Ronaldo Fonseca - Aprovado no concurso do ICMS/SP

Entrevista:

Ronaldo Fonseca – Aprovado no concurso do ICMS/SP

Olá caros(as) amigos(as),

Segue abaixo entrevista com o Ronaldo Fonseca, recentemente aprovado no concurso do ICMS/SP. O Ronaldo largou o emprego na iniciativa privada para se dedicar aos estudos. No meio do caminho, sua esposa ficou grávida, houve algumas reprovações… enfim, a pressão interna deve ter sido grande. Vale a pena ler essa entrevista ;-)

 

Heber Carvalho: Conte-nos um pouco sobre você, para que nosso leitor possa te conhecer melhor. Você é formado em que área? Trabalhava e estudava, ou se dedicava inteiramente aos estudos?

Ronaldo Fonseca: Quando comecei a estudar sempre lia essas entrevistas e ficava imaginando quando estaria aqui desse lado. Portanto, obrigado pela oportunidade de conversar com você e com os alunos do Estratégia.

Antes de entrar no “mundo paralelo dos concursos”, só tinha estudado de verdade quando fui fazer vestibular. Chamo de mundo paralelo porque parece que você é sugado para outro plano, com pessoas obcecadas e que só sabem falar daquilo. Não conhecem os bordões da televisão, não veem BBB ou novelas. Ficam até mais inteligentes…rs. E a biblioteca ?? Parece uma cracolândia, cheia de viciados. Ninguém olha para os lados e se algum desavisado falar ou fizer barulho, pode ser mordido pelo estudante mais próximo..rs. Eu era um desses..hehe. A gente fica meio “Walking Dead”.

Fui gerente de uma multinacional por muitos anos. Tinha uma rotina bem puxada, com muitas viagens e muita responsabilidade. Mesmo gostando do meu trabalho e recebendo bem por ele, com perspectivas de crescimento, decidi que era hora de mudar. Do segundo trimestre de 2009 ao início de 2013, fiquei sem trabalhar a maior parte do tempo. Sendo que em 2009 resolvi fazer uma complementação da minha formação. A ideia inicial era só estudar para concurso no ano seguinte, mas decidi antecipar os planos. Eu tinha curso superior, mas há concursos que exigem graduação completa, de quatro anos. Nos dois semestres de 2009 fiz 23 matérias, frequentando a faculdade pela manhã e noite e estudando para concursos à tarde. Ainda assim, aproveitava cada segundo livre. Quando parava de estudar pra descansar, assistia à TV Justiça.  Era novidade pra mim, até então, nem devia saber que esse canal existia. Lembro até hoje dos ministros falando em “superveniência” disso e daquilo e eu não entendia nada. Logo depois, estudando Direito Constitucional, aprendi o que era o termo e aí já conseguia entender uns 5% do que eles falavam…. hoje devo entender uns 8%…rs.

Aos sábados, passava o dia inteiro no curso, além de fazer alguns módulos aos domingos. Além disso, ficava fazendo exercícios durante as aulas da faculdade, já que a maior parte do conteúdo eu já conhecia. Voltei a trabalhar num dos vales de concursos da área Fiscal (período sem provas) em 2011 e depois voltei a só estudar. Era o meu planejamento, acabei com tudo que tinha pra poder fazer isso. Só sobrou a cueca do corpo!! Tinha que dar certo.

Quem toma a decisão de largar tudo para estudar sofre uma pressão tremenda para passar. E a minha pressão interna para dar certo, para conseguir o resultado o mais rápido possível me atrapalhava um pouco, mas por outro lado, não deixava que eu me acomodasse. Minha meta era ficar competitivo e precisava tirar o atraso dos meus anos de aluno mediano. Às vezes escuto que alguns tem dificuldade em estudar em casa por causa da internet, do sofá e da TV. Penso que se sua meta estiver bem definida e você quiser realmente algo, esses prazeres se tornam secundários. É uma questão de hábito. É como academia. No início você não quer ir de jeito algum, mas se conseguir manter a regularidade por dois meses, não vai mais querer parar. Porém, se por algum motivo acontecer uma pausa, a gente sofre de novo para recuperar o ritmo. Regularidade é a palavra chave.

Acho que já falei até demais sobre mim, chega né ?

 

Heber Carvalho: Como era sua vida social e familiar durante a preparação para concursos? Você é casado? Tem filhos? Costumava sair com amigos? Praticava esportes, fazia atividades físicas? Ou adotou uma postura radical, abdicando do convívio social para passar no concurso o mais rápido possível?

 

Ronaldo Fonseca: Bom, sou o pai da Isabela. E casado com Aline, uma mulher espetacular que sempre me apoiou (imagina se esqueço de falar isso, não entraria em casa hoje…rs). Isso é o mais importante. Minha família foi fundamental. Se eu fosse solteiro e sem uma filha pequena, talvez não tivesse ido até o final. Vim de uma família humilde e minha Mãe ralou muito pra que eu chegasse aqui. O que ela fez para criar os três filhos foi muito mais difícil do que aprovação em qualquer concurso. Muito mais difícil mesmo. Eu não sei se passaria pelas provas pelas quais ela passou na vida.

Quando tomei minha decisão, inicialmente compartilhada apenas com a patroa e com uma das irmãs, fui bastante apoiado. Só alguns meses depois de ter largado o emprego e com o plano de saúde em período de carência é que descobri que a Isabela, minha pequena, estava a caminho. Depois da felicidade em saber que ia ser pai, veio a fase das contas. Aí, chora neném. Não tinha mais jeito. Nossas “provisões de guerra”, que durariam alguns bons anos, iriam acabar bem mais rápido. Mas ainda bem, graças a Deus e ao nosso esforço, chegamos lá. Ambos aprovados em bons cargos. Agora só falta a pequena Isabela passar! Rs

O apoio da família foi muito importante pra mim, mas conheço pessoas que não tiveram o mesmo suporte e usaram isso como fonte de motivação.  E conheço pessoas que tiveram oportunidade de só estudar e também não se adaptaram, seja por falta de gerenciamento de tempo ou pro não conseguir ficar na corda bamba e com a faca no pescoço, sem um emprego.

 

Heber Carvalho: Como era sua vida social e familiar durante a preparação para concursos? Você é casado? Tem filhos? Costumava sair com amigos? Praticava esportes, fazia atividades físicas? Ou adotou uma postura radical, abdicando do convívio social para passar no concurso o mais rápido possível?

