{"id":1766653,"date":"2026-06-08T08:36:34","date_gmt":"2026-06-08T11:36:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.estrategiaconcursos.com.br\/blog\/?p=1766653"},"modified":"2026-06-08T08:36:37","modified_gmt":"2026-06-08T11:36:37","slug":"informativo-stj-889-comentado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.estrategiaconcursos.com.br\/blog\/informativo-stj-889-comentado\/","title":{"rendered":"Informativo STJ 889 Comentado"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/dhg1h5j42swfq.cloudfront.net\/2026\/06\/08083406\/stj_info_889.pdf\"><strong>DOWNLOAD do PDF AQUI!<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<div class=\"lyte-wrapper\" style=\"width:853px;max-width:100%;margin:5px;\"><div class=\"lyMe\" id=\"WYL_4QtA7oAiYQI\"><div id=\"lyte_4QtA7oAiYQI\" data-src=\"\/\/i.ytimg.com\/vi\/4QtA7oAiYQI\/hqdefault.jpg\" class=\"pL\"><div class=\"tC\"><div class=\"tT\"><\/div><\/div><div class=\"play\"><\/div><div class=\"ctrl\"><div class=\"Lctrl\"><\/div><div class=\"Rctrl\"><\/div><\/div><\/div><noscript><a href=\"https:\/\/youtu.be\/4QtA7oAiYQI\" rel=\"nofollow\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i.ytimg.com\/vi\/4QtA7oAiYQI\/0.jpg\" alt=\"YouTube video thumbnail\" width=\"853\" height=\"460\" \/><br \/>Assista a este v\u00eddeo no YouTube<\/a><\/noscript><\/div><\/div><div class=\"lL\" style=\"max-width:100%;width:853px;margin:5px;\"><\/div>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-1-nbsp-nbsp-sentenca-coletiva-dispensa-de-liquidacao-previa-para-calculo-aritmetico\">1.&nbsp;&nbsp; Senten\u00e7a coletiva: dispensa de liquida\u00e7\u00e3o pr\u00e9via para c\u00e1lculo aritm\u00e9tico<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na execu\u00e7\u00e3o individual de t\u00edtulo coletivo em favor de servidores p\u00fablicos, <strong>a liquida\u00e7\u00e3o pr\u00e9via \u00e9 dispensada quando o cr\u00e9dito puder ser apurado por simples c\u00e1lculos aritm\u00e9ticos, cabendo ao ju\u00edzo da execu\u00e7\u00e3o, em impugna\u00e7\u00e3o, analisar concretamente a necessidade da liquida\u00e7\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 1.978.629-RJ, Rel. Min. Benedito Gon\u00e7alves, Primeira Se\u00e7\u00e3o, por unanimidade, julgado em 7\/5\/2026 (Tema 1.169).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Servidores p\u00fablicos benefici\u00e1rios de senten\u00e7a coletiva ajuizaram cumprimento individual sem liquida\u00e7\u00e3o pr\u00e9via. O t\u00edtulo era gen\u00e9rico, mas a apura\u00e7\u00e3o do valor devido demandava apenas c\u00e1lculos aritm\u00e9ticos a partir de fichas funcionais. Alguns ju\u00edzes extinguiam a execu\u00e7\u00e3o por aus\u00eancia de liquida\u00e7\u00e3o pr\u00e9via, outros admitiam o prosseguimento. A Primeira Se\u00e7\u00e3o foi chamada a definir, em recurso repetitivo, se a liquida\u00e7\u00e3o pr\u00e9via \u00e9 requisito indispens\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CPC, arts. 4\u00ba e 8\u00ba<\/strong><em> (dura\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel do processo e proporcionalidade).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CF, art. 5\u00ba, LXXVIII<\/strong><em> (razo\u00e1vel dura\u00e7\u00e3o do processo).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda A liquida\u00e7\u00e3o complementa a cogni\u00e7\u00e3o da senten\u00e7a gen\u00e9rica, determinando valor e individualizando benefici\u00e1rios. Quando o t\u00edtulo cont\u00e9m elementos suficientes para apura\u00e7\u00e3o por c\u00e1lculo aritm\u00e9tico, a liquida\u00e7\u00e3o pr\u00e9via indiscriminada viola a dura\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel do processo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd O contradit\u00f3rio \u00e9 preservado: o devedor pode impugnar o cumprimento de senten\u00e7a e, nessa via, o ju\u00edzo da execu\u00e7\u00e3o analisa concretamente se h\u00e1 ou n\u00e3o necessidade de liquida\u00e7\u00e3o para o caso espec\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A Primeira Se\u00e7\u00e3o firmou que <strong>a exig\u00eancia indiscriminada de pr\u00e9via liquida\u00e7\u00e3o de toda senten\u00e7a coletiva atenta contra a razo\u00e1vel dura\u00e7\u00e3o do processo<\/strong> e n\u00e3o constitui medida proporcional ou eficiente. Acrescenta despesas, prolonga o processo e movimenta o aparato judicial sem necessidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A liquida\u00e7\u00e3o tem por fun\u00e7\u00e3o tornar a senten\u00e7a completa, especificando benefici\u00e1rios e valores. Quando esses elementos podem ser extra\u00eddos por simples c\u00e1lculo aritm\u00e9tico a partir de dados documentais, <strong>a apresenta\u00e7\u00e3o direta do c\u00e1lculo no cumprimento de senten\u00e7a substitui o procedimento liquidat\u00f3rio<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A segunda tese resguarda o contradit\u00f3rio: <strong>cabe ao ju\u00edzo da execu\u00e7\u00e3o, em sede de impugna\u00e7\u00e3o, analisar concretamente se \u00e9 necess\u00e1ria a pr\u00e9via liquida\u00e7\u00e3o<\/strong>. N\u00e3o se dispensa o controle judicial; antecipa-se a entrega da tutela quando poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A decis\u00e3o \u00e9 relevante para milhares de execu\u00e7\u00f5es individuais de senten\u00e7as coletivas envolvendo servidores. <strong>Reverbera nas Turmas de Direito P\u00fablico, alinhando-se ao princ\u00edpio da m\u00e1xima efetividade da tutela coletiva<\/strong> e \u00e0 economia processual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 liquida\u00e7\u00e3o pr\u00e9via em execu\u00e7\u00e3o individual de senten\u00e7a coletiva:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) \u00c9 exigida quando a condena\u00e7\u00e3o for gen\u00e9rica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) \u00c9 dispens\u00e1vel quando o cr\u00e9dito \u00e9 apur\u00e1vel por c\u00e1lculo aritm\u00e9tico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) \u00c9 dispens\u00e1vel apenas quando o valor for inferior a 60 sal\u00e1rios m\u00ednimos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) \u00c9 exigida nas execu\u00e7\u00f5es contra a Fazenda P\u00fablica, dispensada nas demais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) \u00c9 dispensada apenas se houver acordo pr\u00e9vio entre exequente e executado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A exig\u00eancia indiscriminada de liquida\u00e7\u00e3o, ainda que o cr\u00e9dito seja apur\u00e1vel por c\u00e1lculo aritm\u00e9tico, viola a dura\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel do processo (CF, art. 5\u00ba, LXXVIII).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) <strong>Correta.<\/strong> A Primeira Se\u00e7\u00e3o fixou duas teses: (i) dispensa de liquida\u00e7\u00e3o quando o cr\u00e9dito \u00e9 apur\u00e1vel por c\u00e1lculo aritm\u00e9tico; (ii) cabe ao ju\u00edzo da execu\u00e7\u00e3o, em impugna\u00e7\u00e3o, analisar concretamente a necessidade (Tema 1.169\/STJ).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. N\u00e3o h\u00e1 crit\u00e9rio quantitativo de valor; o crit\u00e9rio \u00e9 a possibilidade de apura\u00e7\u00e3o por c\u00e1lculo aritm\u00e9tico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. A tese aplica-se \u00e0 execu\u00e7\u00e3o individual de senten\u00e7a coletiva em favor de servidores; n\u00e3o distingue conforme o devedor seja a Fazenda ou outro ente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. A dispensa decorre da natureza do c\u00e1lculo, n\u00e3o de acordo entre as partes.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-inteiro-teor\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A controv\u00e9rsia submetida ao rito dos recursos repetitivos consiste em definir se a liquida\u00e7\u00e3o pr\u00e9via do julgado \u00e9 requisito indispens\u00e1vel para o ajuizamento de a\u00e7\u00e3o objetivando o cumprimento individual de senten\u00e7a condenat\u00f3ria gen\u00e9rica proferida em demanda coletiva, de modo que sua aus\u00eancia acarreta a extin\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o executiva, ou se o exame quanto ao prosseguimento desta deve ser feito pelo magistrado com base no cotejo dos elementos concretos trazidos aos autos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A liquida\u00e7\u00e3o da senten\u00e7a coletiva constitui um procedimento de complementa\u00e7\u00e3o da atividade cognitiva j\u00e1 iniciada com a condena\u00e7\u00e3o do r\u00e9u, voltada \u00e0 determina\u00e7\u00e3o do valor da obriga\u00e7\u00e3o ou \u00e0 individualiza\u00e7\u00e3o de seu objeto, para que, posteriormente, possa a obriga\u00e7\u00e3o ser objeto de execu\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, se n\u00e3o satisfeita espontaneamente pelo devedor. Liquidar a senten\u00e7a, em outras palavras, significa torn\u00e1-la completa, o que, na particularidade da senten\u00e7a coletiva, exige tamb\u00e9m a especifica\u00e7\u00e3o dos benefici\u00e1rios do t\u00edtulo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; H\u00e1 casos, no entanto, em que \u00e9 m\u00ednima a necessidade dessa atividade cognitiva complementar, de modo que os contornos das senten\u00e7as condenat\u00f3rias, inclusive as proferidas em a\u00e7\u00f5es coletivas, \u00e9 que definir\u00e3o a necessidade ou n\u00e3o da sua pr\u00e9via liquida\u00e7\u00e3o. Assim, se h\u00e1 elementos suficientes para o procedimento executivo, observando-se os princ\u00edpios da m\u00e1xima efetividade da tutela coletiva e economia, dura\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel do processo, efici\u00eancia e celeridade processual, n\u00e3o h\u00e1 que se falar em liquida\u00e7\u00e3o pr\u00e9via, bastando a apresenta\u00e7\u00e3o do simples c\u00e1lculo aritm\u00e9tico, o qual, inclusive, ser\u00e1 submetido ao contradit\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sob esse enfoque, a exig\u00eancia de pr\u00e9via liquida\u00e7\u00e3o indiscriminada de todas as senten\u00e7as condenat\u00f3rias coletivas atentaria contra a razo\u00e1vel dura\u00e7\u00e3o do processo (art. 5, LXXVIII, da Constitui\u00e7\u00e3o Federal), inclu\u00edda a atividade satisfativa (art. 4 do CPC), al\u00e9m de n\u00e3o constituir medida proporcional, razo\u00e1vel e, muito menos, eficiente (art. 8 do CPC), acarretando movimenta\u00e7\u00e3o desnecess\u00e1ria do aparato judicial, tornando mais oneroso o encerramento do processo, acrescentando despesas \u00e0s partes envolvidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Resumidamente, nas hip\u00f3teses em que n\u00e3o se exige dila\u00e7\u00e3o probat\u00f3ria ou ampla cogni\u00e7\u00e3o, a demonstra\u00e7\u00e3o da titularidade do cr\u00e9dito e do seu valor pode e deve ser realizada no bojo do pr\u00f3prio cumprimento individual da senten\u00e7a coletiva, evitando-se atos e formalidades in\u00fateis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesse sentido, as turmas de Direito P\u00fablico desta Corte afastam a necessidade de liquida\u00e7\u00e3o pr\u00e9via de senten\u00e7a proferida em processo coletivo, quando for poss\u00edvel a individualiza\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito e a defini\u00e7\u00e3o do valor por meros c\u00e1lculos aritm\u00e9ticos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, fixam-se as seguintes teses do Tema 1169\/STJ:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; 1. Na execu\u00e7\u00e3o individual do t\u00edtulo formado em processo coletivo em favor de servidores p\u00fablicos, sempre que demonstrado documentalmente que o exequente legitimado se encontre na situa\u00e7\u00e3o estabelecida de forma gen\u00e9rica na senten\u00e7a, a execu\u00e7\u00e3o pode ocorrer sem a necessidade de pr\u00e9via liquida\u00e7\u00e3o do julgado, quando for poss\u00edvel a apura\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito por simples c\u00e1lculos aritm\u00e9ticos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; 2. Cabe ao Ju\u00edzo da execu\u00e7\u00e3o, assegurado o contradit\u00f3rio ao executado, em sede de impugna\u00e7\u00e3o ao cumprimento de senten\u00e7a, analisar, de forma concreta, se \u00e9 necess\u00e1ria a pr\u00e9via liquida\u00e7\u00e3o do julgado.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-2-nbsp-inss-cancelamento-administrativo-de-beneficio-concedido-judicialmente\">2.&nbsp; INSS: cancelamento administrativo de benef\u00edcio concedido judicialmente<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 l\u00edcito ao INSS promover o cancelamento administrativo de benef\u00edcios previdenci\u00e1rios por incapacidade outorgados por decis\u00e3o judicial transitada em julgado, <strong>desde que observado o devido processo legal administrativo, incluindo per\u00edcia m\u00e9dica<\/strong>; o procedimento \u00e9 aut\u00f4nomo e dispensa propositura de a\u00e7\u00e3o revisional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 1.985.189-SP, Rel. Min. Teodoro Silva Santos, Primeira Se\u00e7\u00e3o, por unanimidade, julgado em 7\/5\/2026 (Tema 1.157).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seu Madruga recebia aux\u00edlio-doen\u00e7a concedido por senten\u00e7a transitada em julgado. O INSS, ap\u00f3s per\u00edcia m\u00e9dica administrativa que constatou recupera\u00e7\u00e3o da capacidade laborativa, cancelou o benef\u00edcio sem ajuizar a\u00e7\u00e3o revisional. Indignado, o Seu Madruga impugnou sustentando que o tr\u00e2nsito em julgado impedia o cancelamento administrativo. A controv\u00e9rsia foi afetada como repetitivo: o INSS pode cessar benef\u00edcio judicial ap\u00f3s per\u00edcia administrativa, sem a\u00e7\u00e3o revisional?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n\u00ba 8.213\/1991, arts. 42, 43, \u00a7 4\u00ba, 60, \u00a7\u00a7 10 a 11-A<\/strong><em> (manuten\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o de benef\u00edcios por incapacidade).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n\u00ba 8.213\/1991, art. 101 (com reda\u00e7\u00e3o da Lei n\u00ba 14.441\/2022)<\/strong><em> (convoca\u00e7\u00e3o para reavalia\u00e7\u00e3o inclusive de benef\u00edcios judiciais).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda Os benef\u00edcios por incapacidade s\u00e3o devidos enquanto perdurar a incapacidade. A legisla\u00e7\u00e3o prev\u00ea reavalia\u00e7\u00e3o peri\u00f3dica para verificar se as condi\u00e7\u00f5es que motivaram a concess\u00e3o ainda subsistem, independentemente da via (administrativa ou judicial) por que foram outorgados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd O cancelamento administrativo, com observ\u00e2ncia do devido processo legal e per\u00edcia m\u00e9dica, n\u00e3o desestabiliza a coisa julgada nem desautoriza a jurisdi\u00e7\u00e3o: opera sobre altera\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o f\u00e1tica (recupera\u00e7\u00e3o da capacidade), n\u00e3o sobre o ato decis\u00f3rio original.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A Lei n\u00ba 14.441\/2022 incluiu reda\u00e7\u00e3o ao art. 101 da Lei n\u00ba 8.213\/1991 atribuindo expressamente ao INSS compet\u00eancia para reavalia\u00e7\u00e3o peri\u00f3dica de benef\u00edcios por incapacidade, <strong>inclusive os concedidos judicialmente<\/strong>. A norma derivou de Medida Provis\u00f3ria editada com fundamento em estudos que demonstravam recupera\u00e7\u00e3o parcial ou total da capacidade em muitos casos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A Primeira Se\u00e7\u00e3o firmou que a compet\u00eancia administrativa para cancelamento \u00e9 aut\u00f4noma: <strong>n\u00e3o depende de a\u00e7\u00e3o revisional judicial<\/strong>. A coisa julgada formada na a\u00e7\u00e3o concessiva fixa o direito ao benef\u00edcio enquanto persistir a incapacidade, n\u00e3o cristalizando a condi\u00e7\u00e3o f\u00e1tica indefinidamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O devido processo legal administrativo \u00e9 pressuposto: convoca\u00e7\u00e3o do segurado, per\u00edcia m\u00e9dica, contradit\u00f3rio e ampla defesa. <strong>Sem esses elementos, o cancelamento \u00e9 ilegal<\/strong>. Com eles, a cessa\u00e7\u00e3o \u00e9 regular ainda que o benef\u00edcio origin\u00e1rio tenha sido judicial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A decis\u00e3o tem impacto direto sobre milhares de benef\u00edcios concedidos por via judicial. <strong>Submete-os ao mesmo regime de reavalia\u00e7\u00e3o peri\u00f3dica dos benef\u00edcios administrativos<\/strong>, privilegiando a economia processual: o segurado que discordar do cancelamento administrativo pode contest\u00e1-lo judicialmente, mas o INSS n\u00e3o precisa ajuizar a\u00e7\u00e3o para cessar o pagamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre o cancelamento administrativo, pelo INSS, de benef\u00edcio por incapacidade concedido por decis\u00e3o judicial transitada em julgado:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) \u00c9 vedado, em raz\u00e3o da coisa julgada formada na a\u00e7\u00e3o concessiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Depende de pr\u00e9via a\u00e7\u00e3o revisional ajuizada pelo INSS.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) \u00c9 l\u00edcito, com devido processo administrativo e per\u00edcia m\u00e9dica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Depende da propositura de a\u00e7\u00e3o rescis\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) \u00c9 l\u00edcito apenas ap\u00f3s cinco anos do tr\u00e2nsito em julgado da decis\u00e3o concessiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A coisa julgada fixa o direito enquanto persistir a incapacidade; n\u00e3o cristaliza a condi\u00e7\u00e3o f\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. A Primeira Se\u00e7\u00e3o firmou expressamente que o procedimento administrativo \u00e9 aut\u00f4nomo e independe de a\u00e7\u00e3o revisional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) <strong>Correta.<\/strong> O cancelamento administrativo \u00e9 l\u00edcito quando precedido de devido processo legal administrativo, incluindo per\u00edcia m\u00e9dica (Lei n\u00ba 8.213\/1991, art. 101; Tema 1.157\/STJ).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. Vide coment\u00e1rio da alternativa A.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. N\u00e3o h\u00e1 prazo de car\u00eancia para a reavalia\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o tr\u00e2nsito em julgado.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-inteiro-teor-0\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A quest\u00e3o submetida a julgamento sob o rito dos recursos repetitivos \u00e9 a seguinte: &#8220;Definir a possibilidade &#8211; ou n\u00e3o &#8211; de cancelamento na via administrativa, ap\u00f3s regular realiza\u00e7\u00e3o de per\u00edcia m\u00e9dica, dos benef\u00edcios previdenci\u00e1rios por incapacidade, concedidos judicialmente e ap\u00f3s o tr\u00e2nsito em julgado, independentemente de propositura de a\u00e7\u00e3o revisional.&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; De acordo com a legisla\u00e7\u00e3o infraconstitucional que regulamenta o tema, o legislador ordin\u00e1rio determinou que os benef\u00edcios previdenci\u00e1rios, como aposentadorias por incapacidade ou aux\u00edlios-doen\u00e7a, devem ser mantidos enquanto subsistir a condi\u00e7\u00e3o de incapacidade que justificou a sua concess\u00e3o. Essa determina\u00e7\u00e3o encontra respaldo nos arts. 42 e 60 da Lei n. 8.213\/1991.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ao estabelecer que os benef\u00edcios s\u00e3o devidos enquanto perdurar a incapacidade, a legisla\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m sinaliza a possibilidade e a necessidade de reavalia\u00e7\u00e3o peri\u00f3dica dessas condi\u00e7\u00f5es. Isso tem como objetivo garantir que novos fatos, como uma eventual recupera\u00e7\u00e3o da capacidade laborativa do segurado, possam ser levados em considera\u00e7\u00e3o, permitindo a revis\u00e3o e, se for o caso, a cessa\u00e7\u00e3o do benef\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A pr\u00f3pria Lei de Benef\u00edcios Previdenci\u00e1rios, em seus arts. 43, 4; e 60, 10 a 11-A, prev\u00ea a possibilidade de convoca\u00e7\u00e3o dos segurados para reavalia\u00e7\u00e3o, a fim de verificar se as condi\u00e7\u00f5es que motivaram a concess\u00e3o ou manuten\u00e7\u00e3o do benef\u00edcio ainda subsistem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Essa prerrogativa aplica-se inclusive a benef\u00edcios concedidos judicialmente, conforme disposto na nova reda\u00e7\u00e3o do artigo 101 da Lei n. 8.213\/1991, inclu\u00edda pela convers\u00e3o da Medida Provis\u00f3ria n. 1.113, de 20\/4\/2022, na Lei n. 14.441\/2022.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Observa-se, portanto, que o legislador imp\u00f5e a obrigatoriedade de revis\u00e3o administrativa dos benef\u00edcios por incapacidade, mesmo quando concedidos por via judicial, estabelecendo que os segurados que recebem esses benef\u00edcios devem se submeter a exame pericial, inclusive com o uso de tecnologia de telemedicina ou por an\u00e1lise documental.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A motiva\u00e7\u00e3o apresentada para a reforma legislativa, conforme justificativa do Poder Executivo ao editar a referida Medida Provis\u00f3ria, foi a constata\u00e7\u00e3o de que os avan\u00e7os na medicina demonstraram que muitas les\u00f5es, inclusive permanentes, podem ser revertidas ou significativamente recuperadas com o tempo. Com base nessa evolu\u00e7\u00e3o, a mudan\u00e7a visou a garantir que o benef\u00edcio continue sendo concedido apenas enquanto persistirem as condi\u00e7\u00f5es que justificaram sua concess\u00e3o inicial, gerando, tamb\u00e9m, uma economia que deveria ser direcionada como &#8220;medida de compensa\u00e7\u00e3o para o aumento na despesa com o BPC&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No que se refere \u00e0 revis\u00e3o administrativa de benef\u00edcios concedidos judicialmente por incapacidade laboral, trata-se de uma medida voltada a diminuir os gastos da Previd\u00eancia Social, evitando o pagamento indevido de milhares de benef\u00edcios a pessoas que, apesar de terem recuperado sua capacidade de trabalho, continuam recebendo o benef\u00edcio por incapacidade, devido \u00e0 aus\u00eancia de uma reavalia\u00e7\u00e3o administrativa peri\u00f3dica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Compreende-se, portanto, que o INSS possui o direito e o dever de convocar o segurado para reavaliar as condi\u00e7\u00f5es que motivaram a concess\u00e3o do benef\u00edcio por incapacidade, independentemente de ter sido concedido pela via administrativa ou judicial, em raz\u00e3o da pr\u00f3pria natureza desse tipo de benef\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ressalte-se que a possibilidade de o INSS convocar o segurado para uma nova avalia\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o tr\u00e2nsito em julgado da decis\u00e3o judicial, e eventualmente cessar o benef\u00edcio com base em diverg\u00eancias entre crit\u00e9rios de incapacidade e defici\u00eancia, com a observ\u00e2ncia do contradit\u00f3rio e ampla defesa, n\u00e3o desestabiliza a rela\u00e7\u00e3o jur\u00eddica e a prote\u00e7\u00e3o dos direitos do segurado, nem sequer deslegitima a jurisdi\u00e7\u00e3o e a forma\u00e7\u00e3o da coisa julgada, especialmente diante da altera\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o f\u00e1tica a respeito da incapacidade do segurado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, fixa-se a seguinte tese do Tema 1157\/STJ: \u00c9 l\u00edcito ao INSS promover o cancelamento administrativo de benef\u00edcios previdenci\u00e1rios por incapacidade, outorgados mediante decis\u00e3o judicial transitada em julgado, desde que observado o devido processo legal administrativo, o qual deve incluir a realiza\u00e7\u00e3o de per\u00edcia m\u00e9dica. Tal procedimento administrativo \u00e9 aut\u00f4nomo e independe da propositura de a\u00e7\u00e3o judicial revisional para sua efetiva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-3-nbsp-motorista-de-onibus-e-caminhao-especialidade-por-penosidade-exige-pericia-tecnica\">3.&nbsp; Motorista de \u00f4nibus e caminh\u00e3o: especialidade por penosidade exige per\u00edcia t\u00e9cnica<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 poss\u00edvel o reconhecimento do car\u00e1ter especial, por penosidade, das atividades de motorista\/cobrador de \u00f4nibus ou de motorista de caminh\u00e3o exercidas ap\u00f3s a Lei n\u00ba 9.032\/1995, <strong>desde que comprovada, por per\u00edcia t\u00e9cnica individualizada, a exposi\u00e7\u00e3o habitual e permanente a condi\u00e7\u00f5es concretas de desgaste \u00e0 sa\u00fade<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 2.164.724-RS, Rel. Min. Gurgel de Faria, Primeira Se\u00e7\u00e3o, por unanimidade, julgado em 7\/5\/2026 (Tema 1.307).