o c\u00e1lculo por condena\u00e7\u00e3o configura lex tertia, vedada a combina\u00e7\u00e3o de leis penais no tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) unificadas as penas, prevalece o percentual da condena\u00e7\u00e3o do crime de maior gravidade sobre os demais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) <strong>Correta.<\/strong> Cada condena\u00e7\u00e3o conserva autonomia na execu\u00e7\u00e3o unificada: aplica-se a cada uma o percentual mais favor\u00e1vel &#8211; retroatividade da Lei n. 13.964\/2019 ao hediondo e ultratividade da reda\u00e7\u00e3o anterior ao crime comum pret\u00e9rito -, sem configurar lex tertia (CF, art. 5\u00ba, XL e XLVI; Tema 1084\/STJ).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. Aplicar a reda\u00e7\u00e3o atual a toda a execu\u00e7\u00e3o imporia 20% ao crime comum pret\u00e9rito (antes 1\/6), agravando retroativamente a pena, o que viola a irretroatividade da lei penal mais gravosa (CF, art. 5\u00ba, XL).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. A reda\u00e7\u00e3o anterior n\u00e3o se aplica ao hediondo, para o qual a nova \u00e9 mais ben\u00e9fica e deve retroagir; cada condena\u00e7\u00e3o segue a norma que lhe \u00e9 mais favor\u00e1vel, n\u00e3o uma regra \u00fanica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. N\u00e3o h\u00e1 lex tertia: aplica-se a cada condena\u00e7\u00e3o a integralidade do regime que lhe corresponde, sem mesclar dispositivos de leis diversas sobre um mesmo fato.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. A unifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o faz prevalecer o percentual do crime mais grave sobre os demais; preserva-se a autonomia de cada condena\u00e7\u00e3o e a norma mais favor\u00e1vel a cada uma.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-0\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A quest\u00e3o submetida ao rito dos recursos repetitivos consiste em definir se \u00e9 poss\u00edvel aplicar retroativamente os percentuais da Lei n. 13.964\/2019 a cada condena\u00e7\u00e3o isoladamente, em uma mesma execu\u00e7\u00e3o unificada, para fins de c\u00e1lculo da progress\u00e3o de regime, observando-se a norma mais favor\u00e1vel ao executado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A Lei n. 13.964\/2019 (Pacote Anticrime) reuniu, no art. 112 da Lei de Execu\u00e7\u00e3o Penal &#8211; LEP, percentuais objetivos para progress\u00e3o aplic\u00e1veis a crimes comuns e a crimes hediondos ou equiparados, com efeitos diversos no tempo. A modifica\u00e7\u00e3o tornou mais gravosa a fra\u00e7\u00e3o para reincidentes em crimes comuns (20% em vez de 1\/6) e mais ben\u00e9fica para hediondos sem reincid\u00eancia espec\u00edfica, impondo-se a irretroatividade da lei penal mais gravosa para crimes comuns e a retroatividade da norma mais ben\u00e9fica para crimes hediondos, consoante estabelecido no Tema 1084\/STJ.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os princ\u00edpios da individualiza\u00e7\u00e3o da pena e da retroatividade da lei penal ben\u00e9fica incidem na execu\u00e7\u00e3o penal. Cada condena\u00e7\u00e3o conserva autonomia quanto aos benef\u00edcios e requisitos objetivos, mesmo em execu\u00e7\u00e3o unificada, de modo que o c\u00e1lculo por condena\u00e7\u00e3o n\u00e3o constitui lex tertia, por observar a integralidade do regime jur\u00eddico aplic\u00e1vel a cada fato criminoso. A pondera\u00e7\u00e3o entre a unifica\u00e7\u00e3o das penas (art. 111, par\u00e1grafo \u00fanico, da LEP) e a individualiza\u00e7\u00e3o da pena recomenda preservar a racionalidade da execu\u00e7\u00e3o sem suprimir as peculiaridades de cada condena\u00e7\u00e3o, evitando tratamento anti-ison\u00f4mico e esvaziamento de direitos subjetivos mediante novatio legis. Assim, percentuais distintos por condena\u00e7\u00e3o asseguram proporcionalidade e respeito \u00e0 norma mais favor\u00e1vel ao executado. Por isso, permitir a incid\u00eancia retroativa dos percentuais mais ben\u00e9ficos, previstos atualmente para a progress\u00e3o criminal no art. 112 da LEP, assim como resguardar a ultratividade dos percentuais mais ben\u00e9ficos previstos na reda\u00e7\u00e3o anterior do mesmo dispositivo legal, n\u00e3o corresponde \u00e0 combina\u00e7\u00e3o de leis, posto que se busca reconhecer a autonomia de cada condena\u00e7\u00e3o atribu\u00edda ao apenado, preservando a natureza de cada delito, ainda que submetido a um processo \u00fanico de execu\u00e7\u00e3o, garantindo-lhe a incid\u00eancia da norma penal que seja mais favor\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Dessa forma, a aplica\u00e7\u00e3o uniforme e integral da reda\u00e7\u00e3o atual do art. 112 da Lei n. 7.210\/1984 \u00e0 execu\u00e7\u00e3o unificada, para alcan\u00e7ar tamb\u00e9m crimes comuns pret\u00e9ritos, viola o direito fundamental \u00e0 irretroatividade da lei penal mais gravosa (art. 5, XL, da Constitu\u00e7\u00e3o Federal &#8211; CF), por impor fra\u00e7\u00e3o de 20% em substitui\u00e7\u00e3o a 1\/6 vigente ao tempo do fato para o apenado condenado por crime comum.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ante o exposto, fixa-se a seguinte tese para o Tema 1354\/STJ: \u00c9 poss\u00edvel, para fins de c\u00e1lculo para progress\u00e3o de regime, a aplica\u00e7\u00e3o de percentuais distintos para cada condena\u00e7\u00e3o isoladamente, em uma mesma execu\u00e7\u00e3o, reconhecendo-se a retroatividade da Lei n. 13.964\/2019 e a ultratividade da reda\u00e7\u00e3o anterior do art. 112 da Lei de Execu\u00e7\u00e3o Penal, em respeito \u00e0 norma mais favor\u00e1vel ao executado.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-3-nbsp-concurso-de-peculato-corrupcao-e-lavagem\" class=\"wp-block-heading\">3.&nbsp; CONCURSO DE PECULATO, CORRUP\u00c7\u00c3O E LAVAGEM<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>N\u00e3o h\u00e1 bis in idem na imputa\u00e7\u00e3o de peculato-desvio e corrup\u00e7\u00e3o passiva, nem de fraude \u00e0 licita\u00e7\u00e3o e corrup\u00e7\u00e3o passiva, quando a den\u00fancia individualiza os delitos<\/strong>; e a coincid\u00eancia temporal entre o recebimento de vantagem indevida (corrup\u00e7\u00e3o) e os atos de oculta\u00e7\u00e3o ou dissimula\u00e7\u00e3o (lavagem de capitais) n\u00e3o imp\u00f5e crime \u00fanico, se atingida a tipicidade objetiva e subjetiva pr\u00f3pria da lavagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">APn 1.076-DF, Rel. Min. Nancy Andrighi, Corte Especial, por maioria, julgado em 6\/5\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seu Barriga, funcion\u00e1rio p\u00fablico, foi denunciado por peculato-desvio (destinou verba p\u00fablica a finalidade diversa da legal, em benef\u00edcio pr\u00f3prio), corrup\u00e7\u00e3o passiva (recebeu vantagem indevida ligada \u00e0 execu\u00e7\u00e3o de um contrato), fraude \u00e0 licita\u00e7\u00e3o e lavagem de dinheiro (beneficiou um concorrente no processo e ocultou os valores recebidos para tanto). A defesa sustentou bis in idem &#8211; os fatos seriam um s\u00f3, punido em duplicidade &#8211; e pediu que a lavagem fosse absorvida pela corrup\u00e7\u00e3o, dada a proximidade temporal entre receber a vantagem e ocult\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CP, art. 312<\/strong><em> (peculato-desvio: dar ao bem p\u00fablico destina\u00e7\u00e3o diversa da legal, em proveito pr\u00f3prio ou alheio).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CP, art. 317, \u00a7 1\u00ba<\/strong><em> (corrup\u00e7\u00e3o passiva; puni\u00e7\u00e3o mais rigorosa de quem realiza o ato priorizando interesse particular).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n. 9.613\/1998<\/strong><em> (lavagem de dinheiro: ocultar ou dissimular a origem de valores de infra\u00e7\u00e3o penal).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>princ\u00edpio ne bis in idem<\/strong><em> (veda\u00e7\u00e3o \u00e0 dupla puni\u00e7\u00e3o pelo mesmo fato).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda O ne bis in idem veda punir duas vezes o mesmo fato &#8211; n\u00e3o a puni\u00e7\u00e3o de fatos distintos inseridos em contexto comum. Quando a den\u00fancia individualiza as condutas (o desvio da verba, o recebimento da vantagem, a fraude ao certame), h\u00e1 viola\u00e7\u00e3o a bens jur\u00eddicos por a\u00e7\u00f5es t\u00edpicas diversas: os crimes coexistem em concurso, cada um com seu pr\u00f3prio substrato f\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd A lavagem tem autonomia t\u00edpica em rela\u00e7\u00e3o ao crime antecedente. A mera coincid\u00eancia temporal entre receber a vantagem (corrup\u00e7\u00e3o) e ocult\u00e1-la (lavagem) n\u00e3o funde os delitos: se os atos de oculta\u00e7\u00e3o, dissimula\u00e7\u00e3o ou integra\u00e7\u00e3o preenchem a tipicidade objetiva e subjetiva pr\u00f3pria da lavagem, ela subsiste como crime aut\u00f4nomo &#8211; n\u00e3o \u00e9 simples exaurimento da corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O ne bis in idem protege contra a dupla puni\u00e7\u00e3o do mesmo fato, n\u00e3o contra a puni\u00e7\u00e3o de fatos diversos. <strong>Quando a den\u00fancia individualiza as condutas, o desvio da verba p\u00fablica (peculato) e o recebimento de vantagem ligada ao contrato (corrup\u00e7\u00e3o) s\u00e3o a\u00e7\u00f5es t\u00edpicas distintas, com substratos f\u00e1ticos pr\u00f3prios<\/strong> &#8211; coexistem, ainda que no mesmo cen\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f O mesmo vale para a fraude \u00e0 licita\u00e7\u00e3o somada \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o. <strong>O art. 317, \u00a7 1\u00ba, do CP busca punir com maior rigor o agente que efetivamente realiza o ato priorizando o interesse particular; frustrar o car\u00e1ter competitivo do certame e, al\u00e9m disso, aceitar vantagem para tanto configuram delitos aut\u00f4nomos<\/strong>, sem que a puni\u00e7\u00e3o de um absorva a do outro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A lavagem n\u00e3o se dilui na corrup\u00e7\u00e3o pela simples sequ\u00eancia temporal. <strong>A coincid\u00eancia entre o momento de receber a vantagem e o de ocult\u00e1-la ou dissimul\u00e1-la n\u00e3o autoriza reconhecer crime \u00fanico<\/strong>; os atos de mascaramento t\u00eam objetividade jur\u00eddica pr\u00f3pria &#8211; a tutela da ordem econ\u00f4mica e da administra\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a -, distinta da corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f O crit\u00e9rio decisivo \u00e9 a tipicidade aut\u00f4noma da lavagem. <strong>Se os atos de oculta\u00e7\u00e3o, dissimula\u00e7\u00e3o ou integra\u00e7\u00e3o atingem a tipicidade objetiva e subjetiva pr\u00f3pria do delito de lavagem, ele subsiste como crime aut\u00f4nomo, e n\u00e3o como mero exaurimento da corrup\u00e7\u00e3o<\/strong>. A absor\u00e7\u00e3o s\u00f3 ocorreria se a oculta\u00e7\u00e3o fosse etapa necess\u00e1ria e indissoci\u00e1vel do crime antecedente &#8211; o que aqui n\u00e3o se d\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quanto \u00e0 imputa\u00e7\u00e3o cumulada de peculato, corrup\u00e7\u00e3o passiva, fraude \u00e0 licita\u00e7\u00e3o e lavagem de capitais na mesma den\u00fancia:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) configura bis in idem, por punir em duplicidade fatos inseridos em um mesmo contexto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) imp\u00f5e a absor\u00e7\u00e3o da corrup\u00e7\u00e3o pelo peculato, por ser este o crime-fim da conduta funcional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) imp\u00f5e crime \u00fanico entre corrup\u00e7\u00e3o e lavagem, ante a coincid\u00eancia temporal dos atos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) exige a unifica\u00e7\u00e3o dos delitos contra a Administra\u00e7\u00e3o em tipo penal complexo \u00fanico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) n\u00e3o ofende o ne bis in idem se descritos de forma individualizada na den\u00fancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. N\u00e3o h\u00e1 bis in idem: o princ\u00edpio veda dupla puni\u00e7\u00e3o do mesmo fato, n\u00e3o a puni\u00e7\u00e3o de condutas distintas (desvio, recebimento de vantagem, fraude ao certame) individualizadas na den\u00fancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. Peculato e corrup\u00e7\u00e3o t\u00eam substratos f\u00e1ticos pr\u00f3prios e coexistem; n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o de crime-meio e crime-fim que imponha a absor\u00e7\u00e3o de um pelo outro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. A coincid\u00eancia temporal entre receber a vantagem e ocult\u00e1-la n\u00e3o funde corrup\u00e7\u00e3o e lavagem; atingida a tipicidade pr\u00f3pria da lavagem, ela \u00e9 aut\u00f4noma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. N\u00e3o h\u00e1 tipo complexo que unifique os delitos contra a Administra\u00e7\u00e3o; cada crime conserva sua tipicidade e \u00e9 imputado autonomamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) <strong>Correta.