 

Ronaldo Fonseca: Héber, falar que minha vida social era zero seria uma mentira. Era algo entre menos trinta e menos quarenta, por aí….Eu sempre fui meio paranoico. Por exemplo, eu era piloto de parapente e era viciado no esporte, mas a gravidez da esposa e o medo de me machucar e de atrapalhar os estudos me fizeram largar esse hobby. Eu precisava, ao menos, conhecer minha filha, não podia morrer ainda…rs. Pra você ter ideia, minha esposa nem gostava muito que eu voasse, mas ao me ver estudar o tempo todo até tentava me estimular a voltar. Um outro exemplo: desativei completamente uma conta no Facebook.  E só voltei a usar em 2012 porque passei num concurso da Petrobras e o grupo de aprovados queria acompanhar as convocações por lá. Lembro-me de uma entrevista do Deme (um dos maiores ícones dos concursos) em que ele dizia que jogava videogame pra relaxar. E eu sempre gostei de jogos. Fui lá e comprei um Playstation 3. Semanas depois ele estava devidamente encaixotado e guardado. Não conseguia jogar sabendo que poderia perder horas que deveriam ser dedicadas ao estudo. Isso porque sei que não consigo jogar só vinte minutos. E outra, o Deme era o Deme. O cara estava em outro patamar. Ou seja, nem sempre o que servia pro Deme vai servir pra mim. E outra, nem sempre o que funcionou comigo, funcionaria com outra pessoa. O importante é personalizar sua preparação, aproveitar o que tem de bom em cada trajetória dos que já passaram, desde que seja possível adaptar ao seu estilo. A única regra que vale para todos é: estude muito, de acordo com sua disponibilidade. Se você trabalha e tem pouco tempo para estudar, mas consegue ver novela, BBB e está atualizado com todas as novidades, talvez algo esteja errado nas suas prioridades.

O autoconhecimento é fundamental. Você tem que saber quais seus pontos fracos e não deixar que eles te atrapalhem. E valorizar e aproveitar o que você tem de bom. De acordo com o velho ditado, aquele que conhece os outros é sábio e o que conhece a si mesmo é iluminado.

Mas, voltando à pergunta, se você quer saber se acho certo radicalizar dessa forma, diria que não. Acho legal quando a pessoa consegue manter um ritmo mais saudável, sair de vez em quando e tal, mas sem excessos. Na época em que tentava ir à academia, levava alguma aula em vídeo e assistia na esteira. O que é errado. Eu já sabia, mas preferia ver o vídeo assim mesmo, como uma revisão. Era engraçado ver as pessoas ao lado me achando o cara mais estranho do mundo. O que não deixa de ser verdade…hehehe. Mesmo me privando de muita coisa e levando os estudos a sério, penei bastante.

Heber Carvalho: Ao longo de sua jornada, você tentou outros concursos, para treinar e se manter com uma alta motivação ou decidiu manter o foco apenas naquele concurso que era o seu sonho? Você acha que vale a pena fazer outros concursos, com foco diferente daquele concurso que é realmente seu objetivo maior?

Ronaldo Fonseca: Héber, essa pergunta é interessante. Eu mudei o foco sim, pouco, mas mudei. Aliás, quando o tempo vai passando e você começa a colecionar reprovações, sua autoestima fica cada vez menor e a capacidade de se levantar depois de uma paulada e de reerguer a cabeça é posta à prova. No meu caso, lembrava sempre dos professores dizendo que concurso da área fiscal é um concurso de alto nível e comparável ao IME, ITA e afins. Só que eu nunca me imaginei passando no IME ou ITA. Até porque eu estudava para Humanas. E estava concorrendo com muitos formados nessas universidades ou Institutos Militares de alto padrão.

Depois da minha reprovação no ISS SP 2012, faria a prova do ISS BH logo em seguida, mas minha confiança estava no chão. Eu estudei bastante pro ISS SP 2012, apesar de o edital ter saído no finzinho do ano e de eu estar estudando para uma prova da área de Gestão. Foi uma desviada de foco que me atrapalhou, pois só fui ver legislação depois do edital, além de ter abandonado algumas matérias importantes por uns dois meses. Depois de uma apanhar no ISS SP, não sabia se valeria a pena arriscar o ISS BH. Conversando com a patroa, achamos melhor que seria melhor fazer a prova da Petrobras. Estudei bem e larguei a área fiscal por uns dois meses. Mas a base era tão grande que ficou muito fácil estudar e revisar. Passei com certa facilidade e foi a primeira sensação boa de aprovação. Ver o nome no Diário Oficial é muito bom. Muito bom. De novo, é muito bom! E era bom, muito bom, em um cargo longe da minha meta. Fiquei imaginando o sentimento do dia em que virasse Auditor Fiscal.

Penso que o foco é importantíssimo no primeiro ano, ou até você dominar as básicas e mais algumas específicas. Aí, se o seu concurso estiver sem nenhum sinal de fumaça, acho que vale uma pequena desviada. Mas tudo depende das matérias de cada prova. Não adianta desviar para áreas que cobram matérias com curva de aprendizado longa, por exemplo. E outra, o edital pode acabar saindo antes do esperado e você vai ficar pra trás. É sempre uma escolha bem difícil.

Há momentos em que o foco é importantíssimo. É quando você tem que fazer escolhas.  No final de 2012, eu estava desviando os estudos para a Câmara dos Deputados, aí veio a Receita Federal e boatos do ICMS SP. Cheguei a separar material para a Receita Federal, mas com a confirmação das notícias de vagas para fronteira, decidi focar no ICMS SP. Não me arrependo da decisão. Agora vou trabalhar em São Paulo, na capital.

Heber Carvalho: Você estudou por quanto tempo, contando toda a sua preparação. Durante este tempo de estudo, como você fazia para manter a disciplina nos estudos mesmo naqueles períodos em que não havia edital na mão?

Ronaldo Fonseca: Foram três anos e dez meses de “mundo paralelo”. Disso tudo, pelo menos três anos foram inteiramente dedicados. Se excluir o primeiro ano, quando fiz as 23 matérias da faculdade em dois semestres, pelo menos dois anos foram muito intensos. Muito mesmo. De abrir e fechar a biblioteca ou ficar trancado em casa. Quase todo dia, inclusive feriado. Sem férias. Sem grandes viagens e com pouco lazer. Já tive oportunidade de assistir uma palestra do Bernardinho e ler seu livro. E ele enfatiza que a distância entre o sonho e a realidade é a disciplina. Isso é fundamental para quem quer entrar nessa batalha. Por isso acho que os militares já levam alguma vantagem. Exatamente por causa da disciplina. Eles já chegam prontos para encarar o papiro.