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jaiminho, ex-carteiro (lembra dele?), virou motorista de caminh\u00e3o e pleiteou aposentadoria especial alegando penosidade da atividade. Ap\u00f3s a Lei n\u00ba 9.032\/1995, que aboliu o enquadramento por categoria profissional, o reconhecimento da especialidade passou a exigir prova efetiva da exposi\u00e7\u00e3o a agentes prejudiciais. A controv\u00e9rsia repetitiva foi: \u00e9 poss\u00edvel reconhecer penosidade para motoristas ap\u00f3s 1995? Se sim, qual a prova exigida?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CF, art. 7\u00ba, XXIII<\/strong><em> (direito ao adicional para atividades penosas, insalubres ou perigosas).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n\u00ba 9.032\/1995<\/strong><em> (extin\u00e7\u00e3o do enquadramento por categoria profissional).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n\u00ba 8.213\/1991, art. 57<\/strong><em> (aposentadoria especial: exposi\u00e7\u00e3o a condi\u00e7\u00f5es que coloquem em risco a sa\u00fade).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda A <strong>penosidade n\u00e3o se confunde com insalubridade<\/strong>: a insalubridade pressup\u00f5e agentes externos mensur\u00e1veis (ru\u00eddo, calor, qu\u00edmicos); a penosidade traduz o desgaste pelo modo de execu\u00e7\u00e3o do trabalho (esfor\u00e7o, concentra\u00e7\u00e3o, postura). Por isso, exige per\u00edcia t\u00e9cnica individualizada, n\u00e3o enquadramento abstrato.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd Motoristas profissionais enfrentam jornadas extenuantes, exposi\u00e7\u00e3o a acidentes, desgastes f\u00edsicos e mentais. A per\u00edcia deve investigar as caracter\u00edsticas concretas do trabalho: caracter\u00edsticas do ve\u00edculo, trajetos, jornadas, postura, identificando se h\u00e1, habitual e permanentemente, desgaste real \u00e0 sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A Lei n\u00ba 9.032\/1995 alterou o regime de aposentadoria especial: <strong>a especialidade pelo simples enquadramento por categoria profissional foi substitu\u00edda pela exig\u00eancia de demonstra\u00e7\u00e3o efetiva da exposi\u00e7\u00e3o<\/strong> a agentes prejudiciais. A Primeira Se\u00e7\u00e3o esclareceu que essa mudan\u00e7a n\u00e3o exclui o reconhecimento da penosidade, mas redefine o meio de prova.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A penosidade encontra fundamento constitucional (art. 7\u00ba, XXIII) e infraconstitucional (art. 57 da Lei n\u00ba 8.213\/1991), embora o adicional de penosidade na CLT ainda care\u00e7a de regulamenta\u00e7\u00e3o. <strong>Para a aposentadoria especial, a penosidade integra-se ao conceito de exposi\u00e7\u00e3o a condi\u00e7\u00f5es que coloquem em risco a sa\u00fade ou a integridade f\u00edsica<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A distin\u00e7\u00e3o entre penosidade e insalubridade \u00e9 decisiva. Insalubridade exige agentes externos mensur\u00e1veis; penosidade <strong>traduz desgaste pelo modo de execu\u00e7\u00e3o do trabalho &#8211; esfor\u00e7o, concentra\u00e7\u00e3o permanente, postura prejudicial<\/strong>. Essa diferen\u00e7a tem consequ\u00eancia probat\u00f3ria direta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A exig\u00eancia de per\u00edcia t\u00e9cnica individualizada \u00e9 o eixo da tese: <strong>sem per\u00edcia, o reconhecimento da penosidade reverteria \u00e0 presun\u00e7\u00e3o por categoria profissional &#8211; exatamente o que a Lei n\u00ba 9.032\/1995 quis eliminar<\/strong>. A per\u00edcia investiga jornadas, trajetos e caracter\u00edsticas do ve\u00edculo no caso concreto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre o reconhecimento da especialidade, por penosidade, da atividade de motorista de \u00f4nibus exercida ap\u00f3s 1995:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, pois a Lei n\u00ba 9.032\/1995 aboliu o enquadramento por categoria profissional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Ainda \u00e9 poss\u00edvel mediante enquadramento por categoria profissional quando a categoria for claramente penosa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) \u00c9 poss\u00edvel, desde que comprovada por per\u00edcia t\u00e9cnica individualizada da exposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) \u00c9 poss\u00edvel apenas para motoristas com mais de 25 anos de atividade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) \u00c9 poss\u00edvel desde que a atividade seja insalubre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A Lei n\u00ba 9.032\/1995 aboliu o enquadramento abstrato, mas o reconhecimento por penosidade subsiste mediante prova efetiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. O enquadramento por categoria foi extinto; o reconhecimento exige per\u00edcia individualizada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) <strong>Correta.<\/strong> \u00c9 poss\u00edvel o reconhecimento da especialidade por penosidade ap\u00f3s a Lei n\u00ba 9.032\/1995, desde que comprovada por per\u00edcia t\u00e9cnica individualizada, a exposi\u00e7\u00e3o habitual e permanente a condi\u00e7\u00f5es concretas de desgaste \u00e0 sa\u00fade (Tema 1.307\/STJ).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. N\u00e3o h\u00e1 crit\u00e9rio temporal m\u00ednimo de atividade; o crit\u00e9rio \u00e9 a comprova\u00e7\u00e3o pericial da penosidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. A penosidade n\u00e3o se confunde com insalubridade: a insalubridade pressup\u00f5e agentes externos mensur\u00e1veis (ru\u00eddo, calor, qu\u00edmicos); a penosidade traduz o desgaste pelo modo de execu\u00e7\u00e3o do trabalho.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-inteiro-teor-1\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A controv\u00e9rsia submetida a julgamento sob o rito dos recursos repetitivos consiste em definir se h\u00e1 possibilidade do reconhecimento da especialidade da atividade de motorista\/cobrador de \u00f4nibus ou de motorista de caminh\u00e3o, por penosidade, ap\u00f3s o advento da Lei n. 9.032\/1995.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A aposentadoria especial constitui esp\u00e9cie de benef\u00edcio previdenci\u00e1rio caracterizada pela redu\u00e7\u00e3o do tempo de contribui\u00e7\u00e3o exigido para a concess\u00e3o, em raz\u00e3o do exerc\u00edcio de atividade laboral em condi\u00e7\u00f5es prejudiciais \u00e0 sa\u00fade ou \u00e0 integridade f\u00edsica do segurado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Seu fundamento reside no reconhecimento de que determinadas atividades profissionais ocasionam desgaste prematuro da capacidade laborativa, justificando tratamento diferenciado no sistema protetivo previdenci\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ap\u00f3s a entrada em vigor da Lei n. 9.032\/1995, a especialidade do labor pelo mero enquadramento foi substitu\u00edda pela exig\u00eancia de demonstra\u00e7\u00e3o efetiva da exposi\u00e7\u00e3o a agentes prejudiciais \u00e0 sa\u00fade ou \u00e0 integridade f\u00edsica. A partir dessa modifica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o bastava mais exercer determinada profiss\u00e3o listada em decreto; era imprescind\u00edvel demonstrar, mediante formul\u00e1rios e laudos t\u00e9cnicos, que o trabalhador efetivamente esteve exposto a agentes prejudiciais \u00e0 sa\u00fade de forma habitual e permanente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A penosidade \u00e9 citada na Constitui\u00e7\u00e3o Federal, em seu art. 7, XXIII, quando assegura aos trabalhadores o direito a adicional de remunera\u00e7\u00e3o para atividades penosas, insalubres ou perigosas, na forma da lei.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Transcorridas <strong>mais de tr\u00eas d\u00e9cadas desde a promulga\u00e7\u00e3o do texto constitucional, o adicional de penosidade permanece sem regulamenta\u00e7\u00e3o legislativa, n\u00e3o existindo norma que estabele\u00e7a os crit\u00e9rios de caracteriza\u00e7\u00e3o<\/strong> das atividades penosas ou os percentuais devidos a t\u00edtulo de compensa\u00e7\u00e3o pecuni\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Contudo, a aus\u00eancia de refer\u00eancia expressa a atividades penosas no regulamento da Previd\u00eancia Social n\u00e3o corresponde \u00e0 exclus\u00e3o da aposentadoria especial fundamentada na penosidade, diante da garantia do art. 57 da Lei n. 8.213\/1991, quando ficar demonstrado que o segurado exerceu atividade em condi\u00e7\u00f5es que coloquem em risco a sua sa\u00fade ou a sua integridade f\u00edsica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Motoristas profissionais enfrentam riscos e condi\u00e7\u00f5es adversas que justificam o reconhecimento da atividade especial, tais como exposi\u00e7\u00e3o a acidentes, jornadas extenuantes e desgastes f\u00edsicos e mentais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesse aspecto, frise que penosidade e insalubridade s\u00e3o conceitos distintos. A insalubridade pressup\u00f5e exposi\u00e7\u00e3o a agentes externos mensur\u00e1veis &#8211; ru\u00eddo, calor, agentes qu\u00edmicos -, cujos limites de toler\u00e2ncia s\u00e3o definidos tecnicamente. A penosidade, por sua vez, traduz o desgaste \u00e0 sa\u00fade causado pelo pr\u00f3prio modo de execu\u00e7\u00e3o do trabalho: o esfor\u00e7o f\u00edsico ou mental fatigante, a necessidade de concentra\u00e7\u00e3o permanente e cont\u00ednua, a manuten\u00e7\u00e3o constante de postura prejudicial. N\u00e3o se trata de medir um agente externo, mas de avaliar as condi\u00e7\u00f5es concretas em que o trabalho \u00e9 prestado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Essa distin\u00e7\u00e3o tem consequ\u00eancia direta sobre o meio de prova. A per\u00edcia t\u00e9cnica individualizada n\u00e3o \u00e9 apenas uma exig\u00eancia formal. \u00c9 o instrumento que confere objetividade ao conceito de penosidade e o separa definitivamente do enquadramento por categoria profissional. \u00c9 ela que direciona o perito a investigar, por exemplo, no caso concreto, as caracter\u00edsticas do ve\u00edculo conduzido, os trajetos percorridos e as jornadas desempenhadas, identificando se havia, de forma habitual e permanente, condi\u00e7\u00f5es geradoras de desgaste real \u00e0 sa\u00fade do trabalhador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sem esse requisito claramente estabelecido na tese, corre-se o risco de que o reconhecimento da penosidade se converta, na pr\u00e1tica, em presun\u00e7\u00e3o vinculada \u00e0 categoria profissional &#8211; exatamente o que a Lei n. 9.032\/1995 quis eliminar e que este julgado n\u00e3o pretende restaurar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Do exposto, fixa-se a seguinte tese do Tema Repetitivo 1307\/STJ: \u00c9 poss\u00edvel o reconhecimento do car\u00e1ter especial em virtude da penosidade das atividades de motorista\/cobrador de \u00f4nibus ou motorista de caminh\u00e3o exercidas posteriormente \u00e0 Lei n. 9.032\/1995, desde que comprovada, por per\u00edcia t\u00e9cnica individualizada, a exposi\u00e7\u00e3o habitual e permanente a condi\u00e7\u00f5es concretas de desgaste \u00e0 sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-4-sisbajud-teimosinha-reiteracao-automatica-de-bloqueios\">4. SISBAJUD teimosinha: reitera\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica de bloqueios<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A reitera\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica de ordens de bloqueio via SISBAJUD (&#8220;teimosinha&#8221;) <strong>\u00e9 medida leg\u00edtima e voltada \u00e0 efetividade da execu\u00e7\u00e3o, cabendo ao executado demonstrar causas impeditivas ou meio executivo igualmente eficaz e menos gravoso; ap\u00f3s a triangulariza\u00e7\u00e3o processual, o indeferimento da medida exige fundamenta\u00e7\u00e3o concreta<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 2.147.428-RS, Rel. Min. S\u00e9rgio Kukina, Primeira Se\u00e7\u00e3o, por unanimidade, julgado em 7\/5\/2026 (Tema 1.325).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em execu\u00e7\u00e3o fiscal, a Fazenda requereu a ativa\u00e7\u00e3o da &#8220;teimosinha&#8221; no SISBAJUD &#8211; reitera\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica de ordens de bloqueio por per\u00edodo determinado para localizar ativos do devedor. Alguns ju\u00edzes indeferiam invocando o princ\u00edpio da menor onerosidade e o risco de bloquear valores impenhor\u00e1veis. A teimosinha \u00e9 leg\u00edtima? Quais os requisitos para seu indeferimento?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CPC, art. 854<\/strong><em> (penhora de ativos financeiros via meio eletr\u00f4nico).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CPC, art. 805<\/strong><em> (menor onerosidade da execu\u00e7\u00e3o).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CPC, art. 373<\/strong><em> (\u00f4nus da prova: executado deve demonstrar causa impeditiva).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda A teimosinha \u00e9 instrumento processual leg\u00edtimo: amplia a efici\u00eancia das medidas executivas, aumentando a chance de localizar ativos em momentos em que o devedor disponha de saldo. A menor onerosidade n\u00e3o opera de forma absoluta nem afasta automaticamente sua utiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd Cabe ao executado, e n\u00e3o ao ju\u00edzo de of\u00edcio, demonstrar que os valores atingidos s\u00e3o impenhor\u00e1veis ou que existe meio executivo igualmente eficaz e menos gravoso. Ap\u00f3s a triangulariza\u00e7\u00e3o processual, o indeferimento da medida pelo ju\u00edzo exige fundamenta\u00e7\u00e3o concreta, n\u00e3o bastando alega\u00e7\u00f5es gen\u00e9ricas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A primeira tese reafirma a legitimidade da teimosinha: <strong>\u00e9 instrumento processual compat\u00edvel com o sistema vigente, voltado \u00e0 efetividade da execu\u00e7\u00e3o<\/strong>. O princ\u00edpio da menor onerosidade n\u00e3o opera de forma absoluta; convive com a efetividade da tutela jurisdicional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A Primeira Se\u00e7\u00e3o distribuiu corretamente o \u00f4nus probat\u00f3rio. <strong>Cabe ao executado demonstrar causas impeditivas do bloqueio (impenhorabilidade dos valores) ou a exist\u00eancia de meio igualmente eficaz e menos gravoso<\/strong> (art. 373, II, do CPC). N\u00e3o basta invocar genericamente a menor onerosidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A segunda tese disciplina o indeferimento da teimosinha. <strong>Ap\u00f3s a triangulariza\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o processual, o indeferimento exige fundamenta\u00e7\u00e3o concreta<\/strong>: o ju\u00edzo deve indicar elementos espec\u00edficos dos autos que justifiquem o afastamento da medida, n\u00e3o basta alega\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica sobre prote\u00e7\u00e3o patrimonial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f O equil\u00edbrio \u00e9 central: <strong>preserva-se o direito \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito sem suprimir o m\u00ednimo existencial do devedor<\/strong>. Para pessoas jur\u00eddicas, considera-se o princ\u00edpio da preserva\u00e7\u00e3o da empresa &#8211; mas sempre em harmonia, n\u00e3o em substitui\u00e7\u00e3o, \u00e0 efetividade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre a reitera\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica de ordens de bloqueio via SISBAJUD:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) \u00c9 medida ileg\u00edtima, por violar o princ\u00edpio da menor onerosidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) \u00c9 leg\u00edtima apenas quando o valor do cr\u00e9dito justificar a insist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) \u00c9 leg\u00edtima, mas seu indeferimento prescinde de fundamenta\u00e7\u00e3o concreta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) \u00c9 leg\u00edtima e o indeferimento exige fundamenta\u00e7\u00e3o concreta ap\u00f3s a triangulariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) \u00c9 leg\u00edtima apenas em execu\u00e7\u00e3o fiscal, vedada em execu\u00e7\u00e3o civil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A menor onerosidade n\u00e3o opera de forma irrestrita; a teimosinha \u00e9 instrumento leg\u00edtimo do sistema executivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. N\u00e3o h\u00e1 tal crit\u00e9rio constritivo; a teimosinha \u00e9 leg\u00edtima independentemente do montante da execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. A segunda tese exige expressamente fundamenta\u00e7\u00e3o concreta para o indeferimento ap\u00f3s a triangulariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) <strong>Correta.<\/strong> Duas teses do Tema 1.325\/STJ: (i) a teimosinha \u00e9 leg\u00edtima, cabendo ao executado demonstrar causas impeditivas; (ii) ap\u00f3s a triangulariza\u00e7\u00e3o processual, o indeferimento exige fundamenta\u00e7\u00e3o concreta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. A teimosinha aplica-se a execu\u00e7\u00f5es em geral, n\u00e3o apenas fiscais.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-inteiro-teor-2\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A controv\u00e9rsia submetida ao rito dos recursos repetitivos consiste em definir a viabilidade da utiliza\u00e7\u00e3o, em execu\u00e7\u00e3o fiscal, da ferramenta do Sistema de Busca de Ativos do Poder Judici\u00e1rio &#8211; SISBAJUD que permite a reitera\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica de ordens de bloqueio de valores em contas banc\u00e1rias do devedor &#8211; procedimento conhecido como &#8220;teimosinha&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Trata-se de mecanismo destinado a permitir a repeti\u00e7\u00e3o programada das ordens judiciais de constri\u00e7\u00e3o de ativos financeiros ao longo de determinado per\u00edodo, com o prop\u00f3sito de ampliar a efici\u00eancia das medidas executivas determinadas pelo ju\u00edzo, j\u00e1 que, em diversas situa\u00e7\u00f5es, o executado n\u00e3o disp\u00f5e de recursos no momento da primeira tentativa de bloqueio, circunst\u00e2ncia que inviabiliza o imediato cumprimento da ordem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No entanto, a execu\u00e7\u00e3o de ordens reiteradas de bloqueio pode gerar apreens\u00e3o entre pessoas f\u00edsicas e jur\u00eddicas que se veem submetidas a sucessivas constri\u00e7\u00f5es em suas contas banc\u00e1rias. Em determinadas situa\u00e7\u00f5es, tais bloqueios podem alcan\u00e7ar valores que, em princ\u00edpio, deveriam permanecer resguardados por disposi\u00e7\u00f5es legais de impenhorabilidade, circunst\u00e2ncia que tem motivado questionamentos judiciais acerca da legitimidade ou da extens\u00e3o das medidas executivas adotadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A problem\u00e1tica envolve, portanto, o necess\u00e1rio equil\u00edbrio entre o direito do credor \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o de seu cr\u00e9dito e a preserva\u00e7\u00e3o do m\u00ednimo existencial do devedor. Isso porque, o ordenamento processual resguarda determinados bens e valores considerados essenciais \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da subsist\u00eancia do executado, de sua fam\u00edlia ou empresa. Tais limita\u00e7\u00f5es refletem a preocupa\u00e7\u00e3o do sistema jur\u00eddico em impedir que a execu\u00e7\u00e3o se converta em instrumento de supress\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de exist\u00eancia do devedor, preservando-se o n\u00facleo essencial de sua esfera patrimonial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Observa-se que a orienta\u00e7\u00e3o predominante no Superior Tribunal de Justi\u00e7a \u00e9 no sentido de que a chamada &#8220;teimosinha&#8221; constitui instrumento leg\u00edtimo de execu\u00e7\u00e3o, compat\u00edvel com o sistema processual civil vigente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Todavia, sua utiliza\u00e7\u00e3o deve sempre observar os par\u00e2metros de proporcionalidade, razoabilidade e menor onerosidade ao executado, cabendo ao magistrado avaliar sua adequa\u00e7\u00e3o \u00e0s peculiaridades do caso concreto. Nesse contexto, assume especial relev\u00e2ncia igualmente o princ\u00edpio da preserva\u00e7\u00e3o da empresa, que orienta a interpreta\u00e7\u00e3o das normas jur\u00eddicas voltadas \u00e0 atividade empresarial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; De fato, a empresa exerce papel relevante na gera\u00e7\u00e3o de empregos, na circula\u00e7\u00e3o de riquezas e no desenvolvimento econ\u00f4mico, raz\u00e3o pela qual o ordenamento jur\u00eddico busca evitar medidas que possam inviabilizar sua continuidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Contudo, os princ\u00edpios da menor onerosidade e da preserva\u00e7\u00e3o da empresa n\u00e3o podem ser interpretados de maneira isolada ou absoluta. A sua incid\u00eancia deve ocorrer em harmonia com outros postulados que regem a execu\u00e7\u00e3o, especialmente o da efetividade da tutela jurisdicional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Diante desse necess\u00e1rio panorama, a invoca\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio da menor onerosidade, por si s\u00f3, n\u00e3o \u00e9 suficiente para afastar a utiliza\u00e7\u00e3o dessa t\u00e9cnica executiva, dado que, a partir da l\u00f3gica procedimental estabelecida no art. 373 do C\u00f3digo de Processo Civil, respondendo a parte executada com a totalidade de seus bens, compete tamb\u00e9m a ela demonstrar, de forma concreta e id\u00f4nea, que os valores ou bens atingidos pela medida constritiva se enquadram em alguma das situa\u00e7\u00f5es legalmente protegida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, a ado\u00e7\u00e3o de medidas de constri\u00e7\u00e3o patrimonial por meio do sistema SISBAJUD n\u00e3o implica viola\u00e7\u00e3o \u00e0s garantias do contradit\u00f3rio e da ampla defesa asseguradas ao executado, visto que o ordenamento processual civil estabelece mecanismos espec\u00edficos que permitem ao devedor impugnar a medida constritiva e demonstrar poss\u00edvel irregularidade na indisponibiliza\u00e7\u00e3o dos valores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cumpre a ele evidenciar, de forma concreta, eventual onerosidade excessiva da medida ou a exist\u00eancia de meios executivos alternativos que, conquanto menos gravosos \u00e0 sua esfera patrimonial, revelem-se igualmente id\u00f4neos \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito exequendo. Verificada qualquer dessas excludentes, exsurge o dever de o magistrado determinar o pronto levantamento da medida, de modo a expungir a irregularidade ou o excesso detectados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesse vi\u00e9s, sobressai a higidez jur\u00eddica da modalidade de reitera\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica de ordens de bloqueio, uma vez que tal mecanismo potencializa sobremaneira a probabilidade de expropria\u00e7\u00e3o de ativos financeiros do executado. Cuida-se de ferramenta apta a conferir maior dinamismo e fluidez ao iter executivo, ao otimizar o lapso temporal entre as dilig\u00eancias constritivas e mitigar a necessidade de sucessivos requerimentos ou interven\u00e7\u00f5es incidentais. Por outro lado, quando a utiliza\u00e7\u00e3o da &#8220;teimosinha&#8221; for determinada antes da triangulariza\u00e7\u00e3o processual, faz-se imperativa a indica\u00e7\u00e3o de elementos espec\u00edficos que evidenciem risco \u00e0 efetividade da execu\u00e7\u00e3o, como a exist\u00eancia de ind\u00edcios consistentes de oculta\u00e7\u00e3o ou dilapida\u00e7\u00e3o patrimonial por parte do executado. Somente diante de tais circunst\u00e2ncias excepcionais \u00e9 que se admite a ado\u00e7\u00e3o de provid\u00eancias de natureza cautelar voltadas \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o do resultado \u00fatil do processo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Dessa forma, preserva-se o equil\u00edbrio entre a efetividade da execu\u00e7\u00e3o e a prote\u00e7\u00e3o da esfera patrimonial do devedor, garantindo-se que o processo executivo atenda simultaneamente aos interesses do credor e \u00e0s garantias fundamentais asseguradas pelo ordenamento jur\u00eddico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ante o exposto, fixam-se as seguintes teses do Tema Repetitivo 1325\/STJ:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; 1. A reitera\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica de ordens de bloqueio via SISBAJUD (&#8220;teimosinha&#8221;) \u00e9 medida leg\u00edtima, voltada \u00e0 efetividade da execu\u00e7\u00e3o e compat\u00edvel com o ordenamento processual, cabendo ao executado demonstrar causas impeditivas do gravame ou a exist\u00eancia de meio executivo igualmente eficaz e menos gravoso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; 2. Ap\u00f3s a triangulariza\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o processual, o indeferimento da reitera\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica de ordens de bloqueio via SISBAJUD exige fundamenta\u00e7\u00e3o concreta, n\u00e3o se admitindo negativa baseada em argumentos gen\u00e9ricos ou abstratos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-5-nbsp-terco-constitucional-de-ferias-contribuicao-patronal\">5.