<\/strong> Individualizadas as condutas, os delitos s\u00e3o aut\u00f4nomos e coexistem, sem bis in idem; a lavagem subsiste como crime pr\u00f3prio se os atos de oculta\u00e7\u00e3o\/dissimula\u00e7\u00e3o atingem sua tipicidade objetiva e subjetiva, ainda que temporalmente pr\u00f3ximos da corrup\u00e7\u00e3o (CP, arts. 312 e 317; Lei n. 9.613\/1998).<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-1\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cinge-se a controv\u00e9rsia a analisar i) se houve bis in idem ao imputar ao denunciado os delitos de peculato-desvio e de corrup\u00e7\u00e3o passiva, bem como ao imputar-lhe o crime de fraude \u00e0 licita\u00e7\u00e3o e corrup\u00e7\u00e3o passiva; e ii) se os delitos de corrup\u00e7\u00e3o passiva, lavagem de dinheiro e fraude \u00e0 licita\u00e7\u00e3o possuem autonomia t\u00edpica ou devem ser absorvidos pelo crime-fim de peculato. Inicialmente, n\u00e3o houve qualquer bis in idem ao imputar ao denunciado os delitos de peculato-desvio e de corrup\u00e7\u00e3o passiva, j\u00e1 que a den\u00fancia tratou os mencionados delitos de forma individualizada ao estabelecer a configura\u00e7\u00e3o da corrup\u00e7\u00e3o a partir da percep\u00e7\u00e3o de vantagem indevida decorrente da execu\u00e7\u00e3o de contrato. O peculato-desvio foi imputado ao denunciado em virtude da destina\u00e7\u00e3o diversa da legalmente prevista do dinheiro p\u00fablico. Isso porque, nessa esp\u00e9cie de peculato, o funcion\u00e1rio emprega ao objeto material uma aplica\u00e7\u00e3o diversa daquela que lhe foi determinada, em benef\u00edcio pr\u00f3prio ou de terceiros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os fatos descritos na den\u00fancia correspondem a mais de um tipo penal, j\u00e1 que houve viola\u00e7\u00e3o ao bem jur\u00eddico protegido por meio de diversas condutas t\u00edpicas, devidamente detalhadas. Dessa forma, embora inseridos em contexto f\u00e1tico semelhante, os crimes atribu\u00eddos s\u00e3o distintos entre si. Nesse sentido, recente julgado da Corte Especial: APn n. 989\/DF, Corte Especial, julgado em 13\/3\/2025, DJEN de 4\/4\/2025. No mesmo sentido: RHC n. 83.586\/RJ, Quinta Turma, julgado em 24\/4\/2018, DJe de 11\/5\/2018.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No mesmo diapas\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 que se cogitar de viola\u00e7\u00e3o ao princ\u00edpio do ne bis in idem em raz\u00e3o da imputa\u00e7\u00e3o do crime tipificado no art. 89 da Lei n. 8.666\/1993, j\u00e1 que, conforme julgado do Superior Tribunal de Justi\u00e7a, o art. 317, 1, do C\u00f3digo Penal busca punir com maior rigor o agente que efetivamente realiza o ato priorizando interesse particular. Em situa\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 destes autos (imputa\u00e7\u00e3o dos crimes previstos no art. 90 da Lei n. 8.666\/1993 e no art. 317 do C\u00f3digo Penal), a Sexta Turma do STJ posicionou-se da seguinte forma: &#8220;Na hip\u00f3tese, o agente, na condi\u00e7\u00e3o de prefeito, n\u00e3o s\u00f3 contribuiu para frustrar o car\u00e1ter competitivo da licita\u00e7\u00e3o &#8211; incidindo assim no tipo previsto no art. 90 da Lei de Licita\u00e7\u00f5es em vigor \u00e0 \u00e9poca, ou seja, delito contra a Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica -, como o fez mediante aceite de vantagem il\u00edcita para praticar ato, o que se configura delito aut\u00f4nomo, al\u00e9m de desvio de conduta funcional e de probidade; afastada, portanto, qualquer possibilidade de infra\u00e7\u00e3o ao princ\u00edpio do ne bis in idem, porquanto a causa de aumento prevista no 1 do art. 317 do CP n\u00e3o seria meio necess\u00e1rio para a pr\u00e1tica do outro delito, mas somente elemento acidental do fato em comento. [&#8230;] (AgRg no REsp n. 1.825.536\/RJ, Sexta Turma, julgado em 13\/2\/2023, DJe de 16\/2\/2023)&#8221;. No que concerne \u00e0 pretens\u00e3o de absor\u00e7\u00e3o dos delitos de corrup\u00e7\u00e3o passiva, lavagem de dinheiro e fraude \u00e0 licita\u00e7\u00e3o, no caso, restou devidamente demonstrado na den\u00fancia que os atos de lavagem de capitais atribu\u00eddos aos denunciados derivam de infra\u00e7\u00f5es anteriores de peculato, corrup\u00e7\u00e3o passiva e participa\u00e7\u00e3o em organiza\u00e7\u00e3o criminosa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com efeito, as movimenta\u00e7\u00f5es financeiras indicadas pela acusa\u00e7\u00e3o foram praticadas de forma aut\u00f4noma em rela\u00e7\u00e3o aos crimes antecedentes e utilizadas como forma de oculta\u00e7\u00e3o da origem criminosa dos valores, mediante distanciamento do dinheiro da sua fonte il\u00edcita por meio da transfer\u00eancia de titularidade de quantias vultosas entre contas banc\u00e1rias de titularidade de terceiros, mas controladas pelo acusado e seu irm\u00e3o, sendo patente a tipicidade da conduta. Nesse sentido: APn n. 923\/DF, Corte Especial, julgado em 23\/9\/2019, DJe de 26\/9\/2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Na mesma toada, a Segunda Turma da Suprema Corte (AP 996, DJe 8\/2\/2019) decidiu que &#8220;Verificada a autonomia entre o ato de recebimento de vantagem indevida oriunda do delito de corrup\u00e7\u00e3o passiva e a posterior a\u00e7\u00e3o para ocultar ou dissimular a sua origem, poss\u00edvel \u00e9 a configura\u00e7\u00e3o do crime de lavagem de capitais&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nos termos do decidido pelo STF, nos autos da AP 470 (Pleno, j. 17\/12\/2012), &#8220;A lavagem de dinheiro constitui crime aut\u00f4nomo em rela\u00e7\u00e3o aos crimes antecedentes, e n\u00e3o mero exaurimento do crime anterior. A lei de lavagem de dinheiro (Lei n. 9.613\/1998), ao prever a conduta delituosa descrita no seu art. 1, teve entre suas finalidades o objetivo de impedir que se obtivesse proveito a partir de recursos oriundos de crimes, como, no caso concreto, os crimes contra a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica [&#8230;]&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em situa\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 ora examinada, a Segunda Turma do STF concluiu da seguinte forma acerca da subsun\u00e7\u00e3o do delito de lavagem de capitais (AP 1.030\/DF, j. 22\/10\/2019): &#8220;A utiliza\u00e7\u00e3o abusiva da personalidade jur\u00eddica de sociedades empres\u00e1rias, constitu\u00eddas de forma deliberada para a utiliza\u00e7\u00e3o do produto de il\u00edcitos antecedentes e a sua posterior convers\u00e3o em ativos l\u00edcitos, mediante investimentos no mercado imobili\u00e1rio, \u00e9 conduta apta a configurar o delito de lavagem de capitais. [&#8230;] Conforme demonstra o conjunto probat\u00f3rio, al\u00e9m do v\u00ednculo familiar, os denunciados reuniram-se \u00e0 sua genitora, contando com o seu fundamental apoio para a pretendida convers\u00e3o do car\u00e1ter il\u00edcito das quantias auferidas a partir das pr\u00e1ticas delitivas antecedentes, seja mediante a cess\u00e3o do espa\u00e7o f\u00edsico apropriado para o seu armazenamento, seja pela integra\u00e7\u00e3o \u00e0s sociedades empres\u00e1rias formalizadas para os investimentos realizados no mercado imobili\u00e1rio, na qualidade de s\u00f3cia ou de administradora. Tais elementos de prova evidenciam que, nos epis\u00f3dios indicados na den\u00fancia, a rela\u00e7\u00e3o dos denunciados extrapola os v\u00ednculos familiares e negociais ordin\u00e1rios, visando, de forma inequ\u00edvoca, est\u00e1vel e duradoura a pr\u00e1tica de delitos de lavagem de capitais, somente interrompidos em virtude de eficaz a\u00e7\u00e3o estatal.&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No mesmo sentido, &#8220;A consun\u00e7\u00e3o constitui crit\u00e9rio de resolu\u00e7\u00e3o de conflito aparente de normas penais incidente em casos em que a norma consuntiva contemple e esgote o desvalor da consumida, em hip\u00f3tese de coapenamento de condutas. Assim, eventual coincid\u00eancia temporal entre o recebimento indireto de vantagem indevida, no campo da corrup\u00e7\u00e3o passiva, e a implementa\u00e7\u00e3o de atos aut\u00f4nomos de oculta\u00e7\u00e3o, dissimula\u00e7\u00e3o ou integra\u00e7\u00e3o na lavagem, n\u00e3o autoriza o reconhecimento de crime \u00fanico se atingida a tipicidade objetiva e subjetiva pr\u00f3pria do delito de lavagem.&#8221;. (HC 165.036, Segunda Turma, DJe 10\/3\/2020). Na mesma toada: STJ &#8211; AgRg no RHC n. 132.338\/PR, Sexta Turma, julgado em 10\/5\/2022, DJe de 16\/5\/2022; HC n. 436.024\/SP, Sexta Turma, julgado em 12\/6\/2018, DJe de 19\/6\/2018.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Verifica-se, ainda, que a Corte Especial do STJ, em recente julgado, examinou exaustivamente a quest\u00e3o e rejeitou a tese de absor\u00e7\u00e3o do delito de lavagem de dinheiro pelo crime contra a Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica. Confira-se: APn n. 989\/DF, Corte Especial, julgado em 13\/3\/2025, DJEN de 4\/4\/2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Neste ponto, a doutrina preceitua que &#8220;[&#8230;] \u00e9 absolutamente desarrazoado supor que o crime de corrup\u00e7\u00e3o passiva, previsto desde 1940, pudesse, de alguma forma, conter o de lavagem de capitais. Ademais, os bens jur\u00eddicos protegidos pelas normas em quest\u00e3o s\u00e3o diversos.&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No tocante ao momento consumativo, o STF j\u00e1 teve a oportunidade de classificar o crime de lavagem de dinheiro, na modalidade oculta\u00e7\u00e3o, como delito permanente. Confira-se: AP 863, Primeira Turma, j. 23\/5\/2017; HC 143.333, Pleno, j. 12\/4\/2018.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No que tange ao elemento subjetivo do tipo, a doutrina destaca que &#8220;[&#8230;] somente existe, no direito brasileiro, a criminaliza\u00e7\u00e3o da lavagem de dinheiro praticada na modalidade dolosa&#8221;. No mesmo diapas\u00e3o, outros autores afirmam que &#8220;O crime de lavagem de dinheiro, no Brasil, s\u00f3 pode ser realizado com dolo.