Eu sempre li relatos de pessoas que tinham dificuldade em estudar sem edital. Não passei por isso. Na verdade, um erro meu foi estudar muito forte, mesmo antes da autorização. Em pelo menos dois concursos cometi esse erro. Quando o edital saía, eu ainda tinha gás e aumentava ainda mais o ritmo. Só que ao chegar perto da prova, já estava totalmente esgotado. Aconteceu de eu ficar uma semana sem ânimo pra nada. E isso com edital na praça. Nem tinha vontade de ir fazer a prova, por achar que não estava preparado. O que é outro erro. É quase impossível saber tudo que está nos programas. Nunca, nunca deixe de ir a uma prova. É sempre um grande aprendizado. E às vezes, vem uma inesperada aprovação. Já li relatos assim. Você tem que conseguir calcular como fazer para chegar numa curva ascendente na prova, sem estar física e psicologicamente morto. Só que não existe uma fórmula pra isso. Meu maior receio foi o de ficar doente durante o edital. Tomei umas vitaminas para prevenir e parece que deu certo. Também fui um pouco à academia pra não ficar com dor nas costas e fazer um pouco de exercício aeróbico. Fazia uns quatro tipos de exercícios e ia embora. Acho que deu certo, pois cheguei inteiro no fatídico final de semana.

Heber Carvalho: Que materiais você usou em sua preparação para o concurso? Aulas presenciais, telepresenciais, livros, cursos em PDF, videoaulas? Quais foram as principais vantagens e desvantagens de cada um?

Ronaldo Fonseca: Eu usei de tudo. Sem exceção. Fica até parecendo depoimento de ex viciado, daqueles dos anos 70, né?….rs.

Pode parecer que foi falta de foco, mas na verdade, a cada matéria e momento da preparação eu escolhia o formato do material. Sempre leio que os cursos presenciais, estilo pacotão, não valem a pena. Isso, em parte, é verdade. Em grande parte. O curso de porteira fechada, como pacote, muitas vezes é roubada. A não ser que você saiba os nomes dos professores e pesquise sobre seu histórico. O que importa é o professor e não o curso. Mas nesses cursos, se você for um novato esperto, pode conhecer pessoas que tenham os mesmos objetivos que você. Ficar reclamando que o curso é bagunçado, desorganizado ou que o ar condicionado faz barulho é perda de tempo. O que importa é a qualidade do professor. Todos os cursos têm problemas, não sei por que não os resolvem, mas você não deve se preocupar com isso. O que me irritava era professor que perdia parte da aula reclamando da situação política do país, ou querendo vender livros, apostilas e etc. Eu gosto muito de falar de economia, política e etc, mas na aula eu não queria discutir se os mensaleiros devem ou não ser presos, eu queria era uma forma mais rápida para fazer 30 questões de português em uma hora, ou 100 questões em quatro horas, além da marcação do cartão de respostas. Esse tipo de problema, geralmente, é mais recorrente nas aulas presenciais, ou em telepresenciais. Os únicos desvios que eu apoiava eram aqueles que aliviavam a pressão do conteúdo, com alguma brincadeira, uma história engraçada e até mesmo para falar do dia a dia de um auditor fiscal. Aí, eu achava legal e útil. Mas o professor tem que saber a dose certa, sem exageros. Aprender a matéria e ainda se divertir é o mundo ideal.

Usei muitos livros, sempre pesquisando quais eram os mais indicados de cada matéria. Os vídeos eu deixava para aquelas em que tinha mais dificuldade. Por exemplo, Estatística era sempre em vídeo. E o que percebi foi o seguinte: às vezes eu assistia um determinado tema de Estatística com o professor A, depois com o B. E cada um explicava o mesmo assunto de formas bem diferentes. Foi aí que decidi escolher apenas um para aprender o assunto. E não tem como deixar de citar o Carlos Henrique. Quem não é de Exatas precisa de um professor com ele. E quem é de Exatas também. Quando minha filha nasceu, eu precisava levantar de três em três horas para preparar o complemento da amamentação. E aí, ligava o computador e assistia um pouco da aula dele. Fiz um bom caderno, com resumo, só aproveitando essas brechas. Além disso, os vídeos simulam uma aula presencial, sem deslocamento, sem gastos extras e tomam bem menos tempo que outros meios. Por isso, eu tentava dar preferência a cursos como o Eu Vou Passar que permitem o download das aulas. Usava o GOMPLAYER e acelerava as aulas em 2X. A voz dos professores fica meio engraçada, inclusive a sua, Héber. Mas com o tempo a gente acostuma… rs

Mas pra mim, o melhor material e aquele em que rendia mais era nos PDF’s. Usei muitos do Estratégia também. Eu imprimia alguns e ia lendo e relendo as marcações. Se for fazer isso, pesquise sobre recarga de cartucho ou tonner. Depois que estudava e refazia os exercícios, ia anotando na primeira página todos os termos mais importantes e conceitos que não podia esquecer. Aí, sempre que precisava revisar rapidamente, olhava essa primeira página. Isso funcionou muito bem. Quando estudava pelo tablet, fazia o mesmo. Antes da prova do ICMS SP, reli esses resumos em matérias como os Direitos, Administração Pública e Economia.

Eu só não gostava muito de estudar no PC, por emitir muita luz. Pra quem estuda muitas horas, isso faz bastante diferença. Há também um programa que melhora a luminosidade do PC, mas não testei. Conheci um colega que não se adaptou ao tablet porque acabava usando-o pra internet e jogos. Acabou vendendo e comprando um leitor de e-books. Apesar de gostar do Kindle para leitura em geral, acho um tablet mais indicado para os estudos.

Também gostava de controlar o tempo de estudo em cada matéria. Existem apps voltados para empresas de consultoria, de negócios, que te deixam controlar o tempo dedicado à cada matéria, com relatórios semanais, anuais e etc. Na verdade o app não era para isso, eu é que o adaptava. Eu fiz até um cálculo meio louco. Simulei quantos anos trabalharia na Sefaz SP e qual seria minha renda até a aposentadoria. E quando saiu o edital, vi quantas horas poderia estudar e dividi minha renda estimada até o fim da vida pelas horas previstas de estudos após o edital. Cheguei ao valor que cada hora de estudos me traria de retorno. E sempre que ia atualizar o app e lançava duas horas de estudo em Contabilidade, via o valor que aquelas duas horas me trariam de compensação financeira. Coisas de maluco, sim, eu sei.

> Cursos para Concurso da Área fiscal <

Heber Carvalho: Uma das principais dificuldades de todo o concursando é a quantidade de assuntos que deve ser memorizada. Como você fez para estudar todo o conteúdo do concurso? Falando de modo mais específico: você estudava várias matérias ao mesmo tempo? Quantas? Costumava fazer resumos? Focava mais em exercícios, ou na leitura e re-leitura da teoria?