&nbsp; Ter\u00e7o constitucional de f\u00e9rias: contribui\u00e7\u00e3o patronal<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Quando o STF reconhece o car\u00e1ter constitucional de mat\u00e9ria e fixa tese oposta \u00e0 tese repetitiva do STJ, cabe ao STJ, em ju\u00edzo de retrata\u00e7\u00e3o, cancelar o tema repetitivo correspondente<\/strong>. Cancela-se o Tema 479\/STJ: incid\u00eancia da contribui\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria patronal sobre o ter\u00e7o constitucional de f\u00e9rias gozadas; e o tema 739\/STJ: natureza salarial do sal\u00e1rio-maternidade e sua inclus\u00e3o na base de c\u00e1lculo da contribui\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria patronal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 1.230.957-RS, Rel. Min. Marco Aur\u00e9lio Bellizze, Primeira Se\u00e7\u00e3o, por unanimidade, julgado em 13\/5\/2026 (ju\u00edzo de retrata\u00e7\u00e3o dos Temas 478, 479, 737, 738, 739 e 740\/STJ).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CF, art. 102, \u00a7 3\u00ba<\/strong><em> (repercuss\u00e3o geral: efeito vinculante das decis\u00f5es do STF).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>STF, Tema 985 (RE 1.072.485\/PR)<\/strong><em> (incid\u00eancia da contribui\u00e7\u00e3o sobre ter\u00e7o de f\u00e9rias gozadas, ex nunc).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>STF, Tema 72 (RE 576.967\/PR)<\/strong><em> (inconstitucionalidade da incid\u00eancia sobre sal\u00e1rio-maternidade).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda A vincula\u00e7\u00e3o do STJ \u00e0s teses de repercuss\u00e3o geral do STF imp\u00f5e ju\u00edzo de retrata\u00e7\u00e3o quando os temas repetitivos do STJ contrariem precedentes constitucionais supervenientes. A solu\u00e7\u00e3o adotada n\u00e3o \u00e9 apenas a adequa\u00e7\u00e3o da tese, mas o cancelamento, para evitar redund\u00e2ncia e potencial conflito interpretativo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd Os temas afetados foram 478, 479, 737, 738, 739 e 740\/STJ. Apenas 479 (ter\u00e7o de f\u00e9rias) e 739 (sal\u00e1rio-maternidade) foram cancelados, por terem precedentes constitucionais opostos. Os demais (478, 737, 738, 740) foram mantidos, pois n\u00e3o h\u00e1 precedente constitucional superveniente em sentido oposto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A primeira tese fixa a aplica\u00e7\u00e3o concreta do Tema 985\/STF: <strong>incide a contribui\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria patronal sobre o ter\u00e7o constitucional de f\u00e9rias gozadas, com efic\u00e1cia ex nunc a partir da publica\u00e7\u00e3o da ata de julgamento do m\u00e9rito<\/strong>. Modula\u00e7\u00e3o: contribui\u00e7\u00f5es j\u00e1 pagas e n\u00e3o impugnadas judicialmente at\u00e9 essa data n\u00e3o ser\u00e3o devolvidas pela Uni\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A segunda tese \u00e9 metodol\u00f3gica e relevante para o sistema de precedentes: <strong>quando o STF reconhece o car\u00e1ter constitucional de mat\u00e9ria e fixa tese de m\u00e9rito em sentido oposto \u00e0 tese repetitiva do STJ, cabe ao STJ cancelar o tema repetitivo<\/strong>, em vez de meramente adapt\u00e1-lo. A simples reprodu\u00e7\u00e3o pelo STJ da tese do STF seria desnecess\u00e1ria e potencialmente conflitante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 Foram cancelados o Tema 479\/STJ (ter\u00e7o de f\u00e9rias, oposto ao Tema 985\/STF) e o Tema 739\/STJ (sal\u00e1rio-maternidade, oposto ao Tema 72\/STF). <strong>Os Temas 478, 737, 738 e 740\/STJ foram mantidos, por n\u00e3o haver precedente constitucional superveniente em sentido oposto<\/strong> (aviso pr\u00e9vio indenizado, f\u00e9rias indenizadas, primeiros 15 dias de afastamento por doen\u00e7a, sal\u00e1rio-paternidade).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A consequ\u00eancia pr\u00e1tica \u00e9 significativa: <strong>as inst\u00e2ncias ordin\u00e1rias devem aplicar diretamente o precedente constitucional, sem intermedia\u00e7\u00e3o do STJ<\/strong>. Evita-se a sobreposi\u00e7\u00e3o de teses e o risco de adequa\u00e7\u00f5es sucessivas em caso de futura evolu\u00e7\u00e3o jurisprudencial do STF.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Julgue o item a seguir:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A vincula\u00e7\u00e3o do STJ \u00e0s teses de repercuss\u00e3o geral do STF imp\u00f5e ju\u00edzo de retrata\u00e7\u00e3o, quando os temas repetitivos do STJ contrariem precedentes constitucionais supervenientes, demanda a adequa\u00e7\u00e3o da tese do SJT.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Incorreta.<\/strong> A solu\u00e7\u00e3o adotada n\u00e3o \u00e9 apenas a adequa\u00e7\u00e3o da tese, mas o cancelamento, para evitar redund\u00e2ncia e potencial conflito interpretativo.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-inteiro-teor-3\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; As controv\u00e9rsias consistem em: (i) saber se, \u00e0 luz da tese vinculante firmada no Tema 985\/STF, \u00e9 devida a incid\u00eancia da contribui\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria patronal, no \u00e2mbito do Regime Geral de Previd\u00eancia Social &#8211; RGPS, sobre os valores pagos a t\u00edtulo de ter\u00e7o constitucional de f\u00e9rias gozadas; e (ii) saber quais consequ\u00eancias os precedentes qualificados do Supremo Tribunal Federal produzem sobre as teses repetitivas em abstrato firmadas no REsp 1.230.957\/RS (Temas 478, 479, 737, 738, 739 e 740\/STJ), em especial se \u00e9 caso de cancelamento ou manuten\u00e7\u00e3o das teses relativas ao ter\u00e7o constitucional de f\u00e9rias e ao sal\u00e1rio-maternidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, foram interpostos recursos especiais por sociedade empres\u00e1ria e pela Fazenda Nacional contra ac\u00f3rd\u00e3o de Tribunal Regional Federal, em mandado de seguran\u00e7a, discutindo a incid\u00eancia de contribui\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria a cargo da empresa, no \u00e2mbito do Regime Geral de Previd\u00eancia Social, sobre: (i) ter\u00e7o constitucional de f\u00e9rias gozadas; (ii) f\u00e9rias indenizadas; (iii) sal\u00e1rio-paternidade; (iv) sal\u00e1rio-maternidade; e (v) import\u00e2ncia paga nos primeiros quinze dias de afastamento por motivo de doen\u00e7a, (vi) aviso pr\u00e9vio indenizado, com pedido de compensa\u00e7\u00e3o dos valores indevidamente recolhidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No Superior Tribunal de Justi\u00e7a, o recurso especial foi afetado \u00e0 Primeira Se\u00e7\u00e3o, sob o rito dos recursos repetitivos, tendo sido firmado precedente repetitivo (REsp 1.230.957\/RS) que deu parcial provimento ao recurso especial da contribuinte apenas para afastar a incid\u00eancia da contribui\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria sobre o adicional de f\u00e9rias (ter\u00e7o constitucional) concernente \u00e0s f\u00e9rias gozadas, negando provimento ao recurso especial da Fazenda Nacional e fixando as teses dos Temas 478, 479, 737, 738, 739 e 740\/STJ.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A Fazenda Nacional interp\u00f4s recurso extraordin\u00e1rio, limitando-se \u00e0 controv\u00e9rsia sobre a incid\u00eancia da contribui\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria patronal sobre o ter\u00e7o constitucional de f\u00e9rias gozadas, no \u00e2mbito do RGPS. O julgamento foi sobrestado sucessivamente em raz\u00e3o dos Temas n. 163 e 985\/STF, at\u00e9 o tr\u00e2nsito em julgado do paradigma constitucional (RE 1.072.485\/PR), no qual o Supremo Tribunal Federal reconheceu, em repercuss\u00e3o geral, a legitimidade da incid\u00eancia da contribui\u00e7\u00e3o social patronal sobre o ter\u00e7o constitucional de f\u00e9rias, com modula\u00e7\u00e3o de efeitos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ap\u00f3s o tr\u00e2nsito em julgado do Tema 985\/STF, a Vice-Presid\u00eancia do STJ devolveu os autos \u00e0 Primeira Se\u00e7\u00e3o, para ju\u00edzo de retrata\u00e7\u00e3o quanto \u00e0 tese do ter\u00e7o constitucional de f\u00e9rias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; O Supremo Tribunal Federal, no Tema n. 985 (RE 1.072.485\/PR), firmou tese segundo a qual \u00e9 leg\u00edtima a incid\u00eancia de contribui\u00e7\u00e3o social, a cargo do empregador, sobre os valores pagos a t\u00edtulo de ter\u00e7o constitucional de f\u00e9rias gozadas, reconhecendo o car\u00e1ter remunerat\u00f3rio da verba e, em embargos de declara\u00e7\u00e3o, modulou os efeitos da decis\u00e3o para atribuir efic\u00e1cia ex nunc, a partir da publica\u00e7\u00e3o da ata de julgamento de m\u00e9rito, ressalvadas as contribui\u00e7\u00f5es j\u00e1 pagas e n\u00e3o impugnadas judicialmente at\u00e9 essa data, que n\u00e3o ser\u00e3o devolvidas pela Uni\u00e3o. Diante da vincula\u00e7\u00e3o do STJ \u00e0s teses de repercuss\u00e3o geral, e constatado que o ac\u00f3rd\u00e3o repetitivo havia conclu\u00eddo pela n\u00e3o incid\u00eancia da contribui\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria patronal sobre o ter\u00e7o constitucional de f\u00e9rias gozadas, imp\u00f5e-se, em ju\u00edzo de retrata\u00e7\u00e3o, reformar essa conclus\u00e3o quanto ao caso concreto, para reconhecer a incid\u00eancia da contribui\u00e7\u00e3o patronal sobre o ter\u00e7o constitucional de f\u00e9rias, observada a modula\u00e7\u00e3o temporal fixada no Tema n. 985\/STF.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A mat\u00e9ria relativa ao ter\u00e7o constitucional de f\u00e9rias, inicialmente tratada pelo STF como infraconstitucional, foi posteriormente afetada \u00e0 repercuss\u00e3o geral, com o reconhecimento de seu car\u00e1ter constitucional e a fixa\u00e7\u00e3o de tese de m\u00e9rito em sentido diametralmente oposto ao entendimento firmado no Tema 479\/STJ, o que retira do STJ a compet\u00eancia para manter tese repetitiva de m\u00e9rito sobre a exa\u00e7\u00e3o patronal em conflito com a orienta\u00e7\u00e3o da Suprema Corte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c0 vista das normas de compet\u00eancia e da necessidade de preservar a seguran\u00e7a jur\u00eddica e a integridade do sistema de precedentes, opta-se pelo cancelamento da tese do Tema 479\/STJ, em vez de sua mera adequa\u00e7\u00e3o para reproduzir a tese do Supremo Tribunal Federal, a fim de que as inst\u00e2ncias ordin\u00e1rias tenham como \u00fanica baliza, em mat\u00e9ria de contribui\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria patronal sobre o ter\u00e7o constitucional de f\u00e9rias, o Tema n. 985\/STF e a modula\u00e7\u00e3o por ele estabelecida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quanto ao sal\u00e1rio-maternidade, o STF, no Tema n. 72 (RE 576.967\/PR), reconheceu o car\u00e1ter constitucional da controv\u00e9rsia e firmou tese de inconstitucionalidade da incid\u00eancia de contribui\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria a cargo do empregador sobre o sal\u00e1rio-maternidade, superando o entendimento do STJ consolidado no Tema 739\/STJ, que afirmava a natureza salarial da verba e a legitimidade da exa\u00e7\u00e3o patronal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Embora, no caso concreto, a impetrante n\u00e3o tenha recorrido contra o ac\u00f3rd\u00e3o do STJ que concluiu pela incid\u00eancia da contribui\u00e7\u00e3o patronal sobre o sal\u00e1rio-maternidade, de modo que esse ponto da decis\u00e3o permanece inalterado na esfera individual, revela-se necess\u00e1ria e oportuna a reconsidera\u00e7\u00e3o da tese abstrata do Tema 739\/STJ fixada nestes autos, que deve ser cancelada em raz\u00e3o do julgamento do Tema n. 72\/STF.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A simples reprodu\u00e7\u00e3o, pelo STJ, das teses de repercuss\u00e3o geral em temas repetitivos pr\u00f3prios mostra-se desnecess\u00e1ria e potencialmente conflitante com a compet\u00eancia do STF, porquanto qualquer tentativa de detalhamento ou limita\u00e7\u00e3o interpretativa da tese constitucional poderia representar indevida incurs\u00e3o no \u00e2mbito de compet\u00eancia da Corte Suprema e exigiria sucessivas adequa\u00e7\u00f5es em caso de futura evolu\u00e7\u00e3o jurisprudencial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No tocante ao aviso pr\u00e9vio indenizado (Tema 478\/STJ), ao adicional de f\u00e9rias indenizadas (Tema 737\/STJ); ao pagamento dos primeiros quinze dias de afastamento por motivo de doen\u00e7a (Tema 738\/STJ) e ao sal\u00e1rio-paternidade (Tema 740\/STJ), n\u00e3o existe precedente constitucional superveniente que imponha revis\u00e3o das teses repetitivas, prevalecendo o entendimento do Superior Tribunal quanto \u00e0 natureza indenizat\u00f3ria das tr\u00eas primeiras verbas (afastando a incid\u00eancia) e \u00e0 natureza remunerat\u00f3ria do sal\u00e1rio-paternidade (admitindo a tributa\u00e7\u00e3o), sob a \u00f3tica estritamente infraconstitucional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Portanto, em ju\u00edzo de retrata\u00e7\u00e3o, o recurso especial da contribuinte \u00e9 parcialmente provido, em menor extens\u00e3o, com reforma do ac\u00f3rd\u00e3o repetitivo apenas para reconhecer a legitimidade da incid\u00eancia da contribui\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria patronal sobre o ter\u00e7o constitucional de f\u00e9rias gozadas, observada a modula\u00e7\u00e3o de efeitos fixada no Tema n. 985\/STF, mantendo-se o desprovimento do recurso especial da Fazenda Nacional e, em abstrato, canceladas as teses dos Temas 479 e 739\/STJ, com preserva\u00e7\u00e3o das teses dos Temas 478, 737, 738 e 740\/STJ.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, fixam-se as seguintes teses do presente Recurso Repetitivo:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; 1. O precedente de repercuss\u00e3o geral do Supremo Tribunal Federal no Tema n. 985 imp\u00f5e o reconhecimento da incid\u00eancia da contribui\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria patronal sobre o ter\u00e7o constitucional de f\u00e9rias gozadas, no \u00e2mbito do RGPS, com efic\u00e1cia ex nunc a partir da publica\u00e7\u00e3o da ata de julgamento do m\u00e9rito, ressalvadas as contribui\u00e7\u00f5es j\u00e1 pagas e n\u00e3o impugnadas judicialmente at\u00e9 essa data. 2. Quando o Supremo Tribunal Federal reconhece o car\u00e1ter constitucional de determinada mat\u00e9ria e fixa tese de m\u00e9rito em sentido oposto \u00e0 tese repetitiva do Superior Tribunal de Justi\u00e7a, cabe ao STJ, em ju\u00edzo de retrata\u00e7\u00e3o, cancelar o tema repetitivo correspondente, deixando \u00e0s inst\u00e2ncias ordin\u00e1rias a observ\u00e2ncia direta do precedente constitucional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; 3. A tese do Tema 479\/STJ, relativa \u00e0 natureza indenizat\u00f3ria do ter\u00e7o constitucional de f\u00e9rias e \u00e0 consequente n\u00e3o incid\u00eancia de contribui\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria patronal, fica cancelada em raz\u00e3o da supera\u00e7\u00e3o pelo Tema n. 985\/STF.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; 4. A tese do Tema 739\/STJ, que afirmava a natureza salarial do sal\u00e1rio-maternidade e sua inclus\u00e3o na base de c\u00e1lculo da contribui\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria patronal, fica cancelada em raz\u00e3o da tese firmada no Tema 72\/STF, que reputou inconstitucional a incid\u00eancia da exa\u00e7\u00e3o a cargo do empregador sobre essa verba.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; 5. Mant\u00eam-se h\u00edgidas as teses repetitivas dos Temas 478, 737, 738 e 740\/STJ, por se referirem a controv\u00e9rsias de natureza infraconstitucional n\u00e3o alcan\u00e7adas por supera\u00e7\u00e3o constitucional.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-6-adicional-da-cofins-importacao-incide-mesmo-com-aliquota-ordinaria-reduzida-a-zero\">6. Adicional da COFINS-Importa\u00e7\u00e3o: incide mesmo com al\u00edquota ordin\u00e1ria reduzida a zero<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O adicional da COFINS-Importa\u00e7\u00e3o \u00e9 devido ainda que a al\u00edquota ordin\u00e1ria seja reduzida a zero <strong>para determinados produtos qu\u00edmicos, farmac\u00eauticos e os destinados ao uso em hospitais, cl\u00ednicas e consult\u00f3rios m\u00e9dicos e odontol\u00f3gicos<\/strong>, nos termos do art. 8\u00ba, \u00a7\u00a7 21 e 21-A, da Lei n\u00ba 10.865\/2004.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">EREsp 2.090.133-SP, Rel. Min. Gurgel de Faria, Primeira Se\u00e7\u00e3o, por unanimidade, julgado em 7\/5\/2026 (Tema 1.380).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Escapa Medicamentos S.A. pleiteou a n\u00e3o incid\u00eancia do adicional de 1% da COFINS-Importa\u00e7\u00e3o sobre produtos farmac\u00eauticos com al\u00edquota ordin\u00e1ria reduzida a zero. Sustentava que, sendo a al\u00edquota ordin\u00e1ria zero, o adicional tamb\u00e9m n\u00e3o seria devido. A Primeira Turma havia afastado o adicional sobre medicamentos; a Segunda Turma o admitia. A Primeira Se\u00e7\u00e3o foi chamada a uniformizar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n\u00ba 10.865\/2004, art. 8\u00ba, \u00a7\u00a7 11, 21 e 21-A<\/strong><em> (COFINS-Importa\u00e7\u00e3o: al\u00edquotas e adicional).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>STF, Tema 1.047<\/strong><em> (constitucionalidade do adicional).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CTN, art. 111<\/strong><em> (interpreta\u00e7\u00e3o literal das normas de desonera\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda O adicional da COFINS-Importa\u00e7\u00e3o \u00e9 tributo aut\u00f4nomo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 al\u00edquota ordin\u00e1ria: possui base de c\u00e1lculo pr\u00f3pria, incid\u00eancia independente e foi declarado constitucional pelo STF (Tema 1.047). N\u00e3o se trata de al\u00edquota sobre al\u00edquota, mas de acr\u00e9scimo aut\u00f4nomo sobre a mesma base de c\u00e1lculo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd A redu\u00e7\u00e3o a zero da al\u00edquota ordin\u00e1ria \u00e9 benef\u00edcio fiscal para os produtos m\u00e9dico-farmac\u00eauticos. Estender essa redu\u00e7\u00e3o ao adicional seria ampliar o benef\u00edcio por via interpretativa, vedado pelo art. 111 do CTN, que imp\u00f5e interpreta\u00e7\u00e3o literal das normas de desonera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A controv\u00e9rsia central era saber se a redu\u00e7\u00e3o a zero da al\u00edquota ordin\u00e1ria da COFINS-Importa\u00e7\u00e3o para produtos farmac\u00eauticos arrasta o adicional para o mesmo regime. A Primeira Se\u00e7\u00e3o firmou que n\u00e3o: <strong>o adicional \u00e9 tributo aut\u00f4nomo, com incid\u00eancia independente da al\u00edquota ordin\u00e1ria<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f O STF, no Tema 1.047, declarou a constitucionalidade do adicional e firmou sua independ\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 al\u00edquota ordin\u00e1ria. <strong>Reconheceu tamb\u00e9m a constitucionalidade da veda\u00e7\u00e3o ao creditamento do adicional, prevista no art. 15, \u00a7 1\u00ba-A, da Lei n\u00ba 10.865\/2004<\/strong>, justamente por sua autonomia t\u00e9cnica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O art. 111 do CTN \u00e9 decisivo: <strong>normas de desonera\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria interpretam-se literalmente<\/strong>. Estender ao adicional a al\u00edquota zero prevista para a al\u00edquota ordin\u00e1ria ampliaria o benef\u00edcio por via interpretativa, contrariando expressa diretriz do CTN.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A Primeira Se\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m invocou precedente da pr\u00f3pria Corte: <strong>a Primeira Se\u00e7\u00e3o j\u00e1 havia admitido o adicional sobre aeronaves com al\u00edquota ordin\u00e1ria zero<\/strong>, o que confere consist\u00eancia sist\u00eamica \u00e0 conclus\u00e3o. Resolveu-se a diverg\u00eancia entre Primeira e Segunda Turma em favor da incid\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre a incid\u00eancia do adicional da COFINS-Importa\u00e7\u00e3o sobre produtos farmac\u00eauticos com al\u00edquota ordin\u00e1ria reduzida a zero:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) \u00c9 devido o adicional, pois sua incid\u00eancia \u00e9 aut\u00f4noma \u00e0 al\u00edquota ordin\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) N\u00e3o \u00e9 devido o adicional, pois o art. 111 do CTN se aplica integralmente \u00e0 hip\u00f3tese.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) \u00c9 devido apenas quando o produto importado tem similar nacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) N\u00e3o \u00e9 devido, pois a al\u00edquota zero abrange todas as exig\u00eancias da COFINS-Importa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) \u00c9 devido apenas se autorizado por lei complementar federal espec\u00edfica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) <strong>Correta.<\/strong> O adicional \u00e9 tributo aut\u00f4nomo (base de c\u00e1lculo pr\u00f3pria, incid\u00eancia independente), declarado constitucional pelo STF (Tema 1.047); estender a al\u00edquota zero ao adicional ampliaria benef\u00edcio, vedado pelo art. 111 do CTN.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. O art. 111 do CTN exige interpreta\u00e7\u00e3o literal das desonera\u00e7\u00f5es, o que justamente impede a extens\u00e3o da al\u00edquota zero ao adicional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. A similitude nacional \u00e9 crit\u00e9rio de outras pol\u00edticas tribut\u00e1rias; n\u00e3o opera no Tema 1.380.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. A al\u00edquota zero refere-se \u00e0 al\u00edquota ordin\u00e1ria; o adicional \u00e9 tributo aut\u00f4nomo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. A constitucionalidade do adicional j\u00e1 foi reconhecida pelo STF (Tema 1.047), sem necessidade de LC.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-inteiro-teor-4\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A quest\u00e3o submetida a julgamento sob o rito dos recursos repetitivos consiste em definir se \u00e9 poss\u00edvel exigir o adicional de 1% da COFINS-Importa\u00e7\u00e3o incidente sobre produtos qu\u00edmicos, farmac\u00eauticos e os destinados ao uso em hospitais, cl\u00ednicas e consult\u00f3rios m\u00e9dicos e odontol\u00f3gicos, ainda que reduzida a 0 (zero) a al\u00edquota ordin\u00e1ria de referida contribui\u00e7\u00e3o, \u00e0 luz do disposto no art. 8, 11 e 21, da Lei n. 10.865\/2004.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sobre o tema, enquanto a Primeira Turma do Superior Tribunal de Justi\u00e7a afastou a incid\u00eancia do adicional em tela sobre medicamentos (REsp 1.840.139\/SP, Ministro Napole\u00e3o Nunes Maia, 21\/9\/2020), a Segunda Turma, no ac\u00f3rd\u00e3o embargado (AgInt no REsp 2.090.133\/SP, Ministro Francisco Falc\u00e3o, DJe 6\/3\/2024), julgou cab\u00edvel a referida tributa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; O Supremo Tribunal Federal, sob o regime da repercuss\u00e3o geral, firmou as seguintes teses (Tema 1047): &#8220;I &#8211; \u00c9 constitucional o adicional de al\u00edquota da Cofins-Importa\u00e7\u00e3o previsto no 21 do artigo 8 da Lei n. 10.865\/2004; II- A veda\u00e7\u00e3o ao aproveitamento do cr\u00e9dito oriundo do adicional de al\u00edquota, prevista no artigo 15, 1-A, da Lei n. 10.865\/2004, com a reda\u00e7\u00e3o dada pela Lei n. 13.137\/2015, respeita o princ\u00edpio constitucional da n\u00e3o cumulatividade.