&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Na situa\u00e7\u00e3o dos autos, constatou-se, a partir da prova produzida nos autos, que o acusado, imbu\u00eddo de dolo direto, praticou o delito ora examinado por 46 vezes, em raz\u00e3o de 3 (tr\u00eas) transfer\u00eancias realizadas pela empresa de constru\u00e7\u00e3o em benef\u00edcio de construtora, totalizando R$ 413.440,92 (quatrocentos e treze mil, quatrocentos e quarenta reais e noventa e dois centavos), pela oculta\u00e7\u00e3o do real destino da movimenta\u00e7\u00e3o e dos reais propriet\u00e1rios dos valores provenientes dos crimes antecedentes; (b) 6 (seis) transfer\u00eancias da empresa de constru\u00e7\u00e3o para a empresa de engenharia, totalizando R$ 1.185.000,00 (um milh\u00e3o, cento e oitenta e cinco mil reais), pela oculta\u00e7\u00e3o do real destino da movimenta\u00e7\u00e3o e dos reais propriet\u00e1rios; (c) 8 (oito) transfer\u00eancias da empresa de engenharia em benef\u00edcio da construtora, totalizando R$ 895.000,00 (oitocentos e noventa e cinco mil reais), pela oculta\u00e7\u00e3o do real destino da movimenta\u00e7\u00e3o e dos reais propriet\u00e1rios; (d) 14 (catorze) pagamentos de parcelas do financiamento de apartamento do ex-Governador e de sua ent\u00e3o esposa que ocultaram a propriedade do bem, totalizando R$ 1.094.804,28 (um milh\u00e3o, noventa e quatro mil, oitocentos e quatro reais e vinte e oito centavos), sendo que 11 (onze) parcelas foram pagas pela construtora (R$ 647.083,82) e 3 (tr\u00eas) foram pagas pela empresa de engenharia (R$ 447.720,46), atos que se somaram \u00e0 subscri\u00e7\u00e3o contratual e aos registros imobili\u00e1rios em nome de terceiros, tudo com o desiderato de ocultar a origem dos recursos il\u00edcitos e a real propriedade do im\u00f3vel, proveito auferido pela pr\u00e1tica dos crimes antecedentes; (e) 5 (cinco) transfer\u00eancias para terceiro totalizando R$ R$ 126.000,00 (cento e vinte e seis mil reais), sendo 2 (duas) transfer\u00eancias realizadas pela empresa de constru\u00e7\u00e3o (R$ 36.000,00), 1 (uma) pela empresa de engenharia (R$ 30.000,00) e 2 (duas) por uma terceira (R$ 60.000,00), justificando-se o fluxo financeiro por pessoas interpostas para ocultar a origem il\u00edcita e a propriedade dos valores.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-4-atuacao-da-policia-militar-em-manifestacoes\" class=\"wp-block-heading\">4. ATUA\u00c7\u00c3O DA POL\u00cdCIA MILITAR EM MANIFESTA\u00c7\u00d5ES<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante da omiss\u00e3o estatal em regulamentar a atua\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Militar em manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, <strong>o Estado deve elaborar plano dial\u00f3gico destinado ao protocolo de atua\u00e7\u00e3o da corpora\u00e7\u00e3o, a ser apresentado, acompanhado e aprovado pelo ju\u00edzo da execu\u00e7\u00e3o<\/strong>, sendo leg\u00edtima a interven\u00e7\u00e3o judicial sem ofensa \u00e0 separa\u00e7\u00e3o de Poderes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AREsp 2.068.297-SP, Rel. Min. Paulo S\u00e9rgio Domingues, Primeira Turma, por unanimidade, julgado em 16\/6\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Defensoria P\u00fablica do Estado de S\u00e3o Paulo ajuizou a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica contra o Estado de S\u00e3o Paulo, pretendendo a regulamenta\u00e7\u00e3o da atua\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Militar em manifesta\u00e7\u00f5es populares, com par\u00e2metros t\u00e9cnicos para o uso proporcional e progressivo da for\u00e7a, de modo a garantir os direitos de reuni\u00e3o e de livre manifesta\u00e7\u00e3o. O ac\u00f3rd\u00e3o recorrido dispensou o protocolo, ao fundamento de que imp\u00f4-lo seria interfer\u00eancia indevida do Judici\u00e1rio na Administra\u00e7\u00e3o. O Judici\u00e1rio pode determinar ao Estado a elabora\u00e7\u00e3o desse protocolo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CF, art. 5\u00ba, XVI<\/strong><em> (direito de reuni\u00e3o pac\u00edfica e sem armas, restring\u00edvel apenas nas hip\u00f3teses legais).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Pacto Internacional de Direitos Civis e Pol\u00edticos, art. 21; Pacto de S\u00e3o Jos\u00e9 da Costa Rica, art. 15<\/strong><em> (prote\u00e7\u00e3o do direito de reuni\u00e3o, limit\u00e1vel por seguran\u00e7a, sa\u00fade, moral e liberdades p\u00fablicas).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>separa\u00e7\u00e3o de Poderes; reserva do poss\u00edvel<\/strong><em> (limites &#8211; excepcionais &#8211; \u00e0 interven\u00e7\u00e3o judicial em pol\u00edticas p\u00fablicas).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda O direito de reuni\u00e3o pac\u00edfica \u00e9 garantia fundamental (CF, art. 5\u00ba, XVI; Pacto de S\u00e3o Jos\u00e9, art. 15), restring\u00edvel apenas nas hip\u00f3teses legais. A aus\u00eancia de protocolo que discipline o uso proporcional e progressivo da for\u00e7a em manifesta\u00e7\u00f5es \u00e9 omiss\u00e3o estatal que compromete o exerc\u00edcio desse direito &#8211; e omiss\u00e3o em dever constitucional pode ser sindicada pelo Judici\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd A interven\u00e7\u00e3o judicial em pol\u00edticas p\u00fablicas \u00e9 leg\u00edtima em situa\u00e7\u00f5es excepcionais, para assegurar direitos essenciais, sem violar a separa\u00e7\u00e3o de Poderes nem a reserva do poss\u00edvel. Tratando-se de lit\u00edgio estrutural &#8211; problema complexo e persistente por falha sist\u00eamica -, a solu\u00e7\u00e3o adequada n\u00e3o \u00e9 a ordem pontual, mas a constru\u00e7\u00e3o de um plano dial\u00f3gico, apresentado, acompanhado e aprovado pelo ju\u00edzo, com implementa\u00e7\u00e3o gradual e monitorada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O direito de reuni\u00e3o pac\u00edfica \u00e9 fundamental e s\u00f3 cede nas hip\u00f3teses legais. <strong>O art. 5\u00ba, XVI, da CF &#8211; refor\u00e7ado pelo art. 15 do Pacto de S\u00e3o Jos\u00e9 da Costa Rica &#8211; assegura a reuni\u00e3o pac\u00edfica e sem armas, restring\u00edvel apenas por lei, no interesse da seguran\u00e7a, da sa\u00fade, da moral e das liberdades p\u00fablicas<\/strong>; sua efetividade depende de balizas para a atua\u00e7\u00e3o policial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A falta dessas balizas \u00e9 omiss\u00e3o sindic\u00e1vel, n\u00e3o escolha imune ao controle. <strong>A aus\u00eancia de protocolo que defina o uso proporcional e progressivo da for\u00e7a em manifesta\u00e7\u00f5es configura omiss\u00e3o estatal que esvazia o direito de reuni\u00e3o<\/strong>; deixar de regulamentar um dever constitucional n\u00e3o \u00e9 espa\u00e7o livre da Administra\u00e7\u00e3o, mas falha suscet\u00edvel de corre\u00e7\u00e3o judicial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A interven\u00e7\u00e3o do Judici\u00e1rio, aqui, respeita a separa\u00e7\u00e3o de Poderes. <strong>A atua\u00e7\u00e3o judicial em pol\u00edticas p\u00fablicas \u00e9 leg\u00edtima em situa\u00e7\u00f5es excepcionais, para assegurar direitos constitucionais essenciais, sem afrontar a separa\u00e7\u00e3o de Poderes nem a reserva do poss\u00edvel<\/strong>; corrigir a omiss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 substituir o administrador, mas garantir o m\u00ednimo que a Constitui\u00e7\u00e3o imp\u00f5e.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A t\u00e9cnica adequada ao lit\u00edgio estrutural \u00e9 o plano dial\u00f3gico, n\u00e3o a ordem pontual. <strong>Diante de problema complexo e persistente, decorrente de falha sist\u00eamica, a solu\u00e7\u00e3o exige mudan\u00e7as coordenadas: por isso o Estado deve elaborar um plano dial\u00f3gico, apresentado, acompanhado e aprovado pelo ju\u00edzo da execu\u00e7\u00e3o, com implementa\u00e7\u00e3o gradual e monitorada<\/strong>. O Judici\u00e1rio fixa o dever e supervisiona; a Administra\u00e7\u00e3o constr\u00f3i e executa a solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quanto ao pedido de que o Estado regulamente a atua\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Militar em manifesta\u00e7\u00f5es, ante a omiss\u00e3o em disciplin\u00e1-la:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) h\u00e1 de ser rejeitado, por caracterizar interfer\u00eancia do Judici\u00e1rio vedada pela separa\u00e7\u00e3o de Poderes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) esbarra na iniciativa legislativa privativa do Executivo sobre a mat\u00e9ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) comporta ordem judicial de proibi\u00e7\u00e3o imediata do uso da for\u00e7a at\u00e9 que sobrevenha o protocolo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) autoriza a determina\u00e7\u00e3o de que o Estado elabore plano dial\u00f3gico aprovado pelo ju\u00edzo da execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) subordina-se \u00e0 pr\u00e9via dota\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria espec\u00edfica, sob pena de ofensa \u00e0 reserva do poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A interven\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 vedada: em situa\u00e7\u00f5es excepcionais, o Judici\u00e1rio pode corrigir omiss\u00e3o estatal em dever constitucional sem violar a separa\u00e7\u00e3o de Poderes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. N\u00e3o se trata de usurpar iniciativa legislativa, mas de sanar omiss\u00e3o administrativa na regulamenta\u00e7\u00e3o de um direito fundamental; o \u00f3bice invocado n\u00e3o impede a tutela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. A solu\u00e7\u00e3o do lit\u00edgio estrutural n\u00e3o \u00e9 a ordem pontual (proibir a for\u00e7a), mas a constru\u00e7\u00e3o monitorada de um protocolo; a proibi\u00e7\u00e3o imediata desatende \u00e0 complexidade do problema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) <strong>Correta.<\/strong> Configurada a omiss\u00e3o estatal, \u00e9 leg\u00edtimo determinar que o Estado elabore plano dial\u00f3gico para o protocolo de atua\u00e7\u00e3o da PM, apresentado, acompanhado e aprovado pelo ju\u00edzo da execu\u00e7\u00e3o &#8211; t\u00e9cnica adequada ao lit\u00edgio estrutural, sem ofensa \u00e0 separa\u00e7\u00e3o de Poderes (CF, art. 5\u00ba, XVI).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. A tutela do direito de reuni\u00e3o n\u00e3o fica condicionada a pr\u00e9via dota\u00e7\u00e3o espec\u00edfica; a reserva do poss\u00edvel n\u00e3o serve de escudo para a omiss\u00e3o em dever constitucional essencial.