Ronaldo Fonseca: Estudava usando os já bem conhecidos ciclos. Eu conheci os ciclos lendo o livro do William Douglas e o Manual do Alexandre Meirelles, antes de virar livro. Depois, li o livro também. E recomendo. Ele é bem objetivo e voltado para a área fiscal.

Eu estudava de três a cinco matérias por dia. Quando fazia mais exercícios, essa quantidade aumentava, pois às vezes fazia sequências de 100 questões por matéria, sempre marcando o tempo.

Também tenho uma boa relação com os resumos. Não conseguia me sentir seguro numa matéria sem um. E o resumo, não necessariamente é aquele em que você faz um texto resumido. Pode ser a marcação do material em pdf ou do livro ou, por exemplo, pode ser a anotação que você faz no alto de cada página. Até no próprio programa de vídeo você pode fazer marcações para rever depois. Ou, como fazia às vezes, extraía o áudio de partes dos vídeos para poder escutar sempre que estivesse em deslocamento. Mas isso toma tempo, claro. O princípio do custo x benefício tem que ser lembrado sempre. E com edital não dá pra fazer isso.

Também usei e abusei dos sites de questões. É um bom complemento e eu era viciado neles. Ficava sempre procurando questões novas. Quando estava mais cansado, recorria a esses sites pra pegar mais gás. É legal traçar umas metas curtas, como fazer 50 questões de Direito Constitucional em 40 minutos. Isso te faz ser mais rápido e faz o estudo ficar menos enfadonho. Há bons depoimentos sobre a importância da resolução sistemática de questões e acho que vale a pena lê-los. Para provas da FCC, com a tradicional P1, agilidade é fundamental.

Heber Carvalho: Uma das coisas mais certas para quem estuda para concursos de alto nível é o fato de que o edital sempre trará algumas novidades. São temas novos, com os quais nunca se teve contato anteriormente. Com o concurso do ICMS/SP , no qual você foi aprovado, não foi diferente! Entraram diversos temas que as pessoas não esperavam (Economia, Tecnologia da Informação, Raciocínio Crítico). Qual foi a sua estratégia para dar conta de tantos assuntos e/ou disciplinas novas, em um curto espaço de tempo,  entre a publicação do edital e a prova?

Ronaldo Fonseca: Na minha prova do ICMS SP, as três matérias novas representavam 15% do total de pontos, ou seja, não seriam elas a definir quem entraria ou não. O problema é que boa parte desses pontos estavam concentrados na P1, a mais temida. Nela, 30% dos pontos eram de Economia, Finanças e Raciocínio Crítico. Na P1 o cenário era bem preocupante mesmo. E ainda tinha Português na P1, meu calo nas provas. E o de muita gente, no caso da FCC.

Por isso, acho que essa paranóia que muitos concurseiros têm de tentar adivinhar as matérias que serão novidades no próximo concurso, não faz sentido. A impressão que tenho é que, muitas vezes, as pessoas mais preocupadas com isso ainda não dominam as disciplinas de que temos absoluta certeza que estarão nas provas (Tributário, Português, Constitucional, Contabilidade, Auditoria, Dir.Administrativo, RLM, Matemática Financeira…). E quando sai o edital, quem domina essas básicas e já teve contato com as que são cobradas com frequência (Direito Empresarial, Civil, Economia, AFO…) acaba disparando na frente. E muito na frente, pois terá todo o período do edital à prova para refazer questões e rever resumos e poderá dedicar muitas horas ao aprendizado das novidades. No caso do ICMS SP, Economia e Tecnologia da Informação são imensas. E acho que foram escolhidas por isso mesmo. Para assustar.

Eu já tinha estudado Economia, mas estava enferrujado. Comecei a estudar, mas acabei negligenciando a matéria, por falta de respeito. Como já tinha visto mais de uma vez, não fiz uma revisão adequada. E perdi muitos pontos por isso. Assim, como muitos dos aprovados, usei o seu material do Estratégia e vi alguns vídeos que você gravou para o ISS SP de 2012 no EVP. Acho que todos já sabem que esse material é o melhor do mercado e o resumo que você lançou no final do curso, ajudou muita gente. Não me ajudou em nada, porque acabei deixando pra estudar outras coisas e fui burro o bastante para não reservar um tempo para olhar o seu material. Alguns colegas conseguiram pontuar bem, graças a ele. E o burro aqui nem usou para uma rápida revisão.

Tecnologia da Informação foi a novidade que assustou a maior parte dos que não eram da área de TI. Era peso 2 e decidi investir nela. Li e reli o material do Vitor Dalton. Era um material de questões comentadas. E era o que eu queria. Ele também postava links com materiais complementares, mas eram muito grandes. Decidi apostar apenas nos exercícios e comentários. Deu certo e meu desempenho nessa prova fez toda a diferença. Não dava pra tentar aprender alguns anos de faculdade em algumas semanas. E, de novo, além da importância de TI para a SEFAZ SP, acredito que essa disciplina também estava na cota daquelas que nos testariam emocionalmente, desde o dia da publicação do edital.

Raciocínio Crítico também foi via Estratégia, com o professor Arthur Lima. Era uma matéria nova no mundo dos concursos e pouca gente sabia exatamente o que era. Fiz e refiz os exercícios e consegui gabaritar essa prova. Lembro que decidi comprar o curso dele ao ler o artigo em que explicava quais concursos já tinham usado os tópicos que seriam cobrados pela FCC e o que era o Raciocínio Crítico. Ali vi que ele sabia do que estava falando. Podia até não saber, mas me convenceu…rs. Como era uma matéria da famigerada P1, fiz e refiz os exercícios, estudei as técnicas e gabaritei a prova. Achei até que o nível dela veio bem light. Sem estudar tanto, daria pra tirar uma boa nota. Essa disciplina me ajudou a cravar 63% na P1 e me afastar da nota de corte de 50%.

Heber Carvalho: Você tinha mais dificuldades em alguma(s) disciplina(s)? Quais? Como você fez para superar estas dificuldades?

Ronaldo Fonseca: Sim, tinha dificuldades em todas…rs. Como sempre tive certa facilidade com redação e em pôr as ideias no papel, achei que Português seria fácil. Se algo dessa minha entrevista puder ajudar alguém, que seja sobre a importância de estar muito bem nessa matéria. Enquanto a ESAF é leve, estilo briga de rua, FCC e FGV são pesadas, estilo MMA. FCC quebra a sua canela, sem dó….hehehe. E as três têm estilos bem peculiares em suas provas. Português me tirou de duas aprovações em concursos fiscais. E só levei a sério a disciplina depois da pancada que levei na prova do ISS SP de 2012. Segundo a professora Adriana Figueiredo, excelente por sinal, foi uma das provas mais difíceis da FCC nos últimos tempos.