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em sede de reexame da tem\u00e1tica, principalmente \u00e0 luz da tese fixada pelo regime da repercuss\u00e3o geral (Tema 1047\/STF), tem-se que o adicional de al\u00edquota institu\u00eddo pelo 21 do art. 8 da Lei n. 10.865\/2004 constitui acr\u00e9scimo aut\u00f4nomo, com base de c\u00e1lculo pr\u00f3pria e incid\u00eancia independente da al\u00edquota ordin\u00e1ria. A lei que o institui \u00e9 clara e suficiente, isto \u00e9, n\u00e3o h\u00e1 lacuna normativa a ser preenchida. Exigir norma espec\u00edfica adicional para fazer o tributo incidir sobre produtos com al\u00edquota zero seria, paradoxalmente, ampliar por via interpretativa o alcance de um benef\u00edcio fiscal, o que o art. 111 do CTN expressamente veda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Desse modo, n\u00e3o h\u00e1 falar na necessidade de norma dirigida de modo espec\u00edfico ao que se cont\u00e9m no art. 8, 11, do mencionado diploma legal, a fim de permitir sua incid\u00eancia sobre os produtos m\u00e9dico-farmac\u00eauticos ali referidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A Suprema Corte, ao reconhecer a constitucionalidade do adicional, decidiu pela independ\u00eancia desse tributo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 al\u00edquota ordin\u00e1ria da COFINS-Importa\u00e7\u00e3o, reafirmando a desnecessidade de sua institui\u00e7\u00e3o por lei complementar, assim como pela possibilidade de tratamento diferenciado a justificar a veda\u00e7\u00e3o ao creditamento t\u00e3o somente em rela\u00e7\u00e3o ao adicional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Afastou, ainda, a suscitada ofensa ao princ\u00edpio constitucional da n\u00e3o-cumulatividade pela norma contida no art. 15, 1-A da Lei n. 10.865\/2004, que veda o direito ao aproveitamento de cr\u00e9dito relativamente ao mencionado adicional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; De fato, a Lei n. 10.865\/2004, ao instituir a Cofins-Importa\u00e7\u00e3o e prever regime espec\u00edfico aplic\u00e1vel \u00e0s opera\u00e7\u00f5es envolvendo produtos m\u00e9dicos e farmac\u00eauticos, classificados em determinadas posi\u00e7\u00f5es da NCM, autorizou a redu\u00e7\u00e3o a 0 (zero) da al\u00edquota por ato do Poder Executivo. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que a ado\u00e7\u00e3o dessa previs\u00e3o legal se justifica pela essencialidade desses produtos, com o objetivo evidente de desonera\u00e7\u00e3o de sua importa\u00e7\u00e3o, estabelecendo exce\u00e7\u00e3o \u00e0 norma geral de incid\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ocorre que o adicional em tela, institu\u00eddo pelo 21 do art. 8 da Lei n. 10.865\/2004, embora determine majora\u00e7\u00e3o de tributo, n\u00e3o se vincula \u00e0 disciplina da al\u00edquota ordin\u00e1ria, conforme bem decidiu o Supremo Tribunal Federal, n\u00e3o havendo que falar em ofensa ao princ\u00edpio da especialidade, de que cuida o art. 2, 2, da LINDB, porquanto n\u00e3o h\u00e1 conflito aparente de normas a ser solucionado, visto que os enunciados prescritivos que disciplinam a al\u00edquota zero n\u00e3o excluem os relativos ao adicional de al\u00edquota.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Efetivamente, o adicional \u00e0 COFINS-Importa\u00e7\u00e3o constitui acr\u00e9scimo aut\u00f4nomo de percentual \u00e0 al\u00edquota j\u00e1 existente, sem interfer\u00eancia na materialidade da contribui\u00e7\u00e3o, que continua sendo a importa\u00e7\u00e3o de produtos ou servi\u00e7os. N\u00e3o se trata de al\u00edquota sobre al\u00edquota, pois se observa a mesma base de c\u00e1lculo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Essa independ\u00eancia do adicional em face da al\u00edquota ordin\u00e1ria remanesce evidente no precedente da Suprema Corte (Tema 1047\/STF), que julgou constitucional a veda\u00e7\u00e3o ao aproveitamento de cr\u00e9dito relativo ao mencionado adicional, n\u00e3o obstante esse creditamento seja permitido quanto \u00e0 al\u00edquota ordin\u00e1ria do tributo, na forma do art. 15, caput e incisos, da Lei n. 10.865\/2004. A circunst\u00e2ncia de ter sido previsto tal favor fiscal para determinado produto importado n\u00e3o impede que se promova a incid\u00eancia do adicional, que, nessa amplitude, goza de autonomia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quele favor fiscal. A prop\u00f3sito, reitera-se o que disp\u00f5e o art. 111 do CTN, segundo o qual deve ser interpretada literalmente a norma que estabelece, em \u00faltima an\u00e1lise, desonera\u00e7\u00e3o de natureza tribut\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ademais, no caso, n\u00e3o se pode ampliar a observ\u00e2ncia da regra que prev\u00ea al\u00edquota 0 (zero) para hip\u00f3tese diversa da preconizada em lei. A pretens\u00e3o de afastamento de incid\u00eancia da norma jur\u00eddica em refer\u00eancia n\u00e3o se justifica, mormente quando j\u00e1 declarada constitucional pela Suprema Corte. Nesse sentido, no tocante ao adicional de 1% da COFINS-Importa\u00e7\u00e3o sobre a importa\u00e7\u00e3o de aeronave classificada na posi\u00e7\u00e3o 88.02 da NCM, a Primeira Se\u00e7\u00e3o do STJ firmou compreens\u00e3o pela incid\u00eancia do adicional, n\u00e3o obstante tenha sido reduzida a zero a al\u00edquota sobre referido produto na pr\u00f3pria Lei n. 10.865\/2004.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em s\u00edntese: 1. o adicional da COFINS-Importa\u00e7\u00e3o \u00e9 aut\u00f4nomo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 al\u00edquota ordin\u00e1ria &#8211; incide sobre a mesma base de c\u00e1lculo, n\u00e3o configura al\u00edquota sobre al\u00edquota, e sua exist\u00eancia jur\u00eddica n\u00e3o depende de a al\u00edquota ordin\u00e1ria ser zero; 2. o STF, no Tema 1.047, declarou sua constitucionalidade e afastou a alega\u00e7\u00e3o de ofensa \u00e0 isonomia, pois a majora\u00e7\u00e3o incide uniformemente sobre todo o segmento importador; 3. al\u00edquota zero e adicional respondem a pol\u00edticas distintas; 4. o art. 111 do CTN veda interpreta\u00e7\u00e3o extensiva de benef\u00edcio fiscal, de modo que a al\u00edquota zero n\u00e3o pode ser lida de forma a neutralizar o adicional aut\u00f4nomo; 5. n\u00e3o h\u00e1 antinomia entre as normas, pois elas coexistem sem conflito, tornando inaplic\u00e1vel o princ\u00edpio da especialidade; e 6. a Primeira Se\u00e7\u00e3o do STJ j\u00e1 admitiu o adicional sobre aeronaves com al\u00edquota zero, o que confere consist\u00eancia sist\u00eamica \u00e0 conclus\u00e3o ora adotada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, ainda que reduzida a zero a al\u00edquota da Cofins-Importa\u00e7\u00e3o para determinados produtos qu\u00edmicos, farmac\u00eauticos e os destinados ao uso em hospitais, cl\u00ednicas e consult\u00f3rios m\u00e9dicos e odontol\u00f3gicos, \u00e9 devido o adicional de al\u00edquota, conforme o disposto no art. 8, 21 e 21-A, da Lei n. 10.865\/2004.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ante o exposto, fixa-se a seguinte tese do Tema 1380\/STJ: O adicional da COFINS-Importa\u00e7\u00e3o \u00e9 devido, ainda que a al\u00edquota ordin\u00e1ria seja reduzida a 0 (zero) para determinados produtos qu\u00edmicos, farmac\u00eauticos e os destinados ao uso em hospitais, cl\u00ednicas e consult\u00f3rios m\u00e9dicos e odontol\u00f3gicos, nos termos do art. 8, 21 e 21-A, da Lei n. 10.865\/2004.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-7-desconsideracao-da-personalidade-juridica-ausencia-de-bens-e-encerramento-irregular\">7. Desconsidera\u00e7\u00e3o da personalidade jur\u00eddica: aus\u00eancia de bens e encerramento irregular<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas rela\u00e7\u00f5es civis e empresariais, a desconsidera\u00e7\u00e3o da personalidade jur\u00eddica requer a efetiva comprova\u00e7\u00e3o de abuso da personalidade <strong>caracterizado por desvio de finalidade ou confus\u00e3o patrimonial (teoria maior, art. 50 do CC), sendo insuficiente a mera inexist\u00eancia de bens penhor\u00e1veis ou o encerramento irregular das atividades<\/strong> (Tema 1.210\/STJ).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 1.873.187-SP, Rel. Min. Raul Ara\u00fajo, Segunda Se\u00e7\u00e3o, por maioria, julgado em 7\/5\/2026 (Tema 1.210).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seu Barriga, credor de sociedade empres\u00e1ria, requereu desconsidera\u00e7\u00e3o da personalidade jur\u00eddica para alcan\u00e7ar bens dos s\u00f3cios, alegando: (i) que a empresa n\u00e3o tinha bens penhor\u00e1veis; (ii) que havia encerrado irregularmente suas atividades. N\u00e3o havia prova de desvio de finalidade nem de confus\u00e3o patrimonial. A Segunda Se\u00e7\u00e3o foi chamada a definir se esses fatos, isoladamente, autorizam a aplica\u00e7\u00e3o do art. 50 do CC.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CC, art. 50 (com reda\u00e7\u00e3o da Lei n\u00ba 13.874\/2019)<\/strong><em> (desconsidera\u00e7\u00e3o: abuso da personalidade por desvio de finalidade ou confus\u00e3o patrimonial).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>S\u00famula 435\/STJ<\/strong><em> (redirecionamento da execu\u00e7\u00e3o fiscal por dissolu\u00e7\u00e3o irregular (n\u00e3o se confunde com art. 50 do CC)).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda O direito brasileiro adota duas matrizes: teoria maior (art. 50 do CC, regra geral para rela\u00e7\u00f5es civis e empresariais) exige abuso da personalidade; teoria menor (CDC, art. 28; Lei Ambiental, art. 4\u00ba) exige apenas inviabilidade de satisfa\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd A S\u00famula 435\/STJ trata de redirecionamento em execu\u00e7\u00e3o fiscal contra o s\u00f3cio-gerente, com fundamento no CTN, n\u00e3o no art. 50 do CC. N\u00e3o estende a desconsidera\u00e7\u00e3o civil-empresarial ao mero encerramento irregular: s\u00e3o institutos com fundamentos distintos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A Segunda Se\u00e7\u00e3o firmou que <strong>a teoria maior do art. 50 do CC exige demonstra\u00e7\u00e3o espec\u00edfica de abuso da personalidade jur\u00eddica<\/strong>: desvio de finalidade (uso da PJ para fins alheios) ou confus\u00e3o patrimonial (mescla indevida entre patrim\u00f4nio social e dos s\u00f3cios). Sem esses elementos, a desconsidera\u00e7\u00e3o \u00e9 incab\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A Lei n\u00ba 13.874\/2019 confirmou a ado\u00e7\u00e3o da teoria maior pelo direito civil-empresarial brasileiro. <strong>Os Enunciados 146 e 282 das Jornadas de Direito Civil afastaram expressamente o encerramento irregular como fundamento aut\u00f4nomo da desconsidera\u00e7\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A teoria menor (CDC e Lei Ambiental) \u00e9 instrumento espec\u00edfico de prote\u00e7\u00e3o de hipossuficientes (consumidor) e bens difusos (meio ambiente), em que basta a insolv\u00eancia. <strong>Essa l\u00f3gica n\u00e3o se estende ao direito civil-empresarial geral<\/strong>, em que prevalece a autonomia patrimonial da PJ.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A S\u00famula 435\/STJ n\u00e3o se sobrep\u00f5e \u00e0 tese: <strong>trata de redirecionamento em execu\u00e7\u00e3o fiscal contra o s\u00f3cio-gerente, com fundamento em normas tribut\u00e1rias<\/strong>, n\u00e3o no art. 50 do CC. Os institutos t\u00eam fundamentos diversos e n\u00e3o se confundem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em rela\u00e7\u00e3o jur\u00eddica civil-empresarial, para a desconsidera\u00e7\u00e3o da personalidade jur\u00eddica nos termos do art. 50 do CC:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Basta a inexist\u00eancia de bens penhor\u00e1veis da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Basta o encerramento irregular das atividades da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Exige a comprova\u00e7\u00e3o de abuso por desvio de finalidade ou confus\u00e3o patrimonial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Aplica-se a teoria menor da desconsidera\u00e7\u00e3o, por analogia ao CDC.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Basta a aplica\u00e7\u00e3o da S\u00famula 435\/STJ por simetria com a execu\u00e7\u00e3o fiscal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A teoria maior do art. 50 do CC exige abuso da personalidade; a mera inexist\u00eancia de bens \u00e9 insuficiente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. O encerramento irregular, por si, n\u00e3o constitui abuso da personalidade jur\u00eddica (Enunciado 282 das Jornadas de Direito Civil).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) <strong>Correta.<\/strong> A teoria maior do art. 50 do CC exige comprova\u00e7\u00e3o espec\u00edfica de abuso da personalidade jur\u00eddica, caracterizado por desvio de finalidade ou confus\u00e3o patrimonial; a mera inexist\u00eancia de bens e\/ou encerramento irregular n\u00e3o bastam (Tema 1.210\/STJ).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. A teoria menor (CDC, art. 28; Lei Ambiental, art. 4\u00ba) n\u00e3o se aplica por analogia a rela\u00e7\u00f5es civis-empresariais gerais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. A S\u00famula 435 trata de redirecionamento em execu\u00e7\u00e3o fiscal, com fundamento tribut\u00e1rio; n\u00e3o se estende ao art. 50 do CC.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-inteiro-teor-5\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A quest\u00e3o submetida a julgamento sob o rito dos recursos repetitivos \u00e9 a seguinte: &#8220;cabimento ou n\u00e3o da desconsidera\u00e7\u00e3o da personalidade jur\u00eddica no caso de mera inexist\u00eancia de bens penhor\u00e1veis e\/ou eventual encerramento irregular das atividades da empresa&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A desconsidera\u00e7\u00e3o da personalidade jur\u00eddica constitui t\u00e9cnica excepcional de supera\u00e7\u00e3o da autonomia patrimonial da pessoa jur\u00eddica, autorizando a extens\u00e3o dos efeitos de determinadas obriga\u00e7\u00f5es aos bens particulares de s\u00f3cios ou administradores quando evidenciado uso abusivo ou fraudulento da estrutura societ\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No direito brasileiro, a mat\u00e9ria estrutura-se em duas matrizes: a teoria maior e a teoria menor, com pressupostos distintos e aplica\u00e7\u00e3o conforme o regime jur\u00eddico incidentemente considerado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A teoria maior, consagrada como regra geral pelo art. 50 do C\u00f3digo Civil, exige demonstra\u00e7\u00e3o espec\u00edfica de abuso da personalidade jur\u00eddica, identific\u00e1vel, em s\u00edntese, por: (I) desvio de finalidade, isto \u00e9, a utiliza\u00e7\u00e3o da pessoa jur\u00eddica para objetivos alheios \u00e0queles que justificaram sua constitui\u00e7\u00e3o, em geral para fraudes ou il\u00edcitos; e (II) confus\u00e3o patrimonial, caracterizada pela indevida mescla entre o patrim\u00f4nio social e o dos s\u00f3cios, com preju\u00edzo \u00e0 separa\u00e7\u00e3o e identifica\u00e7\u00e3o dos bens. Trata-se de mecanismo de aplica\u00e7\u00e3o restrita, t\u00edpico do direito civil e empresarial, que pressup\u00f5e prova robusta de que a pessoa jur\u00eddica foi instrumentalizada como escudo para pr\u00e1ticas il\u00edcitas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A teoria menor, por sua vez, \u00e9 veiculada em regimes especiais, como no C\u00f3digo de Defesa do Consumidor (art. 28) e na Lei de Crimes Ambientais (art. 4), e afasta a necessidade de prova de fraude ou abuso, bastando: (I) a insolv\u00eancia da pessoa jur\u00eddica, consubstanciada na incapacidade de adimplir suas obriga\u00e7\u00f5es; e (II) a inviabilidade de satisfa\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito com o patrim\u00f4nio social. Nesse \u00e2mbito, o objetivo \u00e9 refor\u00e7ar a prote\u00e7\u00e3o de sujeitos hipossuficientes &#8211; a exemplo do consumidor &#8211; e de bens jur\u00eddicos difusos &#8211; como o meio ambiente -, permitindo o redirecionamento da execu\u00e7\u00e3o aos s\u00f3cios ou administradores mesmo na aus\u00eancia de demonstra\u00e7\u00e3o de dolo, fraude ou m\u00e1-f\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; As altera\u00e7\u00f5es do art. 50 do C\u00f3digo Civil, levadas a efeito pela Lei n. 13.874\/2019, confirmaram a ado\u00e7\u00e3o da teoria maior da disregard doctrine, j\u00e1 acolhida na reda\u00e7\u00e3o original do mencionado dispositivo, al\u00e9m de especificarem explicitamente alguns crit\u00e9rios. De fato, antes da introdu\u00e7\u00e3o desses dispositivos no ordenamento jur\u00eddico p\u00e1trio, a doutrina j\u00e1 apontava como causa para a desconsidera\u00e7\u00e3o da personalidade jur\u00eddica, com fundamento no art. 50 do C\u00f3digo Civil, o abuso desta, n\u00e3o sendo suficiente para tal a demonstra\u00e7\u00e3o de insolv\u00eancia da pessoa jur\u00eddica. Por ocasi\u00e3o da III Jornada de Direito Civil, ocorrida em 2004, o Enunciado 146 firmou orienta\u00e7\u00e3o pela interpreta\u00e7\u00e3o restritiva do artigo 50 do C\u00f3digo Civil, tendo em vista que o instituto da desconsidera\u00e7\u00e3o, embora n\u00e3o acarrete a despersonaliza\u00e7\u00e3o da sociedade &#8211; por se aplicar a rela\u00e7\u00f5es espec\u00edficas e apenas tornar ineficaz a personalidade jur\u00eddica em face do lesado &#8211; constitui limita\u00e7\u00e3o ao princ\u00edpio da autonomia patrimonial da pessoa jur\u00eddica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Dando sequ\u00eancia a essa mesma linha de intelec\u00e7\u00e3o, a IV Jornada de Direito Civil, havida em 2006, aprovou o Enunciado 282 que, de forma expressa, afasta o encerramento irregular da pessoa jur\u00eddica como fundamento para a desconsidera\u00e7\u00e3o de sua personalidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Da pr\u00f3pria reda\u00e7\u00e3o do art. 50 do C\u00f3digo Civil, transcrita alhures, infere-se que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma men\u00e7\u00e3o expressa \u00e0 possibilidade de desconsidera\u00e7\u00e3o da personalidade jur\u00eddica em virtude das seguintes situa\u00e7\u00f5es de fato, em conjunto ou separadamente: 1. A mera inexist\u00eancia de bens penhor\u00e1veis; 2. O encerramento irregular das atividades da empresa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ao contr\u00e1rio, \u00e9 da literalidade do mencionado dispositivo legal que esteja presente o abuso da personalidade jur\u00eddica, sendo este caracterizado pelo desvio de finalidade ou pela confus\u00e3o patrimonial, para que possa ser autorizada a aplica\u00e7\u00e3o da disregard doctrine. Desde a entrada em vigor do C\u00f3digo Civil, e mesmo anteriormente \u00e0s altera\u00e7\u00f5es promovidas no C\u00f3digo Civil pela aludida Lei n. 13.874\/2019, o Superior Tribunal de Justi\u00e7a j\u00e1 possu\u00eda orienta\u00e7\u00e3o firmada de que, nos termos do art. 50, para haver a desconsidera\u00e7\u00e3o da personalidade jur\u00eddica, as inst\u00e2ncias ordin\u00e1rias deveriam, fundamentadamente, concluir pela ocorr\u00eancia do desvio de sua finalidade ou confus\u00e3o patrimonial desta com a de seus s\u00f3cios, requisitos objetivos sem os quais a medida tornava-se incab\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nessa senda, a jurisprud\u00eancia do STJ firmou a orienta\u00e7\u00e3o de que a mera inexist\u00eancia de bens penhor\u00e1veis e\/ou encerramento irregular das atividades da empresa n\u00e3o seriam suficientes para autoriza\u00e7\u00e3o da aplica\u00e7\u00e3o do instituto da disregard. Ap\u00f3s as referidas altera\u00e7\u00f5es legislativas promovidas pela Lei n. 13.874\/2019, as Turmas que comp\u00f5em a Segunda Se\u00e7\u00e3o do STJ mantiveram a mesma orienta\u00e7\u00e3o jurisprudencial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por fim, acrescente-se, por oportuno, que o aludido racioc\u00ednio constru\u00eddo pela jurisprud\u00eancia da Segunda Se\u00e7\u00e3o n\u00e3o encontra \u00f3bice no disposto na S\u00famula 435\/STJ, firmada no \u00e2mbito da colenda Primeira Se\u00e7\u00e3o: &#8220;Presume-se dissolvida irregularmente a empresa que deixar de funcionar no seu domic\u00edlio fiscal, sem comunica\u00e7\u00e3o aos \u00f3rg\u00e3os competentes, legitimando o redirecionamento da execu\u00e7\u00e3o fiscal para o s\u00f3cio-gerente&#8221; (julgado em 14\/04\/2010, DJe de 13\/05\/2010).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; O referido enunciado sumular trata de redirecionamento de execu\u00e7\u00e3o fiscal ao s\u00f3cio-gerente de empresa irregularmente dissolvida, \u00e0 luz de preceitos do C\u00f3digo Tribut\u00e1rio Nacional. Por outro lado, o presente repetitivo, como visto, trata a respeito da interpreta\u00e7\u00e3o do art. 50 do C\u00f3digo Civil, com aplica\u00e7\u00e3o da teoria maior da desconsidera\u00e7\u00e3o da personalidade jur\u00eddica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com base nessas considera\u00e7\u00f5es, tem-se que tanto a doutrina como a jurisprud\u00eancia desta Corte de Justi\u00e7a entendem que, em se tratando de rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas de natureza civil-empresarial, o legislador p\u00e1trio, no art. 50 do CC de 2002, adotou a teoria maior da desconsidera\u00e7\u00e3o, que exige a demonstra\u00e7\u00e3o da ocorr\u00eancia de elemento objetivo relativo a qualquer um dos requisitos previstos na norma, caracterizadores de abuso da personalidade jur\u00eddica: (I) desvio de finalidade (ato intencional dos s\u00f3cios em fraudar terceiros com o uso abusivo da personalidade jur\u00eddica); ou (II) confus\u00e3o patrimonial (caracterizada pela inexist\u00eancia, no campo dos fatos, de separa\u00e7\u00e3o patrimonial entre o patrim\u00f4nio da pessoa jur\u00eddica e dos s\u00f3cios ou, ainda, dos haveres de diversas pessoas jur\u00eddicas, al\u00e9m de outras formas).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por conseguinte, sendo a desconsidera\u00e7\u00e3o da personalidade jur\u00eddica, prevista no referido art. 50 do C\u00f3digo Civil, medida de car\u00e1ter excepcional, a mera inexist\u00eancia de bens penhor\u00e1veis e\/ou eventual encerramento irregular das atividades da empresa n\u00e3o s\u00e3o suficientes para autorizar a aludida desconsidera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nessa medida, o encerramento da sociedade somente ser\u00e1 causa de desconsidera\u00e7\u00e3o de sua personalidade jur\u00eddica quando sua dissolu\u00e7\u00e3o ou inatividade irregular tenha o fim de fraudar a lei, com o desvirtuamento da finalidade institucional ou confus\u00e3o patrimonial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Do mesmo modo, a constata\u00e7\u00e3o de inexist\u00eancia de bens, por si s\u00f3, n\u00e3o ser\u00e1 capaz de viabilizar a aplica\u00e7\u00e3o do art. 50 do C\u00f3digo Civil, sendo exig\u00edvel que, al\u00e9m dela, haja a comprova\u00e7\u00e3o de que houve deliberada inten\u00e7\u00e3o de fraudar a lei e lesar os credores, ou seja, de que houve abuso da personalidade jur\u00eddica, por meio de desvio de finalidade ou de confus\u00e3o patrimonial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, fixa-se a seguinte tese do Tema 1210\/STJ: &#8220;Nas rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas de direito civil e empresarial, a desconsidera\u00e7\u00e3o da personalidade jur\u00eddica requer a efetiva comprova\u00e7\u00e3o de abuso da personalidade jur\u00eddica, caracterizado por desvio de finalidade ou por confus\u00e3o patrimonial, nos termos exigidos pelo art. 50 do C\u00f3digo Civil (Teoria Maior), sendo insuficiente a mera inexist\u00eancia de bens penhor\u00e1veis e\/ou de encerramento irregular das atividades da sociedade empres\u00e1ria&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-8-debitos-condominiais-e-recuperacao-judicial\">8. D\u00e9bitos condominiais e recupera\u00e7\u00e3o judicial<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os d\u00e9bitos condominiais, <strong>mesmo anteriores ao pedido de recupera\u00e7\u00e3o judicial, s\u00e3o cr\u00e9ditos extraconcursais<\/strong>, n\u00e3o se submetendo ao Ju\u00edzo da recupera\u00e7\u00e3o judicial e podendo ser executados no Ju\u00edzo c\u00edvel competente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 2.206.633-PR, Rel. Min. Ricardo Villas B\u00f4as Cueva, Rel. p\/ ac\u00f3rd\u00e3o Min. Raul Ara\u00fajo, Segunda Se\u00e7\u00e3o, por maioria, julgado em 13\/5\/2026 (Tema 1.391).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Condom\u00ednio edil\u00edcio possu\u00eda d\u00edvidas anteriores ao pedido de recupera\u00e7\u00e3o judicial de empresa propriet\u00e1ria de unidade. A controv\u00e9rsia: as cotas condominiais vencidas antes da recupera\u00e7\u00e3o s\u00e3o cr\u00e9ditos concursais (sujeitas ao plano) ou extraconcursais (execut\u00e1veis fora do ju\u00edzo recuperacional)? Havia diverg\u00eancia entre a Terceira Turma (concursais, pelo crit\u00e9rio temporal do Tema 1.051) e a Quarta Turma (extraconcursais, pela natureza <em>propter rem<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n\u00ba 11.101\/2005, art. 49, caput<\/strong><em> (cr\u00e9ditos sujeitos \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o judicial).