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-2\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cinge-se a controv\u00e9rsia \u00e0 a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica ajuizada pela Defensoria P\u00fablica do Estado de S\u00e3o Paulo contra o Estado de S\u00e3o Paulo visando \u00e0 regulamenta\u00e7\u00e3o da atua\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Militar em manifesta\u00e7\u00f5es populares, com a imposi\u00e7\u00e3o de par\u00e2metros t\u00e9cnicos para garantir o exerc\u00edcio dos direitos de reuni\u00e3o e livre manifesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; O ac\u00f3rd\u00e3o recorrido entendeu por dispensar o protocolo de atua\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Militar em manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, sob o argumento de interfer\u00eancia indevida do Poder Judici\u00e1rio. Assim, desconsiderou o direito de reuni\u00e3o pac\u00edfica e sem armas, cujo exerc\u00edcio somente ser\u00e1 restringido em hip\u00f3teses legalmente previstas, no interesse da seguran\u00e7a, da prote\u00e7\u00e3o da sa\u00fade, da moral e das liberdades p\u00fablicas, consoante os arts. 21 do Pacto Internacional de Direitos Civis e Pol\u00edticos e 15 do Pacto de S\u00e3o Jos\u00e9 da Costa Rica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com efeito, a liberdade de manifesta\u00e7\u00e3o e o direito de reuni\u00e3o s\u00e3o garantias constitucionais fundamentais, mas devem ser exercidos de forma pac\u00edfica e sem armas, respeitando outros direitos fundamentais, nos termos do art. 5, inciso XVI, da Constitui\u00e7\u00e3o Federal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesse contexto, a interven\u00e7\u00e3o judicial em pol\u00edticas p\u00fablicas \u00e9 leg\u00edtima em situa\u00e7\u00f5es excepcionais, especialmente para assegurar direitos constitucionalmente reconhecidos como essenciais, sem violar os princ\u00edpios da separa\u00e7\u00e3o de poderes e da reserva do poss\u00edvel, conforme entendem o Supremo Tribunal Federal e o Superior Tribunal de Justi\u00e7a (AI 739.151 AgR, relatora Ministra Rosa Weber, DJe de 11\/6\/2014; e REsp 2.148.895\/PR, relator Ministro Marco Aur\u00e9lio Bellizze, Segunda Turma, julgado em 12\/8\/2025, DJEN de 25\/8\/2025).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, a aus\u00eancia de regulamenta\u00e7\u00e3o da atua\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Militar em manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e a inexist\u00eancia de protocolos que definam par\u00e2metros t\u00e9cnicos para o uso proporcional e progressivo da for\u00e7a configuram omiss\u00e3o estatal que legitima a interven\u00e7\u00e3o judicial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ressalta-se que a discuss\u00e3o acerca da imposi\u00e7\u00e3o ao ente federativo do cumprimento da obriga\u00e7\u00e3o legal de regulamenta\u00e7\u00e3o da atua\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Militar em manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, com a ado\u00e7\u00e3o de protocolos que garantam o exerc\u00edcio efetivo dos direitos de reuni\u00e3o e livre manifesta\u00e7\u00e3o, sem excessos ou restri\u00e7\u00f5es desproporcionais, \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o complexa e persistente que decorre de falhas sist\u00eamicas em institui\u00e7\u00f5es ou pol\u00edticas p\u00fablicas, cuja solu\u00e7\u00e3o exige mudan\u00e7as organizacionais, normativas e operacionais coordenadas, demandando interven\u00e7\u00f5es graduais e monitoradas pelo Poder Judici\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; O entendimento do STF e do STJ preconiza que a solu\u00e7\u00e3o para esses casos de interven\u00e7\u00e3o do Poder Judici\u00e1rio em pol\u00edticas p\u00fablicas deve privilegiar a ado\u00e7\u00e3o de provid\u00eancias de natureza estrutural, orientadas \u00e0 supera\u00e7\u00e3o das defici\u00eancias institucionais que comprometem a efetiva\u00e7\u00e3o do direito fundamental em debate.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; De fato, a discuss\u00e3o acerca da interven\u00e7\u00e3o do Poder Judici\u00e1rio na pol\u00edtica p\u00fablica de seguran\u00e7a p\u00fablica e a necessidade de imposi\u00e7\u00e3o ao ente federativo de obriga\u00e7\u00f5es para garantir \u00e0 popula\u00e7\u00e3o a correta e adequada frui\u00e7\u00e3o do direito fundamental de reuni\u00e3o e manifesta\u00e7\u00e3o caracterizam um problema estrutural, tendo em vista que \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o complexa e persistente que decorre de falhas sist\u00eamicas em institui\u00e7\u00f5es ou pol\u00edticas, cuja solu\u00e7\u00e3o exige mudan\u00e7as organizacionais, normativas e operacionais coordenadas, demandando interven\u00e7\u00f5es graduais e monitoradas pelo Poder Judici\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A pretens\u00e3o da Defensoria P\u00fablica estadual n\u00e3o visa impedir a atua\u00e7\u00e3o estatal, mas trazer balizas orientadoras para delimita\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es em que a for\u00e7a policial poder\u00e1 e dever\u00e1 agir, privilegiando o uso proporcional e progressivo da for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, na presente a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica, deve-se harmonizar direitos em conflito e n\u00e3o garantir o exerc\u00edcio irrestrito e ilimitado do direito de reuni\u00e3o ou manifesta\u00e7\u00e3o, objetivando a adequa\u00e7\u00e3o dos protocolos de atua\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia militar durante as manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Portanto, a melhor solu\u00e7\u00e3o a ser adotada no caso em exame consiste n\u00e3o simplesmente na emiss\u00e3o de um comando condenat\u00f3rio \u00fanico; ao contr\u00e1rio, como o problema \u00e9 altamente complexo, a solu\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m h\u00e1 de s\u00ea-lo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Desse modo, deve-se determinar ao Estado de S\u00e3o Paulo que elabore um plano dial\u00f3gico destinado \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o do protocolo de atua\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Militar do Estado de S\u00e3o Paulo, o qual dever\u00e1 ser apresentado, acompanhado e aprovado pelo Ju\u00edzo da execu\u00e7\u00e3o, observando-se, no m\u00ednimo, as seguintes diretrizes:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; (1) elabora\u00e7\u00e3o de um diagn\u00f3stico inicial pelo ente federativo estadual, a ser apresentado ao Ju\u00edzo a quo, no prazo de 60 (sessenta) dias corridos, com o levantamento dos problemas estruturais relacionados \u00e0 atua\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Militar do Estado de S\u00e3o Paulo em policiamento ostensivo de manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; (2) elabora\u00e7\u00e3o de um protocolo de autua\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Militar do Estado de S\u00e3o Paulo, em atos e manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, a ser apresentado ao Ju\u00edzo a quo, no prazo subsequente de 60 (sessenta) dias corridos, contendo orienta\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas m\u00ednimas. (3) o protocolo dever\u00e1 estabelecer um novo conjunto de princ\u00edpios para seguran\u00e7a p\u00fablica paulista, orientado para o respeito \u00e0 cidadania e \u00e0 dignidade humana: \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da liberdade, da justi\u00e7a e do bem p\u00fablico; a proibi\u00e7\u00e3o da discrimina\u00e7\u00e3o por raz\u00e3o de origem, ra\u00e7a, estado civil, sexo, orienta\u00e7\u00e3o sexual, idade, cor, religi\u00e3o, defici\u00eancia f\u00edsica ou ps\u00edquica e quaisquer outras caracter\u00edsticas pessoais ou sociais; a defesa das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; (4) ap\u00f3s a apresenta\u00e7\u00e3o do protocolo previsto no item (2), o ju\u00edzo da execu\u00e7\u00e3o dever\u00e1 promover a participa\u00e7\u00e3o de entidades atuantes na \u00e1rea da seguran\u00e7a p\u00fablica e da defesa das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e dos direitos humanos, por interm\u00e9dio da apresenta\u00e7\u00e3o de sugest\u00f5es e cr\u00edticas e, preferencialmente tamb\u00e9m por audi\u00eancias p\u00fablicas, a fim de colher subs\u00eddios para a elabora\u00e7\u00e3o das melhores pr\u00e1ticas. Como exemplo dessas institui\u00e7\u00f5es devem ser consideradas, dentre outras: Minist\u00e9rio P\u00fablico, Defensoria P\u00fablica, Procuradoria do Estado, Pol\u00edcias Civil e Militar, Ordem dos Advogados do Brasil, Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Imprensa, universidades (por exemplo, o N\u00facleo de Estudos da Viol\u00eancia da Universidade de S\u00e3o Paulo &#8211; NEV-USP) e institui\u00e7\u00f5es como Instituto Sou da Paz, F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica; Centro de Estudos de Seguran\u00e7a e Cidadania; Conectas Direitos Humanos; Comit\u00ea Brasileiro de Defensoras e Defensores de Direitos Humanos; Pacto pela Democracia;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; (5) para o cumprimento dos prazos e a garantia do bom andamento da elabora\u00e7\u00e3o do plano, poder\u00e3o ser realizadas audi\u00eancias peri\u00f3dicas pelo ju\u00edzo da execu\u00e7\u00e3o, podendo ainda, se necess\u00e1rio, haver flexibiliza\u00e7\u00e3o de prazos, fixa\u00e7\u00e3o de multas por descumprimento, seu aumento ou diminui\u00e7\u00e3o em caso de necessidade e outras medidas, at\u00e9 a concretiza\u00e7\u00e3o do plano e sua implementa\u00e7\u00e3o;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; (6) outras medidas n\u00e3o enumeradas na peti\u00e7\u00e3o inicial ou neste rol de diretrizes poder\u00e3o ser abordadas, inclu\u00eddas no plano e exigidas, ainda que n\u00e3o pedidas na inicial porque surgidas ap\u00f3s a propositura da a\u00e7\u00e3o, como o monitoramento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ante o exposto, condena-se o Estado de S\u00e3o Paulo a elaborar um plano dial\u00f3gico destinado \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o do protocolo de atua\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Militar do Estado de S\u00e3o Paulo, o qual dever\u00e1 ser apresentado, acompanhado e aprovado pelo Ju\u00edzo da execu\u00e7\u00e3o, nos termos acima.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-5-nbsp-custeio-de-tratamento-no-exterior-pelo-sus\" class=\"wp-block-heading\">5.&nbsp; CUSTEIO DE TRATAMENTO NO EXTERIOR PELO SUS<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O custeio de tratamento no exterior \u00e9 admiss\u00edvel apenas excepcionalmente<\/strong>, mediante demonstra\u00e7\u00e3o cumulativa de inexist\u00eancia de alternativa eficaz no pa\u00eds, comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica robusta, imprescindibilidade cl\u00ednica e incapacidade financeira; a exist\u00eancia de centros nacionais habilitados afasta, em princ\u00edpio, o deslocamento, e n\u00e3o h\u00e1 direito subjetivo \u00e0 melhor tecnologia dispon\u00edvel no exterior, devendo a decis\u00e3o apoiar-se na Medicina Baseada em Evid\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 1.860.543-PR, Rel. Min. Marco Aur\u00e9lio Bellizze, Segunda Turma, por unanimidade, julgado em 16\/6\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Chiquinha, crian\u00e7a nascida prematura, desenvolveu s\u00edndrome do intestino ultracurto, com indica\u00e7\u00e3o de transplante intestinal como \u00fanica op\u00e7\u00e3o de sobrevida. A fam\u00edlia requereu que a Uni\u00e3o custeasse o transplante no exterior, em hospital de refer\u00eancia mundial com taxas de sobrevida superiores a 80%, alegando inexistir hist\u00f3rico exitoso de transplantes intestinais pedi\u00e1tricos no Brasil. Havia, por\u00e9m, centros nacionais habilitados e credenciados pelo SUS para o procedimento, ainda que sem casu\u00edstica espec\u00edfica nessa faixa et\u00e1ria. A Uni\u00e3o deve custear o tratamento no exterior?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CF, art. 196<\/strong><em> (sa\u00fade como direito de todos e dever do Estado, mediante pol\u00edticas p\u00fablicas).