Economia foi outro trauma, além de Estatística, Direito Empresarial, Contabilidade. O lance é entender que é normal ter dificuldade no início. E que às vezes esse início é meio longo, demora um pouco pra passar….rs. Tem que insistir, não tem jeito. Se for o caso, tente identificar se o material ou seu formato são adequados a você. Quando eu tinha muita dificuldade, apelava para vídeos. E depois voltava aos materiais escritos para fixar. E quando você insiste na matéria e começa a aprendê-la, corre o risco até de gostar de estudá-la. Isso é o ideal. É a velha história de procurar gostar do que se faz e não fazer o que gosta. Se formos fazer só o que gostamos, não passamos num concurso de alto nível. Simples assim.

Heber Carvalho: A reta final (estudo pós-edital) é sempre um período estressante. Como você levou seus estudos neste período? Você se concentrava nas matérias de maior peso ou distribuía seus estudos de maneira mais homogênea? Focava mais na re-leitura, em resumos, em exercícios, etc ?

Ronaldo Fonseca: Como eu já havia estudado a maior parte das matérias, preferi não abandonar muitas. Abandonei completamente estatística, sem dó e sem peso na consciência. Chutei as cinco e mais duas de Matemática Financeira, por falta de tempo. Marquei letra A em todas. E errei as sete. Nas 10 questões nenhuma tinha a letra A como gabarito. Por essa e por outras nem jogo na Mega Sena.

Reduzi drasticamente o tempo dedicado a algumas, como Direito Empresarial e Civil e só fazia questões e olhava um pouco da lei seca. Claro que numa prova como a de SP, há a possibilidade de se abandonar matérias e isso é ótimo, mas facilita o trabalho de quem “fura a fila”. Aliás, eu não creio muito nessa “fila”. Acho que nos dias atuais ela não existe mais. Não mais como era há alguns anos.

Meu planejamento incluía muito mais horas nas matérias de maior peso e nas que poderiam me eliminar, como as da P1. Eu sempre gostei de tentar dissecar o edital e esquartejar o garoto, montando os pesos, o que eu iria estudar mais, quantas horas eu estimava para cada matéria e quantos pontos teria que fazer em cada disciplina. Penso que depois do edital, o ideal é rever as matérias, por resumos ou grifos, fazer muitos exercícios, fixar a lei seca e regras e fórmulas em geral. Com isso, você poupa tempo para se dedicar às disciplinas novas. O curioso é que sempre que saía o edital eu achava que daria pra cobrir todo o planejado, com folgas. E na reta final sempre tinha a sensação do cobertor curto, sempre faltava alguma coisa. Se você já teve essa sensação, não relaxe, mas saiba que é bem comum. É difícil deixar tanta informação na cabeça por tanto tempo.

E ainda tive problemas inesperados com a vizinhança a menos de dois meses da prova. Os apartamentos acima e abaixo do meu entraram em reforma. Mas daquelas pesadas, de troca de piso e etc. Passei a acordar de madrugada para conseguir aproveitar o silêncio. Quando a quebradeira começava e a serra tico tico começava a cantar, eu partia para as vídeo aulas ou para exercícios. Mas esse sistema não durou muito. Tive que partir para uma biblioteca longe de casa, perdendo um tempo não previsto.

Heber Carvalho: Na semana da prova, nós sempre observamos vários candidatos assumindo uma verdadeira maratona de estudos (estudando intensamente dia e noite). Por outro lado, também vemos concurseiros que preferem desacelerar um pouco, para chegar no dia da prova com a mente mais descansada. O que você aconselha? Como foi seu estudo nesse período?

Ronaldo Fonseca: Eu sou meio maluco. Quero aproveitar cada minuto, cada segundo e acho que isso pode ser um erro. Algo que aprendi com um Consultor na área de concursos, hoje um amigo, é que você precisa chegar bem relaxado na prova. E ele sempre me falava para diminuir o ritmo na última semana, mas eu nunca obedecia. Acho também que cada um deve saber o que o deixa mais tranquilo. Se estudar até o último minuto te deixa mais calmo, faça dessa forma. Não adianta você tentar ficar amarrado e sem estudar, se você ficar o tempo todo pensando que deveria estar aproveitando para ler o resumão mágico. Aliás, dessa vez usei a tecnologia a meu favor. Eu tinha várias fotos no meu celular de partes importantes dos meus resumos ou de materiais. E aí, ficava vendo essas fotos antes de entrar na sala. Eu vi e revi essas fotos algumas vezes.

No ICMS SP decidi relaxar um pouco na última semana, mas relaxar significava procurar provas novas e tentar resolver. Lembro que a dois dias do concurso, achei uma prova de TI do DPE RS. Tentei resolver as questões, mas em algumas não tinha certeza se poderiam ser ou não cobradas no ICMS SP. Mandei um e-mail para o Professor Victor Dalton e postei as dúvidas no fórum do Estratégia. Ele me respondeu bem rápido, e fiquei mais tranquilo em TI, pois fui bem na resolução dessas questões.

Quer ver outro exemplo de insanidade? Fui fazer a prova com Renatete, Paulete, Eduardete e Carlete em São José dos Campos. Nós fomos de carro. Eu viajei no banco do carona, lendo os resumos de Legislação em voz alta e fomos discutindo e revisando. Isso durante toda a viagem, por quatro horas, que só foi interrompida para fazermos uma oração em Aparecida. O que, aliás, me fez muito bem. Eu, Renato e Eduardo passamos dentro das vagas. Carlos e Paulo estão entre os excedentes. Sim, esses são os nomes verdadeiros deles. Desculpe aproveitar esse espaço para fazer isso com os amigos, mas não podia perder a oportunidade. É a minha forma ridícula de homenageá-los…hehe.

Heber Carvalho: Se você tivesse que apontar ERROS em sua preparação (se é que houve ;-), quais seriam? Diga-nos também quais foram os maiores ACERTOS?

Ronaldo Fonseca: Héber, você é mesmo muito educado…o que eu mais tenho é erro para contar, rs. Essa pergunta vale para os feras como Lucas Doraciotto, primeiro lugar no ICMS SP 2013.  Eu poderia escrever um livro só com os erros, mas, por outro lado, soube aprender e corrigi-los a tempo. E vamos a alguns dos erros….

