{"id":1771987,"date":"2026-06-29T09:35:46","date_gmt":"2026-06-29T12:35:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.estrategiaconcursos.com.br\/blog\/?p=1771987"},"modified":"2026-06-29T09:35:48","modified_gmt":"2026-06-29T12:35:48","slug":"informativo-stj-893-comentado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.estrategiaconcursos.com.br\/blog\/informativo-stj-893-comentado\/","title":{"rendered":"Informativo STJ 893 Comentado"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/dhg1h5j42swfq.cloudfront.net\/2026\/06\/29093523\/stj_info_893.pdf\"><strong>DOWNLOAD do PDF AQUI!<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<div class=\"lyte-wrapper\" style=\"width:853px;max-width:100%;margin:5px;\"><div class=\"lyMe\" id=\"WYL_Aa7S2exCG44\"><div id=\"lyte_Aa7S2exCG44\" data-src=\"\/\/i.ytimg.com\/vi\/Aa7S2exCG44\/hqdefault.jpg\" class=\"pL\"><div class=\"tC\"><div class=\"tT\"><\/div><\/div><div class=\"play\"><\/div><div class=\"ctrl\"><div class=\"Lctrl\"><\/div><div class=\"Rctrl\"><\/div><\/div><\/div><noscript><a href=\"https:\/\/youtu.be\/Aa7S2exCG44\" rel=\"nofollow\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i.ytimg.com\/vi\/Aa7S2exCG44\/0.jpg\" alt=\"YouTube video thumbnail\" width=\"853\" height=\"460\" \/><br \/>Assista a este v\u00eddeo no YouTube<\/a><\/noscript><\/div><\/div><div class=\"lL\" style=\"max-width:100%;width:853px;margin:5px;\"><\/div>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<h2 id=\"h-1-nbsp-nbsp-embargos-de-divergencia-e-modulacao-de-efeitos-em-recurso-repetitivo\" class=\"wp-block-heading\">1.&nbsp;&nbsp; EMBARGOS DE DIVERG\u00caNCIA E MODULA\u00c7\u00c3O DE EFEITOS EM RECURSO REPETITIVO<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o s\u00e3o cab\u00edveis embargos de diverg\u00eancia para discuss\u00e3o de modula\u00e7\u00e3o aplicada em recurso repetitivo, <strong>pois configuraria revis\u00e3o da regra t\u00e9cnica de julgamento utilizada pelo \u00f3rg\u00e3o fracion\u00e1rio competente para o exame da quest\u00e3o de m\u00e9rito<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AgInt nos EREsp 1.905.870-PR, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, Corte Especial, por maioria, julgado em 3\/6\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao julgar o Tema 1079\/STJ, a Primeira Se\u00e7\u00e3o fixou tese tribut\u00e1ria e modulou os efeitos do julgado, restringindo a limita\u00e7\u00e3o da base de c\u00e1lculo \u00e0s empresas que ingressaram com a\u00e7\u00e3o judicial e\/ou pedido administrativo at\u00e9 o in\u00edcio do julgamento, com pronunciamento favor\u00e1vel. A Fazenda Nacional op\u00f4s embargos de diverg\u00eancia &#8211; n\u00e3o contra a tese de fundo, mas contra a modula\u00e7\u00e3o -, apontando diss\u00eddio com paradigmas que examinaram a modula\u00e7\u00e3o em outras circunst\u00e2ncias. S\u00e3o cab\u00edveis embargos de diverg\u00eancia para rediscutir a modula\u00e7\u00e3o aplicada em repetitivo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CPC, art. 927, \u00a7 3\u00ba<\/strong><em> (modula\u00e7\u00e3o dos efeitos na altera\u00e7\u00e3o de jurisprud\u00eancia dominante, por interesse social e seguran\u00e7a jur\u00eddica).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CPC, art. 1.043<\/strong><em> (embargos de diverg\u00eancia: diverg\u00eancia sobre quest\u00e3o de direito entre \u00f3rg\u00e3os do tribunal).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CPC, art. 1.036 e seguintes<\/strong><em> (julgamento de recursos repetitivos: fixa\u00e7\u00e3o de tese de observ\u00e2ncia obrigat\u00f3ria).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda O recurso repetitivo destina-se a firmar tese de observ\u00e2ncia obrigat\u00f3ria, atendendo \u00e0 celeridade, \u00e0 isonomia e \u00e0 seguran\u00e7a jur\u00eddica. A modula\u00e7\u00e3o dos efeitos \u00e9 faculdade do \u00f3rg\u00e3o julgador, soberano no exame da controv\u00e9rsia, exercida a partir das particularidades concretas, especialmente do impacto social ou econ\u00f4mico do entendimento firmado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd Os embargos de diverg\u00eancia pressup\u00f5em diss\u00eddio sobre quest\u00e3o de direito decidida de modo distinto por \u00f3rg\u00e3os do tribunal. A modula\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 tese jur\u00eddica abstrata uniformiz\u00e1vel: \u00e9 regra t\u00e9cnica de julgamento aplicada conforme as circunst\u00e2ncias concretas de cada repetitivo. Rediscut\u00ed-la por embargos de diverg\u00eancia converteria o recurso em instrumento de revis\u00e3o de ju\u00edzo discricion\u00e1rio, finalidade para a qual n\u00e3o se presta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A modula\u00e7\u00e3o dos efeitos no recurso repetitivo n\u00e3o \u00e9 tese jur\u00eddica de fundo, mas <strong>decis\u00e3o t\u00e9cnica sobre o alcance temporal do entendimento, tomada a partir das peculiaridades concretas e do impacto social ou econ\u00f4mico do julgado<\/strong>. A Fazenda Nacional n\u00e3o atacou o que foi fixado no Tema 1079\/STJ &#8211; aceitou a tese -, mas apenas a forma como seus efeitos foram modulados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f O ponto sens\u00edvel est\u00e1 na natureza do que se pretende rediscutir. <strong>Os embargos de diverg\u00eancia (CPC, art. 1.043) exigem diss\u00eddio sobre quest\u00e3o de direito decidida de modo divergente entre \u00f3rg\u00e3os do tribunal<\/strong>; a modula\u00e7\u00e3o, ao contr\u00e1rio, depende das circunst\u00e2ncias concretas de cada caso &#8211; o impacto da tese, a exist\u00eancia de pronunciamentos favor\u00e1veis, a expectativa leg\u00edtima dos jurisdicionados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 Da\u00ed a inviabilidade do confronto com paradigmas. <strong>N\u00e3o h\u00e1 como reconhecer diss\u00eddio entre a modula\u00e7\u00e3o aplicada no Tema 1079\/STJ e paradigmas que modularam (ou n\u00e3o) efeitos em outras controv\u00e9rsias, pois cada decis\u00e3o considerou as particularidades das situa\u00e7\u00f5es respectivas<\/strong>. A compara\u00e7\u00e3o seria entre ju\u00edzos discricion\u00e1rios formados sobre realidades distintas &#8211; n\u00e3o entre interpreta\u00e7\u00f5es divergentes de uma mesma norma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A conclus\u00e3o preserva a fun\u00e7\u00e3o do recurso repetitivo. <strong>Acolher os embargos significaria revisar a regra t\u00e9cnica de julgamento aplicada pelo \u00f3rg\u00e3o fracion\u00e1rio competente para o exame do m\u00e9rito<\/strong> &#8211; rediscutir a soberania do colegiado na pondera\u00e7\u00e3o entre seguran\u00e7a jur\u00eddica, prote\u00e7\u00e3o da confian\u00e7a e interesse social. Os embargos de diverg\u00eancia n\u00e3o se prestam a essa revis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O n\u00e3o cabimento de embargos de diverg\u00eancia para discutir a modula\u00e7\u00e3o de efeitos aplicada em recurso repetitivo decorre de:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) aus\u00eancia de previs\u00e3o legal do recurso de embargos de diverg\u00eancia no \u00e2mbito do STJ.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) a modula\u00e7\u00e3o configurar mat\u00e9ria de fato, insuscet\u00edvel de exame em recurso especial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) o acolhimento implicar revis\u00e3o da regra t\u00e9cnica de julgamento do \u00f3rg\u00e3o competente para o m\u00e9rito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) compet\u00eancia exclusiva do STF para modular os efeitos de decis\u00f5es com repercuss\u00e3o geral.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) preclus\u00e3o consumativa operada com a publica\u00e7\u00e3o do ac\u00f3rd\u00e3o que fixou a tese repetitiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. Os embargos de diverg\u00eancia t\u00eam previs\u00e3o legal (CPC, art. 1.043) e cabimento no STJ; o \u00f3bice \u00e9 a natureza do que se pretende rediscutir, n\u00e3o a inexist\u00eancia do recurso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. A modula\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mat\u00e9ria de fato; \u00e9 decis\u00e3o t\u00e9cnica sobre o alcance temporal da tese, tomada a partir das circunst\u00e2ncias concretas &#8211; o que impede a uniformiza\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o a converte em quest\u00e3o f\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) <strong>Correta.<\/strong> A modula\u00e7\u00e3o \u00e9 regra t\u00e9cnica de julgamento aplicada conforme as particularidades de cada repetitivo, no exerc\u00edcio da soberania do colegiado; rediscut\u00ed-la por embargos de diverg\u00eancia implicaria revisar esse ju\u00edzo do \u00f3rg\u00e3o competente para o m\u00e9rito, finalidade estranha ao recurso (CPC, art. 1.043).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. O STJ tamb\u00e9m modula efeitos de seus julgados (CPC, art. 927, \u00a7 3\u00ba); a compet\u00eancia n\u00e3o \u00e9 exclusiva do STF.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. O \u00f3bice n\u00e3o \u00e9 preclus\u00e3o temporal, mas a impossibilidade de uniformizar, por embargos de diverg\u00eancia, um ju\u00edzo discricion\u00e1rio sobre o alcance da tese.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, o ac\u00f3rd\u00e3o embargado foi proferido em sede de recurso repetitivo, cujo objetivo \u00e9 firmar tese jur\u00eddica de observ\u00e2ncia obrigat\u00f3ria em todos os processos que versem sobre a mesma quest\u00e3o de direito, atendendo, assim, aos princ\u00edpios da celeridade processual, da isonomia de tratamento \u00e0s partes e da seguran\u00e7a jur\u00eddica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ent\u00e3o, a Primeira Se\u00e7\u00e3o do Superior Tribunal de Justi\u00e7a, colegiado competente para as causas tribut\u00e1rias, fixou o Tema 1079\/STJ. Determinou, na ocasi\u00e3o, a modula\u00e7\u00e3o dos efeitos do julgado com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s empresas que ingressaram com a\u00e7\u00e3o judicial e\/ou protocolaram pedidos administrativos at\u00e9 a data do in\u00edcio do presente julgamento, obtendo pronunciamento (judicial ou administrativo) favor\u00e1vel, restringindo-se a limita\u00e7\u00e3o da base de c\u00e1lculo, por\u00e9m, at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o do ac\u00f3rd\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; O dissenso jurisprudencial alegado pela Fazenda Nacional n\u00e3o \u00e9 com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o de fundo, isto \u00e9, n\u00e3o questiona o que foi fixado no Tema 1079\/STJ, mas, sim, a modula\u00e7\u00e3o do julgamento, a teor do contido no 3 do art. 927 do C\u00f3digo de Processo Civil (CPC).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ocorre que <strong>a modula\u00e7\u00e3o \u00e9 uma faculdade conferida ao \u00f3rg\u00e3o julgador, soberano no exame da controv\u00e9rsia<\/strong>, a partir das particularidades do caso, especialmente, em raz\u00e3o do impacto social e\/ou econ\u00f4mico que pode ocorrer a partir do entendimento firmado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A quest\u00e3o da modula\u00e7\u00e3o dos efeitos foi enfrentada pelo \u00f3rg\u00e3o julgador a partir do exame do posicionamento adotado pelos integrantes do colegiado, bem como dos Tribunais Regionais Federais, n\u00e3o sendo poss\u00edvel o reconhecimento do alegado diss\u00eddio jurisprudencial com os paradigmas que examinam o tema relativo \u00e0 modula\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m com base nas peculiaridades das situa\u00e7\u00f5es l\u00e1 tratadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesse contexto, n\u00e3o h\u00e1 dissenso quanto ao conceito de jurisprud\u00eancia dominante, mas, sim, quanto \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o da regra t\u00e9cnica de julgamento do recurso repetitivo conforme as circunst\u00e2ncias concretas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Outrossim, n\u00e3o h\u00e1 diverg\u00eancia entre o ac\u00f3rd\u00e3o embargado e os precedentes que concluem pelo n\u00e3o cabimento de embargos de diverg\u00eancia e de recurso especial pela al\u00ednea c com base em paradigma monocr\u00e1tico, porquanto a quest\u00e3o relativa \u00e0 necessidade ou n\u00e3o de modula\u00e7\u00e3o dos efeitos do julgamento do Tema 1079\/STJ levou em considera\u00e7\u00e3o a previsibilidade e a estabilidade dos julgamentos. De fato, ao firmar tese em recurso representativo da controv\u00e9rsia, o Colegiado delibera acerca da modula\u00e7\u00e3o dos efeitos do julgamento com base nos princ\u00edpios da seguran\u00e7a jur\u00eddica, da prote\u00e7\u00e3o da confian\u00e7a e do interesse social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Portanto, na verdade, o acolhimento da pretens\u00e3o da Fazenda Nacional configuraria revis\u00e3o da regra t\u00e9cnica de julgamento aplicada pelo \u00f3rg\u00e3o fracion\u00e1rio competente para o exame da quest\u00e3o de m\u00e9rito, finalidade para a qual n\u00e3o se prestam os embargos de diverg\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-2-nbsp-prescricao-do-fundo-de-direito-e-negativa-pela-fazenda-publica\" class=\"wp-block-heading\">2.&nbsp; PRESCRI\u00c7\u00c3O DO FUNDO DE DIREITO E NEGATIVA PELA FAZENDA P\u00daBLICA<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas de trato sucessivo em que a Fazenda P\u00fablica figure como devedora, a prescri\u00e7\u00e3o do fundo de direito depende da negativa expressa do direito reclamado, em ato normativo de efeito concreto ou ato administrativo formalizado e com ci\u00eancia ao servidor; <strong>a mera in\u00e9rcia da Administra\u00e7\u00e3o em implantar a parcela em folha de pagamento n\u00e3o d\u00e1 in\u00edcio ao prazo de prescri\u00e7\u00e3o do fundo de direito<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 2.228.834-MA e REsp 2.228.837-MA, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, Primeira Se\u00e7\u00e3o, por unanimidade, julgado em 7\/5\/2026 (Tema 1410).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Godines, servidor do Munic\u00edpio de Estreito-MA, tinha direito a adicional por tempo de servi\u00e7o previsto no art. 288 da Lei Municipal n. 7\/1990. O Munic\u00edpio nunca implantou a parcela em folha, mas tamb\u00e9m jamais editou ato negando expressamente o direito. Anos depois, Godines ajuizou a\u00e7\u00e3o para reconhecimento da parcela e cobran\u00e7a das diferen\u00e7as. O Munic\u00edpio alegou prescri\u00e7\u00e3o do fundo de direito, ao argumento de que a in\u00e9rcia prolongada teria deflagrado o prazo quinquenal. A simples aus\u00eancia de implanta\u00e7\u00e3o inicia a prescri\u00e7\u00e3o do fundo de direito?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Decreto n. 20.910\/1932, art. 1\u00ba<\/strong><em> (prescri\u00e7\u00e3o quinquenal das d\u00edvidas e direitos contra a Fazenda P\u00fablica).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>S\u00famula 85\/STJ<\/strong><em> (rela\u00e7\u00f5es de trato sucessivo: prescri\u00e7\u00e3o atinge apenas as parcelas anteriores ao quinqu\u00eanio, salvo negativa do pr\u00f3prio direito).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Doutrina dos direitos originantes e originados<\/strong><em> (fundo de direito (originante) e consequ\u00eancias pecuni\u00e1rias (originados), ambos sujeitos \u00e0 prescri\u00e7\u00e3o).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda O fundo de direito corresponde ao direito originante &#8211; a situa\u00e7\u00e3o jur\u00eddica fundamental ligada \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de servidor (reclassifica\u00e7\u00f5es, reenquadramentos, adicional por tempo de servi\u00e7o). As consequ\u00eancias pecuni\u00e1rias s\u00e3o os direitos originados. Ambos se sujeitam \u00e0 prescri\u00e7\u00e3o, mas com gatilhos distintos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd O prazo de prescri\u00e7\u00e3o do fundo de direito s\u00f3 corre quando h\u00e1 negativa expressa do pr\u00f3prio direito reclamado &#8211; uma negativa ativa, em ato normativo de efeito concreto ou ato administrativo formalizado, com ci\u00eancia ao servidor (S\u00famula 85\/STJ). A in\u00e9rcia da Administra\u00e7\u00e3o, por si, n\u00e3o equivale \u00e0 negativa: omitir-se n\u00e3o \u00e9 negar. Sem ato expresso, prescrevem apenas as parcelas vencidas no quinqu\u00eanio anterior \u00e0 a\u00e7\u00e3o, preservado o direito de fundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A distin\u00e7\u00e3o entre fundo de direito e parcelas vencidas organiza toda a controv\u00e9rsia. <strong>O fundo de direito \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o jur\u00eddica fundamental &#8211; aqui, o direito ao adicional por tempo de servi\u00e7o; as parcelas s\u00e3o as repercuss\u00f5es pecuni\u00e1rias mensais desse direito<\/strong>. Os dois prescrevem, mas o gatilho temporal de cada um \u00e9 diferente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f Para as parcelas, o regime \u00e9 o da S\u00famula 85\/STJ: nas rela\u00e7\u00f5es de trato sucessivo, <strong>a prescri\u00e7\u00e3o alcan\u00e7a apenas as presta\u00e7\u00f5es vencidas no quinqu\u00eanio anterior ao ajuizamento, renovando-se a cada m\u00eas n\u00e3o pago<\/strong>. Esse ponto n\u00e3o gera maior d\u00favida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O fundo de direito segue l\u00f3gica diversa &#8211; e \u00e9 aqui que est\u00e1 a primeira tese. <strong>Seu prazo prescricional s\u00f3 se inicia com a negativa expressa do pr\u00f3prio direito reclamado: uma negativa ativa, formalizada em ato normativo de efeito concreto ou ato administrativo, com ci\u00eancia ao servidor<\/strong>. Enquanto a Administra\u00e7\u00e3o n\u00e3o nega o direito de modo inequ\u00edvoco, o fundo n\u00e3o \u00e9 atingido pela prescri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f Da\u00ed a segunda tese, aplicada ao caso de Estreito-MA. <strong>A simples in\u00e9rcia em implantar a parcela em folha n\u00e3o \u00e9 negativa do direito: a omiss\u00e3o administrativa n\u00e3o equivale ao ato expresso que recusa a pretens\u00e3o<\/strong>. N\u00e3o tendo havido recusa formal e inequ\u00edvoca, o prazo de prescri\u00e7\u00e3o do fundo de direito sequer come\u00e7ou a correr &#8211; prescritas apenas as parcelas anteriores ao quinqu\u00eanio da a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No tocante \u00e0 prescri\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o de trato sucessivo na qual a Fazenda P\u00fablica \u00e9 devedora de adicional n\u00e3o implantado em folha, \u00e9 correto afirmar que:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) a prescri\u00e7\u00e3o do fundo de direito depende de negativa expressa do direito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) a in\u00e9rcia da Administra\u00e7\u00e3o em implantar a parcela inicia o prazo de prescri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) o decurso do quinqu\u00eanio sem implanta\u00e7\u00e3o extingue o direito ao adicional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) a aus\u00eancia de implanta\u00e7\u00e3o em folha por longo tempo configura negativa t\u00e1cita apta a deflagrar <em>surrectio<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) o direito de fundo prescreve no mesmo prazo das parcelas vencidas, contado do primeiro m\u00eas n\u00e3o pago.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) <strong>Correta.<\/strong> O prazo de prescri\u00e7\u00e3o do fundo de direito s\u00f3 se inicia com a negativa expressa do pr\u00f3prio direito reclamado, em ato normativo de efeito concreto ou ato administrativo formalizado com ci\u00eancia ao servidor (S\u00famula 85\/STJ); a mera omiss\u00e3o na implanta\u00e7\u00e3o n\u00e3o basta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. A in\u00e9rcia da Administra\u00e7\u00e3o n\u00e3o equivale \u00e0 negativa do direito; omitir-se n\u00e3o \u00e9 negar, e a omiss\u00e3o n\u00e3o deflagra a prescri\u00e7\u00e3o do fundo de direito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. Sem negativa expressa, o fundo de direito n\u00e3o \u00e9 atingido pela prescri\u00e7\u00e3o; prescrevem apenas as parcelas vencidas no quinqu\u00eanio anterior, preservado o direito de fundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. Aqui o ponto \u00e9 prescri\u00e7\u00e3o. E como visto, a jurisprud\u00eancia exige negativa expressa e formalizada &#8211; n\u00e3o admite negativa t\u00e1cita por omiss\u00e3o para fins de prescri\u00e7\u00e3o do fundo de direito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. Fundo de direito e parcelas t\u00eam gatilhos distintos: as parcelas seguem a S\u00famula 85\/STJ (quinqu\u00eanio renov\u00e1vel); o fundo s\u00f3 prescreve a partir da negativa expressa.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-0\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; As quest\u00f5es submetidas a julgamento sob o rito dos recursos repetitivos s\u00e3o as seguintes: 1. Definir se, nas rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas de trato sucessivo em que a Fazenda P\u00fablica figure como devedora, a prescri\u00e7\u00e3o do fundo de direito depende da negativa expressa do direito reclamado. 