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n\u00ba 11.101\/2005, art. 84, III<\/strong><em> (despesas necess\u00e1rias \u00e0 administra\u00e7\u00e3o do ativo (extraconcursais)).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Tema 1.051\/STJ<\/strong><em> (data do fato gerador determina a sujei\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda As despesas condominiais t\u00eam natureza propter rem: vinculam-se objetivamente ao im\u00f3vel, n\u00e3o \u00e0 pessoa do devedor. S\u00e3o essenciais \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o do bem que integra o patrim\u00f4nio da recuperanda, enquadrando-se no conceito de despesas necess\u00e1rias \u00e0 administra\u00e7\u00e3o do ativo (art. 84, III, LRF), por analogia aplic\u00e1vel tamb\u00e9m \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd Se classificadas como concursais, quem suportaria a d\u00edvida seriam o condom\u00ednio e os demais cond\u00f4minos &#8211; pessoas alheias \u00e0 atividade empresarial. A solu\u00e7\u00e3o extraconcursal protege terceiros n\u00e3o contratantes, regidos por regime pr\u00f3prio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A Segunda Se\u00e7\u00e3o uniformizou a diverg\u00eancia interna: <strong>os d\u00e9bitos condominiais, mesmo anteriores ao pedido de recupera\u00e7\u00e3o, s\u00e3o extraconcursais<\/strong>. O crit\u00e9rio n\u00e3o \u00e9 temporal (data do fato gerador), mas substancial (natureza propter rem do cr\u00e9dito).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A natureza propter rem \u00e9 determinante: <strong>vincula a obriga\u00e7\u00e3o objetivamente ao im\u00f3vel, n\u00e3o \u00e0 pessoa do devedor<\/strong>. Se a unidade aut\u00f4noma integra o ativo da recuperanda, as cotas condominiais s\u00e3o despesas necess\u00e1rias \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o desse ativo, inserindo-se no art. 84, III, da LRF.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A solu\u00e7\u00e3o protege terceiros n\u00e3o contratantes: <strong>o condom\u00ednio e os demais cond\u00f4minos s\u00e3o alheios \u00e0 rela\u00e7\u00e3o empresarial e \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o judicial<\/strong>. Submet\u00ea-los ao plano significaria fazer o conjunto dos cond\u00f4minos arcar com o d\u00e9bito da empresa em recupera\u00e7\u00e3o &#8211; solu\u00e7\u00e3o incompat\u00edvel com a equidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f As consequ\u00eancias pr\u00e1ticas: <strong>as execu\u00e7\u00f5es por cotas condominiais n\u00e3o se submetem ao stay period nem \u00e0 habilita\u00e7\u00e3o no quadro geral de credores<\/strong>. Tramitam no ju\u00edzo c\u00edvel competente, cabendo ao ju\u00edzo recuperacional apenas o controle dos atos constritivos sobre bens essenciais ao soerguimento da empresa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre a natureza dos d\u00e9bitos condominiais anteriores ao pedido de recupera\u00e7\u00e3o judicial:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) S\u00e3o cr\u00e9ditos concursais, conforme o crit\u00e9rio temporal do Tema 1.051\/STJ.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) S\u00e3o cr\u00e9ditos concursais quando o fato gerador ocorrer antes do pedido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) S\u00e3o cr\u00e9ditos extraconcursais, por sua natureza propter rem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Submetem-se \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o apenas se constarem do plano aprovado pelos credores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) S\u00e3o extraconcursais apenas quando vencidos ap\u00f3s o pedido de recupera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. O Tema 1.391 afastou expressamente o crit\u00e9rio temporal do Tema 1.051 para d\u00e9bitos condominiais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. O crit\u00e9rio n\u00e3o \u00e9 temporal; \u00e9 a natureza propter rem que determina o tratamento extraconcursal, independentemente do momento do fato gerador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) <strong>Correta.<\/strong> A natureza propter rem vincula os d\u00e9bitos condominiais ao im\u00f3vel; integram o conceito de despesas necess\u00e1rias \u00e0 administra\u00e7\u00e3o do ativo (art. 84, III, LRF), por analogia, sendo extraconcursais mesmo se anteriores ao pedido (Tema 1.391\/STJ).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. A submiss\u00e3o \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o \u00e9 objetiva (decorre do art. 49 da LRF), n\u00e3o convencional; e o Tema 1.391 firmou que esses d\u00e9bitos n\u00e3o se submetem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. A tese expressa: &#8216;mesmo anteriores ao pedido&#8217;, os d\u00e9bitos condominiais s\u00e3o extraconcursais.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-inteiro-teor-6\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A controv\u00e9rsia posta no Recurso Especial Repetitivo consiste em definir: &#8220;se as despesas\/d\u00e9bitos\/cotas condominiais anteriores \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o judicial s\u00e3o considerados cr\u00e9ditos extraconcursais ou concursais, \u00e0 luz dos artigos 49 e 84 da Lei n. 11.101\/2005.&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A respeito do tema, a Quarta Turma do Superior Tribunal de Justi\u00e7a tem adotado entendimento, at\u00e9 h\u00e1 pouco consolidado na Corte, no sentido de enquadrar na categoria de cr\u00e9dito extraconcursal aquele correspondente \u00e0s cotas condominiais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por sua vez, a Terceira Turma do STJ, que antes tamb\u00e9m acolhia o entendimento consolidado, adotou nova compreens\u00e3o, baseada no crit\u00e9rio temporal (e n\u00e3o mais na finalidade) como par\u00e2metro exclusivo ou prevalente de sujei\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito condominial aos efeitos da recupera\u00e7\u00e3o judicial. Assim, passou a entender que os cr\u00e9ditos condominiais vencidos antes do pedido de recupera\u00e7\u00e3o judicial s\u00e3o cr\u00e9ditos concursais, nos termos do disposto na regra do art. 49, caput, da Lei n. 11.101\/2005 e da abrang\u00eancia do Repetitivo &#8211; Tema 1051\/STJ: &#8220;Para o fim de submiss\u00e3o aos efeitos da recupera\u00e7\u00e3o judicial, considera-se que a exist\u00eancia do cr\u00e9dito \u00e9 determinada pela data em que ocorreu o seu fato gerador.&#8221;. Ocorre que, por ocasi\u00e3o do julgamento do REsp 1.929.926\/SP, a Segunda Se\u00e7\u00e3o do STJ, em execu\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito decorrente de cotas condominiais inadimplidas, movida por condom\u00ednio edil\u00edcio, admitiu a penhora do im\u00f3vel alienado fiduciariamente para satisfa\u00e7\u00e3o dos d\u00e9bitos condominiais incidentes sobre o pr\u00f3prio bem, esclarecendo que o credor fiduci\u00e1rio, titular da propriedade resol\u00favel, ostenta, &#8220;em \u00faltima an\u00e1lise, a posi\u00e7\u00e3o de cond\u00f4mino&#8221; e n\u00e3o pode ser dispensado do pagamento das cotas. Na oportunidade, fez-se tamb\u00e9m alus\u00e3o comparativa ao contrato de loca\u00e7\u00e3o e \u00e0 inviabilidade de exonerar-se o locador e o im\u00f3vel locado, na hip\u00f3tese de d\u00edvidas condominiais inadimplidas por locat\u00e1rio contratualmente obrigado, sempre em preju\u00edzo de terceiros n\u00e3o contratantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, caso se entenda que as cotas condominiais constituem cr\u00e9dito concursal, tamb\u00e9m nesse caso quem ir\u00e1 suportar, na pr\u00e1tica, os d\u00e9bitos submetidos ao plano de recupera\u00e7\u00e3o ser\u00e3o o condom\u00ednio edil\u00edcio e os demais cond\u00f4minos, pessoas completamente estranhas \u00e0s rela\u00e7\u00f5es mercantis e aos tr\u00e2mites do processo de recupera\u00e7\u00e3o judicial, as quais, certamente, nem sequer se habilitar\u00e3o como credoras da sociedade em crise (arts. 346 e 349 do C\u00f3digo Civil). Na pr\u00e1tica, a sociedade em recupera\u00e7\u00e3o judicial jamais pagar\u00e1 a d\u00edvida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No contexto considerado, em que se tem cr\u00e9dito eminentemente civil e propter rem, de matriz regida pelo C\u00f3digo Civil, embora n\u00e3o tenha sido expressamente contemplado pelo legislador da recupera\u00e7\u00e3o judicial empresarial, reputa-se de pouca relev\u00e2ncia a distin\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica entre os institutos empresariais da fal\u00eancia e da recupera\u00e7\u00e3o judicial para fins de enquadramento dos encargos condominiais civis no conceito de &#8220;despesas necess\u00e1rias \u00e0 administra\u00e7\u00e3o do ativo&#8221;, previsto no art. 84 da Lei de Recupera\u00e7\u00e3o Judicial e Fal\u00eancia &#8211; LRF. Dessa forma, mostra-se despicienda a discuss\u00e3o acerca do momento do fato gerador para efeitos de submiss\u00e3o aos regimes da Lei n. 11.101\/2005, tal como estabelecido no gen\u00e9rico Repetitivo &#8211; Tema 1051\/STJ. As rela\u00e7\u00f5es disciplinadas pela Lei n. 11.101\/2005 incidem sobre cr\u00e9ditos oriundos sobretudo de atividades empresariais, n\u00e3o se sobrepondo a direitos de terceiros n\u00e3o contratantes, regidos por regulamento pr\u00f3prio, como as rela\u00e7\u00f5es entre condom\u00ednio edil\u00edcio e cond\u00f4minos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nessa senda, as despesas condominiais, por sua natureza propter rem, inserem-se no conceito de &#8220;despesas necess\u00e1rias \u00e0 administra\u00e7\u00e3o do ativo&#8221;, previstas no art. 84, III, da LRF, representando custos essenciais para a manuten\u00e7\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o do bem que integra o patrim\u00f4nio da recuperanda. Tal caracter\u00edstica justifica seu tratamento como cr\u00e9dito extraconcursal, independentemente do momento de sua constitui\u00e7\u00e3o. A natureza propter rem das taxas condominiais as vincula objetiva e diretamente ao im\u00f3vel e n\u00e3o \u00e0 situa\u00e7\u00e3o subjetiva e indireta da pessoa do devedor, o que refor\u00e7a seu car\u00e1ter extraconcursal. Destarte, n\u00e3o obstante o mencionado art. 84 seja referente ao processo falimentar, \u00e9 plenamente poss\u00edvel sua aplica\u00e7\u00e3o, por analogia, tamb\u00e9m aos casos de recupera\u00e7\u00e3o judicial, em se tratando de despesas condominiais, tendo em vista integrarem o conceito de &#8220;despesas necess\u00e1rias \u00e0 administra\u00e7\u00e3o do ativo&#8221;. Dessa forma, os d\u00e9bitos condominiais, por possu\u00edrem natureza propter rem e, por isso, configurarem cr\u00e9ditos extraconcursais, n\u00e3o se submetem aos efeitos da recupera\u00e7\u00e3o judicial, tampouco \u00e0 habilita\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito ou \u00e0 suspens\u00e3o das a\u00e7\u00f5es e execu\u00e7\u00f5es. Tais verbas n\u00e3o s\u00e3o atingidas pela suspens\u00e3o do per\u00edodo de blindagem (stay period), impondo-se o prosseguimento dos feitos executivos. Nessa toada, os cr\u00e9ditos extraconcursais podem ser executados paralelamente \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o judicial, sendo competente o Ju\u00edzo recuperacional apenas para o controle dos atos constritivos sobre bens indispens\u00e1veis ao soerguimento, circunst\u00e2ncia que implicar\u00e1 apenas eventualmente a suspens\u00e3o de processos execut\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com isso, firma-se a tese repetitiva do Tema 1391\/STJ: &#8220;Os d\u00e9bitos condominiais, mesmo anteriores ao pedido de recupera\u00e7\u00e3o judicial, s\u00e3o cr\u00e9ditos extraconcursais, n\u00e3o se submetendo ao Ju\u00edzo da recupera\u00e7\u00e3o judicial, podendo ser executados no Ju\u00edzo c\u00edvel competente.&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-9-previdencia-complementar-prazo-para-restituicao-de-valores-recebidos-por-liminar-revogada\">9. Previd\u00eancia complementar: prazo para restitui\u00e7\u00e3o de valores recebidos por liminar revogada<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pretens\u00e3o de restitui\u00e7\u00e3o de valores de benef\u00edcios previdenci\u00e1rios complementares recebidos por for\u00e7a de tutela provis\u00f3ria posteriormente revogada <strong>decorre da pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o contratual de previd\u00eancia complementar e atrai o prazo prescricional decenal do art. 205 do CC<\/strong>, n\u00e3o se enquadrando como enriquecimento sem causa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">EREsp 1.951.463-RS, Rel. Min. Jo\u00e3o Ot\u00e1vio de Noronha, Segunda Se\u00e7\u00e3o, por unanimidade, julgado em 13\/5\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dona Florinda, benefici\u00e1ria de previd\u00eancia complementar, recebeu valores em raz\u00e3o de tutela antecipada que foi posteriormente revogada. A entidade pleiteou a restitui\u00e7\u00e3o. Discutia-se o prazo prescricional: trienal (art. 206, \u00a7 3\u00ba, IV, CC, por enriquecimento sem causa) ou decenal (art. 205, CC, por decorrer da rela\u00e7\u00e3o contratual)? Havia diverg\u00eancia jurisprudencial entre Turmas. A Segunda Se\u00e7\u00e3o uniformizou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CC, art. 205<\/strong><em> (prazo prescricional geral de dez anos).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CC, art. 206, \u00a7 3\u00ba, IV<\/strong><em> (prazo trienal para pretens\u00e3o de enriquecimento sem causa).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>REsp 1.939.455\/DF (Segunda Se\u00e7\u00e3o)<\/strong><em> (prazo decenal para restitui\u00e7\u00e3o em previd\u00eancia complementar).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda O enriquecimento sem causa pressup\u00f5e a inexist\u00eancia de causa jur\u00eddica para o pagamento. Quando h\u00e1 contrato subjacente (previd\u00eancia complementar) que justifica o pagamento, ainda que por for\u00e7a de decis\u00e3o liminar, h\u00e1 causa jur\u00eddica &#8211; afasta-se o art. 206, \u00a7 3\u00ba, IV, do CC.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd O pagamento por for\u00e7a de tutela provis\u00f3ria decorre da rela\u00e7\u00e3o contratual previamente existente. A posterior revoga\u00e7\u00e3o n\u00e3o retroage para qualificar o pagamento como sem causa: apenas torna devida a restitui\u00e7\u00e3o, com fundamento contratual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A controv\u00e9rsia exigia identificar a natureza da pretens\u00e3o restitut\u00f3ria. A Segunda Se\u00e7\u00e3o firmou que <strong>a pretens\u00e3o decorre da pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o contratual de previd\u00eancia complementar, n\u00e3o de enriquecimento sem causa<\/strong>. A causa jur\u00eddica do pagamento &#8211; o contrato &#8211; n\u00e3o desaparece pela revoga\u00e7\u00e3o da liminar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f O ac\u00f3rd\u00e3o paradigma (REsp 1.939.455\/DF) assentou que, <strong>existindo causa jur\u00eddica para os pagamentos &#8211; a pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o contratual -, n\u00e3o se pode qualificar a pretens\u00e3o como enriquecimento sem causa<\/strong>. Esse instituto opera subsidiariamente; afasta-se quando h\u00e1 causa jur\u00eddica identific\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A consequ\u00eancia: <strong>aplica-se o prazo decenal do art. 205 do CC (regra geral) em vez do trienal do art. 206, \u00a7 3\u00ba, IV (enriquecimento)<\/strong>. A pretens\u00e3o insere-se no contexto da rela\u00e7\u00e3o jur\u00eddica subjacente, com seu pr\u00f3prio regime prescricional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A decis\u00e3o tem impacto significativo: <strong>amplia substancialmente o prazo para a entidade reaver valores pagos por for\u00e7a de liminares posteriormente revogadas<\/strong>, uniformizando entendimento conflituoso entre Turmas e protegendo a integridade dos fundos previdenci\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O prazo prescricional para restitui\u00e7\u00e3o, \u00e0 entidade de previd\u00eancia complementar, de valores recebidos por for\u00e7a de tutela provis\u00f3ria posteriormente revogada:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) \u00c9 trienal, por se tratar de enriquecimento sem causa do benefici\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) \u00c9 quinquenal, por equipara\u00e7\u00e3o \u00e0 pretens\u00e3o contra a Fazenda P\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) \u00c9 decenal, por decorrer da pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o contratual de previd\u00eancia complementar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) \u00c9 bienal, por se tratar de pretens\u00e3o contra direito dispon\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) N\u00e3o est\u00e1 sujeito a prazo prescricional, pois decorre de revoga\u00e7\u00e3o judicial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. O enriquecimento sem causa opera subsidiariamente; h\u00e1 causa jur\u00eddica &#8211; o contrato de previd\u00eancia complementar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. As entidades de previd\u00eancia complementar n\u00e3o s\u00e3o Fazenda P\u00fablica; aplica-se o regime do CC.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) <strong>Correta.<\/strong> A pretens\u00e3o decorre da rela\u00e7\u00e3o contratual subjacente, n\u00e3o de enriquecimento sem causa; aplica-se o prazo geral decenal do art. 205 do CC (EREsp 1.951.463-RS).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. O prazo bienal n\u00e3o se aplica; e o crit\u00e9rio n\u00e3o \u00e9 a disponibilidade do direito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. A revoga\u00e7\u00e3o da liminar gera a pretens\u00e3o restitut\u00f3ria, mas o prazo prescricional incide normalmente.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-inteiro-teor-7\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A quest\u00e3o em discuss\u00e3o consiste em definir qual o prazo prescricional aplic\u00e1vel \u00e0 pretens\u00e3o de restitui\u00e7\u00e3o de valores de benef\u00edcios previdenci\u00e1rios complementares pagos por for\u00e7a de tutela antecipada (decis\u00e3o liminar) posteriormente revogada em rela\u00e7\u00e3o jur\u00eddica de previd\u00eancia complementar: se o prazo trienal do art. 206, 3, IV, do C\u00f3digo Civil, por suposto enriquecimento sem causa; ou se o prazo decenal do art. 205 do C\u00f3digo Civil, por decorrer a pretens\u00e3o da pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o contratual subjacente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; O ac\u00f3rd\u00e3o embargado entendeu que a pretens\u00e3o estaria fundada no enriquecimento sem causa, atraindo a prescri\u00e7\u00e3o trienal do art. 206, 3, IV, do C\u00f3digo Civil. J\u00e1 o paradigma assentou que, existindo causa jur\u00eddica para os pagamentos &#8211; qual seja, a pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o contratual de previd\u00eancia complementar -, n\u00e3o se pode qualificar a pretens\u00e3o como enriquecimento sem causa, afastando-se, portanto, a incid\u00eancia do prazo prescricional trienal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando proferido o ac\u00f3rd\u00e3o embargado, havia efetivamente diverg\u00eancia jurisprudencial acerca do prazo prescricional aplic\u00e1vel \u00e0 restitui\u00e7\u00e3o de valores pagos em raz\u00e3o de tutela antecipada posteriormente revogada. Todavia, ulteriormente, a controv\u00e9rsia foi definitivamente enfrentada pela Segunda Se\u00e7\u00e3o do Superior Tribunal de Justi\u00e7a no julgamento do REsp 1.939.455\/DF, julgado em 26\/4\/2023. Na ocasi\u00e3o, o colegiado firmou orienta\u00e7\u00e3o no sentido de que \u00e9 de dez anos o prazo prescricional aplic\u00e1vel \u00e0 pretens\u00e3o de restitui\u00e7\u00e3o de valores de benef\u00edcios previdenci\u00e1rios complementares recebidos por for\u00e7a de decis\u00e3o liminar posteriormente revogada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A Segunda Se\u00e7\u00e3o assentou que, nessas hip\u00f3teses, n\u00e3o se trata de pretens\u00e3o fundada em enriquecimento sem causa, pois os pagamentos realizados decorrem de rela\u00e7\u00e3o jur\u00eddica previamente existente &#8211; o contrato de previd\u00eancia complementar &#8211; que constitui causa jur\u00eddica suficiente para os valores percebidos. Consequentemente, afastou-se a incid\u00eancia do prazo prescricional trienal, aplicando-se o prazo geral decenal previsto no art. 205 do C\u00f3digo Civil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Portanto, a jurisprud\u00eancia do STJ passou a reconhecer que a pretens\u00e3o de restitui\u00e7\u00e3o de valores pagos em raz\u00e3o de tutela provis\u00f3ria posteriormente revogada insere-se no contexto da rela\u00e7\u00e3o jur\u00eddica subjacente, n\u00e3o podendo ser reduzida \u00e0 l\u00f3gica subsidi\u00e1ria do enriquecimento sem causa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, os valores cuja restitui\u00e7\u00e3o se pretende foram pagos em decorr\u00eancia de decis\u00e3o liminar proferida no \u00e2mbito de rela\u00e7\u00e3o contratual de previd\u00eancia complementar. Assim, em conson\u00e2ncia com o entendimento firmado pela Segunda Se\u00e7\u00e3o do STJ no REsp n. 1.939.455\/DF, deve incidir o prazo prescricional decenal previsto no art. 205 do C\u00f3digo Civil.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-10-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-contratos-atipicos-de-curta-estadia-estilo-airbnb\">10.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Contratos at\u00edpicos de curta estadia (estilo Airbnb)<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A utiliza\u00e7\u00e3o do im\u00f3vel em contratos at\u00edpicos de curta estadia, <strong>quando houver reiterada explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ou profissionaliza\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o, descaracteriza a destina\u00e7\u00e3o residencial<\/strong> e exige previs\u00e3o na conven\u00e7\u00e3o do condom\u00ednio, aprovada por dois ter\u00e7os dos cond\u00f4minos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 2.121.055-MG, Rel. Min. Nancy Andrighi, Segunda Se\u00e7\u00e3o, por maioria, julgado em 7\/5\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Propriet\u00e1ria de apartamento em condom\u00ednio com conven\u00e7\u00e3o de uso &#8220;estritamente residencial&#8221; disponibilizava o im\u00f3vel por plataforma digital (Airbnb) para curta estadia. O condom\u00ednio alegou descaracteriza\u00e7\u00e3o da destina\u00e7\u00e3o residencial. A propriet\u00e1ria sustentou que cada estadia, isoladamente, n\u00e3o configurava atividade hoteleira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CC, arts. 1.331 e 1.336, IV<\/strong><em> (condom\u00ednio edil\u00edcio e dever de respeitar a destina\u00e7\u00e3o).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CC, art. 1.351<\/strong><em> (mudan\u00e7a de destina\u00e7\u00e3o exige aprova\u00e7\u00e3o dos cond\u00f4minos).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>S\u00famula 260\/STJ<\/strong><em> (efic\u00e1cia da conven\u00e7\u00e3o do condom\u00ednio).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda Os contratos at\u00edpicos de curta estadia (intermediados ou n\u00e3o por plataformas digitais) n\u00e3o se confundem com loca\u00e7\u00e3o por temporada (Lei n\u00ba 8.245\/1991) nem com hospedagem hoteleira (Lei n\u00ba 11.771\/2008). S\u00e3o figura pr\u00f3pria, com regime jur\u00eddico distinto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd A mera disponibiliza\u00e7\u00e3o do im\u00f3vel por plataforma digital n\u00e3o descaracteriza, por si, a destina\u00e7\u00e3o residencial. O que descaracteriza \u00e9 a reiterada explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ou profissionaliza\u00e7\u00e3o: oferta a desconhecidos, frequ\u00eancia, aus\u00eancia de quantidade m\u00ednima de di\u00e1rias, oferecimento de servi\u00e7os (limpeza, refei\u00e7\u00f5es, concierge).