Eu sou meio ansioso e logo no início dos estudos, sem nem terminar o módulo básico de Direito Tributário, entrei no curso de exercícios do Professor Lugon. Só que era um curso avançado e ele só colocava questões puxadas. Lembro até hoje dele olhando pra mim com aquela feição de “o que esse imbecil está fazendo aqui sem ter terminado a turma básica?” Por sorte o curso foi suspenso e recuperei meu dinheiro e minha dignidade..rs.

Outro erro grave. Comprei o livro do Marcelo Alexandrino e Vicente de Paulo, de Direito Constitucional. E quem conhece sabe que é um livro imenso e completo. Pois bem, eu ia lendo os capítulos e resumindo tudo o que via pela frente.  Só que ao ler a matéria pela primeira vez, você ainda não tem a mínima idéia do que é mais importante e do que é quase irrelevante para o seu concurso. Acho que nunca vou esquecer de a “Teoria dos quatro status de Jellinek”. Eu li no livro e, como um bom tarado por resumos, fiz um quadro e coloquei numa ficha. Não satisfeito, decorei, li e reli essa ficha muitas e muitas vezes. Só que esse assunto não é muito presente nas provas da área Fiscal. E eu só descobri isso ao começar a fazer muitas questões. Devo ter feito todas as questões dos últimos anos, de várias bancas. E só vi uma questão com esse tema. Uma vez. Isso mesmo, uma vez. Eu gastei horas e horas com um tema que não era prioritário nas provas da área fiscal. Isso mostra a importância de se fazer muitas e muitas questões, priorizando a sua banca.  Não saia fazendo resumos se não souber a importância do tema. Eis outra diferença entre livros e material em PDF. O último costuma ser voltado para a banca e para uma determinada área. É bem específico, portanto, os professores costumam indicar o que mais cai, ou o que mais despenca, como diz o Ricardo Vale. No livro, em regra, depende mais da percepção do aluno, pois ele não é, geralmente, voltado para um determinado concurso. Em suma, se quiser ser meu amigo, não pronuncie o nome Jellinek…rs

Outro erro: estudar demais algumas matérias no início da preparação. Sim, nem sempre estudar demais é o correto. De acordo com a Economia, vivemos de escolhas. Se eu estudo demais algum a disciplina, devo estar estudando menos de outra. Além do livro do Alexandrino e Vicente de Paulo, de Constitucional, li outro livro específico só de Controle de Constitucionalidade. E quase comprei um do Barroso, agora ministro do STF. Aqui fica clara a importância de uma orientação adequada. Por mais que eu tivesse lido entrevistas e até um livro, cometi um erro primário de estudar demais algumas matérias, tomando o tempo de outras. Eu estava tomando como base o edital anterior da RFB, que tinha um grande peso nessa matéria, mas mesmo assim, errei na dose.

Há professores que adoram citar os artigos e demonstrar sua boa memória. Mas não entre nessa. Isso é bom para eles, pois passa confiança para os alunos. Nada contra, se eu fosse professor, talvez fizesse o mesmo.

Saber o número dos artigos e incisos da CF ou do CTN, em regra, não trará nenhum ponto extra e só fará com que você perca espaço no seu HD craniano. Há uma ou outra situação específica em que isso é necessário. E só. Acho que nunca vou esquecer o que trazem o artigo 150, III, b e 150, III, c da CF. Mas se não soubesse, não mudaria nada. O que importa é o conteúdo dele. E o segredo da boa memória dos professores tem explicação. Eles estudam apenas uma matéria e dão a mesma aula dezenas de vezes. Enquanto o estudante peão precisa matar umas vinte disciplinas no peito. Um dos meus professores falava o conteúdo e perguntava em que artigo estava aquele tema. E o bobão aqui passou a estudar se preocupando com isso. Por má orientação. E no meio do curso, já um pouco menos burro, reparei que ele falava de muitas legislações específicas que nem estavam no programa de auditor fiscal. Aí a ficha caiu e mudei o rumo do estudo.

Também tive meu momento de pouca humildade. Como já estava prevista autorização para a RFB logo no início dos meus estudos, eu devia ter estudado para Analista primeiro. Mas como tinha acabado de sair de um determinado patamar salarial, não queria retroceder e já quis começar logo como Auditor da Receita Federal, com apenas alguns meses de preparação. Durante o estudo para o edital e envolvido com o TCC da faculdade, vi que estava ainda muito longe do meu objetivo. Fui fazer a prova por formalidade. Se me preparasse para Analista, talvez tivesse muito mais chances. E nem mesmo me inscrevi para essa prova. E é um excelente cargo, por onde muitos dos futuros auditores fiscais federais começam.

Mas também tive muitos acertos, como responsabilidade e obstinação. Sabia das minhas limitações e tentava estudar mais tempo para poder saná-las. Sempre tive a consciência tranquila de que tinha dado o meu máximo e de que fiz o que estava ao meu alcance, sem corpo mole. Isso me ajudava muito depois das reprovações. Elas sempre são doloridas, mas imagino que sejam piores quando a pessoa sabe que poderia ter feito mais e não fez.  Eu via gente fazendo intervalos de duas horas, parando para atender telefone várias vezes, lendo fórum, tudo dentro da biblioteca. E a poucas semanas da prova. Aquilo nunca entrou na minha cabeça. Se eu estava ali, tinha que aproveitar ao máximo.

Ter aprendido que não adianta ficar toda hora trocando de material foi outro acerto. Material bom é aquele surrado, já descolorido e cheio de ácaros e bactérias de tanto que foi usado em ônibus, biblioteca, banheiros e afins. E se for trocar o material, que seja por um muito melhor, sem perder as anotações do anterior. Agora, dependendo da matéria, não dá pra ficar se agarrando a um material antigo e desatualizado. De que adianta um material de Direito Constitucional de 2006, excelente, mas faltando mais de vinte emendas constitucionais?

Heber Carvalho: Pela sua experiência e contato com outros concurseiros, diga-nos quais são os maiores erros que as pessoas cometem quando decidem se preparar para concursos?

Ronaldo Fonseca: Há erros muito comuns, como achar que estudar para concurso é o mesmo que estudo para escola ou vestibular. Não é. É pior, muito pior. Você precisa dominar mais de vinte matérias e responder tudo em um único final de semana, no máximo em dois. Haja memória.