2. Definir se a in\u00e9rcia do Munic\u00edpio de Estreito em implantar adicional por tempo de servi\u00e7o, na forma do art. 288 da Lei Municipal n. 7\/1990, em folha de pagamento, deu in\u00edcio ao prazo de prescri\u00e7\u00e3o do fundo de direito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Segundo a doutrina, no plano te\u00f3rico dos direitos subjetivos funcionais a que correspondem obriga\u00e7\u00f5es administrativas, \u00e9 poss\u00edvel fazer uma distin\u00e7\u00e3o entre &#8220;direitos originantes&#8221; e &#8220;direitos originados&#8221;. Os primeiros correspondem a &#8220;todas as determina\u00e7\u00f5es que, segundo as modalidades legais&#8221;, a rela\u00e7\u00e3o jur\u00eddica estatut\u00e1ria \u00e9 &#8220;capaz de assumir em termos de situa\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas do servidor&#8221;. S\u00e3o exemplos as &#8220;decorrentes de promo\u00e7\u00e3o, acesso, reenquadramento, reclassifica\u00e7\u00e3o, decurso de tempo, desempenho de fun\u00e7\u00f5es ou servi\u00e7os especiais, aposentadoria etc.&#8221;. Os segundos correspondem \u00e0s &#8220;consequ\u00eancias pecuni\u00e1rias&#8221; dos primeiros. Ambos s\u00e3o exig\u00edveis e est\u00e3o sujeitos \u00e0 prescri\u00e7\u00e3o: &#8220;realizado suporte f\u00e1tico, pode o funcion\u00e1rio exigir presta\u00e7\u00e3o administrativa, que tenha por objeto o pr\u00f3prio v\u00ednculo estatut\u00e1rio, ou uma das muitas situa\u00e7\u00f5es configur\u00e1veis no lado din\u00e2mico do mesmo v\u00ednculo, ou ainda s\u00f3 os efeitos pecuni\u00e1rios&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; <strong>O fundo de direito corresponde aos direitos originantes<\/strong>. Assim, s\u00e3o eles os direitos ligados \u00e0 situa\u00e7\u00e3o jur\u00eddica fundamental de ser funcion\u00e1rio p\u00fablico, como &#8220;reclassifica\u00e7\u00f5es, reenquadramentos, direito a adicionais por tempo de servi\u00e7o, direito \u00e0 gratifica\u00e7\u00e3o por presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o de natureza especial&#8221;. Nesse contexto, como as consequ\u00eancias pecuni\u00e1rias, o fundo de direito tamb\u00e9m est\u00e1 sujeito \u00e0 prescri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No entanto, apenas se negado expressamente o direito, o prazo quinquenal atinge a pretens\u00e3o ao reconhecimento do direito, na forma da S\u00famula 85 do STJ. Conforme pontua a doutrina, o requisito para o curso do prazo da prescri\u00e7\u00e3o do fundo de direito \u00e9 a negativa do &#8220;pr\u00f3prio direito reclamado&#8221;, ou seja, uma negativa ativa do direito. Assim, &#8220;quando o Estado se manifestou expressamente, [&#8230;] a prescri\u00e7\u00e3o alcan\u00e7a o pr\u00f3prio direito, ou, como preferem alguns, o pr\u00f3prio fundo do direito&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesse sentido, a jurisprud\u00eancia do Superior Tribunal de Justi\u00e7a registra casos em que se avaliou se houve ou n\u00e3o negativa expressa. Entendeu-se que o ato que defere a aposentadoria, ainda que assinale o valor dos proventos, n\u00e3o \u00e9 negativa do direito \u00e0 parcela n\u00e3o apreciada na decis\u00e3o (Tema 1017, REsp n. 1.783.975 e REsp n. 1.772.848 Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 20\/10\/2010). Em igual sentido, tampouco se compreendeu que a incorpora\u00e7\u00e3o da parcela discutida em folha de pagamento equivale a uma decis\u00e3o expressa, a marcar o in\u00edcio da prescri\u00e7\u00e3o do direito a buscar ulteriores diferen\u00e7as (Tema 602, Resp n. 1.336.213, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 12\/06\/2013).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A fundamenta\u00e7\u00e3o do julgado, no Tema 1017, buscou definir a &#8220;expressa negativa da Administra\u00e7\u00e3o&#8221; como &#8220;ato normativo de efeito concreto ou ato administrativo formalizado e com ci\u00eancia ao servidor&#8221; (Tema 1017, REsp n. 1.783.975 e REsp n. 1.772.848, Rel. Min. Herman Benjamin, julgados em 20\/10\/2010).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Portanto, \u00e9 esse o par\u00e2metro a ser observado. <strong>O simples transcurso do tempo n\u00e3o pode ser considerado como uma negativa expressa<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, n\u00e3o est\u00e1 demonstrada negativa expressa em rela\u00e7\u00e3o ao pleito dos servidores do Munic\u00edpio de Estreito, no Maranh\u00e3o, buscando a implanta\u00e7\u00e3o em folha e a condena\u00e7\u00e3o ao pagamento das diferen\u00e7as atrasadas, referentes ao adicional por tempo de servi\u00e7o de 5% (cinco por cento) do valor do vencimento, a cada quinqu\u00eanio completado, limitado ao m\u00e1ximo de 30% (trinta por cento), na forma do art. 288 da Lei Municipal n. 7\/1990.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; O decurso dos meses, sem que a parcela fosse incorporada em folha de pagamento, n\u00e3o leva \u00e0 prescri\u00e7\u00e3o do fundo de direito. Apenas a pretens\u00e3o \u00e0 percep\u00e7\u00e3o das parcelas vai paulatinamente sendo encoberta pelo decurso do prazo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Dessa forma, deve ser afirmado que a negativa expressa do direito reclamado \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para o in\u00edcio do curso do prazo prescricional em rela\u00e7\u00e3o ao fundo de direito. Assim, a in\u00e9rcia do Munic\u00edpio de Estreito em implantar adicional por tempo de servi\u00e7o n\u00e3o deu in\u00edcio ao prazo de prescri\u00e7\u00e3o da pretens\u00e3o ao reconhecimento do direito. Satisfeito o requisito da negativa expressa, o prazo prescricional de cinco anos das d\u00edvidas da Fazenda P\u00fablica (art. 1 do Decreto-Lei n. 20.910\/1932) corre em rela\u00e7\u00e3o ao fundo de direito, tamb\u00e9m referido como direito \u00e0 a\u00e7\u00e3o ou pretens\u00e3o ao reconhecimento do direito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ante o exposto, fixam-se as seguintes teses do Tema 1410\/STJ: &#8220;1. Nas rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas de trato sucessivo em que a Fazenda P\u00fablica figure como devedora, a prescri\u00e7\u00e3o do fundo de direito depende da <strong>negativa expressa do direito reclamado<\/strong>, em ato normativo de efeito concreto ou ato administrativo formalizado e com ci\u00eancia ao servidor. 2. A in\u00e9rcia do Munic\u00edpio de Estreito-MA em implantar adicional por tempo de servi\u00e7o, na forma do art. 288 da Lei Municipal n. 7\/1990, em folha de pagamento, n\u00e3o deu in\u00edcio ao prazo de prescri\u00e7\u00e3o do fundo de direito&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-3-nbsp-legitimidade-do-sindicato-e-acao-civil-publica-sobre-complementacao-do-fundeb\" class=\"wp-block-heading\">3.&nbsp; LEGITIMIDADE DO SINDICATO E A\u00c7\u00c3O CIVIL P\u00daBLICA SOBRE COMPLEMENTA\u00c7\u00c3O DO FUNDEB<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sindicato n\u00e3o tem leg\u00edtimo interesse para propor a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica <strong>buscando a condena\u00e7\u00e3o ao pagamento de diferen\u00e7as de complementa\u00e7\u00e3o do FUNDEF ou do FUNDEB<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 2.228.331-DF e REsp 2.228.559-DF, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, Primeira Se\u00e7\u00e3o, por unanimidade, julgado em 7\/5\/2026 (Tema 1408).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Sindicato dos Educadores em Movimento, representando professores da rede municipal, ajuizou a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica para condenar a Uni\u00e3o a pagar diferen\u00e7as de complementa\u00e7\u00e3o do FUNDEB (e do antigo FUNDEF) devidas ao Munic\u00edpio, sob o argumento de que parte desses recursos seria legalmente subvinculada \u00e0 remunera\u00e7\u00e3o dos profissionais da educa\u00e7\u00e3o. A Uni\u00e3o sustentou que o cr\u00e9dito da complementa\u00e7\u00e3o pertence ao Munic\u00edpio, \u00fanico titular do interesse, e que o sindicato n\u00e3o poderia substitu\u00ed-lo. O sindicato tem leg\u00edtimo interesse para essa a\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n. 7.347\/1985, art. 1\u00ba, IV e VIII<\/strong><em> (objeto da a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica: prote\u00e7\u00e3o de interesses difusos e coletivos).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n. 7.347\/1985, art. 5\u00ba, V<\/strong><em> (legitimidade das associa\u00e7\u00f5es para a propositura da a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CF, art. 8\u00ba, III<\/strong><em> (legitimidade do sindicato para defender direitos da categoria, judicial ou administrativamente).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CPC, art. 18<\/strong><em> (ningu\u00e9m pode pleitear direito alheio em nome pr\u00f3prio, salvo autoriza\u00e7\u00e3o legal).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda A complementa\u00e7\u00e3o do FUNDEB \u00e9 repasse da Uni\u00e3o ao Munic\u00edpio. O interesse direto na transfer\u00eancia \u00e9 do ente federativo &#8211; \u00e9 ele o titular do cr\u00e9dito e quem tem legitimidade para postul\u00e1-lo em ju\u00edzo. A subvincula\u00e7\u00e3o legal de parte dos recursos \u00e0 remunera\u00e7\u00e3o dos profissionais da educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o transfere ao sindicato a titularidade do cr\u00e9dito federativo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd Embora o sindicato seja, em tese, legitimado para a a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica (art. 5\u00ba, V, da Lei n. 7.347\/1985) e para defender a categoria (art. 8\u00ba, III, da CF), falta-lhe interesse leg\u00edtimo espec\u00edfico para reclamar a complementa\u00e7\u00e3o: o direito reclamado \u00e9 do Munic\u00edpio, e pleite\u00e1-lo seria postular direito alheio em nome pr\u00f3prio sem autoriza\u00e7\u00e3o legal (CPC, art. 18). A expectativa reflexa sobre a folha n\u00e3o converte o sindicato em titular do cr\u00e9dito intergovernamental.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O ponto de partida \u00e9 identificar de quem \u00e9 o cr\u00e9dito em disputa. <strong>A complementa\u00e7\u00e3o do FUNDEB \u00e9 transfer\u00eancia da Uni\u00e3o ao Munic\u00edpio; o titular do direito ao repasse \u00e9 o ente federativo, a quem cabe postul\u00e1-lo em ju\u00edzo<\/strong>. A controv\u00e9rsia n\u00e3o est\u00e1 na exist\u00eancia do direito, mas em quem pode reclam\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A defesa do sindicato apoiava-se na subvincula\u00e7\u00e3o: como parte dos recursos do FUNDEB \u00e9 destinada por lei \u00e0 remunera\u00e7\u00e3o dos profissionais da educa\u00e7\u00e3o, haveria interesse direto da categoria. <strong>O argumento confunde o destino final de parcela dos recursos com a titularidade do cr\u00e9dito intergovernamental<\/strong>. A subvincula\u00e7\u00e3o disciplina como o Munic\u00edpio deve aplicar o que recebe &#8211; n\u00e3o cria, para o sindicato, direito aut\u00f4nomo de exigir da Uni\u00e3o o repasse devido ao ente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A legitima\u00e7\u00e3o sindical, embora ampla, n\u00e3o alcan\u00e7a esse pleito. <strong>O sindicato pode propor a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica (art. 5\u00ba, V, da Lei n. 7.347\/1985) e defender a categoria (art. 8\u00ba, III, da CF), mas reclamar a complementa\u00e7\u00e3o significaria pleitear direito alheio &#8211; do Munic\u00edpio &#8211; em nome pr\u00f3prio, sem autoriza\u00e7\u00e3o legal espec\u00edfica (CPC, art. 18)<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f Da\u00ed a aus\u00eancia de leg\u00edtimo interesse. <strong>A expectativa reflexa da categoria sobre eventual reflexo na folha de pagamento n\u00e3o a converte em titular do cr\u00e9dito federativo nem lhe confere interesse processual para a a\u00e7\u00e3o<\/strong>. O caminho para a categoria \u00e9 outro &#8211; voltado contra o Munic\u00edpio quanto \u00e0 correta aplica\u00e7\u00e3o dos recursos efetivamente recebidos -, n\u00e3o a substitui\u00e7\u00e3o do ente na cobran\u00e7a da complementa\u00e7\u00e3o \u00e0 Uni\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tratando-se de a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica sobre diferen\u00e7as de complementa\u00e7\u00e3o do FUNDEB, o sindicato:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) pode demandar a complementa\u00e7\u00e3o porque parte dos recursos \u00e9 vinculada \u00e0 remunera\u00e7\u00e3o dos profissionais da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) deve demandar na Justi\u00e7a comum, competente para apreciar repasses do FUNDEB aos entes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) depende de autoriza\u00e7\u00e3o assemblear espec\u00edfica para cada a\u00e7\u00e3o coletiva sindical.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) n\u00e3o tem legitimidade, pois o cr\u00e9dito da complementa\u00e7\u00e3o \u00e9 titularizado pelo Munic\u00edpio, e n\u00e3o pela categoria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) diante da natureza individual homog\u00eanea do direito, n\u00e3o poder\u00e1 propor a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A complementa\u00e7\u00e3o do FUNDEB \u00e9 repasse da Uni\u00e3o ao Munic\u00edpio; o interesse direto na transfer\u00eancia \u00e9 do ente federativo. A subvincula\u00e7\u00e3o de parte dos recursos \u00e0 remunera\u00e7\u00e3o n\u00e3o transfere ao sindicato a titularidade do cr\u00e9dito intergovernamental.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. N\u00e3o h\u00e1 incompet\u00eancia da Justi\u00e7a comum; o \u00f3bice \u00e9 a falta de interesse leg\u00edtimo do sindicato quanto a cr\u00e9dito de outrem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 de autoriza\u00e7\u00e3o assemblear, mas de titularidade do direito reclamado, que pertence ao Munic\u00edpio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) <strong>Correta.<\/strong> A complementa\u00e7\u00e3o do FUNDEB \u00e9 cr\u00e9dito da Uni\u00e3o ao Munic\u00edpio, titularizado pelo ente federativo. Reclam\u00e1-la pelo sindicato seria postular direito alheio em nome pr\u00f3prio sem autoriza\u00e7\u00e3o legal (CPC, art. 18); a subvincula\u00e7\u00e3o \u00e0 remunera\u00e7\u00e3o n\u00e3o transfere a titularidade do cr\u00e9dito intergovernamental.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. O fundamento da ilegitimidade n\u00e3o \u00e9 a natureza do direito como individual homog\u00eaneo, mas a titularidade do cr\u00e9dito pelo ente federativo.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-1\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A quest\u00e3o submetida a julgamento sob o rito dos recursos repetitivos \u00e9 a seguinte: &#8220;Definir se sindicato tem interesse e legitimidade para propor a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica buscando a condena\u00e7\u00e3o ao pagamento de diferen\u00e7as de complementa\u00e7\u00e3o do FUNDEF ou do FUNDEB&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os sindicatos de profissionais da educa\u00e7\u00e3o, via a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica, buscam diferen\u00e7as da complementa\u00e7\u00e3o do Fundo de Manuten\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica e de Valoriza\u00e7\u00e3o dos Profissionais da Educa\u00e7\u00e3o (FUNDEB), ou de seu antecessor, Fundo de Manuten\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valoriza\u00e7\u00e3o do Magist\u00e9rio (FUNDEF), da Uni\u00e3o ao Munic\u00edpio, sendo que parte desse valor seria legalmente repassada aos membros da categoria profissional da entidade sindical.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A legisla\u00e7\u00e3o ordin\u00e1ria regulamentou as disposi\u00e7\u00f5es constitucionais relativas ao FUNDEB (antigo FUNDEF). A Lei n. 9.424\/1996, segundo os termos da EC n. 14\/1996, a Lei n. 11.494\/2007, conforme a EC n. 536\/2006, e a Lei n. 14.113\/2020, na esteira da EC n. 108\/2020. Os diplomas legais estabelecem normas sobre a composi\u00e7\u00e3o financeira &#8211; inclusive a complementa\u00e7\u00e3o pela Uni\u00e3o -, distribui\u00e7\u00e3o, transfer\u00eancia, gest\u00e3o e utiliza\u00e7\u00e3o dos recursos. O interesse das categorias profissionais de trabalhadores da educa\u00e7\u00e3o no repasse das verbas decorre da destina\u00e7\u00e3o de parte dos recursos como remunera\u00e7\u00e3o. A legisla\u00e7\u00e3o prev\u00ea uma subvincula\u00e7\u00e3o dos recursos \u00e0 remunera\u00e7\u00e3o desses profissionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com efeito, o interesse direto em disputa \u00e9 do Munic\u00edpio, que tem legitimidade para agir em ju\u00edzo, na forma do art. 18 do CPC. A controv\u00e9rsia central est\u00e1 em saber se os sindicatos de profissionais da educa\u00e7\u00e3o est\u00e3o autorizados pelo ordenamento jur\u00eddico a ingressar em ju\u00edzo, para defender o interesse da municipalidade. A solu\u00e7\u00e3o envolve a interpreta\u00e7\u00e3o do art. 1, IV e VIII, da Lei n. 7.347\/1985, que trata do objeto da a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica, e do art. 5, V, da Lei n. 7.347\/1985, que trata da legitimidade das associa\u00e7\u00f5es para a sua propositura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quanto \u00e0 legitimidade sindical para ajuizar a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica, n\u00e3o h\u00e1 maiores d\u00favidas. O sindicato \u00e9 legitimado para agir em ju\u00edzo, no interesse da categoria profissional respectiva (art. 8, III, da CF), e, como associa\u00e7\u00e3o civil, pode ser autor da a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica (art. 5, V, da Lei n. 7.347\/1985). Como visto, h\u00e1 uma subvincula\u00e7\u00e3o do recurso transferido \u00e0 remunera\u00e7\u00e3o de profissionais da educa\u00e7\u00e3o. Portanto, h\u00e1 interesse direto da categoria profissional beneficiada em pleitear a transfer\u00eancia ou complementa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Esse interesse existe mesmo para parcelas atrasadas. A subvincula\u00e7\u00e3o, quanto a valores reconhecidos judicialmente e liquidados mediante precat\u00f3rio, foi contestada pelo Tribunal de Contas da Uni\u00e3o (Ac\u00f3rd\u00e3o 1.824\/2017, Rel. Min. Walton Alencar Rodrigues, julgado em 23\/8\/2017), em decis\u00e3o n\u00e3o recha\u00e7ada pelo Supremo Tribunal Federal (ADPF 528, Rel. Min. Alexandre de Moraes, julgada em 22\/3\/2022).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No entanto, a modifica\u00e7\u00e3o do Direito deixa claro que, mesmo nos pagamentos via precat\u00f3rio judicial, a subvincula\u00e7\u00e3o subsiste. Assim, ap\u00f3s a decis\u00e3o do TCU, a subvincula\u00e7\u00e3o foi afirmada em n\u00edvel constitucional (art. 5, par\u00e1grafo \u00fanico, da EC n. 114\/2021) e em n\u00edvel legal (art. 47-A, da Lei n. 14.113\/2020, inclu\u00eddo pela Lei n. 14.325\/2022).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Portanto, os sindicatos que representam os servidores potencialmente beneficiados agem em nome do interesse da categoria profissional. Como tal, est\u00e3o, em tese, legitimados para agir em ju\u00edzo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A conclus\u00e3o \u00e9 diversa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 adequa\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica. \u00c0 primeira vista, o pleito de incremento das transfer\u00eancias ou de complementa\u00e7\u00e3o parece adequado ao rito processual da a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica, por buscar a defesa de interesse difuso na educa\u00e7\u00e3o e do patrim\u00f4nio municipal (art. 1, IV e VIII, da Lei n. 7.347\/1985). N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que est\u00e1 em jogo o interesse difuso na educa\u00e7\u00e3o. Tampouco h\u00e1 d\u00favida de que o patrim\u00f4nio municipal est\u00e1 em jogo. O direito em quest\u00e3o \u00e9 do Munic\u00edpio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em princ\u00edpio, a a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica \u00e9 adequada tanto para a defesa dos bens p\u00fablicos, quanto para as normas de direito financeiro. Assim, &#8220;pode haver prote\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio p\u00fablico por meio da LACP&#8221; tanto &#8220;nos desvios de verba or\u00e7ament\u00e1ria (v\u00edcios na arrecada\u00e7\u00e3o e na despesa) quanto no que respeita aos bens (degrada\u00e7\u00e3o, depaupera\u00e7\u00e3o, maus tratos, destina\u00e7\u00e3o, transfer\u00eancias indevidas etc.)&#8221;, conforme a doutrina. No caso, estamos diante do cumprimento de normas or\u00e7ament\u00e1rias, relativo \u00e0s despesas p\u00fablicas com educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ainda assim, a a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica n\u00e3o \u00e9 via adequada para tutelar o interesse em causa. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que os recursos s\u00e3o recursos p\u00fablicos, restem eles com a Uni\u00e3o ou sejam repassados ao Munic\u00edpio. Em semelhante situa\u00e7\u00e3o, apenas o Munic\u00edpio deve ser reputado legitimado para pleitear o interesse em ju\u00edzo, na forma do art. 18 do CPC. Os entes municipais disp\u00f5em de estrutura para interpretar as normas cab\u00edveis e para agir, caso entendam cab\u00edvel. O uso da a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica, nesse caso, ampliaria sobremaneira o debate e poderia desequilibrar o relacionamento entre os entes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A despeito de sua relev\u00e2ncia, as categorias profissionais interessadas restariam incentivadas a fazer prevalecer qualquer interpreta\u00e7\u00e3o que favore\u00e7a a municipalidade. Essa \u00eanfase paroquial levaria a uma concorr\u00eancia entre os entes subnacionais na disputa pela partilha, de forma que o sistema poderia acabar desequilibrado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, fixa-se a seguinte tese do Tema 1408\/STJ: O sindicato n\u00e3o tem leg\u00edtimo interesse para propor a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica buscando a condena\u00e7\u00e3o ao pagamento de diferen\u00e7as de complementa\u00e7\u00e3o do FUNDEF ou do FUNDEB.