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A Segunda Se\u00e7\u00e3o fez distin\u00e7\u00e3o fina, evitando dois extremos. De um lado, <strong>a mera utiliza\u00e7\u00e3o de plataforma digital (Airbnb) n\u00e3o descaracteriza a destina\u00e7\u00e3o residencial<\/strong>: o canal de oferta \u00e9 neutro. Um propriet\u00e1rio pode anunciar loca\u00e7\u00e3o por temporada via plataforma sem mudar a natureza do uso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f De outro lado, <strong>a reiterada explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e a profissionaliza\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o descaracterizam o uso residencial<\/strong>. Os indicadores: oferta a desconhecidos entre si, frequ\u00eancia, aus\u00eancia de quantidade m\u00ednima de di\u00e1rias, oferecimento de servi\u00e7os hoteleiros (limpeza, refei\u00e7\u00f5es, recep\u00e7\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 Esses elementos s\u00e3o analisados em cada hip\u00f3tese concreta, mas a conjuga\u00e7\u00e3o caracteriza <strong>verdadeira atividade hoteleira informal<\/strong>, incompat\u00edvel com a destina\u00e7\u00e3o residencial fixada na conven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A consequ\u00eancia: nos termos do art. 1.351 do CC, <strong>a mudan\u00e7a de destina\u00e7\u00e3o exige aprova\u00e7\u00e3o por dois ter\u00e7os dos cond\u00f4minos em assembleia<\/strong>. Sem essa aprova\u00e7\u00e3o, o uso comercial reiterado \u00e9 vedado, ainda que a conven\u00e7\u00e3o apenas defina a destina\u00e7\u00e3o como residencial sem proibir expressamente o curta estadia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre a utiliza\u00e7\u00e3o de im\u00f3vel em condom\u00ednio residencial para contratos at\u00edpicos de curta estadia:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) \u00c9 vedada, por descaracterizar a destina\u00e7\u00e3o residencial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) \u00c9 permitida, pois cada estadia caracteriza loca\u00e7\u00e3o por temporada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) \u00c9 descaracterizada quando houver reiterada explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ou profissionaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) \u00c9 permitida apenas em condom\u00ednios com conven\u00e7\u00e3o que autorize expressamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) \u00c9 permitida quando intermediada por plataforma com cadastro digital.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A mera disponibiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o descaracteriza; o que descaracteriza \u00e9 a profissionaliza\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. Os contratos at\u00edpicos de curta estadia n\u00e3o se confundem com loca\u00e7\u00e3o por temporada (Lei n\u00ba 8.245\/1991).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) <strong>Correta.<\/strong> A reiterada explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ou profissionaliza\u00e7\u00e3o (oferta a desconhecidos, frequ\u00eancia, servi\u00e7os) descaracteriza a destina\u00e7\u00e3o residencial; a mudan\u00e7a exige aprova\u00e7\u00e3o por dois ter\u00e7os (CC, art. 1.351).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. A regra \u00e9 que o uso conforme a destina\u00e7\u00e3o \u00e9 permitido; a exce\u00e7\u00e3o (profissionaliza\u00e7\u00e3o) \u00e9 que exige aprova\u00e7\u00e3o por dois ter\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. O meio de divulga\u00e7\u00e3o (plataforma digital) \u00e9 neutro; o crit\u00e9rio \u00e9 a natureza concreta da explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-inteiro-teor-8\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A quest\u00e3o em discuss\u00e3o consiste em decidir se, diante da previs\u00e3o, em conven\u00e7\u00e3o condominial, de uso residencial do condom\u00ednio, \u00e9 poss\u00edvel aos cond\u00f4minos celebrar contratos at\u00edpicos de estadia de curta dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, a recorrente \u00e9 propriet\u00e1ria de apartamento em um condom\u00ednio e pretende utilizar seu im\u00f3vel para contratos at\u00edpicos de curta estadia, normalmente intermediados por plataforma digital, como o Airbnb. O condom\u00ednio afirma que tal modalidade de contrata\u00e7\u00e3o \u00e9 vedada pela conven\u00e7\u00e3o. A conven\u00e7\u00e3o de condom\u00ednio n\u00e3o disp\u00f5e expressamente sobre a permiss\u00e3o ou proibi\u00e7\u00e3o de tais modalidades de contrato. Prev\u00ea apenas que &#8220;s\u00e3o deveres dos cond\u00f4minos: n\u00e3o usar as respectivas unidades aut\u00f4nomas, nem alug\u00e1-las ou ced\u00ea-las, ainda que a t\u00edtulo gratuito, para [&#8230;] rep\u00fablica, pens\u00f5es ou hot\u00e9is, dep\u00f3sitos, ou qualquer utiliza\u00e7\u00e3o que n\u00e3o seja estritamente residencial&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; O Tribunal de origem, reformando a senten\u00e7a, interpretou que a previs\u00e3o de utiliza\u00e7\u00e3o apenas residencial do im\u00f3vel afasta a possibilidade de os cond\u00f4minos celebrarem contratos at\u00edpicos de estadia de curta dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Como sabido, o condom\u00ednio edil\u00edcio constitui uma comunh\u00e3o pro diviso, tamb\u00e9m intitulada de propriedade horizontal. No condom\u00ednio edil\u00edcio coexistem partes que s\u00e3o de propriedade exclusiva e partes que s\u00e3o de propriedade comum dos cond\u00f4minos (art. 1.331 do C\u00f3digo Civil). Esse regime peculiar requer a exist\u00eancia de uma norma que regulamente a utiliza\u00e7\u00e3o das partes comuns e exclusivas do condom\u00ednio e, assim, viabilize a conviv\u00eancia harm\u00f4nica dos cond\u00f4minos. Essa norma ou conjunto de normas \u00e9 denominada conven\u00e7\u00e3o de condom\u00ednio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A conven\u00e7\u00e3o do condom\u00ednio possui natureza &#8220;institucional normativa, n\u00e3o tendo natureza jur\u00eddica contratual&#8221;, motivo pelo qual vincula todos os cond\u00f4minos nos termos da S\u00famula 260\/STJ, segundo a qual &#8220;a conven\u00e7\u00e3o de condom\u00ednio aprovada, ainda que sem registro, \u00e9 eficaz para regular as rela\u00e7\u00f5es entre os cond\u00f4minos&#8221;(REsp 1.733.370\/GO, Terceira Turma, DJe 31\/08\/2018).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nos termos do art. 1.336, IV, do CC, \u00e9 dever dos cond\u00f4minos &#8220;dar \u00e0s suas partes a mesma destina\u00e7\u00e3o que tem a edifica\u00e7\u00e3o&#8221;. Por isso, se um condom\u00ednio tem destina\u00e7\u00e3o residencial, os apartamentos devem tamb\u00e9m ser usados com destina\u00e7\u00e3o residencial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A modalidade contratual trazida no presente processo j\u00e1 foi objeto de amplos estudos e intensos debates por ambas as Turmas de Direito Privado do Superior Tribunal de Justi\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nos julgamentos do REsp 1.819.075\/RS (Quarta Turma, DJe de 27\/05\/2021) e do REsp 1.884.483\/PR (Terceira Turma, DJe de 16\/12\/2021), decidiu-se que os contratos como aquele trazido no presente processo seriam at\u00edpicos, por n\u00e3o serem exatamente contratos de loca\u00e7\u00e3o residencial por temporada, a atrair incid\u00eancia da Lei n. 8.245\/1991, tampouco contratos de hospedagem hoteleira, a atrair a incid~encia da Lei n. 11.771\/2008.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A atipicidade da natureza jur\u00eddica revela-se na pr\u00f3pria nomenclatura: n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel cham\u00e1-los de &#8220;loca\u00e7\u00f5es&#8221; ou &#8220;hospedagens&#8221;, por serem termos jur\u00eddicos pr\u00f3prios. Por isso, prop\u00f5e-se design\u00e1-los como contratos at\u00edpicos de curta estadia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A atipicidade tamb\u00e9m influencia o conceito. Os contratos at\u00edpicos de curta estadia s\u00e3o celebrados entre propriet\u00e1rios de im\u00f3veis e interessados em estadia de breve dura\u00e7\u00e3o. Caracterizam-se pela aus\u00eancia dos requisitos formais das duas modalidades contratuais de que se aproximam: (i) da loca\u00e7\u00e3o residencial por temporada, pois n\u00e3o h\u00e1 necessidade de descri\u00e7\u00e3o, em instrumento negocial, dos m\u00f3veis, dos utens\u00edlios e do estado em que se encontram; e (ii) da hospedagem hoteleira profissional, pois n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria a disponibiliza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os essenciais, licen\u00e7a de funcionamento e de licen\u00e7a edil\u00edcia de constru\u00e7\u00e3o ou certificado de conclus\u00e3o de constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; O meio de disponibiliza\u00e7\u00e3o do im\u00f3vel n\u00e3o caracteriza a natureza jur\u00eddica do neg\u00f3cio. \u00c9 irrelevante, para a classifica\u00e7\u00e3o jur\u00eddica, se a oferta a terceiros foi realizada por meio de plataformas digitais (de que \u00e9 exemplo o Airbnb &#8211; como normalmente s\u00e3o celebrados), imobili\u00e1rias, panfletos afixados nas portarias dos edif\u00edcios, an\u00fancios em classificados. Assim, tanto um contrato de loca\u00e7\u00e3o residencial por temporada, quanto um contrato de hospedagem, podem ser firmados por plataforma digital, sem que sua natureza jur\u00eddica reste descaracterizada. Pontue-se, contudo, que a utiliza\u00e7\u00e3o das plataformas digitais inegavelmente intensificou a celebra\u00e7\u00e3o de contratos at\u00edpicos de curta estadia, facilitando a comunica\u00e7\u00e3o entre os interessados no neg\u00f3cio, de modo a se tornarem muito comuns e populares. Como consequ\u00eancia, h\u00e1 maior rotatividade de pessoas nos condom\u00ednios, o que repercute na vida cotidiana dos demais cond\u00f4minos, afetando sua seguran\u00e7a e seu sossego.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Justamente pelos inc\u00f4modos da\u00ed decorrentes, discute-se se h\u00e1 permiss\u00e3o dos cond\u00f4minos de disponibilizarem seus im\u00f3veis por meio de contratos de curta estadia, diante da mera previs\u00e3o, em conven\u00e7\u00e3o condominial, de uso residencial. A resposta a tal indaga\u00e7\u00e3o acarreta outras repercuss\u00f5es jur\u00eddicas e consequ\u00eancias pr\u00e1ticas: quais medidas devem ser tomadas pelos cond\u00f4minos para proibir essa pr\u00e1tica; qual o qu\u00f3rum de aprova\u00e7\u00e3o de tal decis\u00e3o em assembleia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A esse respeito, ambas as Turmas de Direito Privado do STJ entendem que a mera disponibiliza\u00e7\u00e3o do im\u00f3vel por plataformas digitais n\u00e3o descaracteriza a natureza residencial do im\u00f3vel. \u00c9 poss\u00edvel que, preenchidos os requisitos formais para tanto, um cond\u00f4mino oferte seu apartamento para loca\u00e7\u00e3o residencial, por temporada ou n\u00e3o, utilizando tal meio. Contudo, a reiterada explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e a profissionaliza\u00e7\u00e3o desse servi\u00e7o, sim, descaracterizam a destina\u00e7\u00e3o residencial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c9 o que ocorre, exemplificativamente, na oferta de diversos c\u00f4modos a pessoas desconhecidas entre si; na frequ\u00eancia e habitualidade da disponibiliza\u00e7\u00e3o do im\u00f3vel; na aus\u00eancia de quantidade m\u00ednima de di\u00e1rias; no oferecimento de servi\u00e7os aos locat\u00e1rios, tais como limpezas di\u00e1rias da acomoda\u00e7\u00e3o, lavanderia, refei\u00e7\u00f5es, recep\u00e7\u00e3o, concierge, etc., que evidenciam finalidade comercial. Todos esses elementos dever\u00e3o ser considerados, em cada hip\u00f3tese concreta, para avaliar o desvio da finalidade residencial do im\u00f3vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nos termos do art. 1.351 do CC, a mudan\u00e7a da destina\u00e7\u00e3o do edif\u00edcio ou da unidade imobili\u00e1ria exige aprova\u00e7\u00e3o dos demais cond\u00f4minos. Assim, quando houver previs\u00e3o de utiliza\u00e7\u00e3o do condom\u00ednio para fins residenciais, a utiliza\u00e7\u00e3o do im\u00f3vel para contratos at\u00edpicos de curta estadia que descaracterizam tal uso somente ser\u00e1 poss\u00edvel se aprovada em assembleia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No que diz respeito ao qu\u00f3rum, para permitir destina\u00e7\u00e3o diversa da prevista em conven\u00e7\u00e3o, na reda\u00e7\u00e3o original do art. 1.351 do CC, era necess\u00e1ria a aprova\u00e7\u00e3o por unanimidade dos cond\u00f4minos. Sobrevinda a Lei n. 14.405\/2022, que alterou a reda\u00e7\u00e3o do referido dispositivo legal, atualmente, o qu\u00f3rum \u00e9 de dois ter\u00e7os dos cond\u00f4minos. Portanto, a utiliza\u00e7\u00e3o do im\u00f3vel em contratos at\u00edpicos de curta estadia, em que haja reiterada explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ou profissionaliza\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o, descaracteriza a destina\u00e7\u00e3o residencial, devendo ser aprovada por dois ter\u00e7os dos cond\u00f4minos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sendo a utiliza\u00e7\u00e3o pretendida pela recorrente marcada por frequ\u00eancia e habitualidade da disponibiliza\u00e7\u00e3o do im\u00f3vel, em baixa quantidade de di\u00e1rias, trata-se de contrato at\u00edpico de curta estadia com explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, que se desvirtua da destina\u00e7\u00e3o residencial. Assim, a mudan\u00e7a na destina\u00e7\u00e3o do condom\u00ednio deve ser aprovada por dois ter\u00e7os dos cond\u00f4minos; na aus\u00eancia de tal aprova\u00e7\u00e3o, a utiliza\u00e7\u00e3o pretendida pela recorrente est\u00e1 vedada diante da previs\u00e3o de uso residencial das unidades.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-11-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-ans-e-lei-n\u00ba-14-454-2022-ir-retroatividade\">11.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; ANS e Lei n\u00ba 14.454\/2022: (ir)retroatividade<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As Resolu\u00e7\u00f5es Normativas da ANS n\u00ba 539\/2022 e n\u00ba 541\/2022 e a Lei n\u00ba 14.454\/2022 <strong>incidem apenas aos tratamentos iniciados ap\u00f3s o in\u00edcio de sua vig\u00eancia<\/strong>, vedada a aplica\u00e7\u00e3o retroativa, mesmo a tratamentos de natureza continuada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AgInt nos EDcl nos EAREsp 1.627.735-SP, Rel. Min. Ricardo Villas B\u00f4as Cueva, Segunda Se\u00e7\u00e3o, por unanimidade, julgado em 7\/5\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Kiko, benefici\u00e1rio de plano de sa\u00fade, em tratamento para Transtorno do Espectro Autista (TEA) iniciado antes de 2022, invocou as RN ANS n\u00ba 539\/2022 e n\u00ba 541\/2022 e a Lei n\u00ba 14.454\/2022 para exigir cobertura ampliada e sem limites de sess\u00f5es de psicologia, fonoaudiologia e terapia ocupacional. A operadora alegou irretroatividade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Resolu\u00e7\u00e3o Normativa ANS n\u00ba 539\/2022<\/strong><em> (tratamento de TEA: cobertura por m\u00e9todo indicado pelo m\u00e9dico).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Resolu\u00e7\u00e3o Normativa ANS n\u00ba 541\/2022<\/strong><em> (fim do limite de sess\u00f5es com psic\u00f3logos, fonoaudi\u00f3logos, terapeutas ocupacionais).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Lei n\u00ba 14.454\/2022<\/strong><em> (cobertura fora do rol da ANS: requisitos).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda O princ\u00edpio da irretroatividade das normas (LINDB, art. 6\u00ba) opera mesmo em rela\u00e7\u00e3o a tratamentos continuados. As novas normas n\u00e3o retroagem para alcan\u00e7ar tratamentos iniciados antes de sua vig\u00eancia, pois isso violaria a seguran\u00e7a jur\u00eddica e o ato jur\u00eddico perfeito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd A Segunda Se\u00e7\u00e3o esclareceu que tratamentos iniciados anteriormente seguem o regime normativo vigente \u00e0 \u00e9poca do in\u00edcio. As novas normas (mais favor\u00e1veis ao benefici\u00e1rio) aplicam-se a partir de sua vig\u00eancia aos tratamentos iniciados ap\u00f3s esse marco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A controv\u00e9rsia exigia definir se as normas mais favor\u00e1veis (RN ANS n\u00ba 539 e 541\/2022; Lei n\u00ba 14.454\/2022) <strong>alcan\u00e7am retroativamente tratamentos j\u00e1 em curso<\/strong> quando entraram em vigor. A Segunda Se\u00e7\u00e3o firmou que n\u00e3o: opera-se a irretroatividade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f O princ\u00edpio da irretroatividade das normas (LINDB, art. 6\u00ba) \u00e9 pe\u00e7a fundamental do sistema de seguran\u00e7a jur\u00eddica. <strong>Mesmo quando a norma \u00e9 mais favor\u00e1vel ao destinat\u00e1rio, sua aplica\u00e7\u00e3o retroativa exige previs\u00e3o expressa<\/strong>, inexistente nas normas em discuss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O argumento de &#8220;natureza continuada&#8221; do tratamento n\u00e3o prosperou: <strong>a continuidade do tratamento n\u00e3o converte normas posteriores em aplic\u00e1veis retroativamente<\/strong>. Cada momento do tratamento sujeita-se \u00e0 norma vigente quando praticado o ato; mas o in\u00edcio \u00e9 o marco que define o regime aplic\u00e1vel globalmente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A decis\u00e3o \u00e9 relevante para milhares de tratamentos em curso em 2022. <strong>Tratamentos iniciados antes da vig\u00eancia das novas normas mant\u00eam-se sob o regime anterior<\/strong>; novos tratamentos (iniciados ap\u00f3s a vig\u00eancia) gozam da cobertura ampliada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre a aplica\u00e7\u00e3o de resolu\u00e7\u00f5es normativas da ANS e da Lei n\u00ba 14.454\/2022 a tratamentos de sa\u00fade:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incidem apenas aos tratamentos iniciados ap\u00f3s o in\u00edcio de sua vig\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incidem retroativamente em tratamentos de natureza continuada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incidem retroativamente, por se tratar de norma mais favor\u00e1vel ao consumidor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incidem retroativamente a partir da Lei n\u00ba 9.656\/1998.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incidem retroativamente desde que requerida nova autoriza\u00e7\u00e3o pelo m\u00e9dico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A)<strong> Correta.<\/strong> As RN ANS n\u00ba 539\/2022 e n\u00ba 541\/2022 e a Lei n\u00ba 14.454\/2022 incidem apenas aos tratamentos iniciados ap\u00f3s o in\u00edcio de sua vig\u00eancia, vedada a incid\u00eancia retroativa, mesmo em tratamentos continuados (LINDB, art. 6\u00ba).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. A continuidade do tratamento n\u00e3o autoriza retroa\u00e7\u00e3o; o regime aplic\u00e1vel \u00e9 o vigente ao in\u00edcio do tratamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. A retroatividade exige previs\u00e3o expressa, inexistente nessas normas. A maior favorabilidade n\u00e3o opera retroa\u00e7\u00e3o t\u00e1cita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. A Lei n\u00ba 9.656\/1998 \u00e9 o marco regulat\u00f3rio geral, mas as normas espec\u00edficas t\u00eam vig\u00eancia pr\u00f3pria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. A solicita\u00e7\u00e3o m\u00e9dica n\u00e3o altera o regime aplic\u00e1vel ao tratamento j\u00e1 iniciado.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-inteiro-teor-9\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cinge-se a controv\u00e9rsia a definir sobre a aplicabilidade da Resolu\u00e7\u00e3o Normativa ANS n. 539\/2022 ao caso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cumpre destacar que a Lei n. 14.454\/2022, ao promover altera\u00e7\u00e3o na Lei n. 9.656\/1998, estabeleceu requisitos para permitir a cobertura de exames ou tratamentos de sa\u00fade que n\u00e3o estejam inclu\u00eddos no Rol de Procedimentos e Eventos em Sa\u00fade Suplementar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A pr\u00f3pria Ag\u00eancia Nacional de Sa\u00fade Suplementar (ANS) editou a Resolu\u00e7\u00e3o Normativa n. 539\/2022 e tornou obrigat\u00f3ria a cobertura, pela operadora de plano de sa\u00fade, de qualquer m\u00e9todo ou t\u00e9cnica indicados pelo profissional de sa\u00fade respons\u00e1vel para o tratamento de Transtornos Globais do Desenvolvimento, entre os quais o Transtorno do Espectro Autista (TEA), a S\u00edndrome de Asperger e a S\u00edndrome de Rett. A referida Resolu\u00e7\u00e3o Normativa alterou o artigo 6, 4, da RN-ANS n. 465\/2021, que passou a ter a seguinte reda\u00e7\u00e3o: &#8220;[&#8230;] Para a cobertura dos procedimentos que envolvam o tratamento\/manejo dos benefici\u00e1rios portadores de transtornos globais do desenvolvimento, incluindo o transtorno do espectro autista, a operadora dever\u00e1 oferecer atendimento por prestador apto a executar o m\u00e9todo ou t\u00e9cnica indicados pelo m\u00e9dico assistente para tratar a doen\u00e7a ou agravo do paciente&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ademais, a Autarquia Reguladora tamb\u00e9m aprovou a Resolu\u00e7\u00e3o Normativa n. 541\/2022, que colocou fim no limite de consultas e sess\u00f5es com psic\u00f3logos, fonoaudi\u00f3logos, terapeutas ocupacionais e fisioterapeutas, al\u00e9m de ter revogado as Diretrizes de Utiliza\u00e7\u00e3o (DU) para tais tratamentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Desse modo, toda a legisla\u00e7\u00e3o superveniente ao in\u00edcio do tratamento da parte &#8211; a exemplo das RN-ANS n. 539\/2022 e n. 541\/2022; e da Lei n. 14.454\/2022 &#8211; incide a partir de sua vig\u00eancia, em observ\u00e2ncia ao princ\u00edpio da irretroatividade das normas, notadamente no que concerne aos tratamentos de natureza continuada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em outras palavras, as RN-ANS n. 539\/2022 e n. 541\/2022 devem ser sopesadas como par\u00e2metro normativo exclusivamente em rela\u00e7\u00e3o aos tratamentos iniciados ap\u00f3s o in\u00edcio de sua vig\u00eancia, vedada a sua incid\u00eancia retroativa.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-12-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-contrato-bancario-por-analfabeto-em-terminal-de-autoatendimento-nulidade-absoluta\">12.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Contrato banc\u00e1rio por analfabeto em terminal de autoatendimento: nulidade absoluta<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 nulo o contrato banc\u00e1rio celebrado por pessoa analfabeta em terminal de autoatendimento <strong>sem a observ\u00e2ncia da formalidade do art. 595 do CC: assinatura a rogo e duas testemunhas<\/strong>; a senha banc\u00e1ria n\u00e3o substitui essa garantia legal de validade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 2.016.029-MG, Rel. Min. Ricardo Villas B\u00f4as Cueva, Terceira Turma, por unanimidade, julgado em 12\/5\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aposentada analfabeta foi alvo de contrata\u00e7\u00e3o de empr\u00e9stimo consignado por terminal de autoatendimento, mediante uso de cart\u00e3o e senha pessoais. Posteriormente, ajuizou a\u00e7\u00e3o de nulidade alegando aus\u00eancia da formalidade do art. 595 do CC. O banco sustentou: (i) o uso da senha autenticava a contrata\u00e7\u00e3o; (ii) a efetiva disponibiliza\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito demonstrava aceita\u00e7\u00e3o; (iii) a formalidade do art. 595 seria incompat\u00edvel com a contrata\u00e7\u00e3o digital.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CC, art. 595<\/strong><em> (instrumento privado por analfabeto: assinatura a rogo e duas testemunhas).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CC, art. 166, IV<\/strong><em> (nulidade do neg\u00f3cio que n\u00e3o revista a forma legal).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda A forma do art. 595 do CC n\u00e3o \u00e9 mero formalismo: \u00e9 garantia estrutural de validade, destinada a assegurar que a manifesta\u00e7\u00e3o de vontade do analfabeto seja compreendida, esclarecida quanto ao conte\u00fado obrigacional e n\u00e3o fruto de indu\u00e7\u00e3o, automatismo ou assimetria cognitiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd A senha banc\u00e1ria autentica o usu\u00e1rio perante o sistema, mas n\u00e3o assegura compreens\u00e3o nem substitui o mecanismo legal de assist\u00eancia qualificada. Pode validar opera\u00e7\u00f5es ordin\u00e1rias (movimenta\u00e7\u00e3o b\u00e1sica), mas n\u00e3o a celebra\u00e7\u00e3o de novos contratos onerosos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O art. 595 do CC imp\u00f5e forma especial para contratos escritos firmados por analfabeto: <strong>assinatura a rogo e subscri\u00e7\u00e3o por duas testemunhas<\/strong>. A Terceira Turma firmou que a forma opera como garantia estrutural de validade, n\u00e3o mero requisito externo. Sua inobserv\u00e2ncia gera nulidade absoluta (CC, art. 166, IV).