Entrar em cursos só porque viu uma propaganda de que aquele é o melhor curso ou o que mais aprova também pode ser furada. De repente o curso já foi bom, mas os melhores professores não estão mais lá. É como ser vascaíno porque o Roberto Dinamite foi um grande jogador. Mas ele se aposentou há décadas, portanto, é muito mais inteligente ser flamenguista. Opa, voltando…todos os cursos online deixam que você assista ou leia parte do material, antes da compra. Avalie e perceba se te agrada. E se o professor for novo? Na aula inicial acho que você consegue ter uma boa noção do que esperar. Um dos melhores materiais de exercícios de Legislação de ICMS para SP foi feito por um trio de AFRs de 2009 (Guilherme, Paulo e Leandro) que nunca tinham lançado nenhum material antes. Todo grande professor teve sua época de anonimato. Como diria Sun Tzu, toda rã já foi girino! Mentira minha, Sun Tzu nunca falaria essa idiotice…rs

Ainda falando das aulas, de acordo com o material indicado pelo professor, dá pra se ter uma ideia da adequação dele aos concursos. Eu tive um que na primeira aula foi questionado sobre o melhor livro de Direito Administrativo. Foi ao quadro e indicou os dois maiores doutrinadores da área. Eram Sylvia di Pietro e José dos Santos Carvalho. Realmente muito bons. Mas não eram os mais indicados para a nossa realidade da área fiscal. Talvez até venham a ser, mas na época não eram. Tranquei o curso no dia seguinte, pois já havia lido dicas sobre bibliografia, mas vi vários colegas anotando e querendo comprar os livros.

Também vejo pessoas apostando todas as fichas num único material ou num único professor. Se esse falhar, atrasando aulas ou não cumprindo o combinado, é necessário saber para onde correr e o que fazer. Na época da prova da RFB 2012 eu via muita gente que ia fazer a prova discutindo com professores, com textos gigantes e entrando em atrito a semanas de uma prova importantíssima. Acho mais adequado partir pra outra e depois do concurso relatar sua experiência, positiva ou negativa. Também vejo pessoas que ao sair o edital querem procurar livros extensos de algumas matérias que nem são novidades. Não é hora pra isso. O ideal é usar o mesmo material, mas se houver problemas graves com o curso, não acho legal ficar esperando muito tempo. Troca logo. Sim, nem sempre o dinheiro é suficiente pra se trocar, às vezes a alma já está comprometida até as próximas dez reencarnações, mas se for possível, parcele. Minha prova foi em 2013, mas meu cartão de crédito ainda tinha parcelamentos até janeiro de 2014. Dessa vez paguei rindo, feliz da vida….hehehe.

Outra coisa chata, fuja da Ritalina. A não ser que um médico realmente te recomende. Do contrário, ela não deve mudar nada no seu resultado. Eu procurei o mundo dos concursos para ganhar qualidade de vida e não trabalhar até quarenta horas seguidas, como já aconteceu comigo. Portanto, acho que não faz sentido usar uma droga que mexe com meu sistema nervoso central e que, mais cedo ou mais tarde, pode cobrar o preço. Muitos não vão gostar disso que falei, mas é o que penso. Ritalina é remédio e remédio deve ser recomendado por um médico. E para quem precisa de verdade. Considero um acerto ter ficado longe dela.

Como disse, cometi muitos erros comuns a outras pessoas, mas acredito que meu maior erro foi na parte do controle emocional. Esse aí é que derruba a gente, sem que percebamos. No ICMS SP tracei uma sequência para realizar a prova. Comecei por Atualidades, por ter um bom conhecimento geral e estar confiante. Mas ela veio bem puxada e minhas orelhas começaram a queimar e ficar vermelhas (pela temperatura, imagino que estivessem ao melhor estilo tomate). E isso com uns cinco minutos de prova. A ansiedade me levou a pensar que se a matéria mais tranquila estava daquele jeito, o resto estaria pior. Aí, dessa vez veio a experiência das reprovações e de fazer e treinar provas. Parei tudo, fechei os olhos, respirei fundo algumas vezes e tentei me tranquilizar. Não adianta ficar nervoso. Voltei para o planejamento e fui seguindo a ordem e tempo que tinha determinado para fazer cada prova. Dali em diante, sem ir ao banheiro por quatro horas e sem olhar para os lados, fiz uma boa prova. Fiz a P2 mais calmo, mas na P3 a vontade de me sabotar voltou ainda mais forte e precisei me acalmar de novo. E perdi muitos pontos fáceis nessa prova, por puro nervosismo. Ou seja, quase perdi a aprovação por isso e não por falta de conhecimento.

Heber Carvalho: O que foi mais difícil nessa caminhada rumo à aprovação?

Ronaldo Fonseca: Estudar em casa e escondido da minha filha. Isso era bem difícil. Eu ficava a manhã inteira trancado em um dos quartos e escutava quando ela chorava, quando brincava, quando se machucava. E aí saía escondido para falar com ela, mas sem entregar o esconderijo. Fingia que tinha acabado de chegar. Era bem mais difícil para me concentrar, mas pior ainda era saber que tinha que mentir para minha pequena, que achava que eu tinha saído para trabalhar. Na hora do almoço eu saía e a levava na escola, e de novo precisava despistá-la. Quando eu saía com ela no final de semana, ia ao CCBB e mostrava a sala de estudos. Eu dizia que ali era o meu local de trabalho, o que não deixava de ser verdade. Ali era onde estudava em alguns feriados e finais de semana. Nos primeiros meses dela foi mais difícil conseguir estudar, mas eu tentava não parar, mesmo reduzindo o ritmo. A cada vez que eu lia uma matéria dizendo que o sono era fundamental pra memória, ficava ainda mais preocupado, pois até ela fazer um ano e meio, meu sono não era 100%, pois ela acordava se um guardanapo caísse no chão.  E isso porque tive a minha esposa que segurou toda a barra. Por essa razão, valorizo tanto a aprovação dela e de colegas como a Gabriela Lubies, também aprovada no ICMS SP e mãe de dois pequenos.  E como elas, há outros casos. Ser mãe e concurseira tende a ser mais difícil.

Outra coisa muito difícil é ser reprovado. Na escola você é reprovado quando não estuda nada ou quando só estuda perto das provas. Nos concursos, não. Você pode ter estudado todos os dias com afinco e ainda assim ser reprovado, pois a regra da escassez entra em ação. Há um limite de vagas. E seu grau de responsabilidade e compromisso são maiores do que na escola.

Além disso, as reprovações fazem parte da história da maioria dos aprovados. E bota maioria nisso. Mas elas doem. Se você estudou, se dedicou e se entregou e vê que nada disso deu o resultado esperado, a frustração é muito grande. Lembro que fiz o ICMS SP em 2009 alguns meses depois de começar a estudar. Fui para a prova pra pegar experiência e nem tinha estudado Legislação. Consegui até fazer os mínimos na P1, porém, quando você faz uma prova sem nenhum compromisso, a reprovação não dói nada e você ainda sai achando a prova fácil e que se tivesse estudando um pouco a mais, poderia até passar. Por isso que tanta gente sai das provas dizendo que foi fácil. Mas depois que você começa a ter que equilibrar aquele conhecimento todo ao mesmo tempo, sem poder esquecer as fórmulas, conceitos, pegadinhas e o absurdo volume de informações, é que você começa a perceber a verdadeira dificuldade de um grande concurso.