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-4-bloqueio-do-fpm-por-divida-previdenciaria-e-limites-da-lei-9-639-1998\" class=\"wp-block-heading\">4. BLOQUEIO DO FPM POR D\u00cdVIDA PREVIDENCI\u00c1RIA E LIMITES DA LEI 9.639\/1998<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o s\u00e3o aplic\u00e1veis aos bloqueios do Fundo de Participa\u00e7\u00e3o dos Munic\u00edpios (FPM), em raz\u00e3o de d\u00edvidas com contribui\u00e7\u00f5es previdenci\u00e1rias, <strong>os limites de 9% da cota-parte e de 15% da Receita Corrente L\u00edquida previstos na Lei n. 9.639\/1998<\/strong>, salvo quanto aos parcelamentos regidos por esse diploma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 2.238.302-DF e REsp 2.177.031-PI, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, Primeira Se\u00e7\u00e3o, por unanimidade, julgado em 7\/5\/2026 (Tema 1401).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Munic\u00edpio inadimplente com contribui\u00e7\u00f5es previdenci\u00e1rias teve recursos do FPM retidos pela Uni\u00e3o para quita\u00e7\u00e3o do d\u00e9bito. O ente invocou os limites da Lei n. 9.639\/1998 &#8211; 9% da cota-parte (art. 1\u00ba) e 15% da Receita Corrente L\u00edquida (art. 5\u00ba, \u00a7 4\u00ba) &#8211; para reduzir o valor retido. A Uni\u00e3o sustentou que esses limites se aplicam apenas aos parcelamentos regidos por aquela lei, cujo prazo de ades\u00e3o se esgotou h\u00e1 mais de quinze anos, e que a regularidade previdenci\u00e1ria para libera\u00e7\u00e3o do FPM tem base constitucional. Os limites da Lei n. 9.639\/1998 incidem sobre o bloqueio?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CF, art. 160, \u00a7 1\u00ba, I<\/strong><em> (condicionamento da entrega de recursos do fundo ao pagamento de cr\u00e9ditos do ente transferidor).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n. 8.212\/1991, art. 56<\/strong><em> (inexist\u00eancia de d\u00e9bito previdenci\u00e1rio como requisito para a entrega dos recursos do FPM).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n. 9.639\/1998, arts. 1\u00ba e 5\u00ba, \u00a7 4\u00ba<\/strong><em> (limites de 9% da cota-parte e 15% da RCL, no contexto de parcelamentos espec\u00edficos).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>LINDB, art. 2\u00ba, \u00a7 2\u00ba<\/strong><em> (lei especial n\u00e3o revoga a geral; ambas convivem nos respectivos \u00e2mbitos).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda O condicionamento da libera\u00e7\u00e3o do FPM \u00e0 regularidade com contribui\u00e7\u00f5es previdenci\u00e1rias tem amparo constitucional direto (art. 160, \u00a7 1\u00ba, I, da CF) e legal (art. 56 da Lei n. 8.212\/1991). \u00c9 regra geral e permanente, n\u00e3o revogada pela Lei n. 9.639\/1998.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd A Lei n. 9.639\/1998 disp\u00f4s sobre parcelamentos espec\u00edficos, com prazo de ades\u00e3o h\u00e1 muito esgotado (a modalidade mais recente venceu em 31\/8\/2001). Seus limites de reten\u00e7\u00e3o operam no \u00e2mbito desses parcelamentos &#8211; lei especial que convive com a lei geral (LINDB, art. 2\u00ba, \u00a7 2\u00ba). Fora das hip\u00f3teses de parcelamento por ela regidas, os limites de 9% e 15% n\u00e3o se aplicam ao bloqueio do FPM por d\u00edvida previdenci\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A libera\u00e7\u00e3o dos recursos do FPM est\u00e1 constitucionalmente condicionada \u00e0 quita\u00e7\u00e3o de cr\u00e9ditos do ente transferidor. <strong>O art. 160, \u00a7 1\u00ba, I, da CF autoriza a Uni\u00e3o a condicionar a entrega ao pagamento de seus cr\u00e9ditos, e o art. 56 da Lei n. 8.212\/1991 erige a regularidade previdenci\u00e1ria em requisito da libera\u00e7\u00e3o<\/strong>. Essa \u00e9 a regra geral e permanente do sistema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A Lei n. 9.639\/1998 n\u00e3o revogou esse condicionamento. <strong>Ela disciplinou parcelamentos espec\u00edficos de d\u00e9bitos previdenci\u00e1rios, com prazo de ades\u00e3o esgotado h\u00e1 mais de quinze anos &#8211; a modalidade mais recente venceu em 31\/8\/2001<\/strong>. Seus limites de reten\u00e7\u00e3o (9% da cota-parte, 15% da RCL) foram concebidos no contexto desses parcelamentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A conviv\u00eancia entre as normas resolve-se pela especialidade. <strong>A regra geral (art. 56 da Lei n. 8.212\/1991) exige regularidade fiscal para a libera\u00e7\u00e3o do FPM; a regra especial (Lei n. 9.639\/1998) afasta parcialmente a exig\u00eancia, mas apenas na vig\u00eancia dos parcelamentos por ela regidos (LINDB, art. 2\u00ba, \u00a7 2\u00ba)<\/strong>. Uma n\u00e3o revoga a outra: cada qual opera em seu \u00e2mbito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f Fora do parcelamento espec\u00edfico, os limites n\u00e3o incidem. <strong>O bloqueio do FPM por d\u00edvida previdenci\u00e1ria n\u00e3o regida pela Lei n. 9.639\/1998 n\u00e3o se submete aos tetos de 9% e 15%, pois estes pressup\u00f5em a ades\u00e3o \u00e0 modalidade de parcelamento que justificou sua cria\u00e7\u00e3o<\/strong>. Invocar normas de tessitura aberta para limitar reten\u00e7\u00e3o amparada em comando constitucional diretamente prescritivo (art. 160, \u00a7 1\u00ba, I, da CF) n\u00e3o tem respaldo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre o regime de reten\u00e7\u00e3o de recursos do FPM por d\u00edvidas previdenci\u00e1rias do Munic\u00edpio:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Os limites de 9% e 15% da Lei n. 9.639\/1998 incidem sobre todo bloqueio por d\u00edvida previdenci\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Os limites de reten\u00e7\u00e3o aplicam-se mesmo ap\u00f3s o encerramento dos parcelamentos respectivos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) A Lei n. 9.639\/1998 revogou a exig\u00eancia de regularidade do art. 56 da Lei n. 8.212\/1991.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) O condicionamento da libera\u00e7\u00e3o depende de lei complementar espec\u00edfica ainda n\u00e3o editada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) A regularidade previdenci\u00e1ria para libera\u00e7\u00e3o do FPM tem amparo constitucional (art. 160, \u00a7 1\u00ba, I).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. Os limites da Lei n. 9.639\/1998 operam apenas no \u00e2mbito dos parcelamentos por ela regidos, cujo prazo de ades\u00e3o se esgotou; n\u00e3o incidem sobre todo bloqueio por d\u00edvida previdenci\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. Encerrados os parcelamentos, cessa o \u00e2mbito de incid\u00eancia dos limites da Lei n. 9.639\/1998; eles n\u00e3o se projetam sobre bloqueios estranhos a esses parcelamentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. A Lei n. 9.639\/1998 n\u00e3o revogou o art. 56 da Lei n. 8.212\/1991; as normas convivem, sendo a primeira especial quanto aos parcelamentos que disciplina (LINDB, art. 2\u00ba, \u00a7 2\u00ba).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. O condicionamento j\u00e1 tem base constitucional autoaplic\u00e1vel (art. 160, \u00a7 1\u00ba, I) e legal (art. 56 da Lei n. 8.212\/1991); n\u00e3o depende de lei complementar nova.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) <strong>Correta.<\/strong> O condicionamento da libera\u00e7\u00e3o do FPM \u00e0 quita\u00e7\u00e3o de cr\u00e9ditos do ente transferidor decorre diretamente do art. 160, \u00a7 1\u00ba, I, da CF, complementado pelo art. 56 da Lei n. 8.212\/1991 &#8211; regra geral e permanente do sistema.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-2\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A controv\u00e9rsia submetida a julgamento sob o rito dos recursos repetitivos consiste em definir se s\u00e3o aplic\u00e1veis aos bloqueios do Fundo de Participa\u00e7\u00e3o dos Munic\u00edpios &#8211; FPM em raz\u00e3o de d\u00edvidas com contribui\u00e7\u00f5es previdenci\u00e1rias, os limites de 9% da cota-parte (art. 1, caput, da Lei n. 9.639\/1998) e de 15% da Receita Corrente L\u00edquida (art. 5, 4, da Lei n. 9.639\/1998). Deve ser afirmada a inaplicabilidade das disposi\u00e7\u00f5es da Lei n. 9.639\/1998, salvo quanto aos parcelamentos por ela regidos. Assim, o bloqueio do FPM por d\u00edvidas com contribui\u00e7\u00f5es previdenci\u00e1rias n\u00e3o est\u00e1 sujeito aos limites previstos nesse diploma normativo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; O parcelamento de contribui\u00e7\u00f5es previdenci\u00e1rias \u00e9 excepcional. Vedadas a remiss\u00e3o e a anistia desde a EC n. 20\/1998, s\u00e3o expressamente proibidos &#8220;a morat\u00f3ria e o parcelamento&#8221; por prazo longo desde a EC n. 103\/2019 (art. 195, 11, da CF). Disposi\u00e7\u00f5es constitucionais transit\u00f3rias toleraram o parcelamento de tais d\u00e9bitos (art. 57 do ADCT e art. 116, introduzido pela EC n. 113\/2021 e modificado pela EC n. 136\/2025), o que apenas refor\u00e7a o car\u00e1ter nada corriqueiro da rolagem dessa d\u00edvida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; O condicionamento da libera\u00e7\u00e3o de recursos do FPM \u00e0 regularidade com as contribui\u00e7\u00f5es previdenci\u00e1rias est\u00e1 al\u00e9m de discuss\u00e3o. O texto constitucional subordina a entrega dos recursos do fundo de participa\u00e7\u00e3o ao pagamento dos cr\u00e9ditos que o ente transferidor tem para com o ente beneficiado, ao que interessa, d\u00edvidas do munic\u00edpio para com a UNI\u00c3O (art.160, 1, I), e a legisla\u00e7\u00e3o aponta a inexist\u00eancia de d\u00e9bitos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s contribui\u00e7\u00f5es previdenci\u00e1rias como requisito para a entrega dos recursos (art. 56 da Lei n. 8.212\/1991).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A Lei n. 9.639\/1998, invocada como fonte da limita\u00e7\u00e3o \u00e0 reten\u00e7\u00e3o, disp\u00f4s sobre parcelamentos espec\u00edficos, com prazo de ades\u00e3o h\u00e1 muito ultrapassado. O prazo de ades\u00e3o \u00e0 modalidade mais recente venceu h\u00e1 mais de quinze anos (31\/8\/2001), conforme modifica\u00e7\u00f5es no texto legal operadas pela Medida Provis\u00f3ria n. 2.187-13\/2001.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Al\u00e9m disso, a exig\u00eancia de regularidade das contribui\u00e7\u00f5es previdenci\u00e1rias para a libera\u00e7\u00e3o do fundo, prevista no art. 56 da Lei n. 8.212\/1991, n\u00e3o foi revogada pela Lei n. 9.639\/1998. Ambas as normas s\u00e3o perfeitamente compat\u00edveis. A regra geral (art. 56 da Lei n. 8.212\/1991) exige a regularidade fiscal para a libera\u00e7\u00e3o do FPM. A regra especial (Lei n. 9.639\/1998) afasta (em parte) a exig\u00eancia, na vig\u00eancia dos parcelamentos de d\u00e9bitos por ela regidos. Assim, h\u00e1 uma lei especial, que convive com a lei geral anterior, na forma do art. 2, 2, da LINDB.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; O condicionamento da libera\u00e7\u00e3o do FPM \u00e0 regularidade com d\u00edvidas tem amparo em regra constitucional decorrente do art. 160, 1, I. Diante de um enunciado normativo de status constitucional diretamente prescritivo, a invoca\u00e7\u00e3o de normas axiol\u00f3gicas de tecitura aberta, como \u00e9 o caso dos princ\u00edpios da razoabilidade e da proporcionalidade, \u00e9 de dif\u00edcil acolhida. A invoca\u00e7\u00e3o desses princ\u00edpios \u00e9 ainda problem\u00e1tica no campo do parcelamento de d\u00e9bitos tribut\u00e1rios, o qual \u00e9 regido por direito estrito. O C\u00f3digo Tribut\u00e1rio Nacional determina que se interprete literalmente a legisla\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria que disponha sobre o parcelamento (art. 111, I e III e VI, CTN).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Devem ser interpretadas de forma estrita as disposi\u00e7\u00f5es que afastam as garantias dos cr\u00e9ditos previdenci\u00e1rios. A impossibilidade do parcelamento de d\u00e9bitos previdenci\u00e1rios tamb\u00e9m decorre de regra constitucional (art. 195, 11), muito embora existam exce\u00e7\u00f5es transit\u00f3rias (art. 57 do ADCT e art. 116, introduzido pela EC 113\/2021 e modificado pela EC n. 136\/2025). Ou seja, a Constitui\u00e7\u00e3o elegeu a prote\u00e7\u00e3o dos cr\u00e9ditos previdenci\u00e1rios como um valor a merecer particular prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ademais, a extens\u00e3o das limita\u00e7\u00f5es quantitativas previstas na Lei n. 9.639\/1998 a d\u00e9bitos n\u00e3o parcelados ou regidos por outros parcelamentos seria equivalente \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de nova esp\u00e9cie de parcelamento fora das hip\u00f3teses efetivamente previstas em lei e \u00e0 revelia da previs\u00e3o do art. 155-A do CTN, que afirma que &#8220;o parcelamento ser\u00e1 concedido na forma e condi\u00e7\u00e3o estabelecidas em lei espec\u00edfica&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por todas essas raz\u00f5es, os limites quantitativos da Lei n. 9.639\/1998, assim como as demais disposi\u00e7\u00f5es previstas nas leis de reg\u00eancia de parcelamentos especiais, se aplicam, unicamente, \u00e0s reten\u00e7\u00f5es especificamente previstas para os acordos de amortiza\u00e7\u00e3o e parcelamento aven\u00e7ados sob os ditames do diploma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Dessa forma, o bloqueio do FPM por d\u00edvidas com contribui\u00e7\u00f5es previdenci\u00e1rias n\u00e3o est\u00e1 sujeito aos limites previstos na Lei n. 9.639\/1998, salvo quanto aos parcelamentos por ela regidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ante o exposto, fixa-se a seguinte tese do Tema Repetitivo 1401\/STJ: N\u00e3o s\u00e3o aplic\u00e1veis a bloqueios do FPM em raz\u00e3o de d\u00edvidas com contribui\u00e7\u00f5es previdenci\u00e1rias os limites de 9% (nove por cento) da cota-parte (art.1, caput, da Lei n. 9.639\/1998) e de 15% (quinze por cento) da Receita Corrente L\u00edquida (art. 5, 4, da Lei n. 9.639\/1998).<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-5-nbsp-efeitos-financeiros-da-pensao-por-morte-e-requerimento-tardio-de-filho-menor\" class=\"wp-block-heading\">5.&nbsp; EFEITOS FINANCEIROS DA PENS\u00c3O POR MORTE E REQUERIMENTO TARDIO DE FILHO MENOR<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o retroage \u00e0 data do \u00f3bito ou do recolhimento \u00e0 pris\u00e3o o in\u00edcio dos efeitos financeiros da pens\u00e3o por morte ou do aux\u00edlio-reclus\u00e3o requerido por filho menor de 16 anos ap\u00f3s 180 dias do evento, <strong>ocorrido o fato na vig\u00eancia da nova reda\u00e7\u00e3o do art. 74, I, da Lei n. 8.213\/1991 (MP n. 871\/2019, convertida na Lei n. 13.846\/2019)<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 2.256.869-SP e REsp 2.240.220-PR, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, Primeira Se\u00e7\u00e3o, por unanimidade, julgado em 10\/6\/2026 (Tema 1421).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Kiko, filho menor de 16 anos, perdeu o pai segurado do INSS j\u00e1 na vig\u00eancia da Lei n. 13.846\/2019. O requerimento administrativo da pens\u00e3o por morte s\u00f3 foi formalizado mais de 180 dias ap\u00f3s o \u00f3bito. O INSS concedeu o benef\u00edcio, mas fixou os efeitos financeiros na data do requerimento, recusando a retroa\u00e7\u00e3o \u00e0 data do \u00f3bito. Em ju\u00edzo, Kiko alegou que o decurso do tempo n\u00e3o prejudica o incapaz, devendo os efeitos retroagir. A retroa\u00e7\u00e3o \u00e9 devida no requerimento tardio de filho menor?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n. 8.213\/1991, art. 74, I (reda\u00e7\u00e3o da Lei n. 13.846\/2019)<\/strong><em> (retroa\u00e7\u00e3o \u00e0 data do \u00f3bito apenas quando a pens\u00e3o \u00e9 requerida em at\u00e9 180 dias).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n. 8.213\/1991, art. 80<\/strong><em> (aux\u00edlio-reclus\u00e3o devido nas condi\u00e7\u00f5es da pens\u00e3o por morte, observada a data da reclus\u00e3o).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CC, art. 198, I; Lei n. 8.213\/1991, art. 103, par\u00e1grafo \u00fanico<\/strong><em> (em regra, n\u00e3o corre prescri\u00e7\u00e3o contra o incapaz).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CF, art. 227, \u00a7 3\u00ba, II; Conven\u00e7\u00e3o sobre os Direitos da Crian\u00e7a, art. 26<\/strong><em> (prote\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria da crian\u00e7a e do adolescente).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda A literalidade do art. 74, I, da Lei n. 8.213\/1991, na reda\u00e7\u00e3o da Lei n. 13.846\/2019, condiciona a retroa\u00e7\u00e3o dos efeitos financeiros ao requerimento em at\u00e9 180 dias do \u00f3bito (ou da reclus\u00e3o, para o aux\u00edlio-reclus\u00e3o, art. 80). Requerido ap\u00f3s esse prazo, os efeitos correm da data do requerimento &#8211; o direito ao benef\u00edcio \u00e9 preservado, mas as parcelas pret\u00e9ritas n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd A regra de que o tempo n\u00e3o prejudica o incapaz (CC, art. 198, I) \u00e9 norma <strong>geral<\/strong>; a disposi\u00e7\u00e3o sobre o in\u00edcio do benef\u00edcio tardio \u00e9 norma especial e convive com aquela (LINDB, art. 2\u00ba, \u00a7 2\u00ba). A limita\u00e7\u00e3o atinge apenas as parcelas vencidas &#8211; n\u00e3o afasta o direito ao benef\u00edcio, preservado para o futuro -, \u00e9 compat\u00edvel com a prote\u00e7\u00e3o \u00e0 inf\u00e2ncia e tem prazo razo\u00e1vel. O marco de aplica\u00e7\u00e3o \u00e9 a data do \u00f3bito ou da reclus\u00e3o: se anterior a 18\/1\/2019, a norma nova n\u00e3o incide.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A literalidade do dispositivo n\u00e3o deixa margem. <strong>O art. 74, I, da Lei n. 8.213\/1991, na reda\u00e7\u00e3o da Lei n. 13.846\/2019, s\u00f3 admite a retroa\u00e7\u00e3o dos efeitos financeiros \u00e0 data do \u00f3bito quando o benef\u00edcio \u00e9 requerido em at\u00e9 180 dias<\/strong>; passado esse prazo, os efeitos correm da data do requerimento. O mesmo vale para o aux\u00edlio-reclus\u00e3o, devido nas condi\u00e7\u00f5es da pens\u00e3o por morte (art. 80).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f O argumento de prote\u00e7\u00e3o ao incapaz n\u00e3o inverte o resultado. <strong>A regra de que o tempo n\u00e3o prejudica o incapaz (CC, art. 198, I; art. 103, par\u00e1grafo \u00fanico, da Lei n. 8.213\/1991) \u00e9 norma geral; a disposi\u00e7\u00e3o sobre o in\u00edcio do benef\u00edcio requerido tardiamente \u00e9 norma especial e com ela convive (LINDB, art. 2\u00ba, \u00a7 2\u00ba)<\/strong>. Especialidade n\u00e3o \u00e9 revoga\u00e7\u00e3o: as duas normas operam, cada qual em seu campo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A limita\u00e7\u00e3o \u00e9 proporcional e n\u00e3o fere a prote\u00e7\u00e3o constitucional da crian\u00e7a. <strong>O direito ao benef\u00edcio n\u00e3o \u00e9 afastado &#8211; a presta\u00e7\u00e3o \u00e9 preservada, com efeitos para o futuro; apenas as parcelas vencidas antes do requerimento tardio \u00e9 que n\u00e3o s\u00e3o pagas<\/strong>. H\u00e1 sacrif\u00edcio patrimonial limitado, com prazo de 180 dias que o legislador reputou razo\u00e1vel &#8211; compat\u00edvel com o art. 227, \u00a7 3\u00ba, II, da CF e com a Conven\u00e7\u00e3o sobre os Direitos da Crian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A aplica\u00e7\u00e3o da nova regra pressup\u00f5e que o \u00f3bito ou a reclus\u00e3o tenha ocorrido na sua vig\u00eancia:<strong> se o fato \u00e9 anterior a 18\/1\/2019 (in\u00edcio de vig\u00eancia da MP n. 871\/2019), a norma nova n\u00e3o incide, ainda que o requerimento seja posterior<\/strong>. O que define o regime aplic\u00e1vel \u00e9 a data do evento, n\u00e3o a do requerimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre os efeitos financeiros da pens\u00e3o por morte requerida por filho menor de 16 anos mais de 180 dias ap\u00f3s o \u00f3bito, ocorrido na vig\u00eancia da Lei n. 13.846\/2019:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Correm da data do requerimento, preservado o direito ao benef\u00edcio para o futuro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Retroagem \u00e0 data do \u00f3bito, pois o decurso do tempo n\u00e3o prejudica o incapaz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Retroagem \u00e0 data do \u00f3bito, por for\u00e7a da prote\u00e7\u00e3o constitucional \u00e0 inf\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Ficam suspensos at\u00e9 que o menor complete a maioridade civil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Correm da data do \u00f3bito apenas quanto a metade das parcelas vencidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) <strong>Correta.<\/strong> Requerida a pens\u00e3o ap\u00f3s 180 dias do \u00f3bito, na vig\u00eancia da Lei n. 13.846\/2019, os efeitos financeiros correm da data do requerimento; o direito ao benef\u00edcio \u00e9 preservado para o futuro, afastadas apenas as parcelas pret\u00e9ritas (art. 74, I, da Lei n. 8.213\/1991).