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>STF, Temas 793, 500, 1.161, 1.234 e 6; STA 175\/CE<\/strong><em> (par\u00e2metros para a interven\u00e7\u00e3o judicial em presta\u00e7\u00f5es de sa\u00fade).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>STJ, Tema 106<\/strong><em> (requisitos para o fornecimento de medicamento\/tratamento n\u00e3o incorporado \u00e0s pol\u00edticas do SUS).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda A interven\u00e7\u00e3o judicial em sa\u00fade \u00e9 leg\u00edtima apenas ante comprovada inadequa\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o estatal, exigindo demonstra\u00e7\u00e3o cumulativa de requisitos rigorosos: inexist\u00eancia de alternativa terap\u00eautica eficaz no pa\u00eds, comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica robusta de efic\u00e1cia e seguran\u00e7a, imprescindibilidade cl\u00ednica e incapacidade financeira &#8211; vedadas terapias experimentais ou sem valida\u00e7\u00e3o. Requisitos cumulativos: a falta de um afasta o custeio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd A exist\u00eancia de centros nacionais habilitados afasta, em princ\u00edpio, o deslocamento ao exterior &#8211; salvo prova de inefic\u00e1cia ou risco espec\u00edfico acrescido da alternativa nacional. <strong>N\u00e3o h\u00e1 direito subjetivo \u00e0 melhor tecnologia dispon\u00edvel no mundo<\/strong>: melhores \u00edndices estat\u00edsticos ou renome de centro estrangeiro n\u00e3o bastam. A decis\u00e3o deve apoiar-se na Medicina Baseada em Evid\u00eancias e em pareceres t\u00e9cnicos, n\u00e3o em prescri\u00e7\u00e3o ou relat\u00f3rio m\u00e9dico isolado, em respeito \u00e0 isonomia, \u00e0 equidade e \u00e0 racionalidade na aloca\u00e7\u00e3o de recursos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O custeio no exterior \u00e9 excepcional\u00edssimo e submetido a requisitos que se somam. <strong>Exige-se demonstra\u00e7\u00e3o cumulativa de inexist\u00eancia de alternativa eficaz no pa\u00eds, comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica robusta de efic\u00e1cia e seguran\u00e7a, imprescindibilidade cl\u00ednica e incapacidade financeira<\/strong>; por serem cumulativos, a aus\u00eancia de qualquer um deles j\u00e1 afasta a pretens\u00e3o, com defer\u00eancia \u00e0s pol\u00edticas do SUS.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A oferta nacional habilitada, em princ\u00edpio, encerra a discuss\u00e3o sobre o deslocamento. <strong>A exist\u00eancia de centros nacionais habilitados e credenciados para o procedimento afasta a necessidade de tratamento no exterior, salvo prova concreta de inefic\u00e1cia ou de risco espec\u00edfico acrescido da alternativa nacional<\/strong>; a aus\u00eancia de casu\u00edstica local, isoladamente, n\u00e3o equivale a essa prova.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O direito \u00e0 sa\u00fade n\u00e3o \u00e9 direito \u00e0 melhor tecnologia do mundo. <strong>N\u00e3o h\u00e1 direito subjetivo \u00e0 melhor tecnologia dispon\u00edvel em centros estrangeiros: melhores \u00edndices estat\u00edsticos ou maior renome n\u00e3o bastam para impor o custeio<\/strong>, sob pena de converter o direito \u00e0 sa\u00fade em direito \u00e0 tecnologia de ponta global e comprometer a aloca\u00e7\u00e3o ison\u00f4mica de recursos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A prova, por fim, submete-se \u00e0 Medicina Baseada em Evid\u00eancias. <strong>As decis\u00f5es judiciais em sa\u00fade devem apoiar-se em evid\u00eancias cient\u00edficas robustas e pareceres t\u00e9cnicos qualificados, n\u00e3o bastando prescri\u00e7\u00e3o ou relat\u00f3rio m\u00e9dico isolado para afastar as diretrizes do SUS<\/strong>; a imprescindibilidade concreta h\u00e1 de ser tecnicamente demonstrada, n\u00e3o afirmada pela parte interessada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quanto ao custeio, pelo poder p\u00fablico, de transplante no exterior:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) mostra-se devido se o centro estrangeiro apresentar melhores taxas de sobrevida que o nacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) \u00e9 excepcional e, em princ\u00edpio, afastado quando h\u00e1 centro nacional habilitado para o procedimento, salvo prova de inefic\u00e1cia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) vi\u00e1vel quando h\u00e1 prescri\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico assistente indicando o tratamento no exterior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) revela-se indevido, por inexistir previs\u00e3o de tratamento fora do pa\u00eds custeado pelo SUS.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) dependeria excepcionalmente da comprova\u00e7\u00e3o de incapacidade financeira da fam\u00edlia do paciente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. Melhores \u00edndices estat\u00edsticos do centro estrangeiro n\u00e3o bastam: n\u00e3o h\u00e1 direito subjetivo \u00e0 melhor tecnologia do mundo, e a oferta nacional habilitada, em princ\u00edpio, afasta o deslocamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) <strong>Correta.<\/strong> O custeio no exterior \u00e9 excepcional e submetido a requisitos cumulativos; a exist\u00eancia de centro nacional habilitado afasta, em princ\u00edpio, o deslocamento, salvo prova de inefic\u00e1cia ou risco espec\u00edfico acrescido da alternativa nacional (Temas 793, 500, 1.161 e 1.234\/STF; Tema 106\/STJ).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. Prescri\u00e7\u00e3o ou relat\u00f3rio m\u00e9dico isolado n\u00e3o bastam: a decis\u00e3o exige Medicina Baseada em Evid\u00eancias e pareceres t\u00e9cnicos qualificados para afastar as diretrizes do SUS.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. O custeio no exterior n\u00e3o \u00e9 vedado em absoluto; \u00e9 admiss\u00edvel excepcionalmente, presentes cumulativamente os requisitos, quando comprovada a inadequa\u00e7\u00e3o concreta da alternativa nacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. A incapacidade financeira n\u00e3o \u00e9 excepcional, mas a regras. E, de toda forma, apenas um dos requisitos cumulativos; sozinha n\u00e3o autoriza o custeio, que exige tamb\u00e9m inexist\u00eancia de alternativa nacional eficaz, comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e imprescindibilidade cl\u00ednica.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-3\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A quest\u00e3o em discuss\u00e3o consiste em saber se \u00e9 juridicamente poss\u00edvel a condena\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o a custear transplante intestinal pedi\u00e1trico e tratamento no exterior, em hospital de refer\u00eancia mundial, sob o argumento de maior seguran\u00e7a e melhores taxas de sobrevida, mesmo quando existem, no territ\u00f3rio nacional, hospitais habilitados e credenciados pelo SUS para a realiza\u00e7\u00e3o do procedimento, ainda que n\u00e3o tenham hist\u00f3rico de transplantes intestinais em crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, a recorrente \u00e9 paciente nascida prematuramente que evoluiu com enterocolite necrosante e extensa ressec\u00e7\u00e3o intestinal, desenvolvendo a s\u00edndrome de intestino ultracurto, insufici\u00eancia intestinal e desnutri\u00e7\u00e3o, sendo indicado transplante intestinal como \u00fanica op\u00e7\u00e3o de sobrevida em m\u00e9dio e longo prazo. Ela sustenta inexistirem resultados exitosos em transplantes intestinais realizados no Brasil e defende o encaminhamento a centro de refer\u00eancia mundial (Universidade de Miami), que apresentaria taxas de sobrevida superiores a 80% em tr\u00eas anos de tratamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Isso posto, tem-se que a jurisprud\u00eancia do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justi\u00e7a, ao enfrentar quest\u00f5es relacionadas \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas do SUS (Temas 793, 500, 1.161, 1.234 e 6 do STF e STA 175\/CE; Tema 106 do STJ), firmou compreens\u00e3o de que a interven\u00e7\u00e3o judicial \u00e9 leg\u00edtima apenas em hip\u00f3teses de comprovada inadequa\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o estatal, exigindo demonstra\u00e7\u00e3o cumulativa de requisitos rigorosos: inexist\u00eancia de alternativa terap\u00eautica eficaz no pa\u00eds, comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica robusta de efic\u00e1cia e seguran\u00e7a do tratamento pretendido, imprescindibilidade cl\u00ednica para preserva\u00e7\u00e3o da vida ou sa\u00fade do paciente e incapacidade financeira do requerente, vedada a imposi\u00e7\u00e3o de terapias experimentais ou sem valida\u00e7\u00e3o t\u00e9cnico-cient\u00edfica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, o custeio de tratamentos de alto custo, especialmente no exterior, somente se justifica em car\u00e1ter excepcional\u00edssimo, quando evidenciada a aus\u00eancia ou inadequa\u00e7\u00e3o concreta das op\u00e7\u00f5es terap\u00eauticas disponibilizadas pelo SUS, n\u00e3o bastando a mera exist\u00eancia de centros estrangeiros com melhores \u00edndices estat\u00edsticos ou maior renome, sob pena de converter o direito \u00e0 sa\u00fade em direito subjetivo \u00e0 melhor tecnologia dispon\u00edvel no mundo e de comprometer a racionalidade na aloca\u00e7\u00e3o de recursos p\u00fablicos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Al\u00e9m disso, a Medicina Baseada em Evid\u00eancias imp\u00f5e que decis\u00f5es judiciais em sa\u00fade fundamentem-se em evid\u00eancias cient\u00edficas robustas e pareceres t\u00e9cnicos qualificados, defendendo que uma boa pr\u00e1tica cl\u00ednica depende da intersec\u00e7\u00e3o equilibrada entre tr\u00eas pilares: i) a melhor evid\u00eancia cient\u00edfica dispon\u00edvel na literatura; ii) a experi\u00eancia cl\u00ednica do profissional; e iii) os valores e prefer\u00eancias do paciente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, a informa\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica de exist\u00eancia de tr\u00eas hospitais habilitados pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade para realizar transplante de intestino delgado no Brasil afasta, em princ\u00edpio, o requisito de inexist\u00eancia de alternativa terap\u00eautica nacional, n\u00e3o havendo prova de incapacidade operacional, defici\u00eancia estrutural ou risco espec\u00edfico acrescido que torne invi\u00e1vel a realiza\u00e7\u00e3o do procedimento em territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; O argumento de que o transplante intestinal nunca foi realizado em crian\u00e7as menores de 12 anos no pa\u00eds, embora relevante, n\u00e3o \u00e9 suficiente, por si s\u00f3, para infirmar a aptid\u00e3o t\u00e9cnica dos servi\u00e7os credenciados, sobretudo diante da reconhecida excel\u00eancia t\u00e9cnico-cient\u00edfica do hospital habilitado pelo SUS, cuja condi\u00e7\u00e3o de centro de refer\u00eancia em procedimentos de alta complexidade goza de presun\u00e7\u00e3o de adequa\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Destarte, a prioridade absoluta dos direitos da crian\u00e7a e do adolescente (Constitui\u00e7\u00e3o Federal\/1988, art. 227; e Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente, arts. 4 e 11) refor\u00e7a o dever estatal de garantir acesso integral \u00e0s linhas de cuidado em sa\u00fade, mas n\u00e3o autoriza, automaticamente, afastar crit\u00e9rios t\u00e9cnicos, a organiza\u00e7\u00e3o do SUS e a equidade na distribui\u00e7\u00e3o de recursos, devendo a prote\u00e7\u00e3o integral ser harmonizada com a sustentabilidade do sistema e com as escolhas leg\u00edtimas de pol\u00edtica p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por fim, inexistindo demonstra\u00e7\u00e3o inequ\u00edvoca de omiss\u00e3o ou inadequa\u00e7\u00e3o das alternativas terap\u00eauticas oferecidas pelo SUS, nem de necessidade cl\u00ednica absoluta de tratamento no exterior, n\u00e3o se encontram preenchidos os requisitos jurisprudenciais para imposi\u00e7\u00e3o \u00e0 Uni\u00e3o do custeio do transplante e tratamento no hospital estrangeiro. Conclui-se portanto que n\u00e3o h\u00e1 direito subjetivo \u00e0 melhor tecnologia dispon\u00edvel em centros estrangeiros; exige-se imprescindibilidade concreta do tratamento no exterior, em respeito aos princ\u00edpios da isonomia, equidade e racionalidade na aloca\u00e7\u00e3o de recursos p\u00fablicos.