Heber Carvalho: Por fim, o que você aconselharia a alguém que está iniciando seus estudos para um concurso de alto nível. Deixe-nos sua mensagem para todos aqueles que um dia almejam chegar aonde você chegou!

Ronaldo Fonseca: Acho que pra responder essa pergunta, o melhor é começar pelo final. Quando vi meu nome no Diário Oficial de São Paulo, lá pelas duas horas da manhã, depois de esperar online com alguns amigos, acordei minha esposa e fiquei acordado direto até a noite do dia seguinte, ou seja, mais de 35 horas no ar, elétrico. Nem queria saber de descanso. Abri a janela na alta madrugada e soltei um PASSEI, seguido de uma ou outra palavra que não deve ser reproduzida aqui, por questões de decoro..hehehe

Acho legal procurar pessoas que estejam na mesma sintonia que você. Se não estiverem e não quiserem entrar, fuja delas. São pessoas agradáveis e você gosta delas? Ótimo, mas pegue seu contato e depois da aprovação vire seu melhor amigo. Ou deixe claro quais são seus objetivos. Você precisa de alguém que no dia em que estiver com preguiça de estudar, te chame para ir para a biblioteca ou que não te deixe desanimar. E isso tem que ser mútuo.

Tem gente de tudo que é tipo de formação passando para Auditor Fiscal. Portanto, as oportunidades são iguais para todos. Não tenha medo dos grupos e pessoas que dizem que só engenheiros e militares passam nos concursos de alto nível. Não é verdade. A primeira colocada do ISS SP de 2012 era, salvo engano, publicitária. E foi um concurso dificílimo. E eu sou formado em Marketing. A diferença é que estou muito, muito, mas muito longe da primeira colocação….rs.

Procure ouvir quem já estuda há mais tempo e aprenda com seus acertos e evite repetir seus erros. Seja crítico, não aceite tudo que tentam te vender, muito menos soluções milagrosas, livros que prometam mágicas ou a ativação de áreas inacessíveis do seu cérebro que guardam os segredos das aprovações…..tem muita furada por aí, acredite. No Mercado Livre vendem até uma caneta ungida para concursos. É verdade, claro que fazem o anúncio de brincadeira, mas tem coisa bem parecida por aí, mas que é vendida mesmo.

Quando estiver desanimado, imagine o dia da aprovação e o que poderá fazer depois dela. Leia nos fóruns os “gritos” dos aprovados, procure conversar com pessoas que vibram e que vivem um concurso. Fuja dos negativos, daqueles que só falam das fraudes, das cotas que vão entrar ou do curso que está com as janelas quebradas. Fuja dos extremamente otimistas também, pois sabem todas as frases motivacionais que existem, mas não estudam, acreditam que apenas o poder da “atração” vai resolver tudo. Sou a favor da motivação aliada ao estudo. Aí sim pode ajudar. E outra, não acredite nos pretensos gênios que vão às aulas, mas não estudam em casa. Todos os primeiros colocados e aprovados estudaram e muito.

Penso que também é importante se policiar para não entrar no esquema da “vitimização”. É aquele caso da pessoa que bota a culpa em tudo e em todos por não ter passado, mas esquece de olhar o que tem que melhorar em si, na sua própria preparação. Esse aprendizado eu trouxe do mundo corporativo e me fez muito bem. Por mais que haja insatisfação com erros da banca (que, em regra, erra por igual para todos), com algum material entregue com atraso num curso ou até mesmo quando o professor não cobre o edital inteiro nas aulas, não se pode perder de vista que o concurso e a luta pela vaga são nossos. Nós é que temos que nos garantir e ter certeza de que todos os pontos do edital foram cobertos. Por mais que estejamos pagando por isso, temos que acompanhar de perto, pois é a nossa chance de ouro que está em jogo. Depois do concurso já era. Talvez tenha que se esperar um bom tempo até ter outra boa oportunidade. Claro que quando pagamos, temos que receber o serviço, não é disso que falo, mas sim sobre a nossa responsabilidade em gerenciar nossa preparação. Sempre.

Gosto muito desse exemplo do Gustavo Borges, um dos maiores nadadores brasileiros, que ilustra bem o nosso período de concursando. Eu li esse texto algumas vezes. Ficava colado na minha mesa de estudos.

“Várias vezes eu acordei às 5 da manhã para treinar e me perguntava: É isso mesmo que eu quero? A última coisa que eu queria era pular numa piscina fria, às 5h30min da manhã. Mas nunca perdi um treino por falta de vontade. Podia estar cansado, ter dormido mal à noite, mas eu sempre ia treinar. É nesses dias que surgem os campeões. Enquanto outros resolvem ficar dormindo, você está lá buscando mais uma chance de melhorar.”

É isso Héber. Obrigado mais uma vez e desejo muita força a todos que estão ingressando nesse mundo. E para aqueles que já estão há um tempo estudando, batendo na trave ou ainda precisam mudar algumas coisas em suas preparações, sugiro que façam o que for necessário e deem o melhor se si.  Não parem no meio do caminho. Desviem a rota, se necessário, mas não parem.

Numa hora a bola entra. A música tema dos meus estudos era  “Eu quero ver Gol”, do Rappa. O refrão é assim: eu quero ver gol, eu quero ver gol, não precisa ser de placa, eu quero ver gol.

É isso aí, estufe a rede. De canela, barriga ou de bicicleta, treine muito e faça o seu golaço.  Afinal, aprovação é aprovação.

Fiquem com Deus.

Confira a entrevista do Ronaldo para o “Quarta das Carreiras”, realizada em junho de 2016, em que ele fala sobre o trabalho como Fiscal de Rendas de São Paulo! Aproveite para se inscrever em nosso canal do Youtube! ;)

https://youtu.be/1341xOMl0Ks

Resultados:

  • Concurso ISS-Criciúma 2017 - Fiscal de Rendas e Tributos Das 3 vagas ofertadas, 2 aprovados são nossos alunos
  • Concurso TST 2017 - TJAA Dos 100 primeiros aprovados, 57 são nossos alunos
  • Concurso TST 2017 - AJAJ Dos 100 primeiros aprovados, 47 são nossos alunos
  • Concurso TST 2017 - AJAA Dos 80 aprovados, 50 são nossos alunos
  • Concurso SEFIN-RO 2017 - Contador Das 2 vagas ofertadas, 1 aprovado é nosso aluno