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. A regra de prote\u00e7\u00e3o ao incapaz (CC, art. 198, I) \u00e9 geral e convive com a norma especial do art. 74, I, da Lei n. 8.213\/1991; especialidade n\u00e3o \u00e9 revoga\u00e7\u00e3o, e a retroa\u00e7\u00e3o n\u00e3o opera no requerimento tardio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. A prote\u00e7\u00e3o \u00e0 inf\u00e2ncia (CF, art. 227, \u00a7 3\u00ba, II) \u00e9 compat\u00edvel com a limita\u00e7\u00e3o, que atinge apenas parcelas vencidas e preserva o benef\u00edcio; n\u00e3o imp\u00f5e a retroa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. N\u00e3o h\u00e1 suspens\u00e3o dos efeitos at\u00e9 a maioridade; o benef\u00edcio \u00e9 devido desde o requerimento, com efeitos para o futuro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. N\u00e3o h\u00e1 fracionamento das parcelas vencidas; a retroa\u00e7\u00e3o simplesmente n\u00e3o ocorre no requerimento posterior a 180 dias.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-3\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A quest\u00e3o submetida a julgamento sob o rito dos recursos repetitivos \u00e9 a seguinte: &#8220;Saber se retroage \u00e0 data do \u00f3bito ou do recolhimento \u00e0 pris\u00e3o a data de in\u00edcio da pens\u00e3o por morte ou do aux\u00edlio-reclus\u00e3o requerido por filho menor de 16 (dezesseis) anos ap\u00f3s 180 (cento e oitenta) dias do evento, na vig\u00eancia da modifica\u00e7\u00e3o do art. 74, I, da Lei n. 8.213\/1991, pela Medida Provis\u00f3ria n. 871\/2019, convertida na Lei n. 13.846\/2019&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A controv\u00e9rsia diz respeito \u00e0 data de in\u00edcio dos efeitos financeiros do benef\u00edcio devido ao filho menor de 16 (dezesseis) anos, quando h\u00e1 demora no requerimento administrativo. Para a pens\u00e3o por morte, a modifica\u00e7\u00e3o do art. 74, I, da Lei n. 8.213\/1991, promovida pela Medida Provis\u00f3ria n. 871\/2019, convertida na Lei n. 13.846\/2019, passou a prever a retroa\u00e7\u00e3o da data de in\u00edcio do benef\u00edcio ao dia do \u00f3bito, &#8220;quando requerida em at\u00e9 180 (cento e oitenta) dias&#8221;. Essa disposi\u00e7\u00e3o aplica-se, observada a data do recolhimento \u00e0 pris\u00e3o, ao aux\u00edlio-reclus\u00e3o, o qual \u00e9 devido &#8220;nas condi\u00e7\u00f5es da pens\u00e3o por morte&#8221; (art. 80 da Lei n. 8.213\/1991, com reda\u00e7\u00e3o dada pela Lei n. 13.846\/2019).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A literalidade dos dispositivos normativos n\u00e3o deixa d\u00favidas quanto \u00e0 impossibilidade de retroa\u00e7\u00e3o dos efeitos financeiros no requerimento tardio. O texto legal vigente afirma o direito \u00e0 retroa\u00e7\u00e3o apenas quando o benef\u00edcio \u00e9 requerido &#8220;em at\u00e9 180 (cento e oitenta) dias ap\u00f3s o \u00f3bito&#8221; ou a reclus\u00e3o (art. 74, I, e art. 80 da Lei n. 8.213\/1991, com reda\u00e7\u00e3o dada pela Lei n. 13.846\/2019).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em geral, o decurso do tempo n\u00e3o prejudica o incapaz (art. 198, I, do CC; art. 103, par\u00e1grafo \u00fanico, da Lei n. 8.213\/1991, inclu\u00eddo pela Lei n. 9.528\/1997). No entanto, a disposi\u00e7\u00e3o sobre o in\u00edcio do benef\u00edcio previdenci\u00e1rio requerido tardiamente \u00e9 norma especial. Com isso, convive com a norma geral, na forma do art. 2, 2, da LINDB.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Essa limita\u00e7\u00e3o \u00e9 compat\u00edvel com as normas sobre a prote\u00e7\u00e3o \u00e0 inf\u00e2ncia (art. 227, 3, II, da CF e art. 26 da Conven\u00e7\u00e3o sobre os Direitos da Crian\u00e7a, em execu\u00e7\u00e3o no Brasil por for\u00e7a do Decreto n. 99.710\/1990). O direito ao benef\u00edcio previdenci\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 afastado. Assim, a presta\u00e7\u00e3o \u00e9 preservada, com efeitos para o futuro. Apenas as parcelas vencidas \u00e9 que s\u00e3o afastadas pela disposi\u00e7\u00e3o legal. Trata-se de uma limita\u00e7\u00e3o relevante, mas n\u00e3o desproporcional. O prazo fixado pelo legislador \u00e9 razo\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com efeito, o marco para aplica\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o atual \u00e9 a data do \u00f3bito ou da reclus\u00e3o. Assim, se o fato aconteceu antes de 18\/1\/2019, data da vig\u00eancia da MP n. 871\/2019, a norma nova n\u00e3o se aplica, ainda que o benef\u00edcio venha a ser requerido na vig\u00eancia da altera\u00e7\u00e3o legislativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, fixa-se a seguinte tese do Tema 1421\/STJ: &#8220;N\u00e3o retroage \u00e0 data do \u00f3bito ou do recolhimento \u00e0 pris\u00e3o o in\u00edcio dos efeitos financeiros da pens\u00e3o por morte ou do aux\u00edlio-reclus\u00e3o requerido por filho menor de 16 (dezesseis) anos ap\u00f3s 180 (cento e oitenta) dias do evento ocorrido na vig\u00eancia da modifica\u00e7\u00e3o do art. 74, I, da Lei n. 8.213\/1991, pela Medida Provis\u00f3ria n. 871\/2019, convertida na Lei n. 13.846\/2019&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-6-violencia-psicologica-contra-a-mulher-e-prova-do-dano-emocional\" class=\"wp-block-heading\">6. VIOL\u00caNCIA PSICOL\u00d3GICA CONTRA A MULHER E PROVA DO DANO EMOCIONAL<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A viol\u00eancia psicol\u00f3gica contra a mulher n\u00e3o exige dano ps\u00edquico, apenas dano emocional, <strong>que pode ser comprovado por qualquer forma, dispensando a prova t\u00e9cnica<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Inq 1.802-DF, Rel. Ministra Maria Thereza de Assis Moura, Corte Especial, julgado em 20\/5\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dr. Creisson, magistrado aposentado, foi denunciado por viol\u00eancia psicol\u00f3gica contra a mulher (art. 147-B c\/c art. 61, &#8220;g&#8221;, do CP), por condutas reiteradas ao longo de anos contra servidoras de seu gabinete, valendo-se da condi\u00e7\u00e3o de superior hier\u00e1rquico. A defesa sustentou falta de justa causa, ao argumento de que n\u00e3o houve per\u00edcia comprovando dano ps\u00edquico nas ofendidas e de que os depoimentos seriam insuficientes. A configura\u00e7\u00e3o do crime exige comprova\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica de dano ps\u00edquico?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CP, art. 147-B<\/strong><em> (viol\u00eancia psicol\u00f3gica contra a mulher: causar dano emocional que a prejudique e perturbe seu pleno desenvolvimento ou vise a degradar ou controlar suas a\u00e7\u00f5es).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CP, art. 61, &#8220;g&#8221;<\/strong><em> (agravante: abuso de poder ou viola\u00e7\u00e3o de dever inerente a cargo, of\u00edcio, minist\u00e9rio ou profiss\u00e3o).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CP, art. 129<\/strong><em> (les\u00e3o corporal: o dano ps\u00edquico, que exige comprova\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, configura esse delito).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CPP, art. 158<\/strong><em> (exame de corpo de delito quando a infra\u00e7\u00e3o deixar vest\u00edgios).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda O art. 147-B do CP descreve crime de dano: causar dano emocional \u00e0 mulher. A doutrina distingue o dano emocional do dano ps\u00edquico. O dano ps\u00edquico &#8211; transtorno ou enfermidade instaurada &#8211; configura les\u00e3o corporal (art. 129) e exige comprova\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica. O dano emocional \u00e9 categoria distinta e menos exigente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd O dano emocional caracteriza-se pelo impacto na vida da ofendida &#8211; uma altera\u00e7\u00e3o do bem-estar -, qualificado pelo resultado (prejudicar e perturbar o pleno desenvolvimento) ou pelo prop\u00f3sito do agente (degradar ou controlar). N\u00e3o exige adoecimento, les\u00e3o ps\u00edquica ou sequela mental. Por n\u00e3o deixar vest\u00edgios a serem aferidos por corpo de delito (CPP, art. 158), prescinde de prova t\u00e9cnica e pode ser comprovado por qualquer meio, inclusive a palavra da v\u00edtima e prova testemunhal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O tipo do art. 147-B do CP \u00e9 crime de dano, mas a chave est\u00e1 em qual dano. <strong>A lei se contenta com o dano emocional &#8211; uma altera\u00e7\u00e3o do bem-estar da ofendida -, qualificado pelo resultado (prejudicar e perturbar seu pleno desenvolvimento) ou pelo prop\u00f3sito do agente (degradar ou controlar suas a\u00e7\u00f5es)<\/strong>. N\u00e3o se exige instaura\u00e7\u00e3o ou persist\u00eancia de transtorno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A distin\u00e7\u00e3o decisiva separa dano emocional de dano ps\u00edquico. <strong>O dano ps\u00edquico &#8211; enfermidade ou transtorno efetivamente instaurado &#8211; configura les\u00e3o corporal (art. 129 do CP) e demanda comprova\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica; o dano emocional n\u00e3o chega a esse ponto e por isso n\u00e3o exige per\u00edcia<\/strong>. Confundi-los elevaria o patamar exigido pelo legislador para a viol\u00eancia psicol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 Sem vest\u00edgios a aferir, n\u00e3o h\u00e1 exame de corpo de delito a realizar. <strong>O dano emocional n\u00e3o deixa vest\u00edgios f\u00edsicos a serem periciados (CPP, art. 158); por isso, sua prova prescinde de laudo t\u00e9cnico e pode dar-se por qualquer meio &#8211; inclusive a palavra da v\u00edtima e a prova testemunhal<\/strong>. A aus\u00eancia de per\u00edcia n\u00e3o \u00e9, aqui, lacuna probat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f No caso, a aus\u00eancia de representa\u00e7\u00e3o imediata das ofendidas n\u00e3o enfraquece os depoimentos. <strong>V\u00e1rias raz\u00f5es podem levar subordinadas a n\u00e3o denunciar de imediato infra\u00e7\u00f5es de superiores hier\u00e1rquicos &#8211; receio de retalia\u00e7\u00e3o, de rotula\u00e7\u00e3o profissional ou social<\/strong>; a omiss\u00e3o inicial n\u00e3o desqualifica os testemunhos posteriores, h\u00e1beis a demonstrar o dano emocional reiterado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No crime de viol\u00eancia psicol\u00f3gica contra a mulher (art. 147-B do CP):<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) \u00e9 de mera conduta, independendo de resultado lesivo \u00e0 ofendida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) o dano ps\u00edquico \u00e9 presumido a partir da rela\u00e7\u00e3o de hierarquia entre as partes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) a palavra da v\u00edtima goza de presun\u00e7\u00e3o de veracidade nos crimes de g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) o dano exigido \u00e9 o emocional, que n\u00e3o deixa vest\u00edgios a serem aferidos por per\u00edcia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) a per\u00edcia \u00e9 exig\u00edvel para aferir o dano psicol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. O art. 147-B \u00e9 crime de dano, n\u00e3o de mera conduta: exige o dano emocional como resultado. O que se dispensa \u00e9 a prova t\u00e9cnica, n\u00e3o o resultado em si.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. O dano ps\u00edquico n\u00e3o \u00e9 presumido pela hierarquia; ali\u00e1s, o crime n\u00e3o exige dano ps\u00edquico, e sim emocional &#8211; que deve ser demonstrado, ainda que por meios n\u00e3o periciais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. N\u00e3o h\u00e1 presun\u00e7\u00e3o de veracidade; a palavra da v\u00edtima \u00e9 meio de prova relevante e deve ser valorada com os demais elementos, mas a dispensa de per\u00edcia decorre da natureza do dano, n\u00e3o de presun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) <strong>Correta.<\/strong> O tipo exige dano emocional &#8211; altera\u00e7\u00e3o do bem-estar da ofendida -, e n\u00e3o dano ps\u00edquico (este, sim, configuraria les\u00e3o corporal do art. 129 e demandaria per\u00edcia). Por n\u00e3o deixar vest\u00edgios (CPP, art. 158), o dano emocional pode ser comprovado por meios diversos, inclusive prova testemunhal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. A exig\u00eancia de per\u00edcia n\u00e3o se vincula \u00e0 exist\u00eancia de vest\u00edgios materiais; ausentes vest\u00edgios, dispensa-se o exame. O dano ps\u00edquico &#8211; transtorno ou enfermidade instaurada &#8211; configura les\u00e3o corporal (art. 129) e exige comprova\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, mas n\u00e3o h\u00e1 tal exig\u00eancia para o dano emocional, que n\u00e3o deixa vest\u00edgios f\u00edsicos a serem periciados.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-4\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cinge-se a controv\u00e9rsia a saber se h\u00e1 justa causa para a instaura\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o penal ajuizada com base em den\u00fancia oferecida contra Desembargador Federal aposentado compulsoriamente, por suposta pr\u00e1tica de viol\u00eancia psicol\u00f3gica contra a mulher (art. 147-B c\/c art. 61, &#8220;g&#8221;, do CP), por cinco vezes, em detrimento de servidoras ocupantes de cargos em comiss\u00e3o em seu Gabinete, valendo-se da condi\u00e7\u00e3o de superior hier\u00e1rquico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quanto ao ponto, o acusado arguiu a falta de justa causa para a a\u00e7\u00e3o penal, visto que a acusa\u00e7\u00e3o est\u00e1 amparada em elementos colhidos em processo administrativo disciplinar, sem finalidade penal, e nos depoimentos das supostas v\u00edtimas, que n\u00e3o formalizaram, ao tempo dos fatos, not\u00edcia de irregularidade, e sem elementos aut\u00f4nomos de corrobora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; De fato, n\u00e3o houve iniciativa das supostas v\u00edtimas de formalizar reclama\u00e7\u00e3o, representa\u00e7\u00e3o ou not\u00edcia de irregularidade em desfavor do acusado. No entanto, a inexist\u00eancia de iniciativa n\u00e3o desqualifica os testemunhos. V\u00e1rias raz\u00f5es podem levar subordinados a n\u00e3o representar contra infra\u00e7\u00f5es de seus superiores hier\u00e1rquicos, como o receio de retalia\u00e7\u00e3o e de rotula\u00e7\u00e3o profissional ou social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A acusa\u00e7\u00e3o do delito de viol\u00eancia psicol\u00f3gica contra a mulher decorre da pr\u00e1tica, &#8220;reiteradamente e por v\u00e1rios anos&#8221;, de condutas aptas a causar o dano emocional. Pode-se conceder que alguns dos epis\u00f3dios descritos na den\u00fancia s\u00e3o meramente pitorescos ou constrangedores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesse sentido, ressalta-se que a viol\u00eancia psicol\u00f3gica contra a mulher \u00e9 um crime de dano, como deixa clara a reda\u00e7\u00e3o do dispositivo legal &#8211; causar &#8220;dano emocional \u00e0 mulher&#8221;. O tipo penal em quest\u00e3o n\u00e3o exige dano ps\u00edquico, apenas dano emocional, que pode ser comprovado de qualquer forma, dispensando a prova t\u00e9cnica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A doutrina tra\u00e7a diferen\u00e7a entre o &#8220;dano emocional&#8221; e o &#8220;dano ps\u00edquico&#8221;. Este \u00faltimo configura o delito de les\u00e3o corporal (art. 129 do CP) e exige comprova\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para o delito de viol\u00eancia psicol\u00f3gica contra a mulher, n\u00e3o \u00e9 indispens\u00e1vel que um transtorno se instaure ou persista. A lei se contenta com o dano emocional, o qual deve ser qualificado pelo seu resultado (&#8220;que a prejudique e perturbe seu pleno desenvolvimento&#8221;), ou por atender a um prop\u00f3sito espec\u00edfico do agente (&#8220;que vise a degradar ou a controlar suas a\u00e7\u00f5es, comportamentos, cren\u00e7as e decis\u00f5es&#8221;).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, o dano emocional \u00e9 caracterizado pelo impacto na vida da ofendida, \u00e9 &#8220;uma altera\u00e7\u00e3o do bem-estar&#8221; e n\u00e3o exige efetivo adoecimento, les\u00e3o ps\u00edquica ou sequela mental.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Importa ressaltar que n\u00e3o se trata de um delito que deixa vest\u00edgios, a serem avaliados por exame de corpo de delito (art. 158 do CPP). Segundo o Enunciado 58 do F\u00f3rum Nacional de Ju\u00edzas e Ju\u00edzes de Viol\u00eancia Dom\u00e9stica e Familiar contra a Mulher (Fonavid), a prova do dano emocional prescinde de exame pericial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Seguindo essa linha, a jurisprud\u00eancia do Superior Tribunal de Justi\u00e7a (STJ) afirma que o crime de viol\u00eancia psicol\u00f3gica contra a mulher pode ser demonstrado pela palavra da v\u00edtima ou outros elementos, n\u00e3o sendo indispens\u00e1vel exame de corpo de delito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, a den\u00fancia imputa a pr\u00e1tica do delito de viol\u00eancia psicol\u00f3gica contra a mulher por cinco vezes, contra pessoas diferentes. As supostas v\u00edtimas confirmaram ter sofrido dano emocional. Todas as cinco mulheres apontadas como ofendidas narraram, em seus depoimentos, que tiveram intenso sofrimento e passam por tratamentos psiqui\u00e1tricos e acompanhamento psicol\u00f3gico, em raz\u00e3o de adoecimento deflagrado pela viol\u00eancia psicol\u00f3gica \u00e0 qual foram submetidas.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-7-assedio-sexual-e-elementares-do-tipo-penal\" class=\"wp-block-heading\">7. ASS\u00c9DIO SEXUAL E ELEMENTARES DO TIPO PENAL<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A amea\u00e7a de prejudicar ou a promessa de favorecer a v\u00edtima n\u00e3o constituem elementares do crime de ass\u00e9dio sexual; <strong>o delito pode configurar-se por meio de atos que evidenciem o intuito sexual impl\u00edcito do agente<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Inq 1.802-DF, Rel. Ministra Maria Thereza de Assis Moura, Corte Especial, julgado em 20\/5\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dr. Creisson, magistrado, foi denunciado por ass\u00e9dio sexual (art. 216-A do CP), por se valer da condi\u00e7\u00e3o de superior hier\u00e1rquico em rela\u00e7\u00e3o a servidoras de seu gabinete. As condutas descritas envolviam falas de teor sexualizado, elogios \u00e0 apar\u00eancia e convites insistentes. A defesa argumentou que faltaria elementar do tipo, pois n\u00e3o houve amea\u00e7a expl\u00edcita de preju\u00edzo nem promessa expressa de vantagem em troca de favor sexual. A amea\u00e7a ou a promessa s\u00e3o elementares do ass\u00e9dio sexual?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CP, art. 216-A<\/strong><em> (ass\u00e9dio sexual: constranger algu\u00e9m com intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se da condi\u00e7\u00e3o de superior hier\u00e1rquico ou ascend\u00eancia).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CP, art. 216-A (posi\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica)<\/strong><em> (a condi\u00e7\u00e3o de superioridade cont\u00e9m impl\u00edcita a amea\u00e7a de retalia\u00e7\u00e3o).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda O ass\u00e9dio sexual exige posi\u00e7\u00e3o de superioridade hier\u00e1rquica ou ascend\u00eancia inerente ao exerc\u00edcio de emprego, cargo ou fun\u00e7\u00e3o. A jurisprud\u00eancia do STJ assenta que a amea\u00e7a de prejudicar ou a promessa de favorecer a v\u00edtima n\u00e3o s\u00e3o elementares do tipo: a pr\u00f3pria posi\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica cont\u00e9m, impl\u00edcita, a amea\u00e7a de retalia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd O tipo n\u00e3o exige chantagem expl\u00edcita. Configura-se por atos que evidenciem o intuito sexual impl\u00edcito do agente, no contexto de superioridade. <strong>N\u00e3o se confunde com a paquera &#8211; situa\u00e7\u00e3o de consentimento m\u00fatuo e busca rec\u00edproca de aproxima\u00e7\u00e3o<\/strong>. Apenas a conduta opressora, voltada a obrigar a parte subalterna \u00e0 presta\u00e7\u00e3o de favor sexual, caracteriza o ass\u00e9dio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A primeira tese afasta um requisito que a defesa reputava indispens\u00e1vel. <strong>A amea\u00e7a de prejudicar ou a promessa de favorecer a v\u00edtima n\u00e3o s\u00e3o elementares do ass\u00e9dio sexual<\/strong>: o tipo do art. 216-A n\u00e3o descreve chantagem expl\u00edcita como n\u00facleo, mas o constrangimento com intuito de obter favor sexual mediante prevalecimento da condi\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A raz\u00e3o est\u00e1 na pr\u00f3pria estrutura da rela\u00e7\u00e3o assim\u00e9trica. <strong>A posi\u00e7\u00e3o de superioridade hier\u00e1rquica cont\u00e9m, impl\u00edcita, a amea\u00e7a de retalia\u00e7\u00e3o<\/strong>; exigir amea\u00e7a expressa esvaziaria o tipo justamente nas situa\u00e7\u00f5es em que o poder do agente sobre a v\u00edtima torna desnecess\u00e1ria a explicita\u00e7\u00e3o &#8211; o medo opera sem que a coa\u00e7\u00e3o precise ser verbalizada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A segunda tese define o modo de configura\u00e7\u00e3o. <strong>O ass\u00e9dio pode caracterizar-se por atos que evidenciem o intuito sexual impl\u00edcito do agente &#8211; falas sexualizadas, investidas insistentes &#8211; no contexto da superioridade hier\u00e1rquica<\/strong>, sem necessidade de proposta sexual direta e expressa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f H\u00e1, contudo, um limite que preserva condutas l\u00edcitas. <strong>O ass\u00e9dio n\u00e3o se confunde com a paquera, em que h\u00e1 consentimento m\u00fatuo e busca rec\u00edproca de aproxima\u00e7\u00e3o; apenas a conduta opressora, voltada a obrigar a subalterna \u00e0 presta\u00e7\u00e3o de favor sexual, configura o crime<\/strong>. A distin\u00e7\u00e3o entre investida criminosa e cortejo consentido est\u00e1 na opress\u00e3o e no aproveitamento da hierarquia, n\u00e3o na simples exist\u00eancia de interesse.