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-6-usucapiao-com-posse-de-descendente\" class=\"wp-block-heading\">6. USUCAPI\u00c3O COM POSSE DE DESCENDENTE<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>N\u00e3o se configura usucapi\u00e3o extraordin\u00e1ria quando o descendente ocupa im\u00f3vel de ascendente, integrante de acervo heredit\u00e1rio ainda indiviso, em contexto de administra\u00e7\u00e3o familiar<\/strong>, pois a posse, exercida por liberalidade, toler\u00e2ncia e solidariedade familiar, \u00e9 prec\u00e1ria e <strong>n\u00e3o revela o animus domini<\/strong> exigido pelo art. 1.238 do C\u00f3digo Civil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AREsp 2.983.084-AL, Rel. Min. Raul Ara\u00fajo, Quarta Turma, por unanimidade, julgado em 9\/6\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Kiko ocupava, havia d\u00e9cadas, o im\u00f3vel que fora de sua m\u00e3e, Dona Florinda, j\u00e1 falecida &#8211; bem que integra o acervo heredit\u00e1rio ainda n\u00e3o partilhado e est\u00e1 registrado em nome dos pais dela. Kiko ajuizou a\u00e7\u00e3o de usucapi\u00e3o extraordin\u00e1ria, alegando posse exclusiva, mansa e com \u00e2nimo de dono durante todo esse tempo. Os demais herdeiros sustentaram que ele apenas residia ali por toler\u00e2ncia e liberalidade da fam\u00edlia, sem jamais ter se comportado como propriet\u00e1rio. A ocupa\u00e7\u00e3o familiar prolongada gera usucapi\u00e3o extraordin\u00e1ria?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CC, art. 1.238<\/strong><em> (usucapi\u00e3o extraordin\u00e1ria: posse por quinze anos, com animus domini, independentemente de t\u00edtulo e boa-f\u00e9).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CC, art. 496<\/strong><em> (anulabilidade da venda de ascendente a descendente sem consentimento dos demais).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CC, art. 544<\/strong><em> (doa\u00e7\u00e3o de ascendente a descendente como adiantamento de leg\u00edtima, sujeita \u00e0 cola\u00e7\u00e3o).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda A usucapi\u00e3o extraordin\u00e1ria pressup\u00f5e posse mansa, pac\u00edfica, cont\u00ednua e exercida com animus domini &#8211; ato inequ\u00edvoco de assun\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o de dono. No seio familiar, a ocupa\u00e7\u00e3o de im\u00f3vel do ascendente pelo descendente costuma expressar liberalidade, toler\u00e2ncia e solidariedade: posse prec\u00e1ria, incompat\u00edvel com a inten\u00e7\u00e3o de dono, ainda que prolongada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd Admitir a usucapi\u00e3o nessas condi\u00e7\u00f5es permitiria transfer\u00eancia patrimonial entre ascendentes e descendentes por via obl\u00edqua, \u00e0 margem dos controles que protegem a leg\u00edtima e o equil\u00edbrio entre herdeiros (CC, arts. 496 e 544). Embora a usucapi\u00e3o seja forma origin\u00e1ria de aquisi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pode servir de meio indireto de burla ao regime sucess\u00f3rio &#8211; seria fraude \u00e0 lei. S\u00f3 em situa\u00e7\u00f5es especiais, com prova de rompimento inequ\u00edvoco da posse familiar, se admitiria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A usucapi\u00e3o extraordin\u00e1ria exige mais do que tempo e ocupa\u00e7\u00e3o: exige \u00e2nimo de dono. <strong>O art. 1.238 do CC pressup\u00f5e posse mansa, pac\u00edfica, cont\u00ednua e com animus domini &#8211; um ato inequ\u00edvoco de assun\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o de propriet\u00e1rio<\/strong>; a mera perman\u00eancia no im\u00f3vel, ainda que longa, n\u00e3o preenche esse requisito an\u00edmico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f No ambiente familiar, a posse do descendente sobre bem do ascendente \u00e9, em regra, prec\u00e1ria. <strong>Ocupar o im\u00f3vel por liberalidade, toler\u00e2ncia e solidariedade dos familiares revela posse prec\u00e1ria, juridicamente incompat\u00edvel com o animus domini<\/strong>; residir por afeto ou conveni\u00eancia dom\u00e9stica n\u00e3o \u00e9 exterioriza\u00e7\u00e3o de dom\u00ednio, mas express\u00e3o de conviv\u00eancia familiar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 Reconhecer a usucapi\u00e3o aqui abriria uma via de burla ao regime sucess\u00f3rio. <strong>A transfer\u00eancia patrimonial entre ascendentes e descendentes ocorreria obliquamente, \u00e0 margem dos controles que protegem a leg\u00edtima e o equil\u00edbrio entre herdeiros &#8211; como a anulabilidade da venda sem consentimento (CC, art. 496) e a cola\u00e7\u00e3o das doa\u00e7\u00f5es (CC, art. 544)<\/strong>; a usucapi\u00e3o n\u00e3o pode ser instrumento de fraude \u00e0 lei.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A exce\u00e7\u00e3o existe, mas depende de prova robusta de ruptura da posse familiar. <strong>S\u00f3 em situa\u00e7\u00f5es especiais &#8211; quando demonstrado ato inequ\u00edvoco que rompa a natureza prec\u00e1ria da posse e instaure verdadeiro \u00e2nimo de dono &#8211; se admitiria a usucapi\u00e3o entre herdeiros<\/strong>; a regra, diante da realidade das rela\u00e7\u00f5es familiares, \u00e9 a sua n\u00e3o configura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quanto \u00e0 pretens\u00e3o de usucapi\u00e3o extraordin\u00e1ria do descendente que ocupa im\u00f3vel de ascendente em acervo heredit\u00e1rio indiviso:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) procede, se a posse for prolongada e exclusiva, presumindod o animus domini exigido por lei.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) \u00e9 e ser acolhida, por ser a usucapi\u00e3o forma origin\u00e1ria de aquisi\u00e7\u00e3o, prevalente sobre as regras do direito sucess\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) n\u00e3o se configura como regra, pois tal posse \u00e9 prec\u00e1ria, por liberalidade familiar, sem animus domini.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) subordina-se \u00e0 cita\u00e7\u00e3o dos demais herdeiros e \u00e0 aus\u00eancia de oposi\u00e7\u00e3o expressa ao pedido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) esbarra na impossibilidade de usucapir bem comum antes de conclu\u00edda a partilha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A posse prolongada n\u00e3o presume \u00e2nimo de dono: no contexto familiar, a ocupa\u00e7\u00e3o do im\u00f3vel do ascendente \u00e9 prec\u00e1ria, por toler\u00e2ncia e liberalidade, incompat\u00edvel com o animus domini (CC, art. 1.238).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. Embora origin\u00e1ria, a usucapi\u00e3o n\u00e3o \u00e9 imune ao regime sucess\u00f3rio: admiti-la aqui seria via obl\u00edqua de burla \u00e0 leg\u00edtima (CC, arts. 496 e 544), em fraude \u00e0 lei.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) <strong>Correta.<\/strong> A ocupa\u00e7\u00e3o do im\u00f3vel do ascendente pelo descendente, em acervo indiviso e administra\u00e7\u00e3o familiar, \u00e9 posse prec\u00e1ria &#8211; fruto de liberalidade, toler\u00e2ncia e solidariedade -, sem o animus domini exigido pelo art. 1.238 do CC; da\u00ed n\u00e3o se configurar a usucapi\u00e3o extraordin\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. A aus\u00eancia de oposi\u00e7\u00e3o dos demais herdeiros n\u00e3o supre a falta de animus domini; a posse prec\u00e1ria n\u00e3o se converte em posse ad usucapionem pela simples in\u00e9rcia alheia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. O \u00f3bice n\u00e3o \u00e9 a impossibilidade de usucapir bem comum, mas a natureza prec\u00e1ria da posse familiar; demonstrado \u00e2nimo de dono inequ\u00edvoco, a usucapi\u00e3o seria admiss\u00edvel em situa\u00e7\u00f5es especiais.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-4\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Na ocupa\u00e7\u00e3o de im\u00f3vel pertencente a ascendente por descendente, a posse se estabelece, em regra, como express\u00e3o de mera liberalidade, toler\u00e2ncia e solidariedade por parte dos demais familiares, revelando-se essa posse prec\u00e1ria, juridicamente incompat\u00edvel com a constitui\u00e7\u00e3o do animus domini exigido pelo art. 1.238 do C\u00f3digo Civil. No caso, busca-se o reconhecimento da usucapi\u00e3o extraordin\u00e1ria de im\u00f3vel integrante do acervo heredit\u00e1rio deixado pela genitora falecida de uma das partes, o qual, segundo afirmam, ocupam h\u00e1 d\u00e9cadas com exclusividade e animus domini, embora o bem esteja registrado em nome dos pais dela. Para a configura\u00e7\u00e3o da usucapi\u00e3o extraordin\u00e1ria, \u00e9 indispens\u00e1vel a demonstra\u00e7\u00e3o de posse mansa, pac\u00edfica, cont\u00ednua e exercida com animus domini, o que n\u00e3o se verifica quando o descendente ocupa o im\u00f3vel de ascendente, integrante de acervo heredit\u00e1rio ainda indiviso, em contexto de administra\u00e7\u00e3o familiar. A usucapi\u00e3o extraordin\u00e1ria, que pressup\u00f5e ato inequ\u00edvoco de assun\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o de dono pelo possuidor, n\u00e3o pode se apoiar em condutas que, no seio familiar, s\u00e3o naturais e merecedoras de est\u00edmulo como manifesta\u00e7\u00f5es de afeto, solidariedade, aux\u00edlio e liberalidade entre parentes ou mesmo express\u00e3o de conveni\u00eancia dom\u00e9stica, n\u00e3o se caracterizando como exterioriza\u00e7\u00e3o de dom\u00ednio. Admitir-se, em tais hip\u00f3teses, a possibilidade da usucapi\u00e3o extraordin\u00e1ria seria laborar contra os bons sentimentos que devem prevalecer nas rela\u00e7\u00f5es familiares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ademais, permitir-se-ia que a transfer\u00eancia patrimonial entre ascendentes e descendentes ocorresse por via obl\u00edqua, \u00e0 margem dos controles que o ordenamento jur\u00eddico estabelece para proteger a leg\u00edtima e assegurar equil\u00edbrio entre os herdeiros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; N\u00e3o \u00e9 por outro motivo que a legisla\u00e7\u00e3o civil imp\u00f5e rigorosas restri\u00e7\u00f5es a neg\u00f3cios entre ascendentes e descendentes &#8211; como a anulabilidade da venda sem consentimento dos demais herdeiros (CC, art. 496) e a obrigatoriedade da cola\u00e7\u00e3o das doa\u00e7\u00f5es (CC, art. 544). Assim, embora a usucapi\u00e3o seja forma origin\u00e1ria de aquisi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podendo ser equiparada a neg\u00f3cio jur\u00eddico, ela n\u00e3o pode servir como meio indireto de burla ao regime sucess\u00f3rio, nem como instrumento para legitimar a transfer\u00eancia patrimonial dentro da fam\u00edlia sem observ\u00e2ncia das garantias impostas pelo sistema jur\u00eddico, em fraude \u00e0 lei, portanto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Trata-se, portanto, de hip\u00f3tese s\u00f3 admiss\u00edvel em situa\u00e7\u00f5es especiais, pois normalmente a usucapi\u00e3o entre herdeiros n\u00e3o se sustenta diante da realidade f\u00e1tica das rela\u00e7\u00f5es familiares e das exig\u00eancias estruturais da prescri\u00e7\u00e3o aquisitiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Diante desse panorama &#8211; e da reiterada constata\u00e7\u00e3o de que, nas rela\u00e7\u00f5es familiares, o animus domini n\u00e3o se configura estruturalmente -, imp\u00f5e-se afirmar que o ajuizamento de a\u00e7\u00e3o de usucapi\u00e3o extraordin\u00e1ria por descendente visando \u00e0 aquisi\u00e7\u00e3o de im\u00f3vel de ascendente n\u00e3o encontra, normalmente, respaldo f\u00e1tico nem jur\u00eddico, por n\u00e3o existir a possibilidade concreta de demonstra\u00e7\u00e3o da posse ad usucapionem.