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f O analfabetismo \u00e9 tratado como <strong>fator de vulnerabilidade estrutural<\/strong> &#8211; n\u00e3o como incapacidade. A forma legalmente prescrita equaliza assimetrias, permitindo que o contrato seja n\u00e3o apenas formalmente v\u00e1lido, mas materialmente leg\u00edtimo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A contrata\u00e7\u00e3o digital n\u00e3o relativiza essa exig\u00eancia: <strong>admitir que a senha autorize novas obriga\u00e7\u00f5es contratuais por analfabeto seria transferir ao consumidor vulner\u00e1vel o custo do d\u00e9ficit de design do sistema<\/strong>, incompat\u00edvel com a boa-f\u00e9 objetiva e os deveres de prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A distin\u00e7\u00e3o \u00e9 clara: <strong>a senha autentica opera\u00e7\u00f5es ordin\u00e1rias (movimenta\u00e7\u00e3o b\u00e1sica da conta), jamais consentimento v\u00e1lido para novos contratos onerosos<\/strong>, especialmente os de natureza complexa e continuada como empr\u00e9stimos consignados. O sistema banc\u00e1rio eletr\u00f4nico deve incorporar, desde o design, as limita\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas protetivas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Contrato banc\u00e1rio (empr\u00e9stimo consignado) celebrado por pessoa analfabeta em terminal de autoatendimento, mediante uso de cart\u00e3o e senha pessoais, sem observ\u00e2ncia do art. 595 do CC:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) \u00c9 v\u00e1lido, pois a senha banc\u00e1ria autentica o consentimento digital.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) \u00c9 anul\u00e1vel por v\u00edcio de consentimento, sujeito a confirma\u00e7\u00e3o posterior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) \u00c9 v\u00e1lido se o numer\u00e1rio foi disponibilizado e movimentado pelo titular.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) \u00c9 nulo, pois a formalidade do art. 595 do CC \u00e9 insubstitu\u00edvel pela senha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) \u00c9 v\u00e1lido, pois a contrata\u00e7\u00e3o digital dispensa formalidades escritas anal\u00f3gicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A senha autentica o usu\u00e1rio no sistema, mas n\u00e3o substitui a forma do art. 595 do CC para validade de novos contratos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Incorreta. A inobserv\u00e2ncia da forma (CC, art. 595) gera nulidade plena (CC, art. 166, IV), n\u00e3o anulabilidade; n\u00e3o admite confirma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. O efetivo recebimento do numer\u00e1rio n\u00e3o convalida o v\u00edcio formal; trata-se de elementos distintos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) <strong>Correta.<\/strong> A formalidade do art. 595 do CC (assinatura a rogo e duas testemunhas) \u00e9 insubstitu\u00edvel pela senha; sua inobserv\u00e2ncia gera nulidade plena (CC, art. 166, IV).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. A digitaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o relativiza salvaguardas protetivas a sujeitos vulner\u00e1veis estruturalmente.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-inteiro-teor-10\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A controv\u00e9rsia resume-se em definir: (i) se s\u00e3o v\u00e1lidos contratos banc\u00e1rios celebrados por pessoa analfabeta, por meio de terminal de autoatendimento, sem observ\u00e2ncia da formalidade do art. 595 do C\u00f3digo Civil, consistente em assinatura a rogo e em duas testemunhas; e (ii) se o uso de cart\u00e3o e senha pessoais, bem como a efetiva disponibiliza\u00e7\u00e3o e utiliza\u00e7\u00e3o do numer\u00e1rio, afasta a exig\u00eancia da forma escrita com assinatura a rogo e duas testemunhas para os instrumentos privados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Adota-se, como regra, o princ\u00edpio da liberdade das formas para fins de pactua\u00e7\u00e3o na esfera privada. Essa diretriz, contudo, n\u00e3o \u00e9 absoluta, cedendo espa\u00e7o sempre que o legislador identifica situa\u00e7\u00f5es em que a autonomia privada, embora formalmente preservada, pode n\u00e3o se manifestar de modo substancialmente livre ou informado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c9 precisamente nessa zona de tens\u00e3o entre liberdade formal e prote\u00e7\u00e3o material que se insere o art. 595 do C\u00f3digo Civil. Ao prescrever, para os contratos escritos firmados por pessoa analfabeta, a assinatura a rogo e subscri\u00e7\u00e3o por duas testemunhas, o legislador n\u00e3o cria um obst\u00e1culo \u00e0 contrata\u00e7\u00e3o, mas institui uma garantia estrutural de validade, destinada a assegurar que a manifesta\u00e7\u00e3o de vontade: (i) seja efetivamente compreendida; (ii) resulte de esclarecimento m\u00ednimo quanto ao conte\u00fado obrigacional; (iii) n\u00e3o seja produto de indu\u00e7\u00e3o, automatismo ou assimetria cognitiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A forma, nesse contexto, assume fun\u00e7\u00e3o normativa qualificada, deixando de ser mero requisito externo para se converter em instrumento de tutela da autonomia privada substancial. Sob essa perspectiva, o analfabetismo n\u00e3o \u00e9 tratado como incapacidade, mas como fator de vulnerabilidade estrutural, que compromete a plena frui\u00e7\u00e3o da liberdade contratual quando ausentes salvaguardas adicionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, a forma legalmente prescrita opera como mecanismo de equaliza\u00e7\u00e3o das assimetrias, permitindo que o contrato n\u00e3o seja apenas formalmente v\u00e1lido, mas materialmente leg\u00edtimo. Essa compreens\u00e3o \u00e9 refor\u00e7ada pela doutrina e pela jurisprud\u00eancia do Superior Tribunal de Justi\u00e7a, ao reconhecer que a boa-f\u00e9 objetiva n\u00e3o se limita \u00e0 conduta subjetiva das partes, mas imp\u00f5e deveres institucionais ao fornecedor, especialmente quando det\u00e9m controle do ambiente contratual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A formalidade do art. 595 do C\u00f3digo Civil deve ser lida, portanto, como express\u00e3o concreta desses deveres de prote\u00e7\u00e3o, funcionando como cl\u00e1usula legal de conten\u00e7\u00e3o do risco contratual. N\u00e3o por acaso, n\u00e3o s\u00e3o admitidos equivalentes funcionais gen\u00e9ricos para essa forma. A assinatura a rogo n\u00e3o \u00e9 substitu\u00edvel por presun\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, nem por mecanismos de autentica\u00e7\u00e3o que n\u00e3o assegurem o n\u00facleo da prote\u00e7\u00e3o pretendida, a exemplo da aposi\u00e7\u00e3o de digital. Trata-se de hip\u00f3tese em que a forma precede e condiciona a pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o do v\u00ednculo, e n\u00e3o apenas sua prova.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por essa raz\u00e3o, a inobserv\u00e2ncia da forma legal n\u00e3o conduz \u00e0 mera anulabilidade, mas \u00e0 nulidade absoluta, nos termos do art. 166, IV, do C\u00f3digo Civil, exatamente porque o v\u00edcio atinge o cerne da manifesta\u00e7\u00e3o de vontade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesse contexto, a formalidade autorizadora da celebra\u00e7\u00e3o de neg\u00f3cio jur\u00eddico por meio de instrumento privado prevista no art. 595 do C\u00f3digo Civil n\u00e3o pode ser relativizada na esfera da contrata\u00e7\u00e3o digital, ainda que por raz\u00f5es de efici\u00eancia, conveni\u00eancia operacional ou avan\u00e7o tecnol\u00f3gico, sob pena de se inverter sua fun\u00e7\u00e3o normativa e transformar a exce\u00e7\u00e3o protetiva em regra de desprote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em \u00faltima an\u00e1lise, admitir a contrata\u00e7\u00e3o escrita por pessoa analfabeta sem rogo significaria aceitar que a autonomia privada se esgote na apar\u00eancia do consentimento, em detrimento de sua subst\u00e2ncia (resultado incompat\u00edvel com o sistema civil-constitucional vigente).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A incorpora\u00e7\u00e3o de tecnologias digitais aos servi\u00e7os banc\u00e1rios, especialmente por meio de terminais de autoatendimento e sistemas algor\u00edtmicos de oferta de cr\u00e9dito, representa avan\u00e7o ineg\u00e1vel em efici\u00eancia, capilaridade e redu\u00e7\u00e3o de custos. Todavia, intensifica assimetrias informacionais e cognitivas, sobretudo quando envolve consumidores estruturalmente vulner\u00e1veis, como pessoas analfabetas, idosos e benefici\u00e1rios previdenci\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesse cen\u00e1rio, a senha banc\u00e1ria pode, sim, ser compreendida como instrumento de autentica\u00e7\u00e3o digital, apto a identificar o usu\u00e1rio perante o sistema e permitir a execu\u00e7\u00e3o de comandos. Tal reconhecimento, contudo, n\u00e3o se confunde coma validade jur\u00eddica da manifesta\u00e7\u00e3o de vontade negocial quando a lei exige forma qualificada como condi\u00e7\u00e3o de validade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ent\u00e3o, o sistema de contrata\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica e digital n\u00e3o pode ser concebido como neutro ou autorreferente, devendo ser estruturado de modo a incorporar, desde o design, as limita\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas impostas pelo ordenamento, especialmente aquelas destinadas \u00e0 prote\u00e7\u00e3o de sujeitos com maior grau de vulnerabilidade. Aplicando-se essa l\u00f3gica \u00e0 hip\u00f3tese, \u00e9 poss\u00edvel afirmar que: (i) a senha autentica o usu\u00e1rio; (ii) mas n\u00e3o assegura compreens\u00e3o, nem substitui o mecanismo legal de assist\u00eancia qualificada exigido pelo art. 595 do C\u00f3digo Civil; (iii) tampouco permite presumir que a contrata\u00e7\u00e3o tenha ocorrido de forma livre, consciente e informada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Admitir que o simples uso da senha autoriza a celebra\u00e7\u00e3o de novas obriga\u00e7\u00f5es contratuais por pessoa analfabeta significaria transferir ao consumidor vulner\u00e1vel o custo jur\u00eddico do d\u00e9ficit de design do sistema, o que \u00e9 incompat\u00edvel com a boa-f\u00e9 objetiva e com o dever de prote\u00e7\u00e3o. Desse modo, se o ordenamento exige assinatura a rogo com duas testemunhas para a validade do contrato, o sistema eletr\u00f4nico n\u00e3o pode permitir a contrata\u00e7\u00e3o sem essas salvaguardas, sob pena de produzir neg\u00f3cios nulos em s\u00e9rie.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Dessa forma, a senha banc\u00e1ria pode e deve ser admitida como assinatura digital para opera\u00e7\u00f5es simples que n\u00e3o criam novas obriga\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas. Todavia, seu uso n\u00e3o pode oportunizar a forma\u00e7\u00e3o de novos contratos, especialmente aqueles de natureza complexa, onerosa e continuada, como empr\u00e9stimos consignados, sem a observ\u00e2ncia das formalidades protetivas impostas pela lei.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, a utiliza\u00e7\u00e3o da senha banc\u00e1ria pelo consumidor analfabeto somente pode ser compreendida como autoriza\u00e7\u00e3o para opera\u00e7\u00f5es ordin\u00e1rias, inerentes \u00e0 movimenta\u00e7\u00e3o b\u00e1sica da conta, jamais como consentimento v\u00e1lido para a celebra\u00e7\u00e3o de novos contratos, especialmente aqueles que importam endividamento e comprometimento de verba alimentar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A forma exigida pelo art. 595 do C\u00f3digo Civil n\u00e3o \u00e9 contingencial, nem adapt\u00e1vel por conveni\u00eancia sist\u00eamica. Ela constitui condi\u00e7\u00e3o de possibilidade do pr\u00f3prio neg\u00f3cio, de modo que sua inobserv\u00e2ncia n\u00e3o compromete apenas a regularidade formal, mas invalida o nascimento do v\u00ednculo. Por isso, a consequ\u00eancia jur\u00eddica n\u00e3o poderia ser outra sen\u00e3o a prevista no art. 166, IV, do C\u00f3digo Civil: nulidade absoluta, com efic\u00e1cia ex tunc, insuscet\u00edvel de confirma\u00e7\u00e3o, convalida\u00e7\u00e3o ou mitiga\u00e7\u00e3o pela execu\u00e7\u00e3o do contrato. Desse modo, na hip\u00f3tese da contrata\u00e7\u00e3o por pessoa analfabeta, admitir que o uso posterior do numer\u00e1rio sane a nulidade significaria transferir ao consumidor vulner\u00e1vel o \u00f4nus de suportar os efeitos de um contrato que a lei reputa inv\u00e1lido desde a origem, esvaziando por completo a fun\u00e7\u00e3o protetiva do art. 595 do C\u00f3digo Civil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Portanto, a disponibiliza\u00e7\u00e3o e eventual utiliza\u00e7\u00e3o dos valores n\u00e3o regularizam a contrata\u00e7\u00e3o, tampouco afastam o reconhecimento da nulidade, sob pena de se admitir que a pr\u00e1tica reiterada de atos inv\u00e1lidos possa gerar, por acumula\u00e7\u00e3o f\u00e1tica, validade jur\u00eddica (conclus\u00e3o incompat\u00edvel com o sistema civil).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Reconhecida a nulidade absoluta do contrato, imp\u00f5e-se a aplica\u00e7\u00e3o do art. 182 do C\u00f3digo Civil, que consagra o princ\u00edpio do retorno das partes ao estado anterior, como corol\u00e1rio l\u00f3gico da nulidade do v\u00ednculo. Trata-se de mecanismo de recomposi\u00e7\u00e3o do equil\u00edbrio jur\u00eddico rompido, destinado a neutralizar os efeitos patrimoniais de um contrato que jamais deveria ter produzido efeitos e evitar o enriquecimento il\u00edcito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Desse modo, fazem-se necess\u00e1rias a declara\u00e7\u00e3o de nulidade dos contratos descritos na senten\u00e7a e a restitui\u00e7\u00e3o dos valores cobrados em decorr\u00eancia deles, com a observ\u00e2ncia da repeti\u00e7\u00e3o simples dos valores e da compensa\u00e7\u00e3o com os valores disponibilizados pela institui\u00e7\u00e3o financeira em favor do consumidor.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-13-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-pais-administradores-legitimidade-para-levantar-valores-depositados-em-favor-de-filhos-menores\">13.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pais administradores: legitimidade para levantar valores depositados em favor de filhos menores<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os pais s\u00e3o administradores e usufrutu\u00e1rios dos bens dos filhos menores e, <strong>salvo justo motivo concretamente observado, t\u00eam legitimidade para levantar valores depositados em prol desses filhos<\/strong>, sendo excepcional a reten\u00e7\u00e3o judicial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 2.060.369-SP, Rel. Min. Humberto Martins, Terceira Turma, por unanimidade, julgado em 12\/5\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Chiquinha, menor de 18 anos, recebeu indeniza\u00e7\u00e3o depositada judicialmente. O Seu Madruga requereu o levantamento dos valores para custear despesas de educa\u00e7\u00e3o da requereu, comprovando documentalmente os gastos. O Tribunal de origem manteve a reten\u00e7\u00e3o at\u00e9 a maioridade, sob fundamento de &#8220;preserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CC, art. 1.689, I e II<\/strong><em> (pais como administradores e usufrutu\u00e1rios dos bens dos filhos).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CC, art. 1.691<\/strong><em> (limita\u00e7\u00f5es: disposi\u00e7\u00e3o mediante autoriza\u00e7\u00e3o judicial).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CF, arts. 205 e 229<\/strong><em> (educa\u00e7\u00e3o como dever da fam\u00edlia, do Estado e da sociedade).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda O regime do art. 1.689 do CC confere aos pais, no exerc\u00edcio do poder familiar, a livre administra\u00e7\u00e3o dos bens dos filhos menores. A reten\u00e7\u00e3o \u00e9 medida excepcional, dependente de demonstra\u00e7\u00e3o concreta de conflito de interesses ou risco ao patrim\u00f4nio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd A jurisprud\u00eancia do STJ, mantida desde o CC\/1916, consolida o entendimento: salvo justo motivo concreto, os pais t\u00eam legitimidade para movimentar valores dos filhos menores. A preserva\u00e7\u00e3o abstrata do patrim\u00f4nio at\u00e9 a maioridade n\u00e3o se sobrep\u00f5e ao regime legal do art. 1.689.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A Terceira Turma firmou que <strong>os pais s\u00e3o administradores e usufrutu\u00e1rios dos bens dos filhos menores, com livre acesso e movimenta\u00e7\u00e3o como regra<\/strong>. A reten\u00e7\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o, dependente de demonstra\u00e7\u00e3o concreta de motivo plaus\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f O ac\u00f3rd\u00e3o recorrido invertia a l\u00f3gica: tratava a reten\u00e7\u00e3o at\u00e9 a maioridade como regra e o levantamento como exce\u00e7\u00e3o. <strong>A invers\u00e3o converte exce\u00e7\u00e3o legal em regra e desconsidera o regime do art. 1.689 do CC<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 O &#8220;justo motivo&#8221; para reten\u00e7\u00e3o exige circunst\u00e2ncia concreta: <strong>m\u00e1 administra\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio, conflito de interesses entre pais e filhos, risco \u00e0 integridade da quantia<\/strong>. Sem esses elementos, n\u00e3o h\u00e1 fundamento para restringir a movimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A decis\u00e3o tem impacto direto sobre milhares de processos com valores depositados em favor de menores. <strong>Os pais, no exerc\u00edcio do poder familiar, disp\u00f5em desses valores para custeio das necessidades cotidianas dos filhos<\/strong>, sem necessidade de demonstra\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria de necessidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre o levantamento, pelos pais, de valores depositados em favor de filhos menores em decorr\u00eancia de indeniza\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) \u00c9 vedado at\u00e9 a maioridade, salvo demonstra\u00e7\u00e3o de circunst\u00e2ncia excepcional pelos pais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) \u00c9 permitido, salvo justo motivo concretamente observado para a reten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Depende de presta\u00e7\u00e3o pr\u00e9via de contas em ju\u00edzo dos gastos com os filhos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Exige homologa\u00e7\u00e3o do ju\u00edzo da fam\u00edlia para cada movimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) \u00c9 permitido apenas quando comprovada situa\u00e7\u00e3o de hipossufici\u00eancia da fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A reten\u00e7\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o, n\u00e3o regra; cabe \u00e0 parte interessada na reten\u00e7\u00e3o demonstrar justo motivo, n\u00e3o aos pais demonstrarem excepcionalidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) <strong>Correta.<\/strong> Os pais s\u00e3o administradores e usufrutu\u00e1rios dos bens dos filhos menores (CC, art. 1.689); o levantamento \u00e9 regra, sendo a reten\u00e7\u00e3o excepcional e dependente de justo motivo concretamente observado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. A presta\u00e7\u00e3o de contas \u00e9 dever inerente, mas n\u00e3o condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via de cada levantamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. A homologa\u00e7\u00e3o caso a caso converteria exce\u00e7\u00e3o legal em regra; o art. 1.689 do CC dispensa esse controle pr\u00e9vio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. A hipossufici\u00eancia n\u00e3o \u00e9 crit\u00e9rio; o regime legal autoriza a movimenta\u00e7\u00e3o como regra.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-inteiro-teor-11\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cinge-se a controv\u00e9rsia \u00e0 possibilidade de levantamento de valores depositados judicialmente em favor de menor, decorrentes de indeniza\u00e7\u00e3o, e que foram retidos pelo Ju\u00edzo de origem at\u00e9 o implemento da maioridade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; O ac\u00f3rd\u00e3o recorrido manteve a senten\u00e7a que determinou a reten\u00e7\u00e3o dos valores, fundamentando-se nos artigos 1.689, I e II, e 1.691 do C\u00f3digo Civil, que conferem aos pais o usufruto e a administra\u00e7\u00e3o dos bens dos filhos menores, vedando a disposi\u00e7\u00e3o desses bens, salvo em situa\u00e7\u00f5es excepcionais e mediante autoriza\u00e7\u00e3o judicial. Destacou que, embora os pais da autora tenham demonstrado que os gastos anuais com educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade superam o valor da indeniza\u00e7\u00e3o, tais despesas s\u00e3o de responsabilidade dos genitores no exerc\u00edcio do poder familiar, conforme os artigos 205 e 229 da Constitui\u00e7\u00e3o Federal e o artigo 1.634, I, do C\u00f3digo Civil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; O relator concluiu que n\u00e3o houve comprova\u00e7\u00e3o de circunst\u00e2ncia excepcional que justificasse o levantamento da quantia depositada, ressaltando que a reten\u00e7\u00e3o visa preservar o patrim\u00f4nio da menor at\u00e9 a maioridade, salvo demonstra\u00e7\u00e3o de necessidade para promover sua sobreviv\u00eancia digna.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Contudo, o entendimento do Tribunal de origem est\u00e1 em disson\u00e2ncia com a jurisprud\u00eancia do Superior Tribunal de Justi\u00e7a fixada no sentido de que os pais s\u00e3o administradores e usufrutu\u00e1rios dos bens dos filhos menores e, salvo justo motivo, n\u00e3o h\u00e1 cabimento para a negativa de levantamento de valor a eles devido a t\u00edtulo de indeniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Esse entendimento remonta \u00e0 vig\u00eancia do C\u00f3digo Civil de 1916. Conferindo interpreta\u00e7\u00e3o ao art. 385, CC-16, as duas Turmas da Segunda Se\u00e7\u00e3o do STJ compreendiam que os pais, no exerc\u00edcio do poder familiar, t\u00eam o direito de administrar livremente recursos pecuni\u00e1rios dos filhos menores, sendo incab\u00edvel impor restri\u00e7\u00f5es \u00e0 movimenta\u00e7\u00e3o dessas verbas sem motivo plaus\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mesmo com o advento do C\u00f3digo Civil de 2002, esta Corte Superior, ao interpretar o art. 1.689, CC-2002, tem mantido a coer\u00eancia com a sua jurisprud\u00eancia historicamente formada. Isso porque a reten\u00e7\u00e3o de valores pertencentes ao menor constitui medida excepcional, dependente de demonstra\u00e7\u00e3o concreta de conflito de interesses ou de circunst\u00e2ncia que coloque em risco o patrim\u00f4nio da crian\u00e7a ou do adolescente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A preserva\u00e7\u00e3o abstrata do patrim\u00f4nio n\u00e3o se sobrep\u00f5e ao atual regime jur\u00eddico estabelecido pelo art. 1.689 do C\u00f3digo Civil, que confere aos pais poderes para administrarem os bens dos filhos menores sob sua autoridade, visando, inclusive, a atender \u00e0s necessidades cotidianas da crian\u00e7a. Assim, a reten\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica, sem causa justificada e individualizada, converte exce\u00e7\u00e3o legal em regra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Na hip\u00f3tese, n\u00e3o h\u00e1 not\u00edcia de m\u00e1 administra\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio ou de risco \u00e0 integridade da quantia. Al\u00e9m disso, inexiste demonstra\u00e7\u00e3o de conflito de interesses entre o menor e seus genitores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Portanto, n\u00e3o existindo motivo plaus\u00edvel ou justificado que imponha restri\u00e7\u00e3o aos pais no acesso e na movimenta\u00e7\u00e3o dos valores devidos aos filhos, \u00e9 caso de libera\u00e7\u00e3o dos recursos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-14-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-clausula-penal-paritaria-interpretacao-restritiva-e-intervencao-judicial-excepcional\">14.