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A respeito das elementares do crime de ass\u00e9dio sexual (art. 216-A do CP), \u00e9 correto afirmar que:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) a amea\u00e7a expressa de prejudicar a v\u00edtima \u00e9 elementar indispens\u00e1vel \u00e0 configura\u00e7\u00e3o do tipo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) o intuito sexual pode manifestar-se de forma impl\u00edcita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) a promessa de vantagem funcional \u00e9 condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a tipifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) investida amorosa no ambiente de trabalho configura o delito, presente a hierarquia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) a configura\u00e7\u00e3o exige a efetiva obten\u00e7\u00e3o do favor sexual pretendido pelo agente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A amea\u00e7a de prejudicar n\u00e3o \u00e9 elementar do tipo; a posi\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica j\u00e1 cont\u00e9m, impl\u00edcita, a amea\u00e7a de retalia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) <strong>Correta.<\/strong> A amea\u00e7a de prejudicar e a promessa de favorecer n\u00e3o s\u00e3o elementares do ass\u00e9dio sexual; o delito pode configurar-se por atos que evidenciem o intuito sexual impl\u00edcito do agente, prevalecendo-se da condi\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica (art. 216-A do CP).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. A promessa expressa de vantagem n\u00e3o \u00e9 condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria; o tipo dispensa chantagem expl\u00edcita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. Nem toda investida configura o crime: o ass\u00e9dio n\u00e3o se confunde com a paquera consentida; exige-se conduta opressora voltada a obter favor sexual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. O ass\u00e9dio sexual independe da efetiva obten\u00e7\u00e3o do favor: \u00e9 crime formal, que se consuma com o constrangimento dirigido a esse fim.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-5\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cinge-se a controv\u00e9rsia a saber se h\u00e1 justa causa para a instaura\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o penal ajuizada com base em den\u00fancia oferecida contra Desembargador Federal aposentado compulsoriamente, por suposta pr\u00e1tica de ass\u00e9dio sexual, por tr\u00eas vezes, em detrimento de servidoras ocupantes de cargos em comiss\u00e3o em seu gabinete, valendo-se da condi\u00e7\u00e3o de superior hier\u00e1rquico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; O ass\u00e9dio sexual foi tipificado pela introdu\u00e7\u00e3o do art. 216-A no C\u00f3digo Penal (CP), pela Lei n. 10.224\/2001. O tipo penal requer uma posi\u00e7\u00e3o de superioridade hier\u00e1rquica ou de ascend\u00eancia entre o autor do fato e a v\u00edtima &#8211; &#8220;condi\u00e7\u00e3o de superior hier\u00e1rquico ou ascend\u00eancia inerentes ao exerc\u00edcio de emprego, cargo ou fun\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, o acusado tinha a condi\u00e7\u00e3o de superior hier\u00e1rquico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s v\u00edtimas. Ele estava no exerc\u00edcio do cargo de Desembargador Federal, ao passo que as supostas ofendidas estavam no exerc\u00edcio de cargo em comiss\u00e3o ligado ao seu gabinete.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; O gabinete \u00e9 um servi\u00e7o auxiliar do magistrado que atua em Tribunal, na forma do art. 96, I, b, da Constitui\u00e7\u00e3o Federal (CF). Competia ao Desembargador Federal &#8220;exercer a dire\u00e7\u00e3o e disciplina&#8221; do servi\u00e7o, nos termos do art. 21, V, da Lei Org\u00e2nica da Magistratura Nacional (Lei Complementar n. 35\/1979). O magistrado federal \u00e9 respons\u00e1vel &#8220;pelo bom funcionamento&#8221; de servi\u00e7o auxiliar, conforme previsto no art. 55 da Lei n. 5.010\/1966. Como visto, na qualidade de Desembargador Federal, ele era o respons\u00e1vel pela indica\u00e7\u00e3o de pessoas para ocupar &#8220;cargos em comiss\u00e3o declarados em lei de livre nomea\u00e7\u00e3o e exonera\u00e7\u00e3o&#8221; (art. 37, II, da CF), destinados &#8220;\u00e0s atribui\u00e7\u00f5es de dire\u00e7\u00e3o, chefia e assessoramento&#8221;, observados os &#8220;percentuais m\u00ednimos previstos em lei&#8221; para preenchimento &#8220;por servidores de carreira&#8221; (art. 37, V, da CF), denominados &#8220;CJ&#8221; no \u00e2mbito do Poder Judici\u00e1rio da Uni\u00e3o (art. 5 da Lei n. 11.416\/2016).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No que tange \u00e0 amea\u00e7a, a jurisprud\u00eancia do Superior Tribunal de Justi\u00e7a assenta que &#8220;a amea\u00e7a de prejudicar ou a promessa de favorecer a v\u00edtima n\u00e3o constituem elementares do crime de ass\u00e9dio sexual&#8221; (REsp n. 1.865.567\/SP, relatora Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, julgado em 7\/12\/2021). A posi\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica, por si s\u00f3, cont\u00e9m impl\u00edcita a amea\u00e7a de retalia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Isso n\u00e3o significa que qualquer ato de aproxima\u00e7\u00e3o configure infra\u00e7\u00e3o penal. Segundo a doutrina, o &#8220;ass\u00e9dio n\u00e3o se confunde com a paquera&#8221;, situa\u00e7\u00e3o em que h\u00e1 &#8220;consentimento m\u00fatuo e busca rec\u00edproca por aproxima\u00e7\u00e3o&#8221;. Apenas a &#8220;conduta opressora, tendo por fim obrigar a parte subalterna, na rela\u00e7\u00e3o laborativa, \u00e0 presta\u00e7\u00e3o de qualquer favor sexual, configura o ass\u00e9dio sexual&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No cen\u00e1rio em exame, os fatos descritos na acusa\u00e7\u00e3o (falas de teor sexualizado ou de cunho sedutor, elogios \u00e0 apar\u00eancia, convites insistentes para jantares, caf\u00e9s, viagens e pernoites em casa de praia ou no apartamento do denunciado, refer\u00eancia a &#8220;encontro na carne&#8221;, entre outros) indicam, em tese, objetivo sexual impl\u00edcito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Dessa forma, o crime de ass\u00e9dio sexual mostra-se configurado, pois o tipo penal prescinde de expl\u00edcita amea\u00e7a de retalia\u00e7\u00e3o ou promessa de vantagem, assim como da enuncia\u00e7\u00e3o do prop\u00f3sito sexual da vantagem.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-8-justa-causa-para-acao-penal-de-peculato-desvio-e-exame-na-fase-instrutoria\" class=\"wp-block-heading\">8. JUSTA CAUSA PARA A\u00c7\u00c3O PENAL DE PECULATO-DESVIO E EXAME NA FASE INSTRUT\u00d3RIA<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H\u00e1 justa causa para a a\u00e7\u00e3o penal quando a acusa\u00e7\u00e3o de peculato-desvio se apoia em<\/strong> <strong>prova inicial de materialidade<\/strong> &#8211; laudos, extratos, relat\u00f3rios e procedimentos administrativos &#8211; e em <strong>ind\u00edcios suficientes de autoria<\/strong>.As controv\u00e9rsias sobre dolo, dom\u00ednio do fato e natureza dos atos praticados devem ser resolvidas na fase instrut\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Processo em segredo de justi\u00e7a, Rel. Min. Jo\u00e3o Ot\u00e1vio de Noronha, Corte Especial, por unanimidade, julgado em 17\/6\/2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal denunciou Josefina e Tib\u00farcia, procuradora e contadora, por peculato-desvio (art. 312 do CP, em concurso), imputando-lhes o direcionamento de recursos p\u00fablicos &#8212; oriundos de acordo firmado com institui\u00e7\u00e3o financeira &#8212; ao Instituto M\u00e3os que (me) Ajudam, entidade do terceiro setor, com posterior revers\u00e3o de verbas e obten\u00e7\u00e3o de vantagens. A den\u00fancia veio amparada em laudo pericial cont\u00e1bil, extratos banc\u00e1rios e relat\u00f3rios. A defesa pretendeu a rejei\u00e7\u00e3o, alegando aus\u00eancia de dolo e d\u00favida sobre o dom\u00ednio do fato.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CP, art. 312<\/strong><em> (peculato: desviar dinheiro, valor ou bem p\u00fablico de que tem a posse em raz\u00e3o do cargo, em proveito pr\u00f3prio ou alheio).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CPP, art. 395, III<\/strong><em> (rejei\u00e7\u00e3o da den\u00fancia quando ausente justa causa para o exerc\u00edcio da a\u00e7\u00e3o penal).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CPP, art. 41<\/strong><em> (requisitos da den\u00fancia: exposi\u00e7\u00e3o do fato criminoso com suas circunst\u00e2ncias).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda A justa causa \u00e9 condi\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o penal destinada a impedir o uso abusivo do ius accusationis. N\u00e3o se exigem, para a deflagra\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o, provas cabais de autoria e materialidade; basta suporte indici\u00e1rio suficiente a demonstrar a plausibilidade da acusa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se admite processo temer\u00e1rio, destitu\u00eddo de lastro m\u00ednimo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd Presente prova inicial de materialidade (laudo pericial cont\u00e1bil, extratos, relat\u00f3rios, procedimentos administrativos) e ind\u00edcios suficientes de autoria, eventual d\u00favida residual n\u00e3o conduz \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o liminar, mas \u00e0 instru\u00e7\u00e3o, momento em que as vers\u00f5es em conflito s\u00e3o submetidas ao contradit\u00f3rio pleno. Controv\u00e9rsias sobre dolo, dom\u00ednio do fato e natureza dos atos s\u00e3o quest\u00f5es de m\u00e9rito &#8211; resolvem-se ao final, n\u00e3o no ju\u00edzo de admissibilidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A justa causa funciona como filtro de admissibilidade, n\u00e3o como antecipa\u00e7\u00e3o de m\u00e9rito. <strong>Destina-se a barrar a acusa\u00e7\u00e3o temer\u00e1ria ou destitu\u00edda de lastro m\u00ednimo, impedindo o uso abusivo do poder de acusar<\/strong>; n\u00e3o exige, por\u00e9m, prova cabal de autoria e materialidade j\u00e1 na den\u00fancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f O patamar exigido \u00e9 o de suporte indici\u00e1rio suficiente. <strong>Basta que a den\u00fancia esteja acompanhada de elementos que demonstrem a plausibilidade da acusa\u00e7\u00e3o &#8211; aqui, laudo pericial cont\u00e1bil, extratos banc\u00e1rios, relat\u00f3rios e procedimentos administrativos<\/strong>. Esse conjunto ultrapassa o plano da mera conjectura e viabiliza a persecu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A d\u00favida residual n\u00e3o opera a favor da rejei\u00e7\u00e3o neste momento processual. <strong>Havendo suporte probat\u00f3rio m\u00ednimo, eventual incerteza sobre aspectos da imputa\u00e7\u00e3o n\u00e3o conduz \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o liminar, mas \u00e0 abertura da instru\u00e7\u00e3o &#8211; momento pr\u00f3prio para submeter as vers\u00f5es em conflito ao contradit\u00f3rio judicial pleno<\/strong>. Rejeitar a den\u00fancia exigiria a aus\u00eancia manifesta de lastro, n\u00e3o a simples controv\u00e9rsia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f Os pontos suscitados pela defesa s\u00e3o de m\u00e9rito, n\u00e3o de admissibilidade. <strong>Dolo, dom\u00ednio do fato e natureza dos atos praticados s\u00e3o quest\u00f5es a resolver na fase instrut\u00f3ria, com produ\u00e7\u00e3o de prova e contradit\u00f3rio &#8211; n\u00e3o no ju\u00edzo de deliba\u00e7\u00e3o da den\u00fancia<\/strong>. Antecip\u00e1-las para rejeitar a pe\u00e7a seria converter o ju\u00edzo de admissibilidade em julgamento prematuro do m\u00e9rito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na fase de recebimento, a a\u00e7\u00e3o penal por peculato-desvio deve ser:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) rejeitada se houver cr\u00edvel alega\u00e7\u00e3o de aus\u00eancia de dolo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) arquivada, havendo d\u00favida sobre o elemento subjetivo do tipo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) aguardar o ju\u00edzo c\u00edvel, diante da natureza patrimonial da controv\u00e9rsia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) decidida em incidente pr\u00e9vio de sanidade da imputa\u00e7\u00e3o, antes do recebimento da pe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) recebida e qualquer quest\u00e3o de m\u00e9rito sujeita ao contradit\u00f3rio apreciada na fase instrut\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. Presente lastro indici\u00e1rio m\u00ednimo, a d\u00favida sobre o dolo n\u00e3o autoriza a rejei\u00e7\u00e3o liminar; o ju\u00edzo de admissibilidade n\u00e3o comporta exame aprofundado do elemento subjetivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. A d\u00favida sobre o elemento subjetivo, havendo lastro m\u00ednimo, n\u00e3o enseja arquivamento, mas instru\u00e7\u00e3o &#8211; momento de esclarec\u00ea-la sob contradit\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. A imputa\u00e7\u00e3o \u00e9 penal (peculato, art. 312 do CP); n\u00e3o h\u00e1 remessa ao ju\u00edzo c\u00edvel da controv\u00e9rsia sobre o dolo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. N\u00e3o h\u00e1, no rito, incidente pr\u00e9vio de sanidade da imputa\u00e7\u00e3o para aferir dolo antes do recebimento; a mat\u00e9ria \u00e9 de m\u00e9rito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) <strong>Correta.<\/strong> Dolo, dom\u00ednio do fato e natureza dos atos s\u00e3o quest\u00f5es de m\u00e9rito, a resolver na instru\u00e7\u00e3o, sob contradit\u00f3rio pleno; havendo prova inicial de materialidade e ind\u00edcios de autoria, a justa causa est\u00e1 presente e a a\u00e7\u00e3o prossegue (CPP, art. 395, III, a contrario sensu).<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-6\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A quest\u00e3o em discuss\u00e3o consiste em saber se h\u00e1 justa causa para o prosseguimento da a\u00e7\u00e3o penal, \u00e0 luz da exist\u00eancia de prova inicial de materialidade e de ind\u00edcios m\u00ednimos de autoria quanto ao suposto desvio de verbas p\u00fablicas destinadas a Instituto e \u00e0 revers\u00e3o de recursos originalmente afetados a Centro de Refer\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A justa causa para a persecu\u00e7\u00e3o criminal, prevista no art. 395, III, do C\u00f3digo de Processo Penal, constitui importante condi\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o penal, destinada a impedir o uso abusivo do ius accusationis. Com efeito, ainda que n\u00e3o se exijam, para a deflagra\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o penal, provas cabais de autoria e materialidade, n\u00e3o se admite a instaura\u00e7\u00e3o de processo temer\u00e1rio ou destitu\u00eddo de lastro m\u00ednimo. Exige-se, pois, que a den\u00fancia esteja acompanhada de suporte indici\u00e1rio suficiente a demonstrar a plausibilidade da acusa\u00e7\u00e3o. Nesse ju\u00edzo de deliba\u00e7\u00e3o, eventual d\u00favida residual, desde que haja suporte probat\u00f3rio m\u00ednimo, n\u00e3o conduz \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o liminar da den\u00fancia, mas \u00e0 instaura\u00e7\u00e3o da instru\u00e7\u00e3o, momento em que as partes poder\u00e3o submeter as vers\u00f5es em conflito ao contradit\u00f3rio judicial pleno. N\u00e3o se trata de antecipar condena\u00e7\u00e3o, mas de reconhecer a viabilidade processual de uma acusa\u00e7\u00e3o que ultrapassa o plano da mera conjectura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Na origem, trata-se de a\u00e7\u00e3o penal origin\u00e1ria instaurada a partir de den\u00fancia do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal em face de Procuradora Regional do Trabalho e de contadora, imputando-lhes, em concurso de pessoas e em concurso material, a pr\u00e1tica do crime previsto no art. 312, caput, do C\u00f3digo Penal, c\/c os arts. 29 e 69 do mesmo diploma, em raz\u00e3o de suposto desvio de verbas p\u00fablicas no montante aproximado de R$ 6.090.142,00, oriundas de acordo firmado pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho com institui\u00e7\u00e3o financeira e destinadas a Instituto, bem como de R$ 226.949,25, quantia inicialmente destinada a Centro de Refer\u00eancia e posteriormente revertida ao Instituto. A pe\u00e7a acusat\u00f3ria narra que a Procuradora, valendo-se das facilidades do cargo, teria atuado de modo decisivo para direcionar os recursos ao Instituto, centralizando a escolha dos benefici\u00e1rios, alterando a destina\u00e7\u00e3o inicialmente cogitada, revertendo, em momento posterior, verbas do Centro de Refer\u00eancia ao mesmo instituto e recebendo vantagens diretas e indiretas; e que a contadora exerceria a administra\u00e7\u00e3o de fato do Instituto, com dom\u00ednio das contas banc\u00e1rias e da gest\u00e3o financeira, direcionando recursos em proveito pr\u00f3prio, de familiares e de pessoas jur\u00eddicas a ela vinculadas. No caso, a prova da materialidade encontra amparo, ao menos em perspectiva inicial, na documenta\u00e7\u00e3o j\u00e1 referida pela pr\u00f3pria den\u00fancia e posteriormente individualizada pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal: laudo pericial cont\u00e1bil do MPT, extratos banc\u00e1rios, relat\u00f3rios de informa\u00e7\u00e3o, documentos do inqu\u00e9rito civil, do PAJ, do PAD, da correi\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria e do PGEA relacionado ao Centro de Refer\u00eancia, al\u00e9m dos elementos produzidos a partir das quebras de sigilo fiscal e banc\u00e1rio. A acusa\u00e7\u00e3o aponta que, do montante de R$ 7.000.000,00 destinado ao Instituto, R$ 6.090.142,00 tiveram as contas reprovadas ou ficaram sem presta\u00e7\u00e3o adequada, e que o mesmo ocorreu com a verba de R$ 226.949,25 posteriormente revertida ao Instituto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quanto aos ind\u00edcios de autoria, a den\u00fancia apresenta substrato bastante, em tese, para ambas as denunciadas. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Procuradora denunciada, h\u00e1 narrativa de sua atua\u00e7\u00e3o decisiva na celebra\u00e7\u00e3o do acordo com o Banco Ita\u00fa, inclusive em contexto em que a acusa\u00e7\u00e3o reputa funcionalmente irregular, com centraliza\u00e7\u00e3o da destina\u00e7\u00e3o dos recursos em sua pessoa, altera\u00e7\u00e3o sens\u00edvel da divis\u00e3o originalmente cogitada dos valores e destina\u00e7\u00e3o de R$ 7.000.000,00 ao Instituto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A isso somam-se os ind\u00edcios de relacionamento pr\u00f3ximo com a contadora acusada, a interlocu\u00e7\u00e3o direta sobre as atividades e destina\u00e7\u00f5es do instituto, o recebimento de R$ 28.000,00 do Instituto sob a justificativa de compra de ve\u00edculo, o custeio de viagem, os benef\u00edcios a familiares e, sobretudo, a nova revers\u00e3o de recursos do Centro de Refer\u00eancia ao Instituto em 2021, mesmo diante de elementos que, segundo o MPF, j\u00e1 indicavam irregularidades relevantes na presta\u00e7\u00e3o de contas anterior. Trata-se, ao menos neste est\u00e1gio, de quadro indici\u00e1rio apto a evidenciar a plausibilidade da imputa\u00e7\u00e3o de que a Procuradora denunciada, valendo-se das facilidades do cargo, teria contribu\u00eddo conscientemente para o desvio dos recursos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No que toca \u00e0 contadora denunciada, a acusa\u00e7\u00e3o descreve elementos tamb\u00e9m id\u00f4neos, em tese, para o ju\u00edzo de admissibilidade. Refere-se \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de administradora de fato do Instituto, corroborada, segundo a den\u00fancia, por depoimentos de membros da diretoria formal que afirmaram exercer apenas fun\u00e7\u00f5es nominais, por retrata\u00e7\u00f5es posteriores no sentido de que foram orientados a mentir, pelo uso de certificado digital, pelo dom\u00ednio das senhas das contas banc\u00e1rias do instituto, por compromissos firmados em nome da entidade, pelo funcionamento de sua empresa de contabilidade no mesmo endere\u00e7o do Instituto e pelo recebimento, por essa pessoa jur\u00eddica, de valores vultosos incompat\u00edveis, em princ\u00edpio, com a explica\u00e7\u00e3o contratual apresentada. O rastreamento financeiro aponta que a empresa da contadora denunciada teria recebido R$ 840.000,00 por boletos e R$ 361.464,88 por transfer\u00eancias diretas, o que, somado \u00e0 alega\u00e7\u00e3o de desproporcionalidade dos valores e \u00e0 aus\u00eancia de comprova\u00e7\u00e3o id\u00f4nea da contrapresta\u00e7\u00e3o, fornece base m\u00ednima para a persecu\u00e7\u00e3o penal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; N\u00e3o se desconhecem os argumentos defensivos no sentido de que o repasse de R$ 28.000,00 decorreria de regular compra e venda de ve\u00edculo, de que a atua\u00e7\u00e3o da contadora denunciada seria meramente t\u00e9cnica, de que a estrutura estatut\u00e1ria do Instituto apontaria outros gestores formais e de que a reprova\u00e7\u00e3o cont\u00e1bil de despesas n\u00e3o se confunde, automaticamente, com desvio penalmente relevante. Ocorre que tais argumentos, embora relevantes, n\u00e3o t\u00eam, neste momento, for\u00e7a suficiente para neutralizar o lastro probat\u00f3rio m\u00ednimo reunido pela acusa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em boa medida, o que se verifica \u00e9 a oposi\u00e7\u00e3o entre a narrativa ministerial, amparada em laudos, relat\u00f3rios, extratos, documentos administrativos e depoimentos, e vers\u00f5es defensivas alternativas que demandam aprofundamento probat\u00f3rio. Em outras palavras, as defesas apresentam explica\u00e7\u00f5es poss\u00edveis para determinados eventos, mas a simples exist\u00eancia de interpreta\u00e7\u00e3o defensiva alternativa n\u00e3o elimina a justa causa quando a acusa\u00e7\u00e3o se sustenta em elementos concretos e individualizados. A pr\u00f3pria tese defensiva, ao oferecer vers\u00e3o distinta para fatos financeiramente rastreados, evidencia a necessidade de instru\u00e7\u00e3o processual mais aprofundada, n\u00e3o a inviabilidade da a\u00e7\u00e3o penal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tamb\u00e9m n\u00e3o se pode acolher, nesta fase, a obje\u00e7\u00e3o de que a imputa\u00e7\u00e3o seria puramente derivada de irregularidades administrativas. A den\u00fancia n\u00e3o se limita a afirmar reprova\u00e7\u00e3o de contas ou infra\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica. Ao contr\u00e1rio, procura vincular o desvio de finalidade \u00e0 destina\u00e7\u00e3o concreta das verbas para despesas incompat\u00edveis com o objeto social da entidade, a benef\u00edcios diretos e indiretos \u00e0s pr\u00f3prias denunciadas e a pessoas a elas relacionadas, bem como a manobras de controle e oculta\u00e7\u00e3o da gest\u00e3o efetiva e do fluxo financeiro. \u00c9 precisamente essa dimens\u00e3o f\u00e1tica, e n\u00e3o a mera desconformidade administrativa em abstrato, que autoriza o prosseguimento da persecu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em suma, a den\u00fancia descreve fatos determinados, individualiza suficientemente as condutas atribu\u00eddas a cada denunciada e se apoia em acervo indici\u00e1rio m\u00ednimo bastante para demonstrar, nesta fase, a materialidade em tese delitiva e os ind\u00edcios de autoria. Desse modo, n\u00e3o estando configurada ineptid\u00e3o, aus\u00eancia de pressuposto processual ou condi\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o, nem falta de justa causa, imp\u00f5e-se o recebimento da den\u00fancia, deixando-se a cogni\u00e7\u00e3o exauriente para a fase instrut\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-9-prescricao-para-redimensionar-debito-em-parcelamento-e-termo-inicial-na-adesao\" class=\"wp-block-heading\">9. PRESCRI\u00c7\u00c3O PARA REDIMENSIONAR D\u00c9BITO EM PARCELAMENTO E TERMO INICIAL NA ADES\u00c3O<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na pretens\u00e3o de redimensionamento da base de c\u00e1lculo de d\u00e9bito objeto de parcelamento ativo, a flu\u00eancia do prazo prescricional n\u00e3o aguarda a quita\u00e7\u00e3o integral do programa, <strong>mas se processa a partir do ato de ades\u00e3o ao parcelamento, na exata dic\u00e7\u00e3o do art. 1\u00ba do Decreto n. 20.910\/1932<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 1.978.133-SP, Rel. Min. Regina Helena Costa, Primeira Turma, por unanimidade, julgado em 16\/6\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Construtora Alicerce Forte Ltda. aderiu a programa de parcelamento, confessando d\u00e9bito tribut\u00e1rio. Anos depois, ainda durante o pagamento das parcelas, ajuizou a\u00e7\u00e3o para redimensionar a base de c\u00e1lculo do d\u00e9bito confessado, alegando inclus\u00e3o indevida de valores. A Fazenda suscitou prescri\u00e7\u00e3o, contada da ades\u00e3o. A Construtora respondeu que o prazo s\u00f3 correria ap\u00f3s a quita\u00e7\u00e3o integral, quando se consolidaria o cr\u00e9dito. Qual o termo inicial da prescri\u00e7\u00e3o para redimensionar d\u00e9bito em parcelamento ativo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Decreto n. 20.910\/1932, art. 1\u00ba<\/strong><em> (prescri\u00e7\u00e3o quinquenal contada do ato ou fato do qual se origina a pretens\u00e3o contra a Fazenda P\u00fablica).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CTN, art. 151, VI<\/strong><em> (o parcelamento suspende a exigibilidade do cr\u00e9dito tribut\u00e1rio).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CTN, art. 156, I<\/strong><em> (o pagamento extingue o cr\u00e9dito tribut\u00e1rio).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CTN, art. 168<\/strong><em> (prazo para repeti\u00e7\u00e3o de ind\u00e9bito, contado da extin\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito (pagamento)).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>STJ, Tema 229<\/strong><em> (repeti\u00e7\u00e3o de ind\u00e9bito: termo inicial na data da extin\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito tribut\u00e1rio).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda O parcelamento \u00e9 modalidade de morat\u00f3ria: suspende a exigibilidade (CTN, art. 151, VI) e mant\u00e9m o cr\u00e9dito em estado de lat\u00eancia, sem extingui-lo. N\u00e3o se confunde com o pagamento, que opera a extin\u00e7\u00e3o imediata do v\u00ednculo (CTN, art. 156, I). Por isso, a pretens\u00e3o de redimensionar a d\u00edvida confessada n\u00e3o \u00e9 repeti\u00e7\u00e3o de ind\u00e9bito &#8211; n\u00e3o h\u00e1 pagamento a repetir, mas d\u00edvida a corrigir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd A ades\u00e3o ao parcelamento \u00e9 ato de reconhecimento inequ\u00edvoco que unifica instrumentalmente a obriga\u00e7\u00e3o, instaurando marco de certeza e liquidez da d\u00edvida. Esse ato \u00e9 o &#8216;ato ou fato&#8217; origin\u00e1rio a que alude o art. 1\u00ba do Decreto n. 20.910\/1932 &#8211; termo inicial \u00fanico da pretens\u00e3o de redimensionamento, independentemente de como a d\u00edvida foi inicialmente exteriorizada. <strong>Distingue-se do Tema 229\/STJ, que cuida de repeti\u00e7\u00e3o de ind\u00e9bito (termo na extin\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito por pagamento)<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O perfil jur\u00eddico do parcelamento \u00e9 o ponto de partida. <strong>Trata-se de modalidade de morat\u00f3ria que suspende a exigibilidade do cr\u00e9dito (CTN, art. 151, VI) e o mant\u00e9m em estado de lat\u00eancia, sem extingui-lo<\/strong>; a extin\u00e7\u00e3o permanece adiada at\u00e9 a quita\u00e7\u00e3o integral. N\u00e3o h\u00e1, no curso do parcelamento, pagamento que extinga o v\u00ednculo (CTN, art. 156, I).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f Essa distin\u00e7\u00e3o afasta a hip\u00f3tese de repeti\u00e7\u00e3o de ind\u00e9bito. <strong>N\u00e3o se cuida de repetir valor pago indevidamente, mas de redimensionar a pr\u00f3pria d\u00edvida confessada &#8211; o que impede a aplica\u00e7\u00e3o do art. 168 do CTN e, por consequ\u00eancia, da l\u00f3gica do Tema 229\/STJ<\/strong>, cujo termo inicial \u00e9 a data da extin\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito pelo pagamento. Aqui n\u00e3o h\u00e1 pagamento extintivo a deflagrar o prazo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O termo inicial, ent\u00e3o, desloca-se para o ato que deu exist\u00eancia e contornos ao d\u00e9bito. <strong>A ades\u00e3o ao parcelamento \u00e9 ato de reconhecimento inequ\u00edvoco que unifica a obriga\u00e7\u00e3o e instaura marco de certeza e liquidez &#8211; \u00e9 o &#8216;ato ou fato&#8217; origin\u00e1rio do art. 1\u00ba do Decreto n. 20.910\/1932<\/strong>, a partir do qual a pretens\u00e3o de redimensionamento se torna exerc\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A consequ\u00eancia pr\u00e1tica \u00e9 direta e desfavor\u00e1vel a quem demora. <strong>O prazo prescricional corre da ades\u00e3o e n\u00e3o aguarda a quita\u00e7\u00e3o integral do programa: contado o quinqu\u00eanio desde o reconhecimento da d\u00edvida, prescreve a pretens\u00e3o de redimension\u00e1-la, ainda que o parcelamento siga ativo<\/strong>. Vincular o termo inicial \u00e0 quita\u00e7\u00e3o prolongaria indefinidamente a possibilidade de revis\u00e3o, em desacordo com a fun\u00e7\u00e3o estabilizadora da prescri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A prescri\u00e7\u00e3o da pretens\u00e3o de redimensionar d\u00e9bito em parcelamento ativo corre da data da ades\u00e3o ao programa porque:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) o parcelamento, como pagamento antecipado, extingue o cr\u00e9dito tribut\u00e1rio no ato da ades\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) a suspens\u00e3o da exigibilidade interrompe e reinicia o prazo a cada parcela recolhida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) a ades\u00e3o \u00e9 ato de reconhecimento que unifica a d\u00edvida e instaura o marco de certeza e liquidez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) a pretens\u00e3o configura repeti\u00e7\u00e3o de ind\u00e9bito, contada da extin\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito (Tema 229\/STJ).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) o prazo prescricional somente se inicia com a consolida\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito ap\u00f3s a quita\u00e7\u00e3o final.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. O parcelamento n\u00e3o extingue o cr\u00e9dito; \u00e9 morat\u00f3ria que suspende a exigibilidade (CTN, art. 151, VI) e mant\u00e9m o cr\u00e9dito em lat\u00eancia &#8211; a extin\u00e7\u00e3o ocorreria s\u00f3 com a quita\u00e7\u00e3o integral (art. 156, I).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. A suspens\u00e3o da exigibilidade n\u00e3o interrompe nem reinicia o prazo a cada parcela; o termo inicial \u00e9 \u00fanico, fixado na ades\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) <strong>Correta.<\/strong> A ades\u00e3o \u00e9 ato de reconhecimento inequ\u00edvoco que unifica instrumentalmente a obriga\u00e7\u00e3o, instaurando certeza e liquidez; constitui o &#8216;ato ou fato&#8217; origin\u00e1rio do art. 1\u00ba do Decreto n. 20.910\/1932, termo inicial \u00fanico da pretens\u00e3o de redimensionamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. A pretens\u00e3o n\u00e3o \u00e9 repeti\u00e7\u00e3o de ind\u00e9bito (n\u00e3o h\u00e1 pagamento a repetir, mas d\u00edvida a redimensionar); por isso se distingue do Tema 229\/STJ e do art. 168 do CTN.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. Vincular o in\u00edcio \u00e0 quita\u00e7\u00e3o final prolongaria indefinidamente a revis\u00e3o; o termo \u00e9 a ades\u00e3o, n\u00e3o a consolida\u00e7\u00e3o posterior.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-7\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A controv\u00e9rsia consiste em debater a fixa\u00e7\u00e3o do termo inicial da prescri\u00e7\u00e3o nas a\u00e7\u00f5es que visam ao redimensionamento do montante de cr\u00e9dito tribut\u00e1rio confessado em parcelamento ativo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Inicialmente, cabe esclarecer que, diante da inexist\u00eancia de regra espec\u00edfica no C\u00f3digo Tribut\u00e1rio Nacional (CTN) para essa hip\u00f3tese, o prazo prescricional a ser observado \u00e9 quinquenal, nos moldes do Decreto n. 20.910\/1932, que disciplina a prescri\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es contra a Fazenda P\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Isso posto, tem-se que, no parcelamento, a extin\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito permanece em estado de lat\u00eancia at\u00e9 a quita\u00e7\u00e3o integral. \u00c9 justamente essa aus\u00eancia de pagamento integral e, assim, de extin\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito tribut\u00e1rio nos termos do art. 156, I, do CTN, que afasta a aplica\u00e7\u00e3o do art. 168 do CTN, pois n\u00e3o se cuida de repetir ind\u00e9bito derivado de pagamento, mas de redimensionar a pr\u00f3pria d\u00edvida confessada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sob esse prisma, a fixa\u00e7\u00e3o do termo inicial da prescri\u00e7\u00e3o pressup\u00f5e a exata identifica\u00e7\u00e3o do momento em que o cr\u00e9dito tribut\u00e1rio parcelado foi formalizado. Nessa linha de intelec\u00e7\u00e3o, torna-se indispens\u00e1vel verificar o ato que conferiu exist\u00eancia jur\u00eddica ao d\u00e9bito, para precisar quando a pretens\u00e3o tornou-se exerc\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ao ingressar no programa de regulariza\u00e7\u00e3o fiscal, a manifesta\u00e7\u00e3o do sujeito passivo unifica instrumentalmente a obriga\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria, instaurando marco de certeza e liquidez da d\u00edvida. Esse ato de reconhecimento inequ\u00edvoco transmuda-se no &#8216;ato ou fato&#8217; origin\u00e1rio a que alude o art. 1 do Decreto n. 20.910\/1932, estabelecendo um termo inicial \u00fanico para o exerc\u00edcio da pretens\u00e3o, independentemente da forma como a d\u00edvida foi inicialmente exteriorizada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Al\u00e9m disso, \u00e9 imperativo observar que o perfil jur\u00eddico do parcelamento n\u00e3o se confunde com o do pagamento. Enquanto este opera a extin\u00e7\u00e3o imediata do v\u00ednculo obrigacional (art. 156, I, do CTN), aquele consubstancia modalidade de morat\u00f3ria e enseja a suspens\u00e3o da exigibilidade (art. 151, VI, do CTN), mantendo a obriga\u00e7\u00e3o em estado de efic\u00e1cia contida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Essa premissa \u00e9 fulcral para promover a necess\u00e1ria distin\u00e7\u00e3o entre a hip\u00f3tese vertente e o entendimento sedimentado no Tema 229\/STJ, cuja tese tem o seguinte teor: &#8220;A a\u00e7\u00e3o de repeti\u00e7\u00e3o de ind\u00e9bito [&#8230;] visa \u00e0 restitui\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito tribut\u00e1rio pago indevidamente ou a maior, por isso que o termo a quo \u00e9 a data da extin\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito tribut\u00e1rio, momento em que exsurge o direito de a\u00e7\u00e3o contra a Fazenda P\u00fablica, sendo certo que, por tratar-se de tributo sujeito ao lan\u00e7amento de of\u00edcio, o prazo prescricional \u00e9 quinquenal, nos termos do art. 168, I, do CTN (Primeira Se\u00e7\u00e3o, REsp n. 947.206\/RJ, Rel. Ministro Luiz Fux, j. 13.10.2010).&#8221; Com efeito, a tese firmada em tal paradigma estabelece que a a\u00e7\u00e3o de repeti\u00e7\u00e3o de ind\u00e9bito tem, como termo inicial, a data da extin\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito tribut\u00e1rio, momento em que exsurge a faculdade de agir contra a Fazenda P\u00fablica (actio nata), nos termos do disposto no art. 168, I, do CTN. Ocorre que, nas demandas que visam ao redimensionamento da base de c\u00e1lculo do cr\u00e9dito tribut\u00e1rio confessado em parcelamento ativo, o cen\u00e1rio f\u00e1tico-jur\u00eddico \u00e9 distinto. N\u00e3o se cuida de repeti\u00e7\u00e3o de ind\u00e9bito, justamente porque n\u00e3o h\u00e1 extin\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito tribut\u00e1rio &#8211; a qual t\u00e3o somente se perfectibilizar\u00e1 quando do pagamento da \u00faltima parcela -, mas de postula\u00e7\u00e3o que busca rever o montante do d\u00e9bito declarado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesse contexto, a aplica\u00e7\u00e3o do Tema 229\/STJ \u00e0 situa\u00e7\u00e3o em an\u00e1lise revelaria um desalinhamento hermen\u00eautico, porquanto, repita-se, no pagamento h\u00e1 um ato \u00fanico que extingue o liame obrigacional, sendo que, no parcelamento, diversamente, o v\u00ednculo entre sujeito ativo e passivo permanece h\u00edgido: apenas a satisfa\u00e7\u00e3o da d\u00edvida \u00e9 parcelada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Dessarte, imperioso reconhecer que a orienta\u00e7\u00e3o contida no Tema 229\/STJ n\u00e3o alcan\u00e7a as hip\u00f3teses de insurg\u00eancia judicial de parcelamento ativo. Para tais situa\u00e7\u00f5es, a flu\u00eancia do prazo prescricional n\u00e3o aguarda a quita\u00e7\u00e3o integral do programa, mas se processa a partir do ato de ades\u00e3o ao parcelamento, na exata dic\u00e7\u00e3o do art. 1 do Decreto n. 20.910\/1932.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-10-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-creditos-de-pis-cofins-na-aquisicao-de-alcool-para-revenda-pelo-distribuidor\" class=\"wp-block-heading\">10.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; CR\u00c9DITOS DE PIS\/COFINS NA AQUISI\u00c7\u00c3O DE \u00c1LCOOL PARA REVENDA PELO DISTRIBUIDOR<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante a vig\u00eancia da reda\u00e7\u00e3o dada pela Lei n. 11.727\/2008, por expressa disposi\u00e7\u00e3o legal, o distribuidor de combust\u00edvel estava autorizado a apropriar-se de cr\u00e9ditos da Contribui\u00e7\u00e3o ao PIS e da COFINS <strong>referentes a aquisi\u00e7\u00f5es de \u00e1lcool para revenda<\/strong>, ainda que sujeito ao regime monof\u00e1sico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 1.737.359-PR, Rel. Min. Regina Helena Costa, Primeira Turma, por unanimidade, julgado em 9\/6\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Distribuidora P\u00e9 de Serra Combust\u00edveis Ltda., optante do regime especial de apura\u00e7\u00e3o de PIS\/COFINS sobre combust\u00edveis, descontou cr\u00e9ditos relativos \u00e0 aquisi\u00e7\u00e3o de \u00e1lcool (etanol hidratado e anidro) para revenda, no per\u00edodo de vig\u00eancia da Lei n. 11.727\/2008. O Fisco glosou os cr\u00e9ditos, invocando o Tema 1093\/STJ, segundo o qual a monofasia, em regra, \u00e9 incompat\u00edvel com o creditamento. A distribuidora sustentou haver regra espec\u00edfica autorizando o cr\u00e9dito do \u00e1lcool. Os cr\u00e9ditos eram devidos nesse per\u00edodo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n. 9.718\/1998, art. 5\u00ba, \u00a7 13 (reda\u00e7\u00e3o da Lei n. 11.727\/2008)<\/strong><em> (creditamento de PIS\/COFINS pelo produtor, importador ou distribuidor de \u00e1lcool, na aquisi\u00e7\u00e3o para revenda).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Leis n. 10.637\/2002 e n. 10.833\/2003<\/strong><em> (regime n\u00e3o cumulativo de PIS\/COFINS).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>STJ, Tema 1093<\/strong><em> (em regra, a monofasia \u00e9 incompat\u00edvel com o creditamento, salvo hip\u00f3teses expressamente delineadas pelo legislador).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n. 12.859\/2013 (MP n. 613\/2013)<\/strong><em> (exclus\u00e3o posterior do distribuidor do direito ao creditamento do \u00e1lcool).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda A incid\u00eancia monof\u00e1sica de PIS\/COFINS sobre derivados de petr\u00f3leo (Lei n. 9.990\/2000) concentra a exig\u00eancia no produtor e importador. O Tema 1093\/STJ fixou que, em regra, esse regime \u00e9 incompat\u00edvel com o creditamento &#8211; ressalvadas as hip\u00f3teses expressamente previstas pelo legislador. A regra geral, por\u00e9m, comporta exce\u00e7\u00e3o legal espec\u00edfica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd O \u00e1lcool tinha regra pr\u00f3pria: o art. 5\u00ba, \u00a7 13, da Lei n. 9.718\/1998, na reda\u00e7\u00e3o da Lei n. 11.727\/2008 (vigente \u00e0 \u00e9poca), autorizava o produtor, importador ou distribuidor de \u00e1lcool, sujeito \u00e0 n\u00e3o cumulatividade, a creditar-se na aquisi\u00e7\u00e3o para revenda. Por isso, imp\u00f5e-se o distinguishing em rela\u00e7\u00e3o ao Tema 1093\/STJ: a op\u00e7\u00e3o pelo regime especial sobre combust\u00edveis n\u00e3o afasta a sistem\u00e1tica n\u00e3o cumulativa quanto ao \u00e1lcool. O direito foi posteriormente limitado, com a exclus\u00e3o do distribuidor, pela Lei n. 12.859\/2013.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A regra geral da monofasia desfavorece o creditamento, mas n\u00e3o o pro\u00edbe em termos absolutos. <strong>O Tema 1093\/STJ fixou que o regime monof\u00e1sico \u00e9, em regra, incompat\u00edvel com a apropria\u00e7\u00e3o de cr\u00e9ditos &#8211; ressalvadas, expressamente, as hip\u00f3teses delineadas pelo legislador<\/strong>. A pr\u00f3pria tese reconhece a possibilidade de exce\u00e7\u00e3o legal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f O \u00e1lcool \u00e9 precisamente uma dessas exce\u00e7\u00f5es. <strong>O art. 5\u00ba, \u00a7 13, da Lei n. 9.718\/1998, na reda\u00e7\u00e3o da Lei n. 11.727\/2008, autorizava o produtor, o importador ou o distribuidor de \u00e1lcool, sujeito \u00e0 n\u00e3o cumulatividade, a apropriar-se de cr\u00e9ditos na aquisi\u00e7\u00e3o do produto para revenda<\/strong>. O creditamento do \u00e1lcool encontra suped\u00e2neo em preceito legal diverso daquele examinado no Tema 1093\/STJ.