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-7-termo-da-ineficacia-objetiva-na-falencia\" class=\"wp-block-heading\">7. TERMO DA INEFIC\u00c1CIA OBJETIVA NA FAL\u00caNCIA<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A <strong>inefic\u00e1cia objetiva<\/strong> prevista no art. 129, VII, da Lei n. 11.101\/2005 incide apenas <strong>a partir da decreta\u00e7\u00e3o da fal\u00eancia<\/strong>; a aliena\u00e7\u00e3o de bens im\u00f3veis do devedor e a constitui\u00e7\u00e3o de garantias sobre eles, ocorridas antes da decreta\u00e7\u00e3o &#8211; ainda que dentro do termo legal -, s\u00e3o, em regra, v\u00e1lidas e eficazes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AREsp 2.185.324-GO, Rel. Min. Lu\u00eds Carlos Gambogi (Desembargador convocado do TJMG), Rel. p\/ ac\u00f3rd\u00e3o Min. Raul Ara\u00fajo, Quarta Turma, por maioria, julgado em 9\/6\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Cobraforte Fomento Mercantil recebeu, em aliena\u00e7\u00e3o fiduci\u00e1ria, um im\u00f3vel de empresa em recupera\u00e7\u00e3o judicial e, diante da inadimpl\u00eancia, consolidou e registrou a propriedade em seu nome &#8211; tudo antes de a recupera\u00e7\u00e3o ser convolada em fal\u00eancia. Decretada depois a fal\u00eancia, a massa falida ajuizou a\u00e7\u00e3o para declarar ineficaz a garantia e reaver o im\u00f3vel, invocando o art. 129 da Lei n. 11.101\/2005 e alegando que os atos se deram no termo legal, independentemente de fraude. A inefic\u00e1cia objetiva alcan\u00e7a atos anteriores \u00e0 decreta\u00e7\u00e3o da fal\u00eancia?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n. 11.101\/2005, art. 129<\/strong><em> (atos objetivamente ineficazes perante a massa, independentemente de fraude ou conluio).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n. 11.101\/2005, art. 129, VII<\/strong><em> (inefic\u00e1cia dos registros de direitos reais e transfer\u00eancias de propriedade ap\u00f3s a decreta\u00e7\u00e3o da fal\u00eancia).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda O art. 129 da Lei n. 11.101\/2005 elenca atos objetivamente ineficazes perante a massa: seu reconhecimento independe de fraude do devedor ou de conluio com terceiro. Basta que o ato se enquadre nas hip\u00f3teses e condi\u00e7\u00f5es legais. Inefic\u00e1cia objetiva n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de qualquer ato do per\u00edodo suspeito: cada inciso tem seu pr\u00f3prio marco temporal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd No inciso VII, o marco \u00e9 a decreta\u00e7\u00e3o da fal\u00eancia: o ato ineficaz \u00e9 o registro da transfer\u00eancia de propriedade realizado ap\u00f3s a decreta\u00e7\u00e3o &#8211; n\u00e3o o praticado no termo legal que a antecede. Consolidada e registrada a propriedade fiduci\u00e1ria antes da convola\u00e7\u00e3o em fal\u00eancia, o ato \u00e9, em regra, v\u00e1lido e eficaz; n\u00e3o se subsume \u00e0 hip\u00f3tese de inefic\u00e1cia objetiva, ainda que dispensada a prova de fraude para os atos que efetivamente se enquadrem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A inefic\u00e1cia do art. 129 \u00e9 objetiva, mas isso diz respeito \u00e0 dispensa de fraude, n\u00e3o ao alcance temporal. <strong>Os atos ali listados n\u00e3o produzem efeitos perante a massa independentemente de intuito fraudulento ou conluio &#8211; basta que se enquadrem nas hip\u00f3teses e condi\u00e7\u00f5es legais<\/strong>; objetividade significa prescindir do elemento subjetivo, n\u00e3o abarcar todo e qualquer ato pret\u00e9rito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f Cada hip\u00f3tese do art. 129 tem seu pr\u00f3prio marco &#8211; e o do inciso VII \u00e9 a decreta\u00e7\u00e3o. <strong>Quanto ao registro de direitos reais e \u00e0 transfer\u00eancia de propriedade, o ato reputado ineficaz \u00e9 o registro realizado ap\u00f3s a decreta\u00e7\u00e3o da fal\u00eancia, e n\u00e3o o praticado no termo legal que a antecede<\/strong>; o termo legal delimita o per\u00edodo suspeito, mas n\u00e3o \u00e9, aqui, o gatilho da inefic\u00e1cia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 No caso, a consolida\u00e7\u00e3o da propriedade fiduci\u00e1ria precedeu a fal\u00eancia. <strong>Tendo o registro da transfer\u00eancia ocorrido antes da convola\u00e7\u00e3o da recupera\u00e7\u00e3o em fal\u00eancia, o ato n\u00e3o se subsume \u00e0 hip\u00f3tese do art. 129, VII, sendo, em regra, v\u00e1lido e eficaz perante a massa<\/strong>. A anterioridade \u00e0 decreta\u00e7\u00e3o retira o ato do campo da inefic\u00e1cia objetiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A conclus\u00e3o preserva a seguran\u00e7a das garantias reais constitu\u00eddas antes da quebra. <strong>Aliena\u00e7\u00f5es e garantias sobre im\u00f3veis anteriores \u00e0 decreta\u00e7\u00e3o, ainda que no per\u00edodo suspeito, s\u00e3o em regra v\u00e1lidas e eficazes; a inefic\u00e1cia objetiva do inciso VII s\u00f3 alcan\u00e7a o que se registra depois da fal\u00eancia decretada<\/strong>. Estender o marco ao termo legal comprometeria a estabilidade dos neg\u00f3cios que a lei quis preservar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quanto \u00e0 aliena\u00e7\u00e3o de im\u00f3vel e \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o de garantia real ocorridas no termo legal, mas antes da decreta\u00e7\u00e3o da fal\u00eancia:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) reputam-se ineficazes perante a massa, por terem ocorrido dentro do per\u00edodo suspeito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) s\u00f3 se invalidam se a massa demonstrar a fraude do devedor e o conluio do terceiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) exigem a\u00e7\u00e3o revocat\u00f3ria, com prova de preju\u00edzo concreto aos credores, para serem desfeitas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) perdem efic\u00e1cia se o valor da garantia exceder a metade do ativo do devedor ao tempo do ato.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) mant\u00eam-se, em regra, v\u00e1lidas e eficazes, pois a inefic\u00e1cia objetiva s\u00f3 incide ap\u00f3s a decreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. O termo legal delimita o per\u00edodo suspeito, mas n\u00e3o \u00e9 o marco da inefic\u00e1cia do inciso VII: esta s\u00f3 incide a partir da decreta\u00e7\u00e3o da fal\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. A inefic\u00e1cia do art. 129 \u00e9 objetiva &#8211; independe de fraude ou conluio -; o ponto n\u00e3o \u00e9 exigir prova de fraude, mas que o ato se enquadre no marco temporal (ap\u00f3s a decreta\u00e7\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. A hip\u00f3tese \u00e9 de inefic\u00e1cia objetiva (art. 129), que dispensa a a\u00e7\u00e3o revocat\u00f3ria do art. 130 e a prova de preju\u00edzo; o \u00f3bice ao desfazimento \u00e9 o marco temporal, n\u00e3o a via processual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. N\u00e3o h\u00e1 crit\u00e9rio de propor\u00e7\u00e3o sobre o ativo para a inefic\u00e1cia do inciso VII; o que define a incid\u00eancia \u00e9 o momento do registro &#8211; antes ou depois da decreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) <strong>Correta.<\/strong> No art. 129, VII, o ato ineficaz \u00e9 o registro da transfer\u00eancia realizado ap\u00f3s a decreta\u00e7\u00e3o da fal\u00eancia; consolidada a propriedade antes da convola\u00e7\u00e3o em fal\u00eancia, ainda que no termo legal, o ato \u00e9 em regra v\u00e1lido e eficaz, pois a inefic\u00e1cia objetiva s\u00f3 incide a partir da decreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-5\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A controv\u00e9rsia cinge-se \u00e0 qualifica\u00e7\u00e3o jur\u00eddica dos atos relativos \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o de aliena\u00e7\u00e3o fiduci\u00e1ria de bem im\u00f3vel e \u00e0 posterior consolida\u00e7\u00e3o da propriedade em favor da institui\u00e7\u00e3o financeira, ambos praticados no per\u00edodo compreendido pelo termo legal da fal\u00eancia. Discute-se, nesse contexto, se tais atos estariam sujeitos \u00e0 inefic\u00e1cia objetiva perante a massa falida, \u00e0 luz dos incisos III e VII do art. 129 da Lei n. 11.101\/2005, independentemente da demonstra\u00e7\u00e3o de fraude.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, a massa falida ajuizou a\u00e7\u00e3o declarat\u00f3ria de inefic\u00e1cia com o objetivo de reaver im\u00f3vel que havia sido oferecido em garantia fiduci\u00e1ria realizada por empresa integrante do grupo econ\u00f4mico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A Terceira Turma do Superior Tribunal de Justi\u00e7a j\u00e1 se manifestou acerca da controv\u00e9rsia, no sentido de que, nos casos de registros de direitos reais e de transfer\u00eancia de propriedade entre vivos, o ato do falido considerado ineficaz, \u00e0 luz do art. 129, VII, da Lei n. 11.101\/2005, \u00e9 o registro da transfer\u00eancia de propriedade realizado ap\u00f3s a decreta\u00e7\u00e3o da fal\u00eancia, e n\u00e3o o termo legal da fal\u00eancia (REsp n. 1.597.084\/SC, relator Ministro Ricardo Villas B\u00f4as Cueva, Terceira Turma, julgado em 1\/12\/2020, DJe 4\/12\/2020).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A Quarta Turma j\u00e1 teve oportunidade de examinar a mesma mat\u00e9ria por ocasi\u00e3o do julgamento do AREsp 2.769.286\/GO, oportunidade em que perfilhou do mesmo entendimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A Lei n. 11.101\/2005 (Lei de Recupera\u00e7\u00e3o Judical e Fal\u00eancias), em seu artigo 129, elenca as hip\u00f3teses em que os atos praticados pelo falido ser\u00e3o considerados ineficazes perante a massa falida. Constitui-se, assim, em rol de atos cuja inefic\u00e1cia \u00e9 objetiva, vale dizer, trata-se do que a doutrina denomina de atos objetivamente ineficazes, uma vez que o reconhecimento de sua inefic\u00e1cia independe da demonstra\u00e7\u00e3o de fraude do devedor ou de conluio com o terceiro contratante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tais atos, quando praticados pela sociedade falida, n\u00e3o produzem efeitos perante a massa, ainda que ausente qualquer intuito fraudulento, bastando que tenham sido realizados no per\u00edodo ou nas condi\u00e7\u00f5es estabelecidas pelo legislador. O caso dos autos, todavia, n\u00e3o se subsume \u00e0s hip\u00f3teses previstas nos incisos supramencionados. Com efeito, os bens im\u00f3veis ofertados em aliena\u00e7\u00e3o fiduci\u00e1ria tiveram sua propriedade consolidada e devidamente registrada em nome do credor\/recorrente anteriormente \u00e0 convola\u00e7\u00e3o da recupera\u00e7\u00e3o judicial em fal\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Dessa forma, \u00e0 luz do entendimento consolidado pelo STJ, conclui-se que, tendo o registro da transfer\u00eancia da propriedade ocorrido em momento anterior \u00e0 decreta\u00e7\u00e3o da fal\u00eancia, n\u00e3o se configura a hip\u00f3tese de incid\u00eancia do art. 129, VII, da Lei n. 11.101\/2005. Em consequ\u00eancia, afasta-se a possibilidade de declara\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica de inefic\u00e1cia do registro, sendo imprescind\u00edvel, para tanto, a comprova\u00e7\u00e3o de conluio fraudulento.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-8-procedencia-estrangeira-dos-insumos-competencia-federal\" class=\"wp-block-heading\">8. PROCED\u00caNCIA ESTRANGEIRA DOS INSUMOS: COMPET\u00caNCIA FEDERAL?<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A mera proced\u00eancia estrangeira de insumos n\u00e3o atrai, por si, a compet\u00eancia da Justi\u00e7a Federal<\/strong>; \u00e9 imprescind\u00edvel a demonstra\u00e7\u00e3o da internacionalidade da conduta do agente e do interesse da Uni\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">RHC 234.894-SP, Rel. Min. Sebasti\u00e3o Reis J\u00fanior, Sexta Turma, por unanimidade, julgado em 9\/6\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Creitinho foi denunciado por integrar grupo voltado \u00e0 fabrica\u00e7\u00e3o, divulga\u00e7\u00e3o na internet, venda e remessa postal de anabolizantes sem registro na Anvisa. Parte dos insumos tinha origem estrangeira. Sustentou-se que essa proced\u00eancia, por si, tornaria o crime de compet\u00eancia da Justi\u00e7a Federal, por revelar transnacionalidade. A den\u00fancia, por\u00e9m, n\u00e3o apontava que Creitinho tivesse adquirido as subst\u00e2ncias no exterior ou participado de sua entrada no Pa\u00eds &#8211; os atos de com\u00e9rcio se consumaram internamente. A proced\u00eancia estrangeira dos insumos fixa a compet\u00eancia da Justi\u00e7a Federal?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CF, art. 109, IV e V<\/strong><em> (compet\u00eancia da Justi\u00e7a Federal; crimes com transnacionalidade previstos em tratado).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CP, art. 273<\/strong><em> (falsifica\u00e7\u00e3o\/com\u00e9rcio de produto destinado a fins terap\u00eauticos sem registro).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>sa\u00fade p\u00fablica &#8211; compet\u00eancia concorrente<\/strong><em> (prote\u00e7\u00e3o da sa\u00fade partilhada entre os entes federativos).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda A prote\u00e7\u00e3o da sa\u00fade p\u00fablica \u00e9 de compet\u00eancia concorrente entre os entes. Por isso, o processamento de crime envolvendo medicamento ou insumo de origem estrangeira sem registro n\u00e3o \u00e9, por regra, da Justi\u00e7a Federal: exige-se interesse da Uni\u00e3o, que s\u00f3 desponta quando caracterizada a internacionalidade do delito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd A internacionalidade n\u00e3o se presume da simples origem estrangeira do insumo: \u00e9 preciso demonstrar a internacionalidade da conduta do agente &#8211; ind\u00edcios de que ele adquiriu as subst\u00e2ncias no exterior ou participou de sua introdu\u00e7\u00e3o no Pa\u00eds. Ausente esse elemento, e consumados internamente os atos de com\u00e9rcio, a compet\u00eancia \u00e9 da Justi\u00e7a estadual; a mera proced\u00eancia do produto n\u00e3o desloca o feito para a Justi\u00e7a Federal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A sa\u00fade p\u00fablica \u00e9 campo de compet\u00eancia concorrente, e isso condiciona a leitura da compet\u00eancia penal. <strong>Por ser a tutela da sa\u00fade partilhada entre os entes, o crime envolvendo insumo estrangeiro sem registro n\u00e3o atrai, por regra, a Justi\u00e7a Federal<\/strong>; \u00e9 preciso algo mais do que o objeto material para justificar o interesse da Uni\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f Esse algo mais \u00e9 o interesse da Uni\u00e3o, que depende da internacionalidade do delito. <strong>S\u00f3 se identifica interesse da Uni\u00e3o quando caracterizada a internacionalidade da conduta &#8211; n\u00e3o bastando a mera constata\u00e7\u00e3o da proced\u00eancia estrangeira do insumo ou do medicamento<\/strong>; a origem do produto \u00e9 dado sobre a coisa, n\u00e3o sobre a atua\u00e7\u00e3o do agente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A internacionalidade, por sua vez, mede-se pela conduta do agente, n\u00e3o pela do fornecedor. <strong>Exige-se demonstra\u00e7\u00e3o de que o agente adquiriu as subst\u00e2ncias no exterior ou participou, de algum modo, da sua introdu\u00e7\u00e3o no Pa\u00eds<\/strong>; sem ind\u00edcios concretos disso, a transnacionalidade afirmada \u00e9 apenas do insumo, e n\u00e3o do crime imputado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f No caso, os atos se consumaram internamente, o que fixa a compet\u00eancia estadual. <strong>A den\u00fancia n\u00e3o indica que o acusado tenha adquirido as subst\u00e2ncias no exterior ou participado de sua entrada no Pa\u00eds, e os atos de com\u00e9rcio se deram internamente &#8211; o que assinala ser da Justi\u00e7a estadual a compet\u00eancia<\/strong>. A proced\u00eancia estrangeira dos insumos, isolada, n\u00e3o desloca o processo para a Justi\u00e7a Federal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quanto \u00e0 compet\u00eancia para processar crime de com\u00e9rcio de anabolizantes sem registro:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) firma-se na Justi\u00e7a Federal, se parte dos insumos tem origem estrangeira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) permanece na Justi\u00e7a estadual, salvo demonstra\u00e7\u00e3o da internacionalidade da conduta e do interesse da Uni\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) cabe \u00e0 Justi\u00e7a Federal sempre que o produto ingressar no Pa\u00eds por remessa postal internacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) desloca-se \u00e0 Justi\u00e7a Federal, por competir \u00e0 Uni\u00e3o tutelar a sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) fixa-se na Justi\u00e7a estadual, por ser crime contra a sa\u00fade p\u00fablica local.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A proced\u00eancia estrangeira do insumo \u00e9 dado sobre a coisa, n\u00e3o sobre a conduta; sozinha, n\u00e3o revela a internacionalidade do delito nem atrai a Justi\u00e7a Federal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) <strong>Correta.<\/strong> Sendo a sa\u00fade p\u00fablica de compet\u00eancia concorrente, a compet\u00eancia \u00e9, em regra, da Justi\u00e7a estadual; s\u00f3 se desloca \u00e0 Justi\u00e7a Federal quando demonstrada a internacionalidade da conduta do agente (ind\u00edcios de aquisi\u00e7\u00e3o no exterior ou de participa\u00e7\u00e3o na introdu\u00e7\u00e3o no Pa\u00eds) e o interesse da Uni\u00e3o (CF, art. 109; CP, art. 273).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. Nem toda remessa postal internacional fixa a compet\u00eancia federal: \u00e9 preciso demonstrar a participa\u00e7\u00e3o do agente na introdu\u00e7\u00e3o do produto no Pa\u00eds, n\u00e3o a mera via de ingresso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. A tutela da sa\u00fade p\u00fablica \u00e9 de compet\u00eancia concorrente, n\u00e3o exclusiva da Uni\u00e3o; por isso a compet\u00eancia n\u00e3o \u00e9, por regra, federal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. A compet\u00eancia estadual n\u00e3o \u00e9 absoluta: demonstrada a internacionalidade da conduta e o interesse da Uni\u00e3o, o feito se desloca para a Justi\u00e7a Federal.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-6\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cinge-se a controv\u00e9rsia a saber se a proced\u00eancia estrangeira de insumos para a produ\u00e7\u00e3o e venda de anabolizantes atrai a compet\u00eancia da Justi\u00e7a Federal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, o recorrente foi denunciado pela suposta pr\u00e1tica dos crimes previstos no art. 2, caput, da Lei n. 12.850\/2013 e no art. 273, 1, c\/c o 1-B, I, III, V e VI, do C\u00f3digo Penal, em continuidade delitiva e em concurso material, nos termos do art. 69 do mesmo C\u00f3digo, em raz\u00e3o de participa\u00e7\u00e3o em grupo voltado \u00e0 fabrica\u00e7\u00e3o, divulga\u00e7\u00e3o na internet, venda e remessa postal de anabolizantes sem registro v\u00e1lido na Anvisa, entre 2015 e 2017. A defesa sustenta, dentre outra, a transnacionalidade da cadeia produtiva. A Corte estadual concluiu que, al\u00e9m de a internacionalidade da conduta constituir mat\u00e9ria controvertida que se confunde com o pr\u00f3prio m\u00e9rito da a\u00e7\u00e3o penal, prevalece, neste momento processual, a decis\u00e3o do Ju\u00edzo Federal que declinou da compet\u00eancia, aceita pelo Ju\u00edzo estadual, n\u00e3o se vislumbrando teratologia ou ilegalidade flagrante na manuten\u00e7\u00e3o do feito na Comarca onde se consumaram, em tese, os atos de com\u00e9rcio imputados ao paciente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, a moldura delineada na den\u00fancia n\u00e3o indica nenhum elemento concreto a evidenciar que o recorrente, pessoalmente, adquiriu as subst\u00e2ncias no exterior ou que ele tenha participado, de alguma forma, da sua introdu\u00e7\u00e3o no Pa\u00eds, o que assinala ser da Justi\u00e7a estadual a compet\u00eancia para o processamento e julgamento da causa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em casos semelhantes, a jurisprud\u00eancia do Superior Tribunal de Justi\u00e7a tem entendido que o resguardo da sa\u00fade p\u00fablica \u00e9 de compet\u00eancia concorrente entre os entes federativos. Sendo assim, somente se identifica interesse da Uni\u00e3o na persecu\u00e7\u00e3o de delito de apreens\u00e3o de medicamento de origem estrangeira sem registro quando ficar caracterizada a internacionalidade do delito, o que ocorre quando se apuram ind\u00edcios de que o investigado participou de alguma forma na introdu\u00e7\u00e3o dos medicamentos apreendidos no pa\u00eds, n\u00e3o sendo suficiente a mera constata\u00e7\u00e3o da proced\u00eancia estrangeira do medicamento (AgRg no CC n. 151.529\/MS, Rel. Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Terceira Se\u00e7\u00e3o, DJe 17\/8\/2017).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">***<\/p>\n\n\n\n<div data-wp-interactive=\"core\/file\" class=\"wp-block-file\"><object aria-label=\"Incorporar PDF\" data-wp-bind--hidden=\"!state.hasPdfPreview\" hidden><\/object><a id=\"wp-block-file--media-47a28336-e8d9-46eb-bf93-9ed785ce4f88\" href=\"https:\/\/dhg1h5j42swfq.cloudfront.net\/2026\/07\/06091054\/stj_info_894.pdf\">STJ_Info_894<\/a><a href=\"https:\/\/dhg1h5j42swfq.cloudfront.net\/2026\/07\/06091054\/stj_info_894.pdf\" class=\"wp-block-file__button wp-element-button\" download aria-describedby=\"wp-block-file--media-47a28336-e8d9-46eb-bf93-9ed785ce4f88\">Baixar<\/a><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DOWNLOAD do PDF AQUI! 1.&nbsp;&nbsp; REMI\u00c7\u00c3O DE PENA POR APROVA\u00c7\u00c3O EM ENEM E ENCCEJA Destaque \u00c9 cab\u00edvel a remi\u00e7\u00e3o da pena pela aprova\u00e7\u00e3o no ENEM, ainda que o ensino m\u00e9dio 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