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cl\u00e1usula penal parit\u00e1ria: interpreta\u00e7\u00e3o restritiva e interven\u00e7\u00e3o judicial excepcional<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas rela\u00e7\u00f5es parit\u00e1rias, a cl\u00e1usula penal admite apenas interpreta\u00e7\u00e3o restritiva, <strong>n\u00e3o podendo ser aplicada a situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o expressamente previstas no contrato; a interven\u00e7\u00e3o judicial sobre cl\u00e1usulas penais em contratos empresariais parit\u00e1rios \u00e9 excepcional, observada a interven\u00e7\u00e3o m\u00ednima<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REsp 2.013.493-SP, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, Quarta Turma, por unanimidade, julgado em 5\/5\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Duas empresas parit\u00e1rias celebraram contrato de compra e venda de soja, com cl\u00e1usula penal expressa para a mora no pagamento (considerada a pr\u00e9via retirada do produto). A compradora n\u00e3o retirou o produto nem efetuou o pagamento. A vendedora pleiteou a cl\u00e1usula penal pelo inadimplemento total. O TJ acolheu, interpretando extensivamente a cl\u00e1usula. A compradora recorreu sustentando que a pena foi pactuada apenas para a mora, n\u00e3o para a desist\u00eancia total.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CC, art. 409<\/strong><em> (abrang\u00eancia da cl\u00e1usula penal (inexecu\u00e7\u00e3o completa, cl\u00e1usula especial ou mora)).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CC, art. 421<\/strong><em> (fun\u00e7\u00e3o social do contrato).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CC, art. 421-A<\/strong><em> (contratos empresariais: presun\u00e7\u00e3o de paridade e simetria).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda A cl\u00e1usula penal n\u00e3o decorre da lei nem da natureza do contrato: \u00e9 fruto exclusivo da autonomia privada. Quando pactuada por partes parit\u00e1rias, deve ser interpretada estritamente, aplicando-se apenas \u00e0 situa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica prevista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd Em contratos empresariais parit\u00e1rios, vigora o princ\u00edpio da interven\u00e7\u00e3o m\u00ednima do Judici\u00e1rio (art. 421-A do CC). A invoca\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica de boa-f\u00e9 ou fun\u00e7\u00e3o social n\u00e3o autoriza expans\u00e3o judicial das san\u00e7\u00f5es pactuadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A Quarta Turma fixou duas teses distintas. A primeira: <strong>a cl\u00e1usula penal, por ter natureza sancionadora e derivar exclusivamente da autonomia privada, admite apenas interpreta\u00e7\u00e3o restritiva<\/strong>, n\u00e3o podendo ser aplicada a situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o expressamente previstas no contrato.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f No caso, as partes pactuaram pena apenas para a mora no pagamento (com pr\u00e9via retirada da soja). <strong>Expandir a pena para o inadimplemento total (sem retirada) viola tanto a letra quanto o fundamento econ\u00f4mico-jur\u00eddico da previs\u00e3o<\/strong>: situa\u00e7\u00f5es qualitativamente distintas exigem tratamento contratual distinto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A segunda tese fixa o regime de interven\u00e7\u00e3o judicial em contratos parit\u00e1rios: <strong>a interven\u00e7\u00e3o sobre cl\u00e1usulas penais deve observar o princ\u00edpio da interven\u00e7\u00e3o m\u00ednima e a excepcionalidade da revis\u00e3o<\/strong>. N\u00e3o \u00e9 l\u00edcito ao Judici\u00e1rio criar ou ampliar penalidades por invoca\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica de boa-f\u00e9 ou fun\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A decis\u00e3o protege a seguran\u00e7a contratual em ambiente empresarial: <strong>as partes parit\u00e1rias estruturam seus neg\u00f3cios com base em expectativa de que as palavras do contrato ter\u00e3o significado fixo, determinado e vinculante<\/strong>. A interven\u00e7\u00e3o judicial extensiva frustraria essa expectativa, comprometendo a confian\u00e7a no sistema contratual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre a interpreta\u00e7\u00e3o e aplica\u00e7\u00e3o de cl\u00e1usula penal em contrato empresarial parit\u00e1rio:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Admite interpreta\u00e7\u00e3o extensiva para abranger situa\u00e7\u00f5es an\u00e1logas de inadimplemento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) Admite apenas interpreta\u00e7\u00e3o restritiva, com interven\u00e7\u00e3o judicial excepcional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Pode ser ampliada por decis\u00e3o judicial fundada na boa-f\u00e9 objetiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Pode ser ampliada quando a parte demonstrar preju\u00edzo superior \u00e0 pena pactuada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Admite apenas interpreta\u00e7\u00e3o restritiva, mas com ampla atua\u00e7\u00e3o protetiva jurisdicional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A) Incorreta. A natureza sancionadora e a origem inteiramente convencional imp\u00f5em interpreta\u00e7\u00e3o restritiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">B) <strong>Correta.<\/strong> A cl\u00e1usula penal parit\u00e1ria deriva da autonomia privada e admite apenas interpreta\u00e7\u00e3o restritiva; a interven\u00e7\u00e3o judicial \u00e9 excepcional, observada a interven\u00e7\u00e3o m\u00ednima (CC, arts. 409, 421-A).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C) Incorreta. A boa-f\u00e9 objetiva n\u00e3o autoriza amplia\u00e7\u00e3o judicial das san\u00e7\u00f5es pactuadas em contrato empresarial parit\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D) Incorreta. A diferen\u00e7a entre preju\u00edzo real e pena convencional resolve-se por a\u00e7\u00e3o indenizat\u00f3ria pr\u00f3pria, n\u00e3o por amplia\u00e7\u00e3o da cl\u00e1usula penal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E) Incorreta. Interven\u00e7\u00e3o m\u00ednima em contratos parit\u00e1riois!<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-inteiro-teor-12\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A controv\u00e9rsia consiste em saber se \u00e9 poss\u00edvel interpretar extensivamente a cl\u00e1usula penal, pactuada em contrato parit\u00e1rio, estipulada de forma expressa e espec\u00edfica para determinado descumprimento contratual, de modo a estend\u00ea-la para outra hip\u00f3tese de inadimplemento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caso, as partes pactuaram expressamente que a pena prevista na cl\u00e1usula em exame, al\u00e9m de n\u00e3o ter natureza compensat\u00f3ria, seria destinada \u00e0 mora no pagamento do pre\u00e7o. Logo, a multa foi concebida para punir o atraso em obriga\u00e7\u00e3o espec\u00edfica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A autora pleiteou o pagamento da multa prevista em tal cl\u00e1usula, apresentando como causa de pedir o inadimplemento total do contrato, visto que a parte compradora descumpriu integralmente suas obriga\u00e7\u00f5es, deixando de retirar a soja do armaz\u00e9m da vendedora e de efetuar os pagamentos, tanto que houve pedido cumulativo de rescis\u00e3o do contrato.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No entanto, no momento da celebra\u00e7\u00e3o do neg\u00f3cio jur\u00eddico, as partes estipularam que a referida pena seria cab\u00edvel para a mora no pagamento, considerando a pr\u00e9via retirada da soja pela compradora. Diante disso, a previs\u00e3o contratual em refer\u00eancia n\u00e3o poderia ter sido interpretada extensivamente para alcan\u00e7ar situa\u00e7\u00e3o diversa daquela manifestada pelas partes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com efeito, a cl\u00e1usula penal n\u00e3o decorre automaticamente da lei nem da natureza do contrato. \u00c9, por excel\u00eancia, fruto da autonomia privada das partes, buscando refor\u00e7ar o cumprimento daquilo que foi pactuado, tutelando a confian\u00e7a das partes no adimplemento da aven\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Diante de tais premissas, a cl\u00e1usula penal surgida do consenso de partes parit\u00e1rias deve ser interpretada estritamente, aplicando-se apenas na situa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica para a qual foi prevista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando se permite ao int\u00e9rprete expandir san\u00e7\u00f5es que as partes deliberadamente circunscreveram, viola-se o pr\u00f3prio fundamento da autonomia privada e compromete-se a seguran\u00e7a que os estipulantes razoavelmente esperavam ao estruturar seus neg\u00f3cios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Deve prevalecer o princ\u00edpio da for\u00e7a obrigat\u00f3ria do contrato (pacta sunt servanda), notadamente nas rela\u00e7\u00f5es empresariais, ressaltando-se que a inger\u00eancia judicial nas obriga\u00e7\u00f5es livremente pactuadas deve se restringir a situa\u00e7\u00f5es excepcionais. Ao contr\u00e1rio do que reconheceu a Corte estadual, n\u00e3o h\u00e1 viola\u00e7\u00e3o aos princ\u00edpios da boa-f\u00e9 e da fun\u00e7\u00e3o social, cuja invoca\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica n\u00e3o basta para justificar a excepcional interven\u00e7\u00e3o judicial sobre o conte\u00fado do contrato firmado entre particulares. Imp\u00f5e-se reconhecer duas situa\u00e7\u00f5es de inadimplemento qualitativamente distintas. Se o adquirente retira o produto e n\u00e3o paga, houve apropria\u00e7\u00e3o de bem alheio, gerando enriquecimento sem causa que justifica a penalidade contratual pela aus\u00eancia de pagamento. Quando, por\u00e9m, o adquirente sequer retirou o produto, n\u00e3o houve apropria\u00e7\u00e3o: o bem permanece com o vendedor. A cl\u00e1usula penal foi expressamente destinada \u00e0 primeira situa\u00e7\u00e3o (mora no pagamento). Expandir sua incid\u00eancia para a segunda (desist\u00eancia total do contrato) viola tanto a letra quanto o fundamento econ\u00f4mico-jur\u00eddico que embasou a previs\u00e3o da san\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; O artigo 409 do C\u00f3digo Civil estabelece que a cl\u00e1usula penal &#8220;pode referir-se \u00e0 inexecu\u00e7\u00e3o completa da obriga\u00e7\u00e3o, \u00e0 de alguma cl\u00e1usula especial ou simplesmente \u00e0 mora&#8221;. Essa norma n\u00e3o autoriza o int\u00e9rprete a escolher qual caminho as partes deveriam ter trilhado. Confere-lhes, isto sim, a faculdade de determinar a abrang\u00eancia da cl\u00e1usula penal. No caso, as contraentes exerceram essa faculdade com precis\u00e3o e clareza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ademais, as partes em lit\u00edgio s\u00e3o empresas mercantis aptas em suas respectivas \u00e1reas de atua\u00e7\u00e3o, que negociaram as cl\u00e1usulas contratuais em posi\u00e7\u00e3o igualit\u00e1ria, com pleno entendimento do escopo e das limita\u00e7\u00f5es da cl\u00e1usula penal. N\u00e3o h\u00e1 v\u00edcio de consentimento, n\u00e3o h\u00e1 abusividade contratual, n\u00e3o h\u00e1 hipossufici\u00eancia. As partes negociaram livremente e chegaram ao acordo plenamente conscientes de suas consequ\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando o int\u00e9rprete expande san\u00e7\u00f5es que as partes deliberadamente circunscreveram, n\u00e3o est\u00e1 protegendo a fun\u00e7\u00e3o social do contrato; est\u00e1 violando a seguran\u00e7a contratual. As celebrantes estruturaram seus neg\u00f3cios com base em expectativa razo\u00e1vel de que as palavras do contrato teriam significado fixo, determinado e vinculante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Esclare\u00e7a-se que n\u00e3o se est\u00e1 a afirmar que a parte n\u00e3o possa ser ressarcida dos preju\u00edzos eventualmente sofridos com o descumprimento total do contrato. Entretanto, tais preju\u00edzos devem ser pleiteados por meio do instrumento processual adequado e espec\u00edfico. O pedido formulado na a\u00e7\u00e3o de cobran\u00e7a da cl\u00e1usula em discuss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a via adequada para tal indeniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A cl\u00e1usula penal \u00e9 ferramenta leg\u00edtima precisamente porque dispensa a prova do dano efetivo: as partes acordam antecipadamente o montante da repara\u00e7\u00e3o para um descumprimento espec\u00edfico. Constitui abrevia\u00e7\u00e3o processual convencionada entre ambas. No entanto, essa abrevia\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode contornar a obriga\u00e7\u00e3o probat\u00f3ria quando a circunst\u00e2ncia n\u00e3o foi contratualmente prevista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Desse modo, as inst\u00e2ncias de origem, ao interpretarem extensivamente a cl\u00e1usula penal, abrangendo situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o prevista no contrato, violaram o disposto nos artigos 421 e 409 do C\u00f3digo Civil, o que enseja o afastamento da condena\u00e7\u00e3o ao pagamento da pena contratual.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-15-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-revisao-criminal-retratacao-da-vitima-em-delitos-sexuais\">15.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Revis\u00e3o criminal: retrata\u00e7\u00e3o da v\u00edtima em delitos sexuais<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A revis\u00e3o criminal fundada no art. 621, III, do CPP exige prova nova produzida judicialmente, sob contradit\u00f3rio, <strong>que demonstre de forma clara e segura a inoc\u00eancia do condenado; nos delitos sexuais, a retrata\u00e7\u00e3o da v\u00edtima em justifica\u00e7\u00e3o criminal n\u00e3o conduz, por si s\u00f3, \u00e0 absolvi\u00e7\u00e3o, sobretudo quando dissociada do conjunto probat\u00f3rio que amparou a condena\u00e7\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Processo em segredo de justi\u00e7a, Rel. Min. Og Fernandes, Sexta Turma, por unanimidade, julgado em 15\/4\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caso F\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cerca de 11 anos ap\u00f3s a condena\u00e7\u00e3o por estupro de vulner\u00e1vel, as v\u00edtimas &#8211; agora maiores &#8211; foram ouvidas em a\u00e7\u00e3o de justifica\u00e7\u00e3o criminal. Manifestaram &#8220;perd\u00e3o&#8221; e dificuldades em recordar dos fatos, alternando entre negativas e admiss\u00f5es. O TJ acolheu a revis\u00e3o criminal e absolveu o condenado. O MP recorreu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conte\u00fado-Base<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CPP, art. 621, III<\/strong><em> (revis\u00e3o criminal: novas provas de inoc\u00eancia do condenado).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>CPP, art. 626<\/strong><em> (efeitos da revis\u00e3o criminal procedente).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcce <strong>Conven\u00e7\u00e3o sobre os Direitos da Crian\u00e7a (Dec. n\u00ba 99.710\/1990), art. 19<\/strong><em> (prote\u00e7\u00e3o integral \u00e0 inf\u00e2ncia).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udcda A revis\u00e3o criminal exige a produ\u00e7\u00e3o de prova nova, sob contradit\u00f3rio, que demonstre clara e seguramente a inoc\u00eancia ou a inexist\u00eancia do fato. A mera mudan\u00e7a de vers\u00e3o da v\u00edtima, sem elementos objetivos de corrobora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 prova nova h\u00e1bil nos termos do art. 621, III, do CPP.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udccd Nos delitos sexuais, especial cautela \u00e9 exigida: vulnerabilidade da v\u00edtima, possibilidade de influ\u00eancia de terceiros, vitimiza\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria. Retrata\u00e7\u00f5es tardias devem ser analisadas no contexto do conjunto probat\u00f3rio, com rigor metodol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Discuss\u00e3o e Entendimento Aplicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 A Sexta Turma fixou duas teses interligadas. A primeira: <strong>a revis\u00e3o criminal fundada em prova nova (art. 621, III, do CPP) exige elementos produzidos judicialmente, sob contradit\u00f3rio, que demonstrem clara e seguramente a inoc\u00eancia ou a inexist\u00eancia do fato<\/strong>. N\u00e3o basta mera mudan\u00e7a de vers\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A segunda tese, espec\u00edfica para delitos sexuais: <strong>a retrata\u00e7\u00e3o da v\u00edtima em a\u00e7\u00e3o de justifica\u00e7\u00e3o criminal n\u00e3o conduz, por si s\u00f3, \u00e0 absolvi\u00e7\u00e3o<\/strong>, sobretudo quando dissociada do conjunto probat\u00f3rio que amparou a condena\u00e7\u00e3o ou quando o novo depoimento n\u00e3o se revela suficientemente coerente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\ud83d\udce3 No caso concreto, as v\u00edtimas manifestaram <strong>sentimentos de perd\u00e3o e minimiza\u00e7\u00e3o do ocorrido em raz\u00e3o da pena elevada<\/strong>, n\u00e3o negativa categ\u00f3rica dos fatos. Alegaram falta de mem\u00f3ria ap\u00f3s 11 anos, com narrativa oscilante: nega\u00e7\u00f5es alternadas com admiss\u00f5es e alega\u00e7\u00f5es de n\u00e3o recordar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2696\ufe0f A Conven\u00e7\u00e3o sobre os Direitos da Crian\u00e7a e o princ\u00edpio da prote\u00e7\u00e3o integral \u00e0 inf\u00e2ncia refor\u00e7am a cautela: <strong>a vulnerabilidade das v\u00edtimas, a possibilidade de influ\u00eancia de terceiros e o fen\u00f4meno da vitimiza\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria exigem exame rigoroso da consist\u00eancia e das motiva\u00e7\u00f5es de retrata\u00e7\u00f5es tardias<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como Ser\u00e1 Cobrado em Prova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Julgue o item a seguir:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em revis\u00e3o criminal por delito sexual contra menor, a retrata\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a maioridade, autoriza a absolvi\u00e7\u00e3o em raz\u00e3o da soberania da palavra da v\u00edtima.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coment\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Incorreta.<\/strong> A palavra da v\u00edtima tem valor probat\u00f3rio qualificado, mas a retrata\u00e7\u00e3o tardia exige an\u00e1lise no contexto do conjunto probat\u00f3rio. A revis\u00e3o criminal exige prova nova clara e segura; nos delitos sexuais, a retrata\u00e7\u00e3o isolada da v\u00edtima n\u00e3o conduz \u00e0 absolvi\u00e7\u00e3o, especialmente quando dissociada do conjunto probat\u00f3rio (CPP, art. 621, III).<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-inteiro-teor-13\">Inteiro Teor<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cinge-se a controv\u00e9rsia a determinar se a retrata\u00e7\u00e3o judicial das v\u00edtimas de estupro de vulner\u00e1vel, posteriormente \u00e0 maioridade e colhida em a\u00e7\u00e3o de justifica\u00e7\u00e3o criminal, configura prova nova id\u00f4nea e suficiente, nos termos do art. 621, III, do C\u00f3digo de Processo Penal, para autorizar a revis\u00e3o criminal e a absolvi\u00e7\u00e3o do condenado, quando dissociada do conjunto f\u00e1tico-probat\u00f3rio que fundamentou o \u00e9dito condenat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Reconheceu-se, na origem, a superveni\u00eancia de prova nova, consistente na retrata\u00e7\u00e3o judicial das v\u00edtimas, agora maiores, colhida em justifica\u00e7\u00e3o criminal perante o Ju\u00edzo da condena\u00e7\u00e3o e sob contradit\u00f3rio, apta a desconstituir a coisa julgada (arts. 621, II e III, e 626 do CPP), concluindo-se pela inexist\u00eancia do fato e, por consequ\u00eancia, pela inoc\u00eancia do requerente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Destacou-se que a condena\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria estava ancorada, precipuamente, na palavra das v\u00edtimas, sem outros elementos probat\u00f3rios robustos, e que a retrata\u00e7\u00e3o judicial firme e coerente &#8211; apontando influ\u00eancia de familiares na vers\u00e3o anterior &#8211; revelou-se suficiente para infirmar o \u00e9dito condenat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Todavia, a retrata\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas, por si s\u00f3, n\u00e3o se apresenta como prova h\u00e1bil a justificar a absolvi\u00e7\u00e3o no caso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Vale destacar que a proced\u00eancia da revis\u00e3o criminal exige a demonstra\u00e7\u00e3o, de forma clara e segura, da exist\u00eancia de prova nova apta a afastar a condena\u00e7\u00e3o, como exige o art. 621 do CPP, o que n\u00e3o se verifica no caso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cerca de 11 anos ap\u00f3s os fatos, as v\u00edtimas manifestaram sentimentos de perd\u00e3o e de certa minimiza\u00e7\u00e3o do ocorrido em raz\u00e3o da elevada pena aplicada ao r\u00e9u, circunst\u00e2ncias que n\u00e3o se traduzem em negativa categ\u00f3rica da ocorr\u00eancia dos fatos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ademais, verifica-se, dos depoimentos utilizados pelo Tribunal de origem para acolher o pedido revisional, que, embora as v\u00edtimas tenham alterado a narrativa anteriormente prestada nos autos, afirmaram, em diversas oportunidades, n\u00e3o se recordar dos fatos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No depoimento prestado na A\u00e7\u00e3o de Justifica\u00e7\u00e3o Criminal, uma das depoentes afirmou recordar apenas sua idade \u00e0 \u00e9poca, cerca de 12 anos, ressaltando que, em raz\u00e3o do tempo decorrido (aproximadamente 11 anos), n\u00e3o conseguia se lembrar do ocorrido, posi\u00e7\u00e3o reiterada diversas vezes quando questionada pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A outra depoente, por sua vez, apresentou narrativa oscilante: inicialmente declarou n\u00e3o possuir lembran\u00e7as claras sobre os fatos, mas, em determinados momentos, negou a ocorr\u00eancia das condutas atribu\u00eddas ao r\u00e9u, atribuindo o relato anterior a um momento de raiva e \u00e0 influ\u00eancia de pessoa pr\u00f3xima, voltando posteriormente a mencionar a dificuldade de recordar os acontecimentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tal circunst\u00e2ncia fragiliza a coer\u00eancia l\u00f3gica da decis\u00e3o, que acolhe as declara\u00e7\u00f5es posteriores sem esclarecer de que modo o tempo decorrido desde os fatos e a alegada falta de mem\u00f3ria das v\u00edtimas n\u00e3o obstariam a forma\u00e7\u00e3o do convencimento absolut\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com efeito, a mera mudan\u00e7a de vers\u00e3o da v\u00edtima, desacompanhada de elementos objetivos que evidenciem erro judici\u00e1rio, n\u00e3o se revela suficiente para afastar a validade da decis\u00e3o condenat\u00f3ria anteriormente proferida, nos termos estabelecidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cumpre destacar, ainda, que o art. 19 da Conven\u00e7\u00e3o sobre os Direitos da Crian\u00e7a, aprovada pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas &#8211; ONU em 1989 e incorporada ao ordenamento jur\u00eddico brasileiro pelo Decreto n. 99.710\/1990, consagra o princ\u00edpio da prote\u00e7\u00e3o integral \u00e0 inf\u00e2ncia, impondo especial cautela na an\u00e1lise de casos de abuso sexual contra menores de idade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A vulnerabilidade das v\u00edtimas, a possibilidade de influ\u00eancia de terceiros e a ocorr\u00eancia de fen\u00f4menos como a vitimiza\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria refor\u00e7am a necessidade de exame rigoroso da consist\u00eancia e das motiva\u00e7\u00f5es de retrata\u00e7\u00f5es tardias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c0 luz dessas premissas, verifica-se que o ac\u00f3rd\u00e3o de origem diverge da jurisprud\u00eancia do Superior Tribunal de Justi\u00e7a, segundo a qual, nos delitos sexuais, a retrata\u00e7\u00e3o da v\u00edtima em a\u00e7\u00e3o de justifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o conduz, por si s\u00f3, \u00e0 absolvi\u00e7\u00e3o, especialmente quando o novo depoimento mostra-se dissociado do conjunto probat\u00f3rio dos autos e n\u00e3o se revela suficientemente coerente para justificar o afastamento da condena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">***<\/p>\n\n\n\n<div data-wp-interactive=\"core\/file\" class=\"wp-block-file\"><object aria-label=\"Incorporar PDF\" data-wp-bind--hidden=\"!state.hasPdfPreview\" hidden><\/object><a id=\"wp-block-file--media-e9f80c35-5ff1-45ca-a730-e8355d0f038e\" href=\"https:\/\/dhg1h5j42swfq.cloudfront.net\/2026\/06\/08083406\/stj_info_889.pdf\">STJ_Info_889<\/a><a href=\"https:\/\/dhg1h5j42swfq.cloudfront.net\/2026\/06\/08083406\/stj_info_889.pdf\" class=\"wp-block-file__button wp-element-button\" download aria-describedby=\"wp-block-file--media-e9f80c35-5ff1-45ca-a730-e8355d0f038e\">Baixar<\/a><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DOWNLOAD do PDF AQUI! 1.&nbsp;&nbsp; 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