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 Da\u00ed a necessidade de distinguishing. <strong>No Tema 1093\/STJ fixaram-se diretrizes gerais para todos os bens sujeitos \u00e0 monofasia &#8211; impedindo o cr\u00e9dito na revenda de produtos como farmac\u00eauticos, de higiene e autope\u00e7as -, excetuado o \u00e1lcool, cujo creditamento tem base legal pr\u00f3pria<\/strong>; a op\u00e7\u00e3o pelo regime especial sobre combust\u00edveis n\u00e3o afasta a sistem\u00e1tica n\u00e3o cumulativa quanto ao \u00e1lcool adquirido para revenda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A delimita\u00e7\u00e3o temporal \u00e9 essencial \u00e0 tese. <strong>O direito ao creditamento do distribuidor vigorou enquanto vigente a reda\u00e7\u00e3o da Lei n. 11.727\/2008; posteriormente, a figura do distribuidor foi exclu\u00edda desse creditamento pela MP n. 613\/2013, convertida na Lei n. 12.859\/2013<\/strong>. A tese, portanto, reconhece o cr\u00e9dito apenas no per\u00edodo de vig\u00eancia da norma autorizadora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre o creditamento de PIS\/COFINS na aquisi\u00e7\u00e3o de \u00e1lcool para revenda pelo distribuidor, na vig\u00eancia da Lei n. 11.727\/2008:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) O creditamento do \u00e1lcool tinha base legal pr\u00f3pria, distinta da examinada no Tema 1093\/STJ.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) O regime monof\u00e1sico impede, em termos absolutos, qualquer creditamento na revenda de combust\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) A op\u00e7\u00e3o pelo regime especial sobre combust\u00edveis afastava integralmente a n\u00e3o cumulatividade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) O direito ao cr\u00e9dito do distribuidor permanece vigente ap\u00f3s a Lei n. 12.859\/2013.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) O creditamento dependia de habilita\u00e7\u00e3o pr\u00e9via do distribuidor perante a Receita Federal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) <strong>Correta.<\/strong> O art. 5\u00ba, \u00a7 13, da Lei n. 9.718\/1998 (reda\u00e7\u00e3o da Lei n. 11.727\/2008) autorizava o distribuidor de \u00e1lcool, sujeito \u00e0 n\u00e3o cumulatividade, a creditar-se na aquisi\u00e7\u00e3o para revenda; a base legal \u00e9 diversa da do Tema 1093\/STJ, impondo-se o distinguishing.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. O Tema 1093\/STJ admite exce\u00e7\u00f5es expressas ao impedimento; a monofasia n\u00e3o veda o creditamento em termos absolutos, e o \u00e1lcool \u00e9 exce\u00e7\u00e3o legal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. A op\u00e7\u00e3o pelo regime especial sobre combust\u00edveis n\u00e3o afastava a n\u00e3o cumulatividade quanto ao \u00e1lcool; o creditamento permanecia poss\u00edvel por for\u00e7a de regra pr\u00f3pria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. A Lei n. 12.859\/2013 (MP n. 613\/2013) excluiu o distribuidor do creditamento do \u00e1lcool; o direito n\u00e3o persiste ap\u00f3s essa altera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. O direito ao cr\u00e9dito decorria de expressa disposi\u00e7\u00e3o legal, n\u00e3o de habilita\u00e7\u00e3o pr\u00e9via perante a Receita Federal.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-8\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cinge-se a controv\u00e9rsia em definir se o distribuidor de combust\u00edvel tem direito de descontar cr\u00e9ditos da Contribui\u00e7\u00e3o para o PIS e da COFINS na aquisi\u00e7\u00e3o de \u00e1lcool (etanol et\u00edlico hidratado e \u00e1lcool anidro) para revenda quando vigoravam as altera\u00e7\u00f5es da Lei n. 9.718\/1998, com a reda\u00e7\u00e3o dada pela Lei n. 11.727\/2008, vinculados a receitas n\u00e3o tributadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sobre o tema, ressalta-se que a incid\u00eancia monof\u00e1sica da Contribui\u00e7\u00e3o para o PIS e da COFINS sobre derivados de petr\u00f3leo foi institu\u00edda pela Lei n. 9.990\/2000, que deu nova reda\u00e7\u00e3o ao art. 4 da Lei n. 9.718\/1998, concentrando a exig\u00eancia dos aludidos tributos nas figuras dos produtores e importadores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesse contexto, no Tema 1093\/STJ, a Primeira Se\u00e7\u00e3o concluiu que, em regra, a institui\u00e7\u00e3o de regime monof\u00e1sico da contribui\u00e7\u00e3o ao PIS e da COFINS \u00e9 incompat\u00edvel com o direito \u00e0 apropria\u00e7\u00e3o de cr\u00e9ditos, ressalvadas as hip\u00f3teses expressamente delineadas pelo legislador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Embora, em princ\u00edpio, os precedentes da Primeira Se\u00e7\u00e3o aparentem ser aplic\u00e1veis \u00e0 hip\u00f3tese sob escrut\u00ednio, imp\u00f5e-se necess\u00e1rio distinguishing, pois, no Tema 1093\/STJ, a partir da interpreta\u00e7\u00e3o conjunta dos arts. 2, 1-A, e 3, I, b, das Leis n. 10.637\/2002 e 10.833\/2003, fixou-se diretrizes gerais para todos os bens sujeitos \u00e0 monofasia, impedindo o creditamento no tocante \u00e0 obten\u00e7\u00e3o de bens destinados \u00e0 revenda, a exemplo de produtos farmac\u00eauticos ou de higiene pessoal e autope\u00e7as, excetuado o \u00e1lcool, cujo direito \u00e0 apura\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito encontra suped\u00e2neo em preceito legal diverso. Com efeito, o art. 5, 13, da Lei n. 9.718\/1998, com reda\u00e7\u00e3o dada pela Lei n 11.727\/2008 (vigente \u00e0 \u00e9poca dos fatos), possibilitava ao produtor, importador ou distribuidor de \u00e1lcool, inclusive para fins carburantes, sujeito ao regime de apura\u00e7\u00e3o n\u00e3o cumulativa do PIS e da COFINS, o creditamento relativo \u00e0 aquisi\u00e7\u00e3o do produto para revenda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Vale anotar que o direito ao creditamento foi posteriormente limitado, com a exclus\u00e3o da figura do distribuidor para tal fim, por meio da Medida Provis\u00f3ria n. 613\/2013, convertida na Lei n. 12.859\/2013.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, o fato de a contribuinte ter decidido pelo regime especial de apura\u00e7\u00e3o e pagamento da Contribui\u00e7\u00e3o para o PIS e da COFINS sobre combust\u00edveis, previsto na Lei n. 9.718\/1998, n\u00e3o afasta a sistem\u00e1tica n\u00e3o cumulativa da Contribui\u00e7\u00e3o para o PIS e da COFINS, restando plenamente poss\u00edvel o desconto de cr\u00e9ditos relativos \u00e0 aquisi\u00e7\u00e3o de \u00e1lcool (etanol et\u00edlico hidratado e \u00e1lcool anidro) para revenda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Portanto, conclui-se que, durante o per\u00edodo em que vigorou a reda\u00e7\u00e3o dada pela Lei n. 11.727\/2008, por expressa disposi\u00e7\u00e3o legal, o contribuinte distribuidor de combust\u00edvel estava autorizado a apropriar-se de cr\u00e9ditos da Contribui\u00e7\u00e3o ao PIS e da COFINS, referentes a aquisi\u00e7\u00f5es de \u00e1lcool para revenda, correspondentes aos valores devidos em decorr\u00eancia dessa opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por fim, a diretriz firmada pela Primeira Se\u00e7\u00e3o desta Corte, no Tema 1093\/STJ, n\u00e3o se aplica \u00e0s aquisi\u00e7\u00f5es de \u00e1lcool, pois: (i) h\u00e1 norma legal expressa autorizando a apropria\u00e7\u00e3o de cr\u00e9ditos nessas hip\u00f3teses; e (ii) as teses vinculantes foram fixadas tendo em conta, precipuamente, o regime da aquisi\u00e7\u00e3o de bens para revenda previsto nos arts. 3, I, b, das Leis n. 10.637\/2002 e 10.833\/2003, n\u00e3o versando, portanto, sobre a obten\u00e7\u00e3o de \u00e1lcool destinado \u00e0 revenda, como no caso.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-11-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-resolucao-por-erro-odontologico-e-vedacao-ao-enriquecimento-sem-causa\" class=\"wp-block-heading\">11.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; RESOLU\u00c7\u00c3O POR ERRO ODONTOL\u00d3GICO E VEDA\u00c7\u00c3O AO ENRIQUECIMENTO SEM CAUSA<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Constatado o inadimplemento absoluto decorrente do erro odontol\u00f3gico e tendo o credor optado pela resolu\u00e7\u00e3o da aven\u00e7a com a restitui\u00e7\u00e3o da contrapresta\u00e7\u00e3o por ele efetuada, <strong>n\u00e3o lhe \u00e9 dado exigir, tamb\u00e9m, o equivalente \u00e0 presta\u00e7\u00e3o inadimplida (o pagamento de outra cirurgia realizada por terceiro), sob pena de enriquecimento sem causa<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 2.225.449-RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por unanimidade, julgado em 16\/6\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Kiko contratou a Cl\u00ednica Sorriso Perfeito Odontologia para uma cirurgia, que resultou em assimetria facial &#8211; inadimplemento absoluto por erro odontol\u00f3gico. Kiko necessitar\u00e1 de nova interven\u00e7\u00e3o, a ser feita por terceiro. Em ju\u00edzo, pleiteou cumulativamente: (i) a restitui\u00e7\u00e3o integral do valor pago \u00e0 cl\u00ednica e (ii) o custeio da nova cirurgia reparadora. O Tribunal estadual deferiu ambos, afastando <em>bis in idem<\/em>. A cl\u00ednica recorreu, alegando enriquecimento sem causa. O credor pode cumular a restitui\u00e7\u00e3o e o custo da nova cirurgia?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CC, art. 475<\/strong><em> (ao lesado pelo inadimplemento cabe exigir o cumprimento (equivalente) ou a resolu\u00e7\u00e3o do contrato, al\u00e9m de perdas e danos).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CC, art. 884<\/strong><em> (veda\u00e7\u00e3o ao enriquecimento sem causa: quem se enriquece \u00e0 custa de outrem deve restituir o indevidamente auferido).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda No inadimplemento absoluto, abrem-se ao credor duas op\u00e7\u00f5es ALTERNATIVAS (CC, art. 475): exigir o equivalente pecuni\u00e1rio da presta\u00e7\u00e3o (mantendo o v\u00ednculo) ou resolver o contrato (extinguindo o v\u00ednculo). No cumprimento pelo equivalente, como o v\u00ednculo persiste, o credor deve manter sua contrapresta\u00e7\u00e3o. Na resolu\u00e7\u00e3o, o v\u00ednculo se extingue e ambas as partes ficam liberadas de suas obriga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd Optando o credor pela resolu\u00e7\u00e3o com restitui\u00e7\u00e3o da contrapresta\u00e7\u00e3o, ele \u00e9 recolocado na situa\u00e7\u00e3o anterior \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o do contrato &#8211; status quo ante. Exigir, al\u00e9m da restitui\u00e7\u00e3o, o equivalente \u00e0 presta\u00e7\u00e3o inadimplida (o custo de nova cirurgia por terceiro) somaria duas vantagens incompat\u00edveis entre si: receber de volta o que pagou e, ainda, obter a presta\u00e7\u00e3o \u00e0s custas do devedor. Isso configura enriquecimento sem causa (CC, art. 884).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O inadimplemento absoluto abre ao credor um leque de duas op\u00e7\u00f5es que n\u00e3o se somam. <strong>Pode exigir o equivalente pecuni\u00e1rio da presta\u00e7\u00e3o ou resolver o contrato (CC, art. 475) &#8211; s\u00e3o caminhos alternativos, n\u00e3o cumulativos<\/strong>. A escolha de um determina o regime das restitui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f Cada via tem consequ\u00eancia pr\u00f3pria sobre o v\u00ednculo. <strong>No cumprimento pelo equivalente, o v\u00ednculo \u00e9 mantido, e o credor deve conservar sua contrapresta\u00e7\u00e3o para receber o equivalente da presta\u00e7\u00e3o; na resolu\u00e7\u00e3o, o v\u00ednculo se extingue, e ambas as partes ficam liberadas de suas obriga\u00e7\u00f5es<\/strong>. S\u00e3o l\u00f3gicas distintas e excludentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A restitui\u00e7\u00e3o da contrapresta\u00e7\u00e3o, na resolu\u00e7\u00e3o, tem fun\u00e7\u00e3o restauradora. <strong>Devolver ao credor o valor que ele pagou \u00e9 medida apta a recoloc\u00e1-lo na situa\u00e7\u00e3o em que estaria se n\u00e3o tivesse celebrado o contrato &#8211; o status quo ante<\/strong>; n\u00e3o h\u00e1, nessa devolu\u00e7\u00e3o, qualquer parcela indenizat\u00f3ria adicional embutida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f Cumular restitui\u00e7\u00e3o e custo da nova presta\u00e7\u00e3o romperia o equil\u00edbrio. <strong>Exigir, al\u00e9m da devolu\u00e7\u00e3o do que pagou, o equivalente \u00e0 presta\u00e7\u00e3o inadimplida &#8211; o custo de outra cirurgia por terceiro &#8211; somaria vantagens incompat\u00edveis e configuraria enriquecimento sem causa (CC, art. 884)<\/strong>. O credor receberia de volta o pre\u00e7o e ainda obteria a presta\u00e7\u00e3o \u00e0 custa do devedor, o que extrapola a repara\u00e7\u00e3o devida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em a\u00e7\u00e3o de responsabilidade por erro odontol\u00f3gico, tendo o credor optado pela resolu\u00e7\u00e3o do contrato com restitui\u00e7\u00e3o do valor pago:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) poder\u00e1 pleitear indeniza\u00e7\u00e3o adicional mediante prova de prova de culpa grave.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) a resolu\u00e7\u00e3o do contrato afasta, por completo, o dever de indenizar perdas e danos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) o custeio de nova interven\u00e7\u00e3o configura dano hipot\u00e9tico, ainda n\u00e3o concretizado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) a restitui\u00e7\u00e3o j\u00e1 o recoloca no status quo ante, e a cumula\u00e7\u00e3o com indenizat\u00f3ria geraria enriquecimento sem causa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) a cumula\u00e7\u00e3o com indeniza\u00e7\u00e3o s\u00f3 seria poss\u00edvel mediante pr\u00e9via liquida\u00e7\u00e3o do dano em a\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o regime de culpa (j\u00e1 reconhecido o inadimplemento), mas a incompatibilidade entre resolu\u00e7\u00e3o com restitui\u00e7\u00e3o e exig\u00eancia cumulada do equivalente da presta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. A resolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o afasta, por completo, perdas e danos (CC, art. 475); o que se veda \u00e9 cumular a restitui\u00e7\u00e3o com o equivalente da pr\u00f3pria presta\u00e7\u00e3o inadimplida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. O \u00f3bice n\u00e3o \u00e9 a natureza hipot\u00e9tica do dano, mas a veda\u00e7\u00e3o \u00e0 cumula\u00e7\u00e3o de restitui\u00e7\u00e3o e equivalente ap\u00f3s a op\u00e7\u00e3o pela resolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) <strong>Correta.<\/strong> Na resolu\u00e7\u00e3o, a restitui\u00e7\u00e3o da contrapresta\u00e7\u00e3o recoloca o credor no status quo ante (CC, art. 475); exigir tamb\u00e9m o equivalente \u00e0 presta\u00e7\u00e3o inadimplida somaria vantagens incompat\u00edveis e configuraria enriquecimento sem causa (CC, art. 884).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. A impossibilidade n\u00e3o decorre de exig\u00eancia de liquida\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma, mas da pr\u00f3pria incompatibilidade l\u00f3gica entre as duas pretens\u00f5es cumuladas.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-9\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A controv\u00e9rsia visa decidir se houve enriquecimento sem causa na condena\u00e7\u00e3o de dentista ao reembolso de cirurgia e ao custeio de nova interven\u00e7\u00e3o por terceiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, o Tribunal estadual, considerando que &#8220;restou demonstrado que o suplicante necessitar\u00e1 de nova cirurgia para reparar a assimetria facial&#8221;, decidiu que &#8220;n\u00e3o se vislumbra que a condena\u00e7\u00e3o ao pagamento de novo procedimento reparador e o ressarcimento da cirurgia j\u00e1 realizada acarretaria bis in idem, na medida em que se destina a reparar erro cometido na primeira cirurgia&#8221;. Sucede que, em se tratando de inadimplemento absoluto, surgem duas op\u00e7\u00f5es alternativas ao credor: a exig\u00eancia do equivalente pecuni\u00e1rio ou a resolu\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o contratual (art. 475 do C\u00f3digo Civil). No cumprimento pelo equivalente, o v\u00ednculo negocial \u00e9 mantido, de modo que, para que o credor possa receber o equivalente da presta\u00e7\u00e3o, dever\u00e1 manter a sua contrapresta\u00e7\u00e3o; na resolu\u00e7\u00e3o, o v\u00ednculo contratual \u00e9 extinto, ficando ambas as partes liberadas do cumprimento das suas obriga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No particular, constatado o inadimplemento absoluto decorrente do erro odontol\u00f3gico e tendo o credor optado pela resolu\u00e7\u00e3o da aven\u00e7a, com a restitui\u00e7\u00e3o da contrapresta\u00e7\u00e3o por ele efetuada, n\u00e3o lhe \u00e9 dado exigir, tamb\u00e9m, o equivalente \u00e0 presta\u00e7\u00e3o inadimplida (pagamento de outra cirurgia realizada por terceiro), sob pena de se configurar o seu enriquecimento sem causa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com efeito, a restitui\u00e7\u00e3o integral do valor pago pelo credor \u00e9 medida apta a coloc\u00e1-lo na situa\u00e7\u00e3o em que se encontraria caso n\u00e3o tivesse celebrado o contrato.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-12-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-extincao-da-producao-antecipada-de-provas-e-compartilhamento-para-fins-penais\" class=\"wp-block-heading\">12.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; EXTIN\u00c7\u00c3O DA PRODU\u00c7\u00c3O ANTECIPADA DE PROVAS E COMPARTILHAMENTO PARA FINS PENAIS<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A extin\u00e7\u00e3o, sem resolu\u00e7\u00e3o de m\u00e9rito, da a\u00e7\u00e3o c\u00edvel de produ\u00e7\u00e3o antecipada de provas por inadequa\u00e7\u00e3o da via eleita n\u00e3o implica, por si s\u00f3, inutiliza\u00e7\u00e3o ou invalidade das provas, se ausente declara\u00e7\u00e3o de ilicitude, <strong>podendo ser legitimamente compartilhadas para fins penais, observados os requisitos legais e constitucionais<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AgRg no RMS 77.635-SP, Rel. Min. Antonio Saldanha Palheiro, Rel. p\/ ac\u00f3rd\u00e3o Min. Sebasti\u00e3o Reis J\u00fanior, Sexta Turma, por maioria, julgado em 27\/5\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em a\u00e7\u00e3o c\u00edvel de produ\u00e7\u00e3o antecipada de provas, foi realizada busca e apreens\u00e3o. O ju\u00edzo c\u00edvel extinguiu o feito sem resolu\u00e7\u00e3o de m\u00e9rito, por inadequa\u00e7\u00e3o da via eleita. A autoridade policial, com anu\u00eancia do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, requereu ao ju\u00edzo criminal o compartilhamento das provas ent\u00e3o apreendidas para subsidiar investiga\u00e7\u00e3o contra Godines. O ju\u00edzo c\u00edvel, por\u00e9m, entendeu que a extin\u00e7\u00e3o invalidaria a prova, inviabilizando o compartilhamento. A extin\u00e7\u00e3o por inadequa\u00e7\u00e3o da via, por si s\u00f3, contamina as provas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CPP, art. 14<\/strong><em> (o ofendido pode requerer dilig\u00eancias, que ser\u00e3o realizadas a ju\u00edzo da autoridade).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CPP, art. 271<\/strong><em> (atua\u00e7\u00e3o do assistente de acusa\u00e7\u00e3o, inclusive na proposi\u00e7\u00e3o de provas).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CF, art. 5\u00ba, LVI<\/strong><em> (inadmissibilidade das provas obtidas por meios il\u00edcitos).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda H\u00e1 diferen\u00e7a essencial entre a inadequa\u00e7\u00e3o da via processual e a ilicitude da prova. A extin\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o c\u00edvel de produ\u00e7\u00e3o antecipada por inadequa\u00e7\u00e3o da via \u00e9 ju\u00edzo sobre o instrumento processual escolhido &#8211; n\u00e3o sobre a validade intr\u00ednseca da dilig\u00eancia. Sem declara\u00e7\u00e3o de ilicitude ou de nulidade apta a macular a prova em sua ess\u00eancia, o acervo probat\u00f3rio j\u00e1 constitu\u00eddo n\u00e3o \u00e9 inutilizado para outros fins.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd No inqu\u00e9rito, a v\u00edtima pode sugerir a produ\u00e7\u00e3o de provas (CPP, arts. 14 e 271), cabendo \u00e0 autoridade, ouvido o Minist\u00e9rio P\u00fablico, decidir sua pertin\u00eancia. No caso, o compartilhamento foi requerido pela autoridade policial com anu\u00eancia do MPF &#8211; o que evidencia, por si, a pertin\u00eancia, relev\u00e2ncia e necessidade da dilig\u00eancia para a persecu\u00e7\u00e3o penal. As provas j\u00e1 haviam sido reconhecidas como \u00fateis \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o; podem ser compartilhadas, observados os requisitos legais e constitucionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A premissa que sustenta o resultado \u00e9 a distin\u00e7\u00e3o entre dois planos. <strong>Uma coisa \u00e9 a inadequa\u00e7\u00e3o da via processual eleita; outra, bem diversa, \u00e9 a ilicitude da prova produzida<\/strong>. A extin\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o c\u00edvel de produ\u00e7\u00e3o antecipada cuidou da adequa\u00e7\u00e3o do instrumento &#8211; n\u00e3o de v\u00edcio intr\u00ednseco da busca e apreens\u00e3o realizada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f Sem m\u00e1cula na ess\u00eancia da prova, n\u00e3o h\u00e1 contamina\u00e7\u00e3o a propagar. <strong>A extin\u00e7\u00e3o sem m\u00e9rito por inadequa\u00e7\u00e3o da via n\u00e3o equivale a declara\u00e7\u00e3o de ilicitude ou de nulidade apta a comprometer a prova em si; trata-se de ju\u00edzo de inadequa\u00e7\u00e3o ou dispensabilidade quanto aos fins espec\u00edficos da esfera c\u00edvel<\/strong>. A prova subsiste para outros fins.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A participa\u00e7\u00e3o da v\u00edtima na investiga\u00e7\u00e3o tem limites que aqui foram respeitados. <strong>O ofendido pode sugerir provas (CPP, arts. 14 e 271), mas cabe \u00e0 autoridade, ouvido o Minist\u00e9rio P\u00fablico, decidir sobre sua pertin\u00eancia e produ\u00e7\u00e3o<\/strong>; n\u00e3o houve imposi\u00e7\u00e3o da v\u00edtima de dilig\u00eancia reputada impertinente pelas autoridades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A origem do pedido de compartilhamento confirma a pertin\u00eancia. <strong>O compartilhamento foi requerido pela autoridade policial, com anu\u00eancia do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal &#8211; o que evidencia a relev\u00e2ncia e a necessidade da prova para a persecu\u00e7\u00e3o penal<\/strong>; reconhecidas previamente como \u00fateis \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o, as provas podem ser compartilhadas, observados os requisitos legais e constitucionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre a possibilidade de compartilhar, para fins penais, provas produzidas em a\u00e7\u00e3o c\u00edvel de produ\u00e7\u00e3o antecipada extinta sem m\u00e9rito por inadequa\u00e7\u00e3o da via eleita:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) \u00c9 invi\u00e1vel, pois a extin\u00e7\u00e3o sem resolu\u00e7\u00e3o de m\u00e9rito inutiliza, por si, as provas produzidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) \u00c9 poss\u00edvel se as provas forem integralmente reproduzidas no curso da a\u00e7\u00e3o penal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) \u00c9 cab\u00edvel se houver previs\u00e3o legal de compartilhamento entre as esferas c\u00edvel e penal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) \u00c9 poss\u00edvel se a pr\u00f3pria v\u00edtima requerer diretamente o compartilhamento ao ju\u00edzo criminal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) \u00c9 vi\u00e1vel, pois a inadequa\u00e7\u00e3o da via n\u00e3o equivale \u00e0 ilicitude da prova, ausente declara\u00e7\u00e3o nesse sentido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A extin\u00e7\u00e3o por inadequa\u00e7\u00e3o da via n\u00e3o inutiliza, por si, as provas; sem declara\u00e7\u00e3o de ilicitude, o acervo subsiste para outros fins.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. N\u00e3o se exige reprodu\u00e7\u00e3o integral das provas na a\u00e7\u00e3o penal; v\u00e1lidas em sua ess\u00eancia, podem ser compartilhadas como produzidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. O compartilhamento de provas entre as esferas \u00e9 em regra admitido; o \u00f3bice cogitado seria a ilicitude, que n\u00e3o se configura pela mera inadequa\u00e7\u00e3o da via.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. No caso, o compartilhamento foi requerido pela autoridade policial com anu\u00eancia do MPF; a iniciativa n\u00e3o precisa partir da v\u00edtima, a quem cabe apenas sugerir dilig\u00eancias (CPP, arts. 14 e 271).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) <strong>Correta.<\/strong> A inadequa\u00e7\u00e3o da via \u00e9 ju\u00edzo sobre o instrumento processual, n\u00e3o sobre a validade intr\u00ednseca da prova; ausente declara\u00e7\u00e3o de ilicitude ou nulidade que a macule, as provas podem ser compartilhadas para fins penais, observados os requisitos legais e constitucionais (CPP, arts. 14 e 271).<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-10\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; O cerne da controv\u00e9rsia reside em delimitar se a inadequa\u00e7\u00e3o da via processual eleita na esfera c\u00edvel (produ\u00e7\u00e3o antecipada de provas), que culminou na extin\u00e7\u00e3o do feito sem resolu\u00e7\u00e3o do m\u00e9rito, acarreta, de forma autom\u00e1tica, a inutiliza\u00e7\u00e3o ou a prejudicialidade das provas j\u00e1 produzidas para quaisquer outros fins, inclusive no \u00e2mbito da investiga\u00e7\u00e3o criminal, ou se, ao rev\u00e9s, tais elementos informativos podem subsistir e ser legitimamente compartilhados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Inicialmente, da an\u00e1lise dos arts. 14 e 271 do C\u00f3digo de Processo Penal, pode-se concluir que a v\u00edtima no inqu\u00e9rito ou mesmo na qualidade de assistente de acusa\u00e7\u00e3o figura como personagem coadjuvante, por\u00e9m ativa, na engrenagem da justi\u00e7a. A ela \u00e9 franqueado o direito de colaborar com a constru\u00e7\u00e3o da verdade dos fatos, podendo, de fato, sugerir a produ\u00e7\u00e3o de provas. Entretanto, caber\u00e1 \u00e0 autoridade competente, ap\u00f3s ouvir o Minist\u00e9rio P\u00fablico, decidir se as dilig\u00eancias\/provas propostas pelo ofendido ser\u00e3o pertinentes e produzidas. Assim, preserva-se o equil\u00edbrio entre a participa\u00e7\u00e3o colaborativa e a condu\u00e7\u00e3o ordenada do processo, garantindo que a busca pela verdade n\u00e3o se desvie dos trilhos da legalidade e da necessidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, o compartilhamento das provas advindas da medida de busca e apreens\u00e3o efetivada no ju\u00edzo c\u00edvel foi requerido ao ju\u00edzo criminal pela autoridade policial, com anu\u00eancia do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, nos termos da lei. Assim, tem-se que a delibera\u00e7\u00e3o para solicitar a prova, somada \u00e0 concord\u00e2ncia ministerial, evidencia, de plano, a pertin\u00eancia, relev\u00e2ncia e necessidade da dilig\u00eancia para a persecu\u00e7\u00e3o penal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Considerando o contexto descrito, constata-se que n\u00e3o h\u00e1 falar em imposi\u00e7\u00e3o, pela v\u00edtima, de produ\u00e7\u00e3o de provas que as autoridades julgaram impertinentes ou em interfer\u00eancia descabida nos rumos da investiga\u00e7\u00e3o. Isso porque tais provas j\u00e1 foram previamente reconhecidas como \u00fateis \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o criminal. Somente houve a suspens\u00e3o do compartilhamento diante da constata\u00e7\u00e3o, pelo ju\u00edzo c\u00edvel, ratificada pelo Tribunal de origem, de que a extin\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o c\u00edvel de produ\u00e7\u00e3o de provas acarretaria a invalidade da prova e inviabilizaria o seu compartilhamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Contudo, nesse cen\u00e1rio, o reconhecimento da desnecessidade da produ\u00e7\u00e3o antecipada de provas n\u00e3o conduz, por si s\u00f3, \u00e0 inutiliza\u00e7\u00e3o do acervo probat\u00f3rio j\u00e1 constitu\u00eddo para outros fins. Isso porque n\u00e3o se est\u00e1 diante de v\u00edcio de ilicitude ou de nulidade reconhecido e apto a macular a prova em sua ess\u00eancia, mas, t\u00e3o somente, de um ju\u00edzo de inadequa\u00e7\u00e3o ou dispensabilidade em rela\u00e7\u00e3o aos fins espec\u00edficos perseguidos na esfera c\u00edvel, ou seja, de inutilidade da prova para a medida inicialmente pretendida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cabe enfatizar que o debate c\u00edvel versou sobre a adequa\u00e7\u00e3o da via eleita e n\u00e3o sobre v\u00edcio intr\u00ednseco da medida de apreens\u00e3o. Dessa forma, a aus\u00eancia de necessidade da medida n\u00e3o compromete a higidez da prova produzida, limitando-se a impedir seu aproveitamento naquele processo espec\u00edfico. N\u00e3o h\u00e1, portanto, efeito autom\u00e1tico de contamina\u00e7\u00e3o ou de invalidade que impe\u00e7a sua eventual utiliza\u00e7\u00e3o em outro contexto jur\u00eddico, inclusive na esfera penal, desde que observados os requisitos legais e constitucionais aplic\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em suma, a extin\u00e7\u00e3o do feito sem resolu\u00e7\u00e3o de m\u00e9rito, por aus\u00eancia de interesse de agir, em raz\u00e3o do reconhecimento da desnecessidade da produ\u00e7\u00e3o antecipada de provas, haja vista a pr\u00e9via exist\u00eancia de elementos probat\u00f3rios suficientes \u00e0 pretens\u00e3o reparat\u00f3ria pretendida, sem que tenha havido declara\u00e7\u00e3o de ilicitude da prova, n\u00e3o a invalida, limitando-se a acarretar o seu n\u00e3o aproveitamento no \u00e2mbito da demanda em que foi produzida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cumpre lembrar, ademais, que o compartilhamento de provas atende, sobretudo, aos princ\u00edpios da economia processual, da efici\u00eancia e da busca da verdade real, evitando a repeti\u00e7\u00e3o desnecess\u00e1ria de atos probat\u00f3rios e permitindo o aproveitamento de elementos j\u00e1 validamente constitu\u00eddos, especialmente nas hip\u00f3teses em que h\u00e1 risco de perecimento dos materiais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nessas condi\u00e7\u00f5es, o compartilhamento previamente autorizado encontra amparo, tamb\u00e9m, no princ\u00edpio da comunh\u00e3o da prova, segundo o qual o elemento probat\u00f3rio, uma vez regularmente produzido, desvincula-se da iniciativa de sua produ\u00e7\u00e3o e se submete \u00e0 finalidade da atividade jurisdicional, qual seja, a adequada reconstru\u00e7\u00e3o dos fatos relevantes ao julgamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ademais, no caso, embora constem relat\u00f3rio final da Pol\u00edcia Federal e informa\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica da Comiss\u00e3o de Valores Mobili\u00e1rios no sentido da aus\u00eancia de materialidade, tais manifesta\u00e7\u00f5es ainda n\u00e3o tiveram acesso \u00e0s evid\u00eancias colhidas na esfera c\u00edvel e, portanto, n\u00e3o afastam a necessidade nem a utilidade do compartilhamento para exame abrangente dos elementos de convic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"h-13-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-trancamento-da-acao-penal-e-usurpacao-da-competencia-do-tribunal-do-juri\" class=\"wp-block-heading\">13.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; TRANCAMENTO DA A\u00c7\u00c3O PENAL E USURPA\u00c7\u00c3O DA COMPET\u00caNCIA DO TRIBUNAL DO J\u00daRI<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Viola o art. 413 do C\u00f3digo de Processo Penal o ac\u00f3rd\u00e3o que, ao determinar o trancamento da a\u00e7\u00e3o penal por falta de justa causa, <strong>adentra no exame aprofundado e pormenorizado de fatos e de provas indici\u00e1rias, usurpando a compet\u00eancia do juiz natural da causa<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 2.213.678-MG, Rel. Min. Sebasti\u00e3o Reis J\u00fanior, Sexta Turma, por maioria, julgado em 7\/4\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diretor-Presidente de mineradora foi denunciado, com outros acusados, por crimes dolosos contra a vida em raz\u00e3o do rompimento de barragem que causou centenas de mortes e dano ambiental na regi\u00e3o de Brumadinho\/MG. Em habeas corpus, o Tribunal Regional trancou a a\u00e7\u00e3o penal por falta de justa causa, ap\u00f3s analisar laudo pericial, mensagens eletr\u00f4nicas, organogramas da empresa e relat\u00f3rios. O Minist\u00e9rio P\u00fablico recorreu, sustentando que a den\u00fancia descrevia conduta e lastro m\u00ednimos, e que o aprofundamento probat\u00f3rio usurparia a compet\u00eancia do j\u00fari.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CPP, art. 413<\/strong><em> (pron\u00fancia: o juiz, convencido da materialidade e de ind\u00edcios suficientes de autoria, pronunciar\u00e1 o acusado).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CPP, art. 395, III<\/strong><em> (rejei\u00e7\u00e3o da den\u00fancia por aus\u00eancia de justa causa).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CF, art. 5\u00ba, XXXVIII<\/strong><em> (compet\u00eancia do Tribunal do J\u00fari para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda O trancamento da a\u00e7\u00e3o penal por falta de justa causa, em habeas corpus, \u00e9 medida excepcional, cab\u00edvel apenas quando a aus\u00eancia de lastro probat\u00f3rio \u00e9 inequ\u00edvoca e afer\u00edvel de plano, sem incurs\u00e3o aprofundada em fatos e provas. Nos crimes dolosos contra a vida, a valora\u00e7\u00e3o aprofundada da prova compete ao juiz natural da causa &#8211; o Tribunal do J\u00fari -, na fase de pron\u00fancia e no plen\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd Quando o quadro f\u00e1tico \u00e9 complexo e a conclus\u00e3o de falta de justa causa s\u00f3 se alcan\u00e7a mediante exame pormenorizado de laudos, mensagens, organogramas e inqu\u00e9ritos, o Tribunal, em habeas corpus, excede os limites da via e do art. 413 do CPP, suprimindo a compet\u00eancia do j\u00fari. Descrita na den\u00fancia a conduta do acusado com lastro probat\u00f3rio m\u00ednimo, a valora\u00e7\u00e3o da prova deve ocorrer ao final da instru\u00e7\u00e3o, perante o ju\u00edzo natural.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O trancamento da a\u00e7\u00e3o penal por falta de justa causa n\u00e3o comporta incurs\u00e3o probat\u00f3ria profunda. <strong>\u00c9 medida excepcional, reservada \u00e0s hip\u00f3teses de aus\u00eancia inequ\u00edvoca de lastro, afer\u00edvel de plano &#8211; sem revolvimento aprofundado de fatos e provas<\/strong>. Esse \u00e9 o limite da via do habeas corpus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f No caso, o Tribunal Regional ultrapassou esse limite. <strong>Para concluir pela falta de justa causa, examinou laudo pericial, mensagens eletr\u00f4nicas, organogramas da empresa, relat\u00f3rios e inqu\u00e9ritos &#8211; exame pormenorizado incompat\u00edvel com a estreita via do habeas corpus<\/strong>. A profundidade da an\u00e1lise revela que a conclus\u00e3o n\u00e3o era evidente de plano, mas dependia de valora\u00e7\u00e3o probat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 H\u00e1, ainda, ofensa espec\u00edfica \u00e0 compet\u00eancia constitucional do j\u00fari. <strong>Tratando-se de crimes dolosos contra a vida, a valora\u00e7\u00e3o aprofundada da prova compete ao Tribunal do J\u00fari &#8211; composto da fase de pron\u00fancia e do plen\u00e1rio (CF, art. 5\u00ba, XXXVIII; CPP, art. 413)<\/strong>; ao avan\u00e7ar sobre o m\u00e9rito probat\u00f3rio, o ac\u00f3rd\u00e3o usurpou a compet\u00eancia do juiz natural da causa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A sufici\u00eancia da den\u00fancia refor\u00e7a a impropriedade do trancamento. <strong>A den\u00fancia descreveu o v\u00ednculo subjetivo e a conduta do acusado com lastro probat\u00f3rio m\u00ednimo &#8211; inclusive sua posi\u00e7\u00e3o na empresa e a assun\u00e7\u00e3o do risco dos resultados<\/strong>; reconhecida pelo pr\u00f3prio Tribunal como apta a deflagrar a a\u00e7\u00e3o, n\u00e3o havia como tranc\u00e1-la sen\u00e3o pelo revolvimento de provas indici\u00e1rias, reservado ao ju\u00edzo natural ao final da instru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Julgue o item:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No trancamento da a\u00e7\u00e3o penal de crime doloso contra a vida, o exame aprofundado de fatos e provas indici\u00e1rias usurpa a compet\u00eancia do Tribunal do J\u00fari.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Correta.<\/strong> Em crimes dolosos contra a vida, a valora\u00e7\u00e3o aprofundada da prova compete ao Tribunal do J\u00fari (CF, art. 5\u00ba, XXXVIII; CPP, art. 413). Ao examinar pormenorizadamente fatos e provas indici\u00e1rias para trancar a a\u00e7\u00e3o em habeas corpus, o ac\u00f3rd\u00e3o usurpou a compet\u00eancia do juiz natural da causa.<\/p>\n\n\n\n<h3 id=\"h-inteiro-teor-11\" class=\"wp-block-heading\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cinge-se a controv\u00e9rsia a analisar ac\u00f3rd\u00e3o de Tribunal Regional que determinou o trancamento de a\u00e7\u00e3o penal por falta de justa causa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, a Corte Regional promoveu, sim, o exame aprofundado dos fatos e a an\u00e1lise pormenorizada das provas. At\u00e9 porque, a hip\u00f3tese traz um quadro complexo de sucess\u00e3o de fatos, n\u00e3o sendo poss\u00edvel, da mera leitura da den\u00fancia, alcan\u00e7ar a conclus\u00e3o de falta de justa causa para as a\u00e7\u00f5es penais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com efeito, para cuidar da justa causa, foi necess\u00e1rio o exame mais aprofundado dos elementos f\u00e1ticos-probat\u00f3rios que deram base \u00e0 den\u00fancia, como manifesta\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio P\u00fablico estadual, laudo pericial da Pol\u00edcia Federal, mensagem de e-mail, organogramas da empresa, informa\u00e7\u00f5es de inqu\u00e9ritos policiais, Relat\u00f3rio do Comit\u00ea Executivo de Risco, anota\u00e7\u00f5es da Controladoria-Geral da Uni\u00e3o. E assim procedendo, a Corte Regional acabou por afrontar o art. 413 do C\u00f3digo de Processo Penal, dada a profundidade da an\u00e1lise realizada no julgamento do habeas corpus do paciente\/recorrido. Assim, houve efetivamente um avan\u00e7o indevido sobre quest\u00e3o submetida ao procedimento do j\u00fari &#8211; composto da fase de pron\u00fancia e da fase de plen\u00e1rio &#8211; derivando da\u00ed a supress\u00e3o impr\u00f3pria da compet\u00eancia do Tribunal do J\u00fari<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Isso porque, a den\u00fancia delineia suficientemente o v\u00ednculo subjetivo do denunciado e o fato atribu\u00eddo a ele como crime. A falta de ind\u00edcios de autoria n\u00e3o \u00e9 evidente pela simples apresenta\u00e7\u00e3o dos fatos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; De fato, a den\u00fancia descreve, de forma ampla, os fatos que culminaram com as mortes de 270 pessoas na regi\u00e3o de Brumadinho\/MG e afetou o meio ambiente. Relativamente ao paciente, indicou a exist\u00eancia de ind\u00edcios m\u00ednimos de autoria e particularizou a conduta dele de maneira suficiente para dar in\u00edcio \u00e0 persecu\u00e7\u00e3o penal, \u00e0 medida que na pe\u00e7a est\u00e1 exposto, entre outros aspectos, que o acusado n\u00e3o s\u00f3 era Diretor-Presidente da Vale S\/A, propriet\u00e1ria da Mina C\u00f3rrego do Feij\u00e3o, como tamb\u00e9m que teria concorrido com os demais acusados para a omiss\u00e3o e ado\u00e7\u00e3o de medidas conhecidas e dispon\u00edveis de transpar\u00eancia, seguran\u00e7a e emerg\u00eancia, assumindo, dessa forma, o risco de produzir os resultados mortes e danos ambientais decorrentes do rompimento da Barragem I, em que se depositavam rejeitos de minera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ou seja, a den\u00fancia descreve satisfatoriamente a conduta criminosa imputada ao acusado, com demonstra\u00e7\u00e3o de lastro probat\u00f3rio m\u00ednimo a sustentar a acusa\u00e7\u00e3o. A an\u00e1lise aprofundada das provas e a valora\u00e7\u00e3o do m\u00e9rito devem ser realizadas pelo magistrado ao final da instru\u00e7\u00e3o processual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Diante dessa acusa\u00e7\u00e3o, tida pelo pr\u00f3prio Tribunal Regional como apta a deflagrar a a\u00e7\u00e3o penal, n\u00e3o haveria como, sen\u00e3o pelo revolvimento de provas indici\u00e1rias, concluir, em habeas corpus, pela falta de justa causa. N\u00e3o se cuida de inequ\u00edvoca falta de lastro probat\u00f3rio ou de atipicidade da conduta percept\u00edvel de plano. Ao assim proceder, o Tribunal de origem foi al\u00e9m dos estreitos limites desse rem\u00e9dio constitucional e invadiu a compet\u00eancia do juiz natural da causa, a quem incumbe pronunciar ou n\u00e3o o r\u00e9u, ap\u00f3s a devida instru\u00e7\u00e3o criminal. Enfim, acabou substituindo, em primeiro lugar, o Ju\u00edzo pronunciante e, em segundo, o Tribunal do J\u00fari.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A aus\u00eancia de dolo e de ind\u00edcios de autoria capazes de justificar o trancamento da a\u00e7\u00e3o penal deve ser constatada de forma inequ\u00edvoca, sem exigir esfor\u00e7o interpretativo, pois, do contr\u00e1rio, corre-se o risco de antecipar o julgamento do m\u00e9rito sem a devida produ\u00e7\u00e3o de provas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00a0\u00a0\u00a0 Conclui-se, nesse contexto, que impedir o Estado de exercer sua fun\u00e7\u00e3o jurisdicional, impossibilitando-o de sequer levantar os elementos de prova para verificar a verdade dos fatos, constitui uma situa\u00e7\u00e3o de extrema excepcionalidade, n\u00e3o presente no caso em an\u00e1lise, tornando prematuro o trancamento da a\u00e7\u00e3o penal instaurada.<\/p>\n\n\n\n<div data-wp-interactive=\"core\/file\" class=\"wp-block-file\"><object aria-label=\"Incorporar PDF\" data-wp-bind--hidden=\"!state.hasPdfPreview\" hidden><\/object><a id=\"wp-block-file--media-2e8248c4-dbef-42ff-ae28-1564726608c7\" href=\"https:\/\/dhg1h5j42swfq.cloudfront.net\/2026\/06\/29093523\/stj_info_893.pdf\">STJ_Info_893<\/a><a href=\"https:\/\/dhg1h5j42swfq.cloudfront.net\/2026\/06\/29093523\/stj_info_893.pdf\" class=\"wp-block-file__button wp-element-button\" download aria-describedby=\"wp-block-file--media-2e8248c4-dbef-42ff-ae28-1564726608c7\">Baixar<\/a><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DOWNLOAD do PDF AQUI! 1.&nbsp;&nbsp; EMBARGOS DE DIVERG\u00caNCIA E MODULA\u00c7\u00c3O DE EFEITOS EM RECURSO REPETITIVO Destaque N\u00e3o s\u00e3o cab\u00edveis embargos de diverg\u00eancia para discuss\u00e3o de modula\u00e7\u00e3o aplicada em recurso repetitivo, pois configuraria revis\u00e3o da regra t\u00e9cnica de julgamento utilizada pelo \u00f3rg\u00e3o fracion\u00e1rio competente para o exame da